Em dezembro de 2006, ao encerrar o ano letivo, apresentei (com minha academia) para as crianças das escolas municipais, estaduais e particulares; um musical infantil em um clube da cidade intitulado “Gorda, baleia, saco de areia... uma triste história de bullying”. Nela, era retratada, metaforicamente, a vida de uma baleia muito alegre que ganha um prêmio numa competição sobre conhecimentos gerais e vai morar na cidade onde enfrenta uma série de rejeições por ser muito gorda. No caminho, a baleia encontra alguns amigos que também sofreram discriminação semelhante: sapinhos ridicularizados por terem “bolotinhas” na pele, numa alusão às estigmatizantes espinhas dos jovens; ursinhos-panda, numa referência àqueles que usam óculos, girafas que não encontravam onde dormir por causa de seu tamanho e uma série de outros bichinhos que usando de metáforas, música e dança, remetiam os personagens aos tipos humanos mais discriminados (...) com o intuito de chamar a atenção da garotada para problema social e tão grave como a estigmatização dos coleguinhas pelo viés corporal.
Ao iniciar o ano letivo de 2007, as crianças de 5ªs e 6ªs séries que haviam assistido à peça e tornaram-se meus alunos na disciplina de Educação Física, mostraram-se muito receptivas com minha proposta de continuar o trabalho iniciado com o musical, ou seja: colocar o assunto em pauta e chamar a atenção dos alunos da escola para tentar diminuir o índice de casos de bullying naquele ambiente e/ou por onde circulassem.
Como peço aos meus alunos de 5ªs e 6ªs séries desde 2001, um caderno para estudos/anotações/pesquisa; combinei que eles pesquisariam sobre esse fenômeno e, depois, observariam os episódios de bullying que presenciassem e os anotariam nos cadernos. Esse caderno funciona como um diário de anotações de
tudo que foi feito na aula, e é recomendado aos alunos que coloquem nele suas impressões pessoais sobre tudo que aconteceu em quadra, tal como: “gostei de tal movimento, não gostei de tal brincadeira, me senti bem quando corri de mãos dadas com minhas colegas, detestei pegar na mão de outro menino, adorei fazer dois gols”, (...) e a escrita tem um caráter bem pessoal e informal servindo para que as crianças, ao pensar no que lhes acontece na aula de Educação Física, possam tentar “decifrar” os sentimentos que tem quando usam seu corpo em plenitude, quando estão à vontade entre seus pares ou quando são criticadas ou discriminadas por seu desempenho. Esse “à vontade”, caracteriza-se por ser ao ar livre, podendo correr, falar mais alto, gritar e se divertir, não sem o olhar de um professor que interfira quando necessário. Muitas crianças escrevem em seu diário de Educação Física: “detesto suar – como saí fedida da aula hoje! - minha mãe não quer que eu me suje.” Ou demonstrando exatamente o que combatemos: “ que raiva daquele gordo da nossa equipe, mal começou a corrida de revezamento e ele já tava pedindo água. Baleia infeliz!”
Ao fazer o pedido da observação de que teriam que começar a escrever nos cadernos sobre os episódios que configurassem preconceito corporal ou perseguição, as meninas se mostraram super-organizadas e entusiasmadas. Os meninos, porém, ficaram reticentes dizendo que não iriam “dedurar” ninguém. Expliquei que eles não precisariam colocar o nome da pessoa em suas anotações, mas apenas relatariam o que presenciassem, podendo usar só as iniciais do nome.
Esse temor se justificava porque no caderno que eles apontam tudo e entregam, tem o seu nome e a turma. Combinamos de recolher os cadernos ao final de cada trimestre, o que causava grande expectativa e demonstração de interesse pelo assunto quando o dia da entrega se aproximava, com alunos contando que viram na TV e leram jornais onde apareciam relatos de jogadores de futebol negros, que eram chamados pela torcida de “macacos”, observações de personagens nas novelas que eram chamados de “gorducha”, “paspalho”, “lesma”. Chamava a atenção depoimentos doloridos de quem fora vítima até o momento e não sabia que esses episódios de humilhação tinham o nome de bullying, como de uma menina de 11 anos, repetente, que havia ingressado na escola naquele ano: “Eu estudava numa escola particular como bolsista, mas insisti e chorei até meu pai me tirar de lá, porque ninguém me dava a mão na hora das atividades, diziam que eu fedia muito, me chamavam de sarnenta e piolhenta.” Líamos os depoimentos onde a maioria
apontava no caderno o que os outros colegas diziam e sempre eram questionados sobre se eles mesmos não estavam cometendo discriminação e eles confessavam que às vezes também agrediam verbalmente os colegas, e até as professoras em algumas ocasiões, aparecendo com certa freqüência a denominação “aquela vaca”, em relação às suas mestras. Além dessas anotações sobre as ocorrências que chamavam mais a atenção, eles precisavam pesquisar a história, as regras e o momento atual da modalidade que estivéssemos praticando naquele mês, que poderia ser: voleibol, handebol, atletismo, lutas, danças populares, brincadeiras antigas, futsal, capoeira, ginásticas, basquetebol e todas as manifestações de cultura corporal que fazem parte da disciplina que ministro. Então depois de ficar uma semana com seus cadernos eu os devolvia e eles levavam para casa para continuar as observações. Sofria muitas cobranças enquanto mantinha em meu poder seus cadernos, porque, ansiosos, contavam que ontem na novela eles haviam presenciado cenas de desqualificação moral por causa das marcas corporais que alguns personagens carregavam e queriam relatar aquilo que haviam visto, antes que esquecessem. Muito citados durante os dois anos de observações são os programas de humor na televisão ou no rádio onde os esquetes e os bordões, perseguem “a loira burra”, “os nordestinos”, os “gaychos”, “os rolha-de-poço”, os caipiras, “os sargentos”, que transmitem ordens humilhantes a seus comandados – ele próprio um comandado por alguém lá de “cima”.
Em todos os finais de trimestre, desde 2007, na quadra mesmo, fizemos a discussão do que cada um trazia, visto que a prática de Educação Física nessa escola é em turno inverso e a escola não dispõe de uma sala para essa disciplina.
No decorrer de 2007, nos três trimestres, avaliamos o material recolhido pelos alunos e discutimos muito acerca do assunto. Percebemos que eles já estavam aceitando melhor as diferenças entre si, embora o problema não tivesse acabado completamente, mas já era alvo de questionamento e cobranças de um para o outro. Já se policiavam antes de proferir as nomeações ofensivas. Corriam para me contar quando alguém ultrapassava os limites e em uma ocasião me chamaram a atenção quando eu disse a um aluno: levanta S..., parece uma geléia, é a terceira vez que tu cais hoje!!! Parece que não tomou café...De fato o aluno revelou que não havia se alimentado, que estava se sentindo um pouco tonto e que estava suando além do que costumava suar. Nesta aula, outros alunos também se sentiram mal, devido à alta temperatura que fazia nesse dia, quase 30 graus, eram
dez e meia da manhã e nesse horário fazemos aula sem nenhuma proteção natural como sombra das árvores ou de algum pórtico. Aproveitando o assunto de eles terem me cobrado o que falei para o aluno, paramos para nos refrescar um pouco tomando água e alongando, quando aproveitei para lembrá-los sobre a importância do uso do protetor solar, do boné e de não virem para a aula de Educação Física de estômago vazio devido ao esforço que será realizado e pedi desculpas a todos, aproveitando a ocasião para mostrar como os professores muitas vezes não percebem quando desqualificam os alunos. Vários alunos contaram histórias que envolviam professores que os desrespeitaram, fato que até o momento não aparecia escrito em seus relatos, só falavam disso na hora da conversa mais informal e foi como se ao verificarem que eu havia praticado a ofensa verbal também, eu os tivesse autorizado a “dedurarem” os professores como eles mesmos nominaram essa ação. “Pode mesmo falar dos profes?”, “A senhora não vai mostrar nossos cadernos a eles?” diziam, visivelmente alterados, como se tivessem muito a relatar. Lembraram frases pronunciadas pelos professores: Que milagre o fulano, passou comigo neste trimestre! / Capaz que é o fulano que chegou atrasado de novo!!! / Para de rir desse jeito... Você parece um porco....Quando eu me aposentar, tu ainda vais estar na escola do jeito que estuda...Nem parece que teu pai é bancário, nem conta tu sabe fazer...
No início de 2008, aqueles que estavam na 5ª série em 2007 agora estavam na 6ª série e notaram que teriam que fazer a mesma pesquisa do ano anterior, o que não lhes desagradava de maneira alguma, mas queriam ampliá-la. Depois de muita conversa, decidimos que iríamos continuar com o mesmo enfoque, agora com horizontes mais alargados, continuaríamos anotando os episódios diários sobre discriminação, mas que ao invés de só escrever o que estavam ouvindo, iriam também recortar dos jornais, das revistas e outros artefatos da mídia, tudo que estivesse relacionado com o tema da exclusão pelas marcas corporais, fossem em propagandas que enaltecessem a perfeição corporal ou mostrassem preconceito quanto a alguma diferença. Eles vibraram, visto que essa geração de crianças aprende muito com o uso das imagens veiculadas minuto a minuto em seu dia-a-dia desde que nasceram e é uma linguagem que eles gostam muito de usar, a semiótica.
A escolha por esse tipo de pesquisa caiu no gosto dos alunos e combinamos que os da 5ª série também poderiam começar a trazer recortes e assim, as seis
turmas, ansiosas, perguntavam se poderiam trazer logo o que haviam encontrado, porque não estavam colando nos cadernos, visto terem recolhido folhas inteiras de jornais, capas de revistas, camisetas com dizeres racistas, cartazes. Combinamos que guardariam tudo o que fosse encontrado em uma pastinha para facilitar seu manuseio (e o meu) e assim poderiam trocar entre si os recortes para que todos tivessem acesso ao material que, depois, ficaria comigo para colocar na dissertação. Alguns pais, ao buscarem as crianças na escola, se mostravam entusiasmados com o tema e comentavam o que haviam visto na TV ou em algum filme e, principalmente, em novelas e relatavam casos que haviam presenciado e sofrido, principalmente em sua vida escolar. Ao final de cada trimestre selecionamos os recortes em melhor estado de conservação e os mais significativos, descartando muitos por serem repetitivos ou por fugirem ao proposto ou, ainda, por estarem muito manuseados, o que dificultava a leitura. O volume de reportagens e anotações foi tal que acatando sugestão de minha orientadora, adiei sine die a análise mais profunda dessa parte da pesquisa, a dos recortes, deixando para outra ocasião - quem sabe num doutorado. Ficarei, de momento, para o mestrado, apenas com os depoimentos escritos ou orais dos alunos.