2.3 SUSTENTABILIDADE
2.3.1 Sustentabilidade nas Instituições de Ensino Superior
As IES sempre foram atores de mudança e agentes da inovação na sociedade, de modo que a busca por sustentabilidade passa frequentemente pelos seus campi, por suas revistas e por seus currículos. Assim como as instituições, seus investigadores têm papel de destaque a ser desempenhado na geração de um futuro sustentável, pois ensinam, educam e servem de exemplo para futuros profissionais que o mercado selecionará para atuar de forma ética e responsável. Nesse contexto, desde que o Relatório Brundtland (WCED, 1987) foi publicado, há um esforço para que a sustentabilidade seja inserida na dimensão institucional nas IES.
A partir de 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Nesses objetivos estão incluídas 169 metas, que demonstram a preocupação e a ambição dessa agenda que é universal. Com isso, busca-se alcançar os direitos humanos de todos, a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. De acordo com a ONU (2018), tais objetivos são integrados e indivisíveis e buscam contemplar e equalizar as três dimensões: econômica, social e ambiental.
Dentro do ODS 4, que visa a promover educação de qualidade, existe a meta 4.4, direcionada às habilidades relevantes para o emprego, trabalho decente e empreendedorismo (ONU, 2018). É nessa meta que as universidades empreendedoras e sustentáveis podem auxiliar, pois, de acordo com os princípios dos ODS, essas instituições são capazes de transformar o local onde estão inseridas por meio do empreendedorismo, melhorar a qualidade dos empregos gerados e qualificar o trabalho.
Também é possível vincular as ações da universidade ao ODS 8, relativo ao trabalho decente e crescimento econômico. Seria preciso atentar, nesse caso, ao objetivo 8.3, que possui
foco em geração de políticas públicas que apoiem o desenvolvimento de atividades produtivas, como empreendedorismo, criatividade e inovação, formalizando micro, pequenas e médias empresas (FLEACA et al., 2018).
Com base nos objetivos e nas prioridades locais, cada país é responsável por modelos educacionais comprometidos em alcançar o desenvolvimento sustentável. E esse compromisso, no cenário das IES, também foi reconhecido pela União Europeia com foco em três prioridades: (i) qualidade e relevância de formação de habilidades; (ii) habilidades e qualificações mais visíveis e comparáveis e avanço da inteligência de habilidades; e (iii) escolhas informadas de carreira (EUROPEAN COMMISSION, 2017).
O impacto que as empresas e iniciativas empreendedoras podem causar no desenvolvimento social e econômico de um país é visível nos próprios ODS, pois o empreendedorismo está em quase todos, a exemplo do ODS 4 e do ODS 8. Aplicar essa linguagem às IES implica, portanto, reunir estratégias para que possam ser determinados fatores decisórios não apenas para assumir ODS, mas também para lançar, projetar e implementar processos que coordenem os avanços da abordagem da sustentabilidade (FLEACA et al., 2018).
A universidade necessita desenvolver ações sustentáveis para com seu negócio, já que, conforme mencionam Gumport e Jennings (1999), há uma tendência de que o ensino superior não seja mais apoiado pelo governo, apenas assistido. Isso significa que, economicamente, a universidade precisa incorporar algumas atividades rentáveis para se tornar sustentável sem depender do financiamento público (DIACONU; DUTU, 2014). Nesse cenário, como relatam Rubens et al. (2017), universidades americanas têm mapeado um crescimento de 60%, entre 1993 e 2009, em cargos administrativos em faculdades e universidades. Outro dado interessante é o incremento do número de administradores, que passou de 3.800 para 12.183, o que representa um aumento de 221%, no período de 1975 a 2008. Esses índices demonstram que a gestão universitária tem se profissionalizado e deixado de ser uma gestão acadêmica. Um fator que comprova essa mudança é que, ao mesmo tempo em que os gestores profissionais estão adentrando o cenário universitário, houve um aumento da contratação de docentes em tempo integral, de 11.614 para 12.019, no período de 1975 a 2008, conforme dados dessa mesma pesquisa realizada na Califórnia, Estados Unidos (RUBENS
et al., 2017).
De acordo com Rae (2008), o emprego para pessoas com pós-graduação será afetado por mudanças no ambiente macroeconômico, de modo que tanto as instituições de ensino quanto os estudantes devem considerar respostas baseadas em abordagens empreendedoras e de aprendizagem que aumentem suas perspectivas de sucesso no que
pode estar se tornando um ambiente econômico tempestuoso. É preciso, assim, ter foco em aprender a gerar empregos e não em ocupar postos de trabalho.
Pesquisas como a de Blewitt (2010) apontam que a universidade precisa reconhecer que não forma profissionais voltados à resolução de problemas relacionados à sustentabilidade como um todo. Apesar de avanços nessa ordem, a sustentabilidade não é abordada em currículos e, consequentemente, não é discutida em sala de aula, deixando de formar profissionais aptos a entrarem no mercado com uma visão holística da situação, não somente das IES, mas de todas as organizações do trabalho (BLEWITT, 2010).
Criar e transferir conhecimento para o mercado de trabalho é uma das atividades designadas pela terceira missão da universidade, que é o empreendedorismo. Essas atividades criam uma relação saudável entre academia e empresas, impulsionando as organizações, aumentando a captação de recursos para a universidade e desenvolvendo a região. Segundo Breznitz et al. (2008), as estratégias de marketing utilizadas pelas universidades influenciam positivamente o desenvolvimento regional, o que demonstra a importância de patenteamento, licenciamento, criação de startups, incubadoras, parques tecnológicos e transferência de tecnologia, consideradas as primeiras formas de marketing empregadas pelas universidades para o desenvolvimento da região. Portanto, a comercialização científica tornou-se algo necessário para reduzir o orçamento que o estado repassa para as instituições.
Nesse contexto, como explicitam Rinaldi et al. (2018), a sustentabilidade passa a configurar uma quarta revolução acadêmica, indo além da universidade empreendedora, potencializando sinergias com a comunidade local e ampliando ações relacionadas ao progresso tecnológico. Essa lacuna entre ações voltadas ao desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade, de acordo com os autores, pode ser preenchida com a cocriação do paradigma da sustentabilidade, que desafia as universidades a se engajarem em uma parceria com empresas locais para abordar e resolver questões reais e complexas do mundo.
Especificamente da perspectiva da economia, o papel social da universidade deve estar alicerçado em ações que contribuam diretamente para a resolução de problemas da sociedade, por meio da implantação de processos e produtos científicos e inovadores, auxiliando na criação de valor ao mercado (DIACONU; DUTU, 2014).
Para Hugé et al. (2016), as reflexões sobre a sustentabilidade nas IES estão levando à criação de um novo campo de estudo: “sustentabilidade no ensino superior”. Trata-se de um campo multidimensional e representado pragmaticamente por quatro componentes-chave: i) operações sustentáveis no campus, que consiste em realizar a gestão de resíduos; ii) aprendizagem e ensino para a sustentabilidade, que concerne à inclusão da abordagem da sustentabilidade nos currículos; iii) integração da sustentabilidade nas pesquisas realizadas,
tanto em termos teóricos quanto práticos, nos laboratórios; e iv) operações externas, que diz respeito à prestação de serviços sustentáveis apoiados ou não por parcerias governamentais.
Tendo isso em vista, a sustentabilidade precisa ser encarada no ensino superior como um potencial educativo, não apenas para alunos, mas para toda a instituição. É preciso refletir sobre uma abordagem pluralista, com caráter emancipatório e democrático. Nesse sentido, Wals e Jickling (2002) apresentam sete características centradas relativas à integração da sustentabilidade com o ensino superior:
a) reconsideração da missão institucional – a missão não deve ser um instrumento de relações públicas, pois a integração da sustentabilidade na educação não levará a nada novo se a instituição não estiver preparada para isso;
b) definições vagas – o conceito de sustentabilidade é amplo e possibilita inúmeras discussões, o que precisa ser visto como um ponto de partida e não como fim. Essa amplitude no conceito permite que o diálogo e a discussão possam ocorrer, gerando hipóteses de trabalho, discussões em grupo, novos conteúdos etc.
c) sustentabilidade versus complexidade – o conceito de sustentabilidade está relacionado à existência humana e pode diferir de acordo com o tempo e o espaço, sendo, portanto, uma noção interdisciplinar, sistêmica e holística;
d) o ensino da sustentabilidade requer novos modelos mentais – isso significa que quem ensina sobre sustentabilidade necessita de uma postura de aluno também. Para tanto, é preciso realizar debates sobre convicções éticas e espirituais que possuam relação direta com o destino da humanidade;
e) não há um remédio universal sustentável – a inclusão da sustentabilidade como programa de ensino, disciplinas, projetos, missão ou de qualquer outra forma no ensino não é, por si só, a única solução, não podendo, portanto, ser encarada como um ponto final da sustentabilidade no ensino superior;
f) reconstrução didática – o ato de integrar aspectos da sustentabilidade não pode ser realizado sem pensar muito criticamente sobre a reestruturação de arranjos didáticos. Essa reorientação requer ampla oportunidade para que funcionários e estudantes embarquem em novas formas de ensino e aprendizagem. Para isso acontecer, eles precisam ter a oportunidade de reaprender sua maneira de ensino e aprendizagem.
A possibilidade de integrar a sustentabilidade com a educação traz os acadêmicos para novos mundos pedagógicos, assim como para novas experiências, epistêmicas e sistêmicas. Vista como tal, a sustentabilidade é a entrada ideal para a epistemologia, ontologia e ética, podendo, de fato, apresentar-se como uma abordagem educacional (WALS; JICKLING, 2002).
Para a efetivação do contato dos alunos com esses novos mundos pedagógicos, a universidade necessita de diversas estratégias para que se mantenha economicamente ativa. A Lambert Review of Business – University Collaboration, por exemplo, reconhece a escala do investimento público em ensino e pesquisa nas universidades do Reino Unido e endossa formalmente a crença de que “transferir conhecimento e habilidades entre universidades e empresas e a comunidade em geral aumenta os retornos econômicos e sociais” (WYNN; JONES, 2017).
No contexto americano, a universidade empreendedora é vista por Thorp e Goldstein (2010) e Wynn e Jones (2017) como uma organização que, além de voltada para a sustentabilidade, é liderada por pesquisas, enfrentando os desafios globais da mudança climática, da pobreza extrema, das doenças infantis e da iminente escassez mundial de água limpa. No Brasil, as universidades públicas passam por sucessivos cortes, sejam eles financeiros ou de incentivos à pesquisa científica, o que faz com que essas instituições precisem utilizar estratégias para ser sustentáveis economicamente, a exemplo da aproximação com o setor privado. Essa alternativa não é somente um privilégio das universidades públicas brasileiras, mas também uma estratégia das universidades privadas (TRINDADE, 1999).
Para Yamaguchi et al. (2018), as universidades privadas que não são suficientemente apoiadas pelos governos centrais ou locais precisam investir seus próprios recursos em atividades colaborativas, e os benefícios dessas atividades devem superar os recursos investidos. Isso é um indicativo de preocupação com a sustentabilidade econômica de uma instituição, motivo pelo qual deve ser conferido e considerado com seriedade pela sua gestão.
Nesse cenário de investimentos restritos, de acordo com Trindade (1999), vislumbram- se duas possibilidades: um contexto formado pelas grandes universidades públicas, que tenham apoio de fundos públicos para a realização de pesquisas de ponta e sejam responsáveis por cursos stricto sensu prestigiados; e o outro contexto é constituído pelas instituições de médio e pequeno porte, que possuam diversidade em suas ofertas de cursos, especialidades regionais, ênfase nos cursos de graduação e um pequeno respaldo governamental.
Uma das alternativas para o contato próximo das universidades com o ambiente privado são os ambientes de inovação, principalmente os parques tecnológicos, onde se instalam empresas e organizações não governamentais (ONGs) que podem auxiliar essas instituições na busca por investimentos em pesquisa, em inovação e até mesmo no ensino (AUDY, 2006). Tal questão é que justifica a proposta desta tese, baseada no recorte teórico da sustentabilidade econômica (abordada na próxima seção) por meio dos parques científicos e tecnológicos nas universidades empreendedoras.
2.3.1.1 Dimensão Econômica da Sustentabilidade
A aproximação das organizações com alguns princípios da sustentabilidade tem sido alvo de interesse também para a academia. O fator globalização faz com que as organizações foquem suas ações e estratégias em um novo mercado, o do conhecimento. Algumas organizações já perceberam que a transparência nos negócios e o cuidado com a natureza e principalmente com o ser humano devem estar presentes em cada estratégia para alcançar a sustentabilidade em suas três dimensões: social, ambiental e econômica (VAN MARREWIJK, 2003).
Nesse contexto, a sustentabilidade é almejada por diversos tipos de organizações, sejam elas empresas, universidades, ONGs ou até mesmo departamentos políticos. Essas esferas priorizam a busca de um desenvolvimento sistêmico, de maneira que o alcance de cada um dos objetivos institucionais demarca a conquista de alicerces econômicos, sociais e ambientais na busca de uma sustentabilidade que possa ser sistêmica (LÉLÉ, 1991; JIMÉNEZ- HERRERO, 2000).
Para Gagnidze (2018), os sistemas de educação e ciência não estão dando conta dos desafios modernos. Por esse motivo, o foco das universidades precisa mudar, sendo redirecionado a resultados de programas internacionais que reflitam no desenvolvimento sustentável da economia, o que pode ser feito por meio da elaboração de projetos educacionais e científicos que atendam aos preceitos do desenvolvimento sustentável, resultando, assim, em uma sociedade sustentável.
Nesse cenário, é comum as organizações procurarem modelos ou metodologias que possam auxiliar na geração ou manutenção da sustentabilidade ou até mesmo práticas que estejam voltadas para cada uma das vertentes que constituem os eixos estruturantes da sustentabilidade. Ao encontro disso, existem diversos autores que buscam elucidar esses modelos, a exemplo de Elkington (1998), que apresenta um modelo composto pelas dimensões social, ambiental e econômica, sendo esta o foco deste estudo.
Dentre os autores que corroboram o modelo proposto por Elkington (1998), estão: Dyllick e Hockerts (2002), McDonough e Braungart (2002) e O'Connor (2006). Para esses autores, a sustentabilidade não possui dimensões isoladas, mas pilares que alicerçam sua estrutura por meio de interlocuções e fenômenos coexistentes, possibilitando, assim, mecanismos que facilitem o diagnóstico da sustentabilidade. Essas ações e inter-relações permitem e/ou exigem um novo pensar da gestão, ou seja, um novo raciocínio para que se possa compreender o seu papel de equilíbrio e integração ao cotidiano das instituições (MUNCK; GALLELI; SOUZA, 2013).
Para esta investigação, é importante revelar os motivos da escolha de uma dimensão da sustentabilidade, principalmente tendo em vista que se trata da dimensão econômica, vista por muitos autores como a principal por consistir na expressão do lucro, que é o objetivo central das organizações para a sociedade. Sobre isso, cabe citar as três lógicas do pensamento sobre o desenvolvimento sustentável destacadas por Söderbaum (2012): i) lógica estritamente econômica –focada na articulação do crescimento econômico com a preservação ambiental, o que não acarreta muitas mudanças no sistema produtivo ou na sociedade existente; ii) lógica de que a sociedade apresenta problemas ambientais e sociais sérios – centrada na necessidade de decisões e ideias criativas que resolvam tais problemas, por meio da ação imediata, sendo necessárias mudanças no paradigma atual para dar conta dessa situação; iii) lógica que aponta culpados – focada em culpabilizar algo ou alguém, a exemplo da economia neoclássica e do neoliberalismo (SÖDERBAUM, 2012). Perante essa discussão, percebe-se que o desafio está em gerar novas reflexões e novos significados para o que hoje se chama de trabalho, isto é, novas concepções e ideologias de empresas sobre a importância dessas organizações ou instituições para a sociedade (NOVAES, 2012).
Assim, é possível afirmar que a inclusão da sustentabilidade econômica como única dimensão a ser avaliada nesta tese não se por deve à negligência em relação às demais dimensões (social e ambiental) ou à compreensão de que a dimensão econômica seja “mais importante”. Tal escolha se justifica, na verdade, pela compreensão de que uma tese exige profundidade e de que o cuidado com a abordagem qualitativa da investigação requer um recorte das dimensões a serem estudadas.
Na seção seguinte, apresenta-se a figura-conceito desta tese.