CENÁRIO NACIONAL 57 3.1 Determinantes histórico-estruturais
4 AVALIAÇÃO POLÍTICA DO PROGRAMA MARANHÃO PROFISSIONAL:
4.4 Sujeitos e interesses institucionais envolvidos no contexto do Programa
Na análise dos créditos pela elaboração do documento é possível perceber alguns indícios relacionados à composição de interesses envolvidos na construção do Programa, a partir dos atores e instituições envolvidos (e também pelos que deveriam, mas não estavam envolvidos). A autoria do documento é creditada a cinco instituições, sendo a primeira delas (não respeitando a ordem alfabética), a SEDINC, à época comandada por José Mauricio de Macedo Santos, ex-funcionário de carreira do Consórcio Produtor de Alumínio do Estado (ALUMAR)46. A SEDINC funcionava como porta de entrada dos grandes empreendimentos
no Estado, tendo também como função a atração de investimentos. Vemos que o protagonismo da SEDINC, cujo titular indicara o Coordenador Estadual do Programa, Fernando Lima, indica o forte comprometimento do Programa Maranhão Profissional em atender às demandas por trabalhadores qualificados das grandes empresas que se instalavam no Maranhão.
Participaram da elaboração do documento também as Secretarias de Estado da Educação (SEDUC), comandada na época por João Bernardo Bringel e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Ensino Superior e Desenvolvimento Tecnológico (SECTI), comandada por Olga Simão. O Coordenador Estadual do Programa Maranhão Profissional, Professor Fernando Lima, pertence aos quadros do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) e assumia a função como Secretário Adjunto de Formação Profissional da SECTI. Vemos, portanto, que o Programa se abrigara na área de Ciência e Tecnologia, tendo a indicação de seu dirigente máximo sido realizada por um Secretário de Indústria e Comércio, ficando clara a diferença de sua concepção em relação ao PEQ, analisado anteriormente, que implantou no Maranhão as diretrizes do PLANFOR e era
46 A ALUMAR é um consórcio formado pela Associação da Alcoa do Brasil S/A com a Billiton Metais S/A, para beneficiamento de bauxita e produção de alumínio.
abrigado na GDS, o órgão que corresponde hoje à SEDES, o órgão do Governo do Maranhão responsável pelas ações de assistência social.
Por fim, além das três Secretarias de Estado mencionadas, figuravam entre os elaboradores do documento, o IFMA, representado por seu Reitor, José Ferreira Costa (que viria a se tornar o Secretário de Ciência e Tecnologia a partir de abril de 2013) e a FIEMA, representada por seu Presidente, Edilson Baldez. É importante chamar a atenção para o fato de que entre os formuladores do programa, e com forte protagonismo, encontravam-se instituições que exerceriam um papel predominante como ofertantes das qualificações e, portanto, recebedoras de fundos públicos federais destinados aos programas de qualificação. Da mesma forma situava-se o IFMA, na qualidade de instituição formuladora do programa e com quadros pertencentes à mesma assumindo tanto a Coordenação Estadual do Programa Maranhão Profissional como a titularidade da Secretaria de Estado no qual o mesmo estava abrigado.
No arranjo institucional do Programa Maranhão Profissional percebe-se, portanto, o duplo papel exercido pelo IFMA e pela FIEMA, esta, na qualidade de instituição que abriga o SENAI e o SESI, sendo que na qualidade de executores de convênios do PRONATEC, o IFMA e o SENAI (além do SENAC) estariam entre os maiores ofertantes de qualificações. De saída percebe-se, portanto, um potencial conflito de interesses das instituições que exerciam simultaneamente o papel de formuladoras e de executoras das ações de qualificação profissional. Configura-se também o que Cavalcanti (2004, p. 165), analisando a experiência do PLANFOR, chamou de “[...] privatização das ações de qualificação profissional”, “[...] mascarada pela contratação de entidades privadas para aplicar os cursos.”
Cumpre acrescentar que foram classificadas como colaboradoras no processo de elaboração do Documento (e nesta ordem), as Secretarias de Gestão e Previdência (SEGEP), comandada à época por Fábio Gondim Pereira da Costa, e a Secretaria de Estado do Trabalho e Economia Solidária (SETRES), sob a gestão de José Antônio Barros Heluy, a bem da verdade, ambas as Secretarias com uma participação muito reduzida, apenas homologatória, se tanto, nos eventos do lançamento do Programa. No caso específico da SETRES, detentora de um exíguo orçamento e com muito reduzida capacidade de articulação política, estava sob a gestão da mesma a interface do Governo do Estado com o SINE, o qual deveria (ao menos no desenho) ter um papel de destaque na execução do Programa.
A composição da equipe de elaboração do Programa Maranhão Profissional também era reveladora do jogo de forças e de interesses que orientavam a construção institucional do Programa: pelo Governo do Estado faziam se representar as Secretarias
Estaduais de Ciência e Tecnologia, da Educação e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (e sem a participação da SETRES, ainda que a mesma aparecesse na capa do Documento de Referência do PMP como co-autora – mas não nos créditos internos ao livro, pela participação no desenvolvimento do Programa). As demais entidades que participaram da construção do programa eram de interesse profissional, já mencionadas (além do SENAI, o SENAC), ou empresas privadas de grande porte já em operação no Estado (ALUMAR e VALE), além de organização não governamental de cunho empresarial (Instituto de Cidadania Empresarial – ICE) e uma empresa privada especializada em ensino corporativo à distância, a Unyca/CDP - Centro de Desenvolvimento Profissional47.
O Programa Maranhão Profissional foi lançado em 11 de maio de 2011. Já o PRONATEC seria lançado em 29 de setembro do mesmo ano, de modo que não poderia constar no Documento de Referência do PMP formas de articulação ao que se tornaria a principal modalidade de articulação institucional de suas ações, seja no que tange à oferta dos cursos de FIC, estes principalmente através das instituições do Sistema S – SENAI/SESI e SENAC, seja no que tange à oferta dos cursos técnicos de 2º grau, através do IFMA. O próprio PRONATEC, no entanto, opera dentro da institucionalidade do Programa Nacional de Qualificação - PNQ, que simplesmente é ignorado no documento. Simplesmente não há qualquer menção ao nome PNQ no Documento de Referência. Assim, por exemplo, não há qualquer menção a respeito das modalidades preferenciais do PNQ a serem mobilizadas – PlanTeQ, PlanSeQ ou ProeSeQ, ou às estruturas de governança previstas no PNQ, que tinha nos Conselhos Estadual e Municipais de Trabalho e Renda, locus de originação de demandas, de formulação de projetos, de fiscalização e de divulgação das ações.
Outra lacuna que impressiona no documento é a falta de qualquer menção ao tema da intermediação com o mercado de trabalho, um tema que é estratégico em programas de qualificação profissional, no qual a relação com o SINE tem destaque, principalmente no processo de execução de ações do PRONATEC. Neste ponto, chama atenção a desarticulação da SETRES em relação ao processo de construção do Programa Maranhão Profissional, uma vez que, como já adiantado, normalmente esta Secretaria tem a função de desenvolver relações institucionais da administração pública estadual com o SINE.
Por outro lado, existe no Documento de Referência do Programa Maranhão Profissional, uma menção ao Programa Brasil Profissionalizado, como referência na
47 Pode-se ler no site da empresa: “A UNYCA|CDP – Centro de Desenvolvimento Profissional – é uma empresa especializada em educação e comunicação corporativa a distância. O principal objetivo é construir um elo entre educação acadêmica e educação corporativa, oferecendo uma grade de cursos multidisciplinares com foco prático ministrado por parceiros de conteúdo renomados.” (UNYCA/CDP, 2016).
articulação com programas federais de qualificação profissional, mas não há aderência ou sequer menção às condicionalidades daquele Programa, a exemplo da articulação entre a escola e os arranjos produtivos locais e regionais; do desenvolvimento de atividades de estágio e aprendizagem no ambiente de trabalho, para no mínimo 30% dos qualificandos; da articulação do ensino profissional à modalidade de EJA e da oferta da opção integrada sob a modalidade de ensino à distância.
A verdade é que o Documento de Referência do Programa Maranhão Profissional desconhece aspectos essenciais da institucionalidade dos programas federais que pretendia mobilizar, e não faz sequer uma menção às principais modalidades de qualificação que seriam necessariamente mobilizadas pelas ações definidas – o PlanTeQ e o PlanSeQ. Esta omissão, em nossa avaliação, não é um acidente, mas explica-se pela tentativa de maximizar os ganhos políticos que adviriam da circunstância do Governo do Estado ser visto pela população como o provedor de um amplo conjunto de cursos e ações de qualificação profissional, quando na verdade a maior parte das ações e do financiamento proviriam do Governo Federal, em particular dos MEC e do MTE (FAT). Havia também, como já observado por Souza (2004, p. 167), no caso do PLANFOR, mas que se aplica perfeitamente ao caso em questão, que “[...] ganhos políticos [que] resultavam das condições de negociar com as instituições qualificadoras o papel das mesmas na utilização dos recursos oriundos do FAT.”