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SUBSTRATO LEGAL DA NORMA DE COMBATE À IMPROBIDADE E SUA

No documento EDGAR PEREIRA DA ROCHA (páginas 15-25)

A fonte constitucional da improbidade está prevista no art. 14, §9º, CF/88 (improbidade no período eleitoral – caráter preventivo)

9

; no art. 15, inciso V, CF/88 (suspensão dos direitos políticos em caso de improbidade)

10

; no art. 85, V, CF/88

7 Direito Administrativo. P. 1.070.

8 Op., Cit., p. 1.112.

9 Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

§ 9º Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.

[...]

10 Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de:

[...]

V - improbidade administrativa, nos termos do art. 37, § 4º.

[...]

(improbidade na qualidade de crime de responsabilidade do Presidente da República)

11

; e, por fim, no art. 37, §4º, CF/88

12

(medidas e sanções de improbidade – Lei nº 8.429/92)

13

.

Destaque-se, por oportuno, que a Carta política de 1988 definiu as sanções e a natureza jurídica da improbidade administrativa, porém encarregou a lei ordinária a regulação do tema

14

.

Entende-se que o art. 37, §4º da CRF é norma de eficácia limitada

15

, estando hoje regulamentada pela Lei 8.429/1992

16

.

A Lei 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa) regulamenta as sanções aplicáveis ao agente público, servidor ou não, em razão de atos de improbidade praticados contra a Administração Pública.

17

11 Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:

[...]

V - a probidade na administração;

[...].

12 Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:

[...]

§ 4º Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.

[...]

13 José dos Santos Carvalho Filho, op. Cit. P. 1.112.

14 Nesse sentido: “O diploma regulador da improbidade administrativa é a Lei nº 8.429, de 2.6.1992 (LIA), cuja estrutura se compõe de cinco pontos principais: (1º) o sujeito passivo; (2º) o sujeito ativo; (3º) a tipologia da improbidade; (4º) as sanções; (5º) os procedimentos administrativo e judicial.”. José dos Santos Carvalho Filho, op. Cit., p. 1.113.

15 [...] embora a Constituição tenha sido promulgada em 5-10-88, já prevendo as sanções para os atos de improbidade, o artigo 37, § 4o, não era autoaplicável, não podendo a Lei no 8.429/92 ser aplicada com efeito retroativo. Até a entrada em vigor dessa lei, apenas eram puníveis os atos que implicassem

enriquecimento ilícito, sendo cabíveis, em sede

judicial, apenas o sequestro e a perda de bens (na esfera cível) e as sanções penais cabíveis (na esfera criminal)”. Maria Sylvia di Pietro. Op., Cit., p. 1.076.

16 É pacífico o entendimento do STJ no sentido de que a Lei nº 8.429/92 não pode ser aplicada retroativamente para alcançar fatos anteriores a sua vigência, ainda que ocorridos após a edição da Constituição Federal de 1988. Nesse sentido: SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Acórdão em REsp nº 1129121/GO. Relatoria do Ministro Castro Meira, 2ª Turma, julgado em 03/05/2012. Disponível em https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?livre=%28%22CASTRO+MEIRA%22%29.MIN.&pr ocesso=1129121&b=ACOR&thesaurus=JURIDICO&p=true. Acesso em 05 de outubro de 2019;

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Acórdão em REsp nº 1129121/GO. Relatoria da Ministra Eliana

Calmon, 2ª Turma, julgado em 03/05/2012. Disponível em

<https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?livre=%28%22ELIANA+CALMON%22%29.MIN.

&processo=1129121&b=ACOR&thesaurus=JURIDICO&p=true>. Acesso em 05 de outubro de 2019.;

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Acórdão em REsp 1327792/CE. Relatoria do Ministro César Asfor Rocha, 2ª Turma, julgado em 26/06/2012. Disponível em https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?livre=%28%22CESAR+ASFOR+ROCHA%22%29.

MIN.&processo=1327792&b=ACOR&thesaurus=JURIDICO&p=true. Acesso em 05 de outubro de 2019.

17 Marçal Justen Filho. Op., Cit., p. 1.386.

Ricardo Duarte Jr.

18

destaca que, “conforme a exposição dos motivos, a finalidade da Lei de Improbidade Administrativa é ser um instrumento de combate à corrupção e ao vilipêndio do patrimônio público”.

O conceito de improbidade é geralmente associado ao de moralidade. Todavia, para os fins de aplicação da lei, a ideia de improbidade é conceitualmente mais ampla, pois abrange não só atos imorais praticados com ofensa aos princípios da Administração Pública, como os atos ilegais em sentido estrito – aqueles praticados com ofensa às regras positivadas no ordenamento jurídico.

19

Nesta senda, assevera Maria Sylvia Zanella de Pietro

20

:

Quando se exige probidade ou moralidade administrativa, isso significa que não basta a legalidade formal, restrita, da atuação administrativa, com observância da lei; é preciso também a observância de princípios éticos, de lealdade, de boa-fé, de regras que assegurem a boa administração e a disciplina interna na Administração Pública.

José Guilherme Giacomuzzi aduz que “o dever de probidade é a função subjetiva e positiva do princípio jurídico da moralidade administrativa insculpido no art. 37 da Constituição Federal de 1988”.

21

Ademais, ato de improbidade pode referir-se não apenas a um ato administrativo, no sentido jurídico do termo, mas também a uma conduta ou mesmo a uma omissão.

22

No que diz respeito à natureza jurídica da improbidade administrativa, é sabido que não se trata de ilícito penal (art. 37, §4º, CF/88), mas, sim, de natureza jurídica de ilícito cível, dependendo de ação civil

23

.

18 Improbidade Administrativa: Aspectos Teóricos e Práticos, p. 81.

19 Nesse sentido, Odete Medauar. Direito Administrativo Moderno, p. 115; EMERSON GARCIA e ROGÉRIO PACHECO ALVES, Improbidade administrativa, cit., 2. ed., 2004, p. 120, APUD José dos Santos Carvalho Filho. Manual de Direito Administrativo, p. 1.112. “Comparando moralidade e probidade, pode-se afirmar que, como princípios, significam praticamente a mesma coisa, embora algumas leis façam referência às duas separadamente, do mesmo modo que há referência aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade como princípios diversos, quando este último é apenas um aspecto do primeiro”. Maria Sylvia di Pietro. Direito Administrativo, p. 1.072.

20 Direito Administrativo. P. 1.070.

21A moralidade administrativa e a boa-fé da administração pública – o conteúdo dogmático da moralidade administrativa, p. 177.

22 “Embora a lei fale em ato de improbidade, tem-se que entender que o vocábulo ato não é utilizado, nesses dispositivos, no sentido de ato administrativo (por nós definido no item 7.4 deste livro). O ato de improbidade pode corresponder a um ato administrativo, a uma omissão, a uma conduta”. Maria Sylvia Zanella di Pietro, op. Cit., p. 1.088.

23 Maria Sylvia di Pietro. Op., Cit., p. 1.097. Tal entendimento também pode ser encontrado em julgados do Superior Tribunal de Justiça (STJ): “É possível a abertura de inquérito civil pelo Ministério Público objetivando a apuração de ato ímprobo atribuído a magistrado mesmo que já exista concomitante procedimento disciplinar na Corregedoria do Tribunal acerca dos mesmos fatos, não havendo usurpação das atribuições da Corregedoria pelo órgão ministerial investigante. A mera solicitação para que o juiz preste depoimento pessoal nos autos de inquérito civil instaurado pelo Ministério Público para apuração de suposta conduta ímproba não viola o disposto no art. 33, IV, da LC nº 35/79 (LOMAN).” SUPERIOR

Merece transcrição, nesse sentido, a doutrina de Maria Sylvia di Pietro

24

, in verbis:

A primeira observação a fazer é no sentido de que um ato de improbidade administrativa pode corresponder a um ilícito penal, se puder ser enquadrado em crime definido no Código Penal ou em sua legislação complementar. É o que decorre da própria redação do dispositivo constitucional, quando, depois de indicar as medidas sancionatórias cabíveis, acrescenta que a lei estabelecerá sua forma e gradação “sem prejuízo da ação penal cabível”. Por outras palavras, pode ocorrer que algum dos ilícitos definidos em lei como ato de improbidade corresponda a um crime definido em lei, por exemplo, a um dos crimes contra a Administração Pública previstos no capítulo pertinente do Código Penal ou a um dos crimes de responsabilidade definidos na legislação específica sobre a matéria, já referida no item anterior.

Isso permite concluir que: (a) o ato de improbidade, em si, não constitui crime, mas pode corresponder também a um crime definido em lei: (b) as sanções indicadas no artigo 37, § 4o, da Constituição não têm a natureza de sanções penais, porque, se tivessem, não se justificaria a ressalva contida na parte final do dispositivo, quando admite a aplicação das medidas sancionatórias nele indicadas “sem prejuízo da ação penal cabível”; (c) se o ato de improbidade corresponder também a um crime, a apuração da improbidade pela ação cabível será concomitante com o processo criminal.

Além disso, o ato de improbidade administrativa, quando praticado por servidor público, corresponde também a um ilícito administrativo já previsto na legislação estatutária de cada ente da federação, o que obriga a autoridade administrativa competente a instaurar o procedimento adequado para apuração de responsabilidade. No entanto, as penalidades cabíveis na esfera administrativa são apenas as previstas nos Estatutos dos Servidores. Não pode especificamente ser aplicada a pena de suspensão dos direitos políticos, por atingir direito fundamental, de natureza política, que escapa à competência puramente administrativa. Não se pode enquadrar a improbidade administrativa como ilícito puramente administrativo, ainda que possa ter também essa natureza, quando praticado por servidor público.

A natureza das medidas previstas no dispositivo constitucional está a indicar que a improbidade administrativa, embora possa ter consequências na esfera criminal, com a concomitante instauração de processo criminal (se for o caso) e na esfera administrativa (com a perda da função pública e a instauração de processo administrativo concomitante) caracteriza um ilícito de natureza civil e política, porque pode implicar a suspensão dos direitos políticos, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento dos danos causados ao erário. (Grifos originais).

Também há de se destacar que a improbidade não se confunde com as sanções administrativas. Essas infrações funcionais são tratadas em processos administrativos; já

TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 1ª Turma. RMS 37.151-SP, Relatoria do Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Sérgio Kukina, julgado em 7/3/2017. (Grifo nosso). Disponível em <

http://www.stj.jus.br/docs_internet/informativos/PDF/Inf0609.pdf>. Acesso em 19 de novembro de 2019.

24 Op., Cit. P. 1.077-1.078. Há quem discorde da natureza de ilícito civil da improbidade administrativa.

Nesse sentido, Rita tourinho, corroborando com o raciocínio jurídico de Fábio Medina Osório, se filiam à corrente que afirma prever a Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/1992) ilícitos e sanções de natureza administrativa, que fazem parte do direito administrativo sancionador. Discricionariedade administrativa – improbidade & controle principiológico, p. 158.

as sanções por improbidade administrativa estão sujeitas à reserva de jurisdição. Referido entendimento já está consubstanciado na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF):

“Ato de improbidade: a aplicação das penalidades previstas na Lei n. 8.429/92 não incumbe à Administração, eis que privativa do Poder Judiciário.

Verificada a prática de atos de improbidade no âmbito administrativo, caberia representação ao Ministério Público para ajuizamento da competente ação, não a aplicação da pena de demissão”25

As sanções para atos de improbidade administrativa estão previstas na própria Constituição Federal, sendo notadamente a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao Erário

26

.

No plano infraconstitucional, a Lei de Improbidade instituiu as sanções constitucionalmente arroladas e positivou adicionalmente outras consequências.

Maria Sylvia di Pietro

27

relaciona, didaticamente, as quatro modalidades de atos de improbidade administrativa:

a) os que importam enriquecimento ilícito (art. 9º);

b) os que causam prejuízo ao erário (art. 10);

c) os que decorrem de concessão ou aplicação indevida de benefício financeiro ou tributário (art. 10-A, acrescentado pela Lei Complementar nº 157/16);

d) os que atentam contra os princípios da Administração Pública (art. 11).

Nesse momento faz-se um recorte no tema a fim de delimitação do objeto de estudo do presente trabalho científico, haja vista que o problema da pesquisa envolve especificamente a análise jurídica que envolve a norma do art. 10, VIII da Lei 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa), que trata dos atos administrativos que causam prejuízo ao Erário, especificamente ante a “dispensa indevida de processo licitatório”.

A correlação das matérias sobre improbidade administrativa e licitações públicas é bastante próxima, porquanto “o dever de licitar está intimamente ligado ao dever de probidade”.

Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao Erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres de órgão ou entidade pública.

25 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Recurso em mandado de segurança nº 24699. Relatoria do Ministro Eros Grau, Primeira Turma, julgado em 30/11/2004. Disponível em

<http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=2180181>. Acesso em 05 de outubro de 2019.

26 Art. 37: [...] §4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível. (Grifo nosso).

27 Maria Sylvia Zanella di Pietro. Direito Administrativo. p. 1.088.

Há uma ressalva a ser feita para que o parágrafo anterior seja devidamente compreendido: dos três dispositivos que definem os atos de improbidade, somente o art.

10 da Lei de Improbidade fala em ação ou omissão, dolosa ou culposa, já que o dispositivo assim prevê expressamente. Nos artigos 9º e 11 exige-se a comprovação tão somente do dolo, conforme prevê expressamente a Lei.

Inobstante o presente capítulo referir-se especificamente à estrutura normativa do art. 10 da Lei 8.429/1992, se faz necessária, de antemão, uma breve explanação geral dos atos de improbidade previstos nesta Lei, o que se faz apresentando não apenas o art.

10, mas também os 9º e 11.

A lista de atos de improbidade apresentada nos incisos de cada dispositivo não é taxativa, mas meramente exemplificativa

28

. Com efeito, o mesmo ato pode, inclusive, ser enquadrado em mais de uma das hipóteses apresentadas. Nesse caso, aplicam-se as sanções previstas para a infração mais grave.

Merece atenção o fato de que as sanções utilizadas para punir atos que importam enriquecimento ilícito são mais rígidas que as aplicáveis aos atos que causam prejuízo ao erário, as quais, por sua vez, são mais rígidas que as aplicáveis aos atos que atentam contra os princípios da Administração Pública.

Desse modo, a Lei 8.429/1992 estabelece uma hierarquia entre os atos de improbidade, porquanto pune com mais rigor aqueles que considera mais graves.

Como a lei supra classificou os atos de improbidade em três categorias, explica Celso Antônio Bandeira de Mello

29

que

Dependendo de o comportamento enquadrar-se em uma ou outra delas, em ordem decrescente, o prazo de suspensão dos direitos políticos varia de um máximo definido entre oito a dez anos a um mínimo de três a cinco anos; as multas civis variam de um máximo de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial a um mínimo de até cem vezes a remuneração do agente; a proibição de contratar e receber benefícios varia de um máximo de dez anos a um mínimo de três anos.

Anote-se, ainda que, a teor da Lei 12.813, de 16.5.2013, art. 12, incorre também em improbidade administrativa, referida na Lei 8.429, o agente público do Poder Executivo federal que, no exercício de cargo ou emprego, ou depois dele, praticar atos que, a teor dos artigos 52 e 62 da referida Lei

28 José dos Santos Carvalho Filho, op., Cit., p. 1.123. No entender de Ricardo Duarte Jr., “Isso (rol de natureza exemplificativa) fica demonstrada através da palavra ‘notadamente’ ao final do caput dos arts.

9º, 10 e 11. No caput destes artigos há a prescrição sobre as condutas a serem observadas pelos agentes públicos e, ao final, a palavra ‘notadamente’ faz remissão à observância dos incisos, que atuam de forma apenas exemplificativa, de modo a auxiliar a interpretação, trabalhando como diretriz ao

intérprete/aplicador da norma”. Op., Cit, p. 83.

29 Curso de Direito Administrativo, op., Cit., p. 964.

12.813/2013, configurem situações por ela qualificadas como hipóteses de conflitos de interesse.

Nesse sentido, agora tratando em ordem decrescente, como se refere Celso Antônio Bandeira de Mello

30

, incorre em ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito aquele que auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida, direta ou indireta, em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade pública, conforme art. 9º e seus incisos, da Lei de Improbidade

31

.

O agente público que incorre no ato de improbidade que importe enriquecimento ilícito está sujeito às seguintes cominações previstas no art. 12 da Lei de Improbidade

32

,

30 Idem, ibidem.

31 Art. 9° Constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no art. 1° desta lei, e notadamente:

I - receber, para si ou para outrem, dinheiro, bem móvel ou imóvel, ou qualquer outra vantagem econômica, direta ou indireta, a título de comissão, percentagem, gratificação ou presente de quem tenha interesse, direto ou indireto, que possa ser atingido ou amparado por ação ou omissão decorrente das atribuições do agente público;

II - perceber vantagem econômica, direta ou indireta, para facilitar a aquisição, permuta ou locação de bem móvel ou imóvel, ou a contratação de serviços pelas entidades referidas no art. 1° por preço superior ao valor de mercado;

III - perceber vantagem econômica, direta ou indireta, para facilitar a alienação, permuta ou locação de bem público ou o fornecimento de serviço por ente estatal por preço inferior ao valor de mercado;

IV - utilizar, em obra ou serviço particular, veículos, máquinas, equipamentos ou material de qualquer natureza, de propriedade ou à disposição de qualquer das entidades mencionadas no art. 1° desta lei, bem como o trabalho de servidores públicos, empregados ou terceiros contratados por essas entidades;

V - receber vantagem econômica de qualquer natureza, direta ou indireta, para tolerar a exploração ou a prática de jogos de azar, de lenocínio, de narcotráfico, de contrabando, de usura ou de qualquer outra atividade ilícita, ou aceitar promessa de tal vantagem;

VI - receber vantagem econômica de qualquer natureza, direta ou indireta, para fazer declaração falsa sobre medição ou avaliação em obras públicas ou qualquer outro serviço, ou sobre quantidade, peso, medida, qualidade ou característica de mercadorias ou bens fornecidos a qualquer das entidades mencionadas no art. 1º desta lei;

VII - adquirir, para si ou para outrem, no exercício de mandato, cargo, emprego ou função pública, bens de qualquer natureza cujo valor seja desproporcional à evolução do patrimônio ou à renda do agente público;

VIII - aceitar emprego, comissão ou exercer atividade de consultoria ou assessoramento para pessoa física ou jurídica que tenha interesse suscetível de ser atingido ou amparado por ação ou omissão decorrente das atribuições do agente público, durante a atividade;

IX - perceber vantagem econômica para intermediar a liberação ou aplicação de verba pública de qualquer natureza;

X - receber vantagem econômica de qualquer natureza, direta ou indiretamente, para omitir ato de ofício, providência ou declaração a que esteja obrigado;

XI - incorporar, por qualquer forma, ao seu patrimônio bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1° desta lei;

XII - usar, em proveito próprio, bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1° desta lei.

32 Art. 12. Independentemente das sanções penais, civis e administrativas previstas na legislação específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes cominações, que podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, de acordo com a gravidade do fato:

I - na hipótese do art. 9°, perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ressarcimento integral do dano, quando houver, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de oito a dez anos, pagamento de multa civil de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de dez anos;

quais sejam: perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio;

ressarcimento integral do dano, quando houver; perda da função pública; suspensão dos direitos políticos de oito a dez anos; pagamento de multa civil de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial; proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de dez anos.

Destaque-se, por oportuno, que ainda que não haja danos ao Erário, é perfeitamente possível, segundo entendimento já manifestado no âmbito do Superior tribunal de Justiça, a condenação por ato de improbidade administrativa que importe enriquecimento ilícito (art. 9º da Lei nº 8.429/92), excluindo-se, todavia, a possibilidade de aplicação da pena de ressarcimento ao Erário. Nesse sentido:

DIREITO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE DE LESÃO AO

PATRIMÔNIO PÚBLICO EM ATO DEIMPROBIDADE

ADMINISTRATIVA QUE IMPORTA ENRIQUECIMENTO ILÍCITO.

Ainda que não haja dano ao erário, é possível a condenação por ato de improbidade administrativa que importe enriquecimento ilícito (art. 9º da Lei n. 8.429/1992), excluindo-se, contudo, a possibilidade de aplicação da pena de ressarcimento ao erário. Isso porque, comprovada a ilegalidade na conduta do agente, bem como a presença do dolo indispensável à configuração do ato de improbidade administrativa, a ausência de dano ao patrimônio público exclui tão-somente a possibilidade de condenação na pena de ressarcimento ao erário. As demais penalidades são, em tese, compatíveis com os atos de improbidade tipificados no art. 9º da LIA. (Grifo nosso). 33

Na sequência, incorre em ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, do agente, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres de órgão ou entidade pública, conforme art. 10 e seus incisos, da Lei de Improbidade

34

.

[...]

Parágrafo único. Na fixação das penas previstas nesta lei o juiz levará em conta a extensão do dano causado, assim como o proveito patrimonial obtido pelo agente.

33 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Acórdão em REsp 1.412.214-PR, Rel. Min.Napoleão Nunes Maia Filho. Relatoria do Min.Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Benedito Gonçalves,

julgado em 8/3/2016, DJe28/3/2016. Disponível em <

https://scon.stj.jus.br/SCON/SearchBRS?b=INFJ&tipo=informativo&livre=@COD=%270580%27>.

Acesso em 19 de novembro de 2019.

34 Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º desta lei, e notadamente:

I - facilitar ou concorrer por qualquer forma para a incorporação ao patrimônio particular, de pessoa física ou jurídica, de bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei;

II - permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;

A Lei Complementar 157/2016 alterou a Lei nº 8.429/92 e criou uma quarta espécie de ato de improbidade administrativa:

Seção II-A: Dos Atos de Improbidade Administrativa Decorrentes de Concessão ou Aplicação Indevida de Benefício Financeiro ou Tributário

Art. 10-A. Constitui ato de improbidade administrativa qualquer ação ou omissão para conceder, aplicar ou manter benefício financeiro ou tributário contrário ao que dispõem o caput e o § 1º do art. 8º-A da Lei Complementar nº 116, de 31 de julho de 2003.

III - doar à pessoa física ou jurídica bem como ao ente despersonalizado, ainda que de fins educativos ou assistências, bens, rendas, verbas ou valores do patrimônio de qualquer das entidades mencionadas no art.

1º desta lei, sem observância das formalidades legais e regulamentares aplicáveis à espécie;

IV - permitir ou facilitar a alienação, permuta ou locação de bem integrante do patrimônio de qualquer das entidades referidas no art. 1º desta lei, ou ainda a prestação de serviço por parte delas, por preço inferior ao de mercado;

V - permitir ou facilitar a aquisição, permuta ou locação de bem ou serviço por preço superior ao de mercado;

VI - realizar operação financeira sem observância das normas legais e regulamentares ou aceitar garantia insuficiente ou inidônea;

VII - conceder benefício administrativo ou fiscal sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;

VIII - frustrar a licitude de processo licitatório ou de processo seletivo para celebração de parcerias com entidades sem fins lucrativos, ou dispensá-los indevidamente;

IX - ordenar ou permitir a realização de despesas não autorizadas em lei ou regulamento;

X - agir negligentemente na arrecadação de tributo ou renda, bem como no que diz respeito à conservação do patrimônio público;

XI - liberar verba pública sem a estrita observância das normas pertinentes ou influir de qualquer forma para a sua aplicação irregular;

XII - permitir, facilitar ou concorrer para que terceiro se enriqueça ilicitamente;

XIII - permitir que se utilize, em obra ou serviço particular, veículos, máquinas, equipamentos ou material de qualquer natureza, de propriedade ou à disposição de qualquer das entidades mencionadas no art. 1°

desta lei, bem como o trabalho de servidor público, empregados ou terceiros contratados por essas entidades.

XIV – celebrar contrato ou outro instrumento que tenha por objeto a prestação de serviços públicos por meio da gestão associada sem observar as formalidades previstas na lei.

XV – celebrar contrato de rateio de consórcio público sem suficiente e prévia dotação orçamentária, ou sem observar as formalidades previstas na lei.

XVI - facilitar ou concorrer, por qualquer forma, para a incorporação, ao patrimônio particular de pessoa física ou jurídica, de bens, rendas, verbas ou valores públicos transferidos pela administração pública a entidades privadas mediante celebração de parcerias, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;

XVII - permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores públicos transferidos pela administração pública a entidade privada mediante celebração de parcerias, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;

XVIII - celebrar parcerias da administração pública com entidades privadas sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;

XIX - agir negligentemente na celebração, fiscalização e análise das prestações de contas de parcerias firmadas pela administração pública com entidades privadas;

XX - liberar recursos de parcerias firmadas pela administração pública com entidades privadas sem a estrita observância das normas pertinentes ou influir de qualquer forma para a sua aplicação irregular.

XXI - liberar recursos de parcerias firmadas pela administração pública com entidades privadas sem a estrita observância das normas pertinentes ou influir de qualquer forma para a sua aplicação irregular.

No documento EDGAR PEREIRA DA ROCHA (páginas 15-25)

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