2.2. Desafios para a conservação da biodiversidade
2.2.2. Sustentabilidade da floresta Autóctone Portuguesa
Silva (2007) argumenta que as florestas são consideradas um local de extrema relevância para o património natural, pois desde o início da evolução humana têm fornecido recursos para o ser humano como alimentos através da caça, frutos silvestres e frutos secos, cogumelos e mel, mas também recursos lenhosos, como a madeira utilizada em construções e até mesmo para a produção de energia, entre muitos outros bens e serviços. Portanto, na sua perspetiva, a importância económica, social e ambiental da floresta mostra que o seu valor para o desenvolvimento sustentável é cada vez mais inegável.
Segundo Tereso et al. (2011), estes locais de floresta como outros ecossistemas, englobam uma grande biodiversidade que garantem todos os processos biológicos e o necessário equilíbrio ecológico do local. Assim, na sua perspetiva, estas comunidades são cada vez mais reconhecidas como ecossistemas de importância fundamental para a manutenção dos valores naturais e para a melhoria da qualidade de vida das populações. Estes autores argumentam que apesar de não ser completamente compreendido por toda a sociedade que as florestas incorporam valores naturais e culturais de elevado interesse, não só para a sociedade humana mas para todos os seres vivos que delas estão dependentes direta ou indiretamente, o seu papel é insubstituível a vários níveis, pois as florestas constituíram-se como ecossistemas de especial relevância nas dinâmicas sociais e ambientais ao longo dos tempos.
Na mesma linha de pensamento, Honrado et al. (2011) defendem que as florestas são um recurso natural renovável, sujeito a uma vasta gama de processos dinâmicos complexos, sendo um ecossistema de grande importância para a sociedade e igualmente responsável pelo
33
fornecimento de um conjunto diverso de bens e serviços, reconhecendo-se, a nível ambiental o valor da floresta e a importância urgente da conservação da biodiversidade lá existente.
Atualmente é conhecido que as nossas florestas ocupam cada vez menos área no nosso planeta, devido aos efeitos significativos da desflorestação. Os dados relativos à diminuição da área de floresta em Portugal são, principalmente, obtidos com recurso aos inventários florestais disponibilizados pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF). Segundo este instituto “A área florestal diminuiu durante o período 1995 a 2010, correspondendo a uma taxa de perda líquida de ‐0,3% por ano” (ICNF, 2013).
As causas da desflorestação estão associadas a diferentes fatores, mas principalmente económicos, assim como no bem-estar de vários seres humanos, sendo, portanto, o Homem o maior responsável por esta questão ambiental. Chakravarty et al. (2012), na análise que fizeram das causas da desflorestação, defendem que os principais responsáveis desta questão ambiental são, em geral, agricultores em busca de mais solos agrícolas, coletores de combustível e construtores de infraestruturas que se veem obrigados a desflorestar para construir. O abate de árvores acaba por ser um dos maiores procedimentos a adotar por estes agentes, que maior impacto gera nos diversos ecossistemas terrestres (Urquhart et al., 2002).
As causas da desflorestação agrupam-se em causas diretas e indiretas. Chakravarty et al. (2012) indicam como causas diretas as seguintes: expansão da área agrícola e de plantações arbóreas, a indústria madeireira e de carvão, os fogos, a extração mineira, as construções, a poluição do ar, as guerras, a atividade militar e o turismo.
Relativamente às causas indiretas Chakravarty et al. (2012) mencionaram o colonialismo, “exploração” pelos países industrializados, os encargos das dívidas dos países, a sobrepopulação e pobreza, a migração para zonas de floresta, os direitos sobre a terra e a desigualdade na distribuição dos recursos, causas económicas, a desvalorização das florestas, a corrupção e causas políticas.
As causas referidas anteriormente têm consequências bastante significativas na biodiversidade e no clima. A cada dia que passa assistimos ao elevado desaparecimento de espécies, devido, essencialmente, à perda de habitat. Chakravarty et al. (2012) indicam alguns efeitos ambientais desta deflorestação tais como o impacto no clima, nas redes hidrográficas, na erosão e sedimentação e também na perda de algumas espécies vegetais, sendo que os segundos apontam ainda perdas económicas e consequências sociais. Outro grande problema da
34
desflorestação relaciona-se com as alterações climáticas e provém da libertação de gases que provocam o efeito de estufa.
Tendo em consideração que há um grau de complexidade de fatores envolvidos na perda de floresta, as soluções para o problema apresentam-se igualmente complexas. No futuro, será necessário encontrar respostas para este problema envolvendo grupos económicos, ambientais e educativos na procura de soluções mais eficazes no combate à desflorestação.
As florestas autóctones portuguesas também têm sido alvo da crescente desflorestação em Portugal. O desenvolvimento e a atividade humana têm vindo a alterar a vegetação de uma forma drástica, reduzindo as espécies autóctones vegetais e animais por todo o país. Estas florestas, segundo a Quercus, Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA), são formadas pelas “(…) árvores originárias do nosso país, como é o caso dos carvalhos, dos medronheiros, dos castanheiros, dos loureiros, das azinheiras, dos azereiros, dos sobreiros, etc.”. (Quercus, sd, sp).
De acordo com Barbosa (2009), a floresta portuguesa tradicional é representada por nove espécies florestais definidas pelas seguintes espécies de árvores dominantes: pinheiro-bravo (Pinus pinaster), sobreiro (Quercus suber), eucalipto (Eucaliptus), azinheira (Quercus ilex), carvalho (Quercus SP.), pinheiro manso (Pinus pinea), castanheiro (Castanea sativa), entre outras folhosas e resinosas. Segundo o ICNF (2013), atualmente as florestas portuguesas são constituídas essencialmente por eucaliptos (26%) e pinheiros-bravos (23%). Quanto à distribuição das espécies florestais (Figura 2), o eucalipto é a espécie dominante (26%), seguindo-se o sobreiro (23%) e o pinheiro-bravo (23%) (Navalho et al., 2017).
Fonte: Adaptado ICNF, 2013 Figura 2.Distribuição das áreas totais por espécies/grupo de espécies
35
Perante a apresentação destes dados compreende-se também que o castanheiro é a espécie menos abundante nas atuais florestas portuguesas. O azevinho, espécie autóctone portuguesa não apresentada na figura 2, encontra-se em vias de extinção. De acordo com o ICNF (2013) é uma planta muito procurada nas festas do Natal, devido aos seus frutos vermelhos brilhantes contrastarem com as folhas verdes sendo, portanto, procurado para fins decorativos. Este costume popular faz com que o azevinho espontâneo (Ilex aquifolium L.) corra o risco de extinção no nosso país. Por esta razão é proibida a sua colheita, transporte e comercialização em Portugal continental, tal como apresenta o Decreto-Lei n.º 423/89, de 4 de Dezembro, presente no ICNF.
As florestas autóctones portuguesas também são importantes locais de refúgio e reprodução de muitas espécies animais (águia-real; lince-ibérico; lobo-ibérico; corço; javali; cegonha-preta) que, devido às mudanças económicas, sociais e ambientais verificadas ao longo dos últimos anos têm vindo a diminuir (Oldenbroek, 1999). Segundo Oldenbroek (1999) algumas dessas espécies autóctones já se encontram em risco de extinção, como é o caso do lince-ibérico. No entanto, verifica-se um crescente interesse na preservação desta espécie graças à importância que representa nas nossas florestas.
As extinções em massa naturais ocorreram em cinco principais episódios, havendo ainda o sexto que incorpora os efeitos da caça excessiva e perda de habitat ocorridos à medida que as populações humanas se espalharam pelos continentes (Primack 2006).
Atualmente existem em Portugal diferentes políticas para o meio ambiente que são essenciais para a definição e estruturação de medidas capazes de gerar riqueza para as regiões e suas populações, bem como protege-las. O sistema jurídico definido que tem o objetivo referido é a Lei n° 33/96, de 17 de agosto, que explica as bases da política florestal nacional pretendendo satisfazer as necessidades da comunidade.
Segundo a Lei supracitada, os objetivos da política florestal, que podem-se averiguar no artigo 4.º são:
Artigo 4.º
Objetivos da política florestal
A política florestal prossegue os seguintes objetivos:
a) Promover e garantir um desenvolvimento sustentável dos espaços florestais e do conjunto das atividades da fileira florestal;
36
b) Promover e garantir o acesso à utilização social da floresta, promovendo a harmonização das múltiplas funções que ela desempenha e salvaguardando os seus aspetos paisagísticos, recreativos, científicos e culturais;
c) Assegurar a melhoria do rendimento global dos agricultores, produtores e utilizadores dos sistemas florestais, como contributo para o equilíbrio socioeconómico do mundo rural;
d) Otimizar a utilização do potencial produtivo de bens e serviços da floresta e dos sistemas naturais associados, no respeito pelos seus valores multifuncionais;
e) Promover a gestão do património florestal nacional, nomeadamente através do ordenamento das explorações florestais e da dinamização e apoio ao associativismo;
f) Assegurar o papel fundamental da floresta na regularização dos recursos hídricos, na conservação do solo e da qualidade do ar e no combate à erosão e à desertificação física e humana;
g) Garantir a proteção das formações florestais de especial importância ecológica e sensibilidade, nomeadamente os ecossistemas frágeis de montanha, os sistemas dunares, os montados de sobro e azinho e as formações ripícolas e das zonas marginais dulçaquícolas;
h) Assegurar a proteção da floresta contra agentes bióticos e abióticos, nomeadamente contra os incêndios; i) Incentivar e promover a investigação científica e tecnológica no domínio florestal.
Estes objetivos visam, essencialmente, na utilização consciente e sustentável dos recursos florestais mas, tal como já foi mencionado, estes princípios legais encontram muitos obstáculos na sua aplicação prática. Com o objetivo de prevenir o aparecimento dos problemas anuais na época de incêndios, os governos elaboraram normas com vista à sua eliminação. No entanto, as falhas continuam a acontecer e continuarão se não houver o investimento numa política de fiscalização e prevenção eficaz.
Comemora-se no dia 23 de novembro o dia da Floresta Autóctone. Este dia foi estabelecido para divulgar a importância ambiental e económica da destruição das florestas naturais de as salvaguardar da destruição. Esta data é frequentemente comemorada na Educação Pré-escolar e no 1.º Ciclo no âmbito da Educação Ambiental, como será referido na secção seguinte.