2 SAEB 015
5.1 O contexto da pesquisa colaborativa
5.1.1 Sujeitos envolvidos e alguns esclarecimentos
A primeira parte da pesquisa – entrevista inicial – como já apresentada no capítulo anterior – foi aplicada a quinze docentes que lecionam Língua Portuguesa no Ensino Fundamental há pelo menos três anos na rede estadual de Pernambuco (cumprimento do estágio probatório). A segunda parte da pesquisa – aplicação de atividade de leitura com conto – também apresentada e discutida no capítulo anterior – foi destinada a cinco docentes (A, B, C, D e E), em recorte do primeiro grupo, que lecionam Língua Portuguesa nos nonos anos do Ensino Fundamental e que já realizam o trabalho de formação do leitor crítico em suas práticas metodológicas. A última etapa da pesquisa – aplicação da sequência didática com narrativa longa – foi realizada com dois docentes, em mais um recorte da segunda parte, doravante A1 e B2. O critério de escolha se deu com base no índice de proficiência leitora de suas escolas estarem igual ou abaixo da proficiência leitora do estado de Pernambuco (Saepe) em 2017: 242 pontos.
Para efeitos de análise, os docentes-colaboradores passaram a ser identificados como A1 e B2 em que a letra seja o docente e o número seja a escola em que atua. O conjunto A1 representa uma escola com aproximadamente 600 alunos matriculados em dois turnos, manhã e tarde, com oito salas de aula não climatizadas, biblioteca, laboratório de informática, pátio
descoberto, refeitório. O rendimento no SAEPE de 2017 desta escola foi de 240.7, conforme gráfico abaixo:
ESCOLA 1
Infográfico 6 – Conjunto A1
Fonte: PERNAMBUCO. Secretaria de Educação de Pernambuco, Revista do Professor – Língua Portuguesa 2017.
De acordo com o infográfico a escola 1, em que atua a docente “A”, ficou abaixo do SAEPE estadual de 2017, que foi de 242 pontos, o que não representa uma queda muito expressiva. É, antes, preocupante. Ainda mais porque desde 2015 o índice desejável de proficiência leitora está em contínua queda: de 37,5 para 29% de rendimento. Essa é uma queda que merece bastante atenção, porque mesmo entendendo que o trabalho feito a cada ano pode variar, conforme o “material humano” com que se trabalha, a qualidade da formação não pode decair. Em face disso, conversamos com a docente colaboradora “A” sobre a aplicação da SD e a docente afirmou que a proposta é exequível e viável para ser vivenciada.
A docente colaboradora “A” então, respondeu à entrevista antes da intervenção – que trataremos mais à frente – e aplicou a SD de 13/08 a 27/09/2018, conseguindo realizar todas as etapas propostas. Ao final das atividades, a docente também respondeu à entrevista pós- intervenção, fazendo análise sobre a eficiência da aplicação da SD. Na sessão 4.3 deste capítulo, apresentaremos os resultados coletados de ambas docentes colaboradoras e discutiremos criticamente sobre a (in)eficiência da ressignificação de proposta metodológicas que esta pesquisa propôs.
ESCOLA 2
O conjunto B2 representa uma escola com aproximadamente 540 alunos matriculados em dois turnos, manhã e tarde. A escola funciona com educação de Jovens e Adultos no turno da noite. A escola tem nove salas de aula, laboratório de informática, pátio e quadra cobertos e biblioteca. O rendimento Saepe 2017 também ficou abaixo da média estadual, conforme gráfico 2: 232,8 pontos. Outro fator que nos motivou a pesquisar o contexto de formação leitora na escola 2 é a expressiva queda do índice “desejável” – de 30,9 para 19,6. Esse índice sofreu oscilações significativas entre 2015 e 2017, variando de 16,5 a 19,6, atingindo seu maior percentual em 2016, com quase 31% de alcance.
Infográfico 7 – Cinjunto B2
Fonte: PERNAMBUCO. Secretaria de Educação de Pernambuco. Revista do Professor – Língua Portuguesa 2017.
Como é possível notar nesse infográfico, a escola 2 apresentou um desempenho de dez pontos abaixo do desempenho estadual, o que chama bastante atenção e convida à reflexão sobre todos os fatores endógenos e exógenos à escola que possibilitam esse índice abaixo da média estadual em 2017. Outro fator bem relevante é quanto ao desempenho desejável alcançado em 2016 – 30,9% – e sua visível queda em 2017: 19,6%. Como não nos cabe julgar ou mesmo investigar esses fatores, apenas oferecemos a possibilidade de ressignificar as práticas metodológicas com vistas à formação inicial do leitor crítico, o que foi aceito pela docente colaboradora “B”.
Nessa perspectiva, acreditamos que propor a reflexão sobre os resultados obtidos no SAEPE e sendo parte integrante da nota SAEB (ambos 2017), não na ótica de culpabilização sobre os números, mas antes, sobre quais caminhos metodológicos, poderiam ajudar a construir melhores resultados, compartilhamos o método da sequência didática (SD). Certamente não se trata de “invenção da roda”, posto que todo professor aprenda a elaborar
SD ainda na graduação. Todavia, nossa proposta se dá a partir das reflexões de Desgagné (2007) sobre a aproximação da teoria da pesquisa com a prática docente, uma vez que
[...] A ideia de colaboração entre pesquisadores e docentes práticos para a construção de conhecimentos ligados ao ensino, provém da constatação do
distanciamento existente entre o mundo do exercício profissional e o da pesquisa que pretende esclarecê-lo. Há mais de uma década, esse
distanciamento é, para muitos, comparado a um abismo entre a universidade e o meio escolar, entre a teoria e a prática, constatando-se que os
conhecimentos construídos a esse respeito, de responsabilidade das
universidades e respectivas faculdades de educação, não pareciam incidir
nas ações docentes, ajudando os professores a melhor enfrentar a
complexidade das situações educativas com as quais se confrontavam cotidianamente. (Grifo nosso, DESGAGNÉ, 2007, p.8)
Com tantas responsabilidades que são atribuídas no exercício da função, entendemos que para os docentes as práticas acabem se distanciando da teoria, tendo em vista cada escola, cada sala de aula demandar uma dinâmica diferente para a formação leitora. Todavia, refletimos que não só através de formações continuadas, mas, principalmente, de incentivo à construção de planos de aula fundamentados teoricamente possam nortear mais eficientemente as práticas metodológicas dos docentes de Língua Portuguesa.
A interação à qual nossa pesquisa se propôs visou fortemente ser um projeto colaborativo com uma visão ampliada de resultados e métodos utilizados para alcançar esses resultados. Para Desgagné (2007, p.9), “o papel do pesquisador, no referido projeto colaborativo, se articula essencialmente em função de balizar e orientar a compreensão construída durante a investigação. ” Dessa forma, ao compartilhar resultados e propor uma forma diferente de proceder à formação leitora, pensamos não só agregar detalhes à nossa pesquisa, bem como contribuir com reflexões sobre ressignificar práticas que pudessem enriquecer as que já estivessem em desenvolvimento.