• Nenhum resultado encontrado

3 A LEI DE AÇÃO CIVIL PÚBLICA E OS LIMITES DE ATUAÇÃO DA

4.3. Aspectos gerais da Lei de Improbidade Administrativa

4.3.1 Elementos constituintes do ato de improbidade administrativa

4.3.1.2 Sujeitos ativos

Desse lado estão aqueles que atentem contra a Administração Pública, mas passíveis de sofrerem sanções pelos atos reprováveis na condução da gestão pública ou relação com a mesma, quer dizer, o agente público e o terceiro, arts. 2º e 3º, da LIA, respectivamente.

O agente público é aquele que encarna o perfil contido no art. 2º:

[...] exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função nas entidades mencionadas no artigo anterior.

A aquilatação da lei tem uma conceituação ampla, abarca tanto o aspecto funcional e patrimonial, de tamanha envergadura que significa gênero de atividade funcional no setor público, dando origem a outros segmentos:

A lei Federal n.º 8.429/92 dedicou científica atenção na atribuição da sujeição do dever de probidade administrativa ao agente público, que se reflete internamente na relação estabelecida entre ele e a Administração Pública, superando a noção de servidor público, com uma visão mais dilatada do que o conceito do funcionário público contido no Código Penal (art. 327) 226 .

Se a lei em comento tem amplo emprego para aqueles que prestam atividades estatais, como ficariam os agentes políticos, dada as nuances constitucionais em torno de imunidades e foro por prerrogativa de função? A questão tem pertinência, considerando-se como pessoas instituídas da manifestação originária do Estado:

226 ANDRADE, Adriano. et. al. Interesses difusos e coletivos esquematizado. 7. ed. Método: São Paulo, 2017, p. 707.

Agentes políticos são os titulares dos cargos estruturais à organização política do país, ou seja, ocupantes dos que integram o arcabouço constitucional do Estado, o esquema fundamental do Poder. Daí que se constituem nos formadores da vontade superior do Estado. São agentes políticos apenas o Presidente da República, os Governadores, Prefeitos e respectivos vices, os auxiliares imediatos dos Chefes de Executivo, isto é, Ministros e Secretários das diversas pastas, bem como os Senadores, Deputados federais e estaduais e os Vereadores227. (grifo do autor)

Não existe um ponto pacífico à questão, porque a doutrina e os tribunais divergem. Andrade et al.228 oferta ambas as diretrizes, entendimentos concernentes

a não incidência da LIA e seu oposto.

Num primeiro plano, advoga contra a incidência da LIA aos agentes políticos porque os atos são disciplinados como crimes de responsabilidade política, absorvidos na Lei Federal n.º 1.079, de 10 de abril de 1950, que define os crimes de responsabilidade e respectivo julgamento, adotada pelo Pretório Excelso na Reclamação n.º 2.183/DF:

RECLAMAÇÃO. USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. CRIME DE RESPONSABILIDADE. AGENTES POLÍTICOS. I. PRELIMINARES. QUESTÕES DE ORDEM. [...] II. MÉRITO. II.1. Improbidade administrativa. Crimes de responsabilidade. Os atos de improbidade administrativa são tipificados como crime de responsabilidade na Lei nº 1.079/1950, delito de caráter político-administrativo. II.2. Distinção entre os regimes de responsabilização político-administrativa. O sistema constitucional brasileiro distingue o regime de responsabilidade dos agentes políticos dos demais agentes públicos. A Constituição não admite a concorrência entre dois regimes de responsabilidade político-administrativa para os agentes políticos: o previsto no art. 37, § 4º (regulado pela Lei nº 8.429/1992) e o regime fixado no art. 102, I, c, (disciplinado pela Lei nº 1.079/1950). Se a competência para processar e julgar a ação de improbidade (CF, art. 37, § 4º) pudesse abranger também atos praticados pelos agentes políticos, submetidos a regime de responsabilidade especial, ter-se-ia uma interpretação ab-rogante do disposto no art. 102, I, c, da Constituição. II. 3. Regime especial. Ministros de Estado. Os Ministros de Estado, por estarem regidos por normas especiais de responsabilidade (CF, art. 102, I, c; Lei nº 1.079/1950), não se submetem ao modelo de competência previsto no regime comum da Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/1992). II. 4. Crimes de responsabilidade. Competência do Supremo Tribunal Federal. Compete exclusivamente ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar os delitos político-administrativos, na hipótese do art. 102, I, c, da Constituição. Somente o STF pode processar e julgar Ministro de Estado no caso de crime de responsabilidade e, assim, eventualmente, determinar a perda do

227 MELO, André Luís Alves de. Assistência jurídica nos países de língua espanhola e a diferença entre os termos “defensa publica” e “defensoria del pueblo”. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518- 4862, Teresina, ano 17, n. 3114, 10 jan. 2012. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/20828>. Acesso em: 2 dez. 2018, p. 252.

228 ANDRADE, Adriano. et. al. Interesses difusos e coletivos esquematizado. 7. ed. Método: São Paulo, 2017, p. 708/710.

cargo ou a suspensão de direitos políticos. II. 5. Ação de improbidade administrativa. Ministro de Estado que teve decretada a suspensão de seus direitos políticos pelo prazo de 8 anos e a perda da função pública por sentença do Juízo da 14ª Vara da Justiça Federal - Seção Judiciária do Distrito Federal. Incompetência dos juízos de primeira instância para processar e julgar ação civil de improbidade administrativa ajuizada contra agente político que possui prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal, por crime de responsabilidade, conforme o art. 102, I, c, da Constituição. III. RECLAMAÇÃO JULGADA PROCEDENTE. (STF - Rcl: 2138 DF, Relator: NELSON JOBIM, Data de Julgamento: 13/06/2007, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJe-070 DIVULG 17-04-2008 PUBLIC 18-04-2008 EMENT VOL-02315-01 PP-00094)229.

À questão, adiciona-se que não compreendida a exceção, os agentes políticos não teriam liberdade suficiente para empreender políticas decisórias, pois a cada ato seriam ameaçados com constantes ações judiciais.

De outro prisma, há vozes que congregam pela sua aplicação. Dentro da retórica, soam argumentos de que terceiro estranho à estrutura da Administração pode ser recriminado, não teria sentido eximir aqueles que estão dotados pela própria personalidade pública. Ademais, consignar pelo afastamento da lei aos agentes políticos é afrontar o princípio da isonomia, contido no caput, do art. 5º, da Constituição. Soma-se ao quadro favorável, a leitura gramatical do art. 2º da LIA, que atribui sua aplicação ao agente público investido na gestão pública por “eleição” para o exercício de “mandato”. Quadro adotado pelo Superior Tribunal de Justiça,230231 à exceção para o cargo de Presidente da República:

ADMINISTRATIVO. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. PREFEITO MUNICIPAL. DUPLO REGIME SANCIONATÓRIO DOS AGENTES POLÍTICOS: LEGITIMIDADE. PRECEDENTES. 1. A jurisprudência assentada no STJ, inclusive por sua Corte Especial, é no sentido de que, "excetuada a hipótese de atos de improbidade praticados pelo Presidente da República (art. 85, V), cujo julgamento se dá em regime especial pelo Senado Federal (art. 86), não há norma constitucional alguma que imunize os agentes políticos, sujeitos a crime de responsabilidade, de qualquer das sanções por ato de improbidade previstas no art. 37, § 4º. Seria incompatível com a Constituição eventual preceito normativo

229 BRASIL.Supremo Tribunal Federal. STF - Rcl: 2138 DF, Relator: NELSON JOBIM, Data de Julgamento: 13/06/2007, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJe-070 DIVULG 17-04-2008 PUBLIC 18-04-2008 EMENT VOL-02315-01 PP-00094.

230. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. AgRg no REsp: 1099900 MG 2008/0232584-1, Relator: Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, Data de Julgamento: 16/11/2010, T1 - PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 24/11/2010.

231 No entanto, Deputados Federais e Senadores também gozam de certa limitação na aplicação da LIA, quanto à punição, pois se perpetrarem qualquer das condutas descritas nos arts. 9º, 10, e 11, da lei em comento, inevitavelmente enfrentaram a ação pertinente, todavia, a punição de perda da função pública não se aplica, devido à competência exclusiva da Mesa da respectiva casa do parlamentar, nos termos do § 2º, art. 55, da CRFB, devido a eventual condenação com a consequente perda dos direitos políticos.

infraconstitucional que impusesse imunidade dessa natureza" (Rcl 2.790/SC, DJe de 04/03/2010). 2. Agravo regimental improvido. (STJ - AgRg no REsp: 1099900 MG 2008/0232584-1, Relator: Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, Data de Julgamento: 16/11/2010, T1 - PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 24/11/2010.

Tese já encampada em outros tribunais, como o Tribunal de Justiça de São Paulo:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA – 1) Alegação de não submissão à Lei 8.429/1992 – Descabimento – Prefeito que, nos termos do art. 2º da LIA, é agente público para seus efeitos – Decreto-lei 201/1967 que diz respeito às ações de natureza penal, o que não afasta a responsabilidade civil nos termos da Lei 8.429/1992 [...] – Inteligência do art. 17, § 8º, da Lei 8.429/92 – Petição inicial que satisfaz os requisitos do art. 319 do CPC – Recurso não provido AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA – Indisponibilidade de bens – Possibilidade – Indícios de prática de atos de improbidade, a permitir a medida constritiva – Necessidade de se acautelar o futuro ressarcimento ao erário – Recurso não provido232.

Quanto ao terceiro, a LIA estabeleceu, no art. 3º, que são aplicáveis, no que couber, àquele que, mesmo não sendo agente público, induza ou concorra para a prática do ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta. Porquanto, aquela pessoa (física ou jurídica) estranha ao quadro do Estado, porém em conluio com agente público ou, ainda, sem a convergência de vontades pré-ajustadas, mas que se beneficie direta ou indiretamente, também sofrerá as penalidades da lei.

Anote-se que a observância da LIA ao particular (terceiro) só ocorre de maneira solidária ao agente público, ou melhor, não é possível a responsabilização por ato de improbidade administrativa exclusivamente por terceiro, deve necessariamente o ato ímprobo ter nascedouro em alguma conduta do agente público. Por lógico, sempre que terceiro estranho ao Estado figurar no polo passivo da ação, necessariamente contará com a presença de algum agente público. Ao contrário, ainda que o ato de terceiro enseje prejuízo à Administração Pública, contudo o servidor não tenha concorrido para tal, a consequência jurídica virá por outra via legal.

232 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, on line. TJSP; Agravo de Instrumento 2165656-48.2018.8.26.0000; Relator (a): Reinaldo Miluzzi; Órgão Julgador: 6ª Câmara de Direito

Público; Foro de Cafelândia - Vara Única; Data do Julgamento: 19/10/2018; Data de Registro: 19/10/2018.