Objetivos, atributos e o questionário
3.2. T IPOS DE V ALOR
O valor de um ponto de vista individual, ou utilidade, é um indicador de intensidade de desejo em relação aos desejos por alternativas conflitantes de escolha, que tem como objetivo final maximizar o bem-estar do indivíduo segundo seus critérios de análise. Ele é medido pela disposição máxima a pagar (DAP) ou disposição a aceitar compensação (DAC) de uma pessoa por uma troca. Esse valor pode ser formado por diversas motivações ligadas ao uso ou não do recurso.
O bem-estar atribuído por alguém a algo é traduzido em termos de seu valor econômico total (VET). Este valor pode ser subdividido em algumas categorias segundo as motivações que o gera. Parte do VET pode vir do (1.0) valor de uso, que é aquele atribuído pelo uso ou potencial de uso direto, experimentado, de algo. Por exemplo, o ambiente natural pode fornecer bem-estar sob forma de valor de uso basicamente de duas maneiras: provendo benefícios diretamente aos indivíduos de maneira recreacional e estética; e fornecendo insumos para a produção, diretamente como recursos naturais, ou indiretamente como a capacidade de assimilação de poluentes, suporte a serviços ambientais como o controle climático, ciclo de nutrientes (SPASH e HANLEY, 1995).
Outro tipo de valor de uso é motivado quando este se refere ao potencial de uso futuro, sendo subdividido em duas categorias, o valor de opção e de quase-opção. O (1.1) valor de opção é aquele referente à atribuição de valor a uma possibilidade futura de experiência ou posse. Assim, apenas preservando uma opção para que um uso possa ocorrer se deriva utilidade, ou seja, você está disposto a abrir mão de algo para ter uma opção de escolha no futuro. O (1.2) valor de quase-opção se refere ao ganho associado ao se ‘segurar’ uma decisão na presença de incerteza sobre o retorno das alternativas e quando envolve alguma perda potencialmente irreversível de um recurso, de maneira que novas informações possam basear decisões mais eficientes. Esse valor vem da informação ganha por se adiar uma decisão para o futuro.
Outro tipo de motivação de valor é a que não se refere ao uso de algo. Os valores de não-uso, ou de uso passivo, incluem categorias como o (2.1) valor de existência e (2.2) de herança - aquele atribuído às gerações futuras. O valor de existência é aquele derivado apenas da existência de algo por si só, não dependendo do consumo direto pelo indivíduo (NOGUEIRA e MEDEIROS, 1999). O indivíduo simplesmente considera que algo deveria existir, ou deveria ter o direito de existir, ou que ninguém poderia ter
direito sobre sua existência, estando disposto a abrir mão de algo para preservar esse direito.
Se o indivíduo deseja algo independente de seu uso, este vai ter que garantir que esse recurso siga existindo. Isso é feito por meio de garantia de direitos, por exemplo, o direito de existência de uma espécie. Entretanto, muitas pessoas entendem “direito” como aquilo que está no papel, como se o “deveria ser” se torna-se o que “é”, independente de custos, esforços, monitoramento, etc. Assim, o valor de existência é exteriorizado sob forma de demanda por direitos. O direito de existência buscará impedir que sejam feitos usos do bem considerados indesejáveis. O custo do direito de existência pode ser, por exemplo, o do pagamento de uma pessoa para proteger uma área.
O valor social está sujeito à escassez gerada pelo conflito de interesses entre indivíduos. Ele reflete desejos quanto à distribuição social de recursos, a um conflito de interesses. O valor dado socialmente é um indicador da relação entre o desejo de múltiplos indivíduos e da escassez produzida por esses desejos. Só existe sentido em haver valor econômico social se houver conflito de desejos entre alternativas, escassez, disputa.
O economista, por meio de análise de mercado, trata do conflito de interesses. ‘Dado que alguém necessita privar outro de algum direito de propriedade para satisfazer seu próprio desejo, quanto este está disposto a disputar esse direito?’ Essa questão é essencial para ser entendida pelo entrevistado para que este perceba a consequência de sua “não-ação” mesmo que seu bem-estar esteja baseado no não-uso. Esse valor seria igual, em teoria, no máximo à variação de bem-estar esperada gerado pelo recurso em disputa.
Apesar da controvérsia, parece muito plausível considerar o valor de existência atribuído pelas pessoas para embasar escolhas sociais, isso desde que elas realmente estejam dispostas a abrir mão de algo por isso, que reconheçam o custo de oportunidade de suas ações. Assim, o problema é metodológico, de como contabilizá- lo e como validá-lo.
“Os custos e benefício incluídos em uma ACB são intrinsecamente carregados de valores, uma vez que são derivados de um objetivo social, que por definição é ético em sua natureza” (JOHANSSON-STEMAN, 1998). Apesar de não ser consenso na literatura, parte dela observou que valores de não-uso podem constituir a parte principal do valor total de bens públicos (WHITEHEAD, 1995).
Do ponto de vista de análise de escolha social, Carson et al. (2001), define três posturas diferentes sobre a consideração do valor de uso passivo em valorações e escolhas sociais. (1) Valores de uso passivos são irrelevantes para processos de tomada de decisão, (2) valores de uso passivos não podem ser monetarizados, e assim, podem ser contabilizados apenas como uma questão política ou decidida sua importância por
especialistas, (3) valores de uso passivos podem ser satisfatoriamente medidos e deveriam ser explicitamente levados em consideração.
As consequências das posturas citadas acima seriam que, (1) caso ele seja desconsiderado estaríamos aceitando uma postura passiva em relação às falhas de mercado, em que não podemos fazer (considerar) nada além do que é assimilado financeiramente nele, aceitando suas falhas, e salve-se quem puder - se o mercado já não fez, é por que não tem “valor suficiente”. É a postura de que as decisões são tomadas por políticos e só os desejos expressados nesse campo político seriam consideradas.
A segunda opção (2) considera que, uma vez que os valores econômicos totais não podem ser monetarizados, não podemos tomar decisões baseadas em declarações de DAP e comparar indivíduos pela renda. Sendo assim, decisões sociais poderiam caber a especialistas que chegariam a uma estimativa de “preferências sociais” não monetarizadas com base em suas experiências, podendo ou não serem ajudados por algum processo de deliberação social. Esse tipo de abordagem merece debate em um contexto em que é discutida a consistência e validade de preferências possivelmente mal formadas, em que é possível buscar englobar as motivações sociais por outros métodos, variando seu nível de legitimidade.
A terceira abordagem (3) busca legitimar a declaração de preferências individuais como forma de tomada de decisão social eficiente. Ao aceitar a monetarização, possibilita-se o uso de amostras que reflitam de alguma maneira o desejo da população, uma vez que o resultado de preferências é mais facilmente mensurado que em métodos não-monetários. Por outro lado, nos sujeitamos a hipóteses fortes sobre as preferências individuais e sobre a utilidade marginal do dinheiro constante entre indivíduos. A questão debatida aqui busca esclarecer um pouco deste trade-off que aparece ao se escolher o MVC como método de mensuração e escolha social.
A seguir, será visto como são organizados nossos valores para que sirvam de base para escolhas. Em aspectos do funcionamento desse processo mental de decisão que liga e compara características, alternativas, possibilidades de satisfações para criarmos uma base para nossas escolhas.
3.3.P
REFERÊNCIASPara que seja possível entender e analisar o processo de valoração, é preciso entender tanto a variação do cenário a ser valorado – objeto, projeto e variação de seus atributos - como aqueles que atribuem valor a ele. Além das questões que cercam o bem, como sua definição, suas características e suas relações com o meio, existem as questões referentes ao entendimento e pressupostos sobre o comportamento daqueles que atribuem valor ao processo.
Existem diversos modelos de explicação de decisões vindos de diferentes ciências, como da economia, psicologia e política. O modelo padrão econômico faz uso do termo preferências para designar o resultado do processo de sentir, definir e ordenar diferentes magnitudes de desejos entre variações marginais em critérios para os quais atribuímos valor, entre bens, ou entre alternativas que envolvam algum conjunto de bens e critérios.
A estrutura das preferências humanas é considerada como uma construção “coerente” pela teoria econômica padrão. Apenas dessa maneira é possível tratar as preferências como indicadores do bem-estar de indivíduos – pois ninguém seria melhor do que o próprio indivíduo (com suas próprias preferências) para decidir o que é melhor para si próprio. Por outro lado, se formos forçados a concluir que as preferências das pessoas são tipicamente instáveis, dependentes do contexto ou internamente inconsistentes, seria difícil de mantê-las como meio de medida de bem-estar (SUDGEN, 2009).
Dependendo de como as preferências se comportarem, serão necessários diferentes tipos de abordagens, diferentes hipóteses poderão ou não ser feitas para explicar o comportamento e desejos dos indivíduos, e assim, das decisões em nível social. “A natureza das preferências individuais é um aspecto fundamental para as implicações da teoria microeconômica. Entretanto, o processo pelo qual estas são formadas permanece um assunto para debate” (BATEMAN et al., 2008). A abordagem baseada em preferências declaradas faz hipóteses sobre preferências que não são diretamente observáveis, sobre como estas se comportam dependendo do contexto, em seu processo de formação. Suas hipóteses se referem ao processo e resultado da introspecção (LANCSAR e LOUVIERE, 2006).
Não é possível validar externamente as preferências reveladas em uma valoração contingente, ou seja, não há valores dados por “preferências perfeitas” (externas ou invariáveis) com os quais se possa comparar os resultados de um estudo. Por isso, são feitas hipóteses sobre as preferências que, ao serem seguidas, as caracterizam como coerentes. Assim, são utilizados testes de validade de construção para comparar os resultados com a estrutura teórica utilizada. “Um revés de preferência existe quando dois métodos estrategicamente equivalentes usados para testar preferência entre objetos gera resultados conflitantes” (KAHNEMAN et al., 1999). Para lidar com isso, a consistência em relação às hipóteses da escolha racional é uma forma de se validar internamente um estudo de valoração.
Bateman et al. (2008), citam três possíveis visões sobre as preferências racionais individuais. Elas podem ser: (i) Bem formadas a priori; (ii) Aprendidas ou descobertas pelo processo de repetição e experiência; (iii) Internamente coerentes, mas fortemente influenciadas por alguma âncora arbitrária inicial.
Além destas versões de preferências contínuas (mesmo que ainda possam ser instáveis), existe a visão teórica de preferências descontínuas, chamadas lexicográficas, em que a pessoa nega a troca entre alternativas propostas. Para melhor definir estes tipos de descontinuidades, são usados também outros conceitos, apresentados por Kahneman et al. (1999), como de ‘expressão de atitude’, que é emprestado da psicologia social, e o processo de ‘valoração afetiva’, que dão nova luz a problemas enfrentados muitas vezes de maneira inadequada pela teoria tradicional. Estas tentativas são importantes para se entender diversos possíveis problemas com o MVC, que envolvem votos de protesto, rejeição do cenário, dando também a possibilidade para uma análise mais profunda sobre as diferentes motivações das DAPs, de maneira a fazer ajustes e melhorar os resultados primários da DAP média. Esses tópicos serão vistos após a apresentação da teoria ortodoxa das preferências.