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Sustentabilidade como Direito Fundamental

3.1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

3.1.3 Sustentabilidade como Direito Fundamental

O constitucionalismo contemporâneo surgiu com a ideia de proteção aos direitos de solidariedade, que também podem ser conceituados como direitos de terceira dimensão. Dentre esses direitos, apontam-se a paz, a autodeterminação dos povos, o desenvolvimento, o meio ambiente, a qualidade de vida, etc.120

Segundo Pedro Lenza, a partir do século XXI, inicia-se uma nova perspectiva em relação ao constitucionalismo, que pode ser denominada neoconstitucionalismo, constitucionalismo pós-moderno, ou ainda, pós-positivismo. Segundo o mesmo autor, dentro dessa nova realidade, busca-se, acima de tudo, a eficácia constitucional na concretização dos direitos fundamentais.121

Nas palavras do professor João Trindade Cavalcante Filho, os direitos fundamentais podem ser considerados "[...] como os direitos básicos para qualquer ser humano, independentemente de condições pessoais específicas. São direitos que

118 MILARÉ, Édis. Direito do Meio Ambiente: a gestão ambiental em foco: doutrina, jurisprudência, glossário. 7. ed. rev., atual. e reform. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011.p. 103. 119 MILARÉ, Édis. Direito do Meio Ambiente: a gestão ambiental em foco: doutrina, jurisprudência, glossário. 7. ed. rev., atual. e reform. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011.p. 103.

120 LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 14. ed. rev., atual. e ampl. EC n. 62/2009. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 53.

compõem um núcleo intangível de direitos dos seres humanos submetidos a uma determinada ordem jurídica”.122

É cediço que a Constituição Federal de 1988 consagrou de forma importante diversas garantias e direitos fundamentais. O art. 225 do referido Diploma Legal, destacou o meio ambiente como sendo “essencial à sadia qualidade de vida”123

do povo, e ainda, impôs um dever de preservação praticamente ilimitado, introduzindo a ideia de que as questões pertinentes ao meio ambiente são de suma importância para o conjunto da sociedade.

No Brasil, na visão de Juarez de Freitas, a sustentabilidade é observada como “um valor supremo de estrutura constitucional”.124 Dessa forma, interpretando a

afirmação do autor, verifica-se que essa supremacia, trazida pela Carta Maior, dá-se no sentido de respeitar a vida, a dignidade da pessoa humana e o desenvolvimento.

Paulo Affonso Leme Machado, afirma que o caput do art. 225 da CF é antropocêntrico, pois trata o meio ambiente como “um direito fundamental da pessoa humana, como forma de preservar a ‘vida e a dignidade das pessoas’”.125 De acordo

com o mencionado autor, é incontestável no cenário mundial que a destruição ambiental “[...] compromete a possibilidade de uma existência digna para humanidade e põe em risco a própria vida humana”.126

Édis Milaré, que também discorre sobre o assunto, aduz que o meio ambiente é um direito fundamental e, consequentemente, indisponível:

Como todo direito fundamental, o direito ao ambiente ecologicamente equilibrado é indisponível. Ressalta-se que essa indisponibilidade vem acentuada da Constituição Federal pelo fato de mencionar-se que a preservação do meio ambiente deve ser feita no interesse não só das presentes, como igualmente das futuras. Estabeleceu-se, por via de consequência, um dever não apenas moral, como também jurídico e de natureza constitucional, para as gerações atuais de transmitir esse ‘patrimônio’ ambiental às gerações que nos sucederem e nas melhores condições do ponto de vista do equilíbrio ecológico. 127

122 FILHO, João Trindade Cavalcante. Teoria geral dos direitos fundamentais. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/repositorio/cms/portaltvjustica/portaltvjusticanoticia/anexo/joao_trindadade__teor ia_geral_dos_direitos_fundamentais.pdf>. Acesso em: 17 out. 2014.

123 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 28 ago. 2014. 124 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: direito ao futuro. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2012.p.109. 125 MACHADO, Paulo Affonso Leme: Direito ambiental brasileiro. 20. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2012. p. 153.

126 MACHADO, Paulo Affonso Leme: Direito ambiental brasileiro. 20. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2012. p. 153.

127 MILARÉ, Édis. Direito do Meio Ambiente: a gestão ambiental em foco: doutrina, jurisprudência, glossário. 7. ed. rev., atual. e reform. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011. p. 189.

Machado complementa que “o meio ambiente é um bem coletivo de desfrute individual e geral ao mesmo tempo”, ao passo que o uso do prenome indefinido ‘todos’, inserido no texto do caput do art. 225 da CF “[...] alarga a abrangência da norma jurídica, pois, não particularizando quem tem direito ao meio ambiente, evita que se exclua quem quer que seja”.128

Vale destacar que o tema sustentabilidade está inserido no Capítulo VI do Titulo VIII, do capítulo dirigido à Ordem Social da CRFB/88. No entanto, “alcança da mesma forma inúmeros outros regramentos inseridos ao longo do texto nos mais diversos títulos e capítulos, decorrentes do conteúdo multidisciplinar da matéria”. 129

Nessa senda, extrai-se da lição de Juarez Freitas, que o desenvolvimento sustentável, na nossa Constituição, encontra amparo em vários dispositivos:

[...] o conceito de desenvolvimento incorpora o sentido da sustentabilidade por força da incidência de outros dispositivos constitucionais, tais como, o art. 174, parágrafo primeiro (planejamento do desenvolvimento equilibrado), o art. 192 (o sistema financeiro tem de promover o desenvolvimento que serve aos interesses da coletividade), o art. 205 (vinculado ao pleno desenvolvimento da pessoa), o art. 218 (desenvolvimento científico e tecnológico, com o dever implícito de observar os ecológicos limites) e o art. 219 (segundo o qual será incentivado o desenvolvimento cultural e socioeconômico, o bem-estar e a autonomia tecnológica).130

Por derradeiro, conclui-se que por meio da promulgação da Constituição Federal de 1988, o direito ao meio ambiente passou a ser considerado um direito fundamental, pois está objetivamente ligado ao bem-estar, à sadia qualidade de vida, ao desenvolvimento, bem como ao compromisso de as gerações atuais não comprometerem os recursos naturais das quais as gerações subsequentes farão uso.