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Beneficiados Bens partilhados

Igreja 288 (76,0%)

Índios 73 (19,3%)

Funcionários 18 (4,7%)

Total 379

Pelas chamadas Leis de Liberdade de 6 e 7 de junho de 1755, os bens e comércio dos Índios deviam ser administrados por eles próprios a partir de então. No entanto, o Diretório contradisse essas leis em seu preâmbulo, afirmando que os índios não tinham capacidade para tal, que não sabiam cuidar de suas pessoas e bens e, por isso, precisavam de alguém que fizesse isso por eles e, ao mesmo tempo, os ensinasse a administrá-los, daí a figura do Diretor que devia introduzir os índios na forma “civilizada” de viver, isto é, aquela vivida pelos luso-brasileiros.

Admitindo que esse pensamento salvacionista e civilizador norteou as determinações e ações dos governantes ao estabelecerem as novas Vilas de índios, até mesmo a distribuição de bens serviria como meio estratégico para os “transformar”. O Governador de Pernambuco que definira que somente os Principais, Capitães-mores e demais oficiais das Companhias de Ordenanças deveriam receber o gado arrolado, justificava esta distinção dizendo que era “... justo distingui-los e contemplá-los a fim de

que os outros lhes conservassem os respeitos...”, e ainda “... é preciso contentá-los para lhes segurar o domínio dos outros...” 269. Era, portanto, a hierarquização e diferenciação social que se pretendia alcançar, visando introduzir os beneficiados na forma individualista e competitiva da sociedade luso-brasileira e que era essencial tanto ao controle tributário dessa população quanto ao controle social e militar, mesmo que a esses indivíduos não tenha sido dada a propriedade desses bens mas apenas a sua posse.

269

BNRJ – II-33,6,10, doc. 2, fl. 7-12, Carta do Governador de Pernambuco, Luiz Diogo Lobo da Silva, ao Secretário de Estado, em 13/06/1759.

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A Tabela 5, “Bens Partilhados por cada Categoria de Beneficiado”, apresenta o que cada categoria individual de beneficiado recebeu na partilha dos bens nas novas Vilas da Capitania do Rio Grande, entre eles estão, em destaque, os índios que ocupavam os postos militares ligados às Companhias milicianas formadas pelos índios em cada uma das Vilas. O que se nota é que os índios foram os menos favorecidos na distribuição, apesar de que esses poucos bens recebidos pelos índios participantes das Ordenanças fariam uma diferença bastante acentuada, comparando-se com o restante dos índios que nada receberam.

Nesse processo de inventariação, arrolamento e repartição dos bens que tinham sido das antigas Missões, os índios não ficaram imobilizados pelas mudanças e novidades. Ao contrário, falaram e agiram em defesa de seus interesses dentro de limites que lhes era possível no enfrentamento com os funcionários régios e representantes eclesiásticos.

Nos dois sumários feitos para se estabelecer a origem dos bens das Missões de Guajiru e Guaraíras, os índios depoentes foram categóricos em afirmar que tinham sido obtidos através das suas esmolas, o que vale dizer, de seu trabalho e determinação, sempre pondo em dúvida a participação do dinheiro da Companhia de Jesus e da Igreja na compra deles. Se não conseguiram com isso resguardar a posse desses bens (o Ouvidor decidira que eram bens da Igreja) deve-se aos acordos entre estado e Igreja, mas não a sua apatia e mudez.

Da mesma forma, quando a distribuição dos bens não saiu como esperavam, não ficaram acuados pela presença do Diretor e dirigiram-se diretamente ao Governador de Pernambuco, como o “criador” do gado de Arez que não conformado em ficar fora da partilha solicitou que também fosse pago pelo tempo que cuidara do gado que estava sendo distribuído. Este mesmo fato pode ser pensado diferentemente, isto é, como uma mostra de que a estratégia de difundir a disputa pela posse dos bens não era nova, como poderia pensar o Governador, e que os índios já haviam aprendido desde há muito a lutar com as armas dos inimigos.

3.3 – A construção do espaço urbano: ordem e disciplina

As pequenas povoações missioneiras do Rio Grande do Norte na primeira metade do século XVIII eram caracterizadas pela centralização e ordenamento da vida cotidiana em torno do terreiro defronte à igreja e seus horários. Têm-se algumas poucas descrições da forma que tinham, mas todas descrevendo comunidades pobres e estabelecidas numa organização espacial que mais lembrava uma aldeia indígena do que uma Vila colonial, principalmente pela convivência comunal que propiciava e pela possibilidade de manutenção de práticas culturais indígenas.

No dizer de José Pessôa, apesar dos poucos estudos sobre a forma das Missões, há alguns princípios básicos seguidos, onde o “...modelo primeiro é o da grande praça

relvada, aberta em um dos lados com a Igreja ao fundo, e o correr de casas nas laterais, do qual ainda se mantêm como excelentes testemunhos, as cidades de Vila Flor, Arez e São José do Mipibu no Rio Grande do Norte.”270 Não há divergências sobre essa descrição da forma das Missões no Rio Grande do Norte, no entanto, a permanência dessa estrutura formal nas cidades atuais, apontada por Pessôa, pode estar mais ligada às novas estruturas de Vila, assumidas na segunda metade do século, do que propriamente à da Missão.

A descrição pictórica de um aldeamento indígena no período holandês feita por Zacharias Wagner nos dá a noção do arranjo espacial de uma Missão com seu terreiro retangular cercado por habitações indígenas rudimentares, tendo em um dos lados menores do retângulo uma pequena igreja de madeira com sineira. (Gravura 1) Tanto a igreja, quanto as casas do aldeamento tinham uma estrutura de pouca durabilidade, geralmente fabricadas com madeiras, barro e cobertura de folhagens.271 Ao seu redor estava demarcada a légua quadrada de terras (aproximadamente 36 km2) que havia sido concedida por força do Alvará de 23 de novembro de 1700 que garantia às Missões a sua posse para que nelas se organizassem as lavouras e se praticassem a pesca e a caça que garantissem a subsistência da população.272 No Rio Grande do Norte, quatro das cinco Missões religiosas existentes tinham suas terras demarcadas com a garantia do seu uso exclusivo pelos índios

270

PESSÔA, José. Em tudo semelhante, em nada parecido: modelos e modos de urbanização na América Portuguesa.

Oceanos: A construção do Brasil urbano, n. 41, p. 73, jan./ mar. 2000.

271

Sobre a estrutura das Missões cf. também COSTA, Lúcio. A arquitetura jesuítica no Brasil. Revista do Serviço do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, v. 5, p. 9-110, 1941; TOLEDO, Benedito Lima de. Do século XVI ao início

do século XIX: maneirismo, barroco e rococó. In: ZANINI, Walter (Org.). História geral da arte no Brasil, p. 114- 127; e BARROS, Clara Emília Monteiro de. Aldeamento de São Fidélis.

272

Alvará sobre a medição da légoa de terra para as aldeias [de 23 de novembro de 1700]. Anais da Biblioteca Nacional

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das Missões, mesmo que à custa de muitos conflitos com a vizinhança. A única que não tinha terras demarcadas era a Missão de Igramació, apesar do reconhecimento régio da presença imemorial dos indígenas naquele local e das terras concedidas aos Carmelitas que missionavam entre os Potiguara da povoação.273

O último missionário capuchinho que atuou na Missão de Mipibu no Rio Grande do Norte, Frei Aníbal de Gênova, descreveu a singeleza da sua Missão em 1760, bastante semelhante à descrição pictórica de Wagner:

“Esta aldeia foi construída sob a direção dos nossos missionários com a forma de uma praça de armas, com as casas todas unidas à maneira de um quartel de soldados. A aldeia está situada numa planície muito grande, sendo as casas dos oficiais situadas nos cantos e bastante mais altas que as outras, com duas portas uma ao lado da outra pelas quais se entra e sai. Há uma igreja de uma nave só bastante grande e bem fornecida de todos os ornamentos necessários muito decentes...” 274

O Diretor da nova Vila de Estremoz, contudo, fez uma descrição bem diferente da povoação missioneira que viu quando chegou à Missão de Guajiru, em 1760: “... poucas

casas de telha, e muito pequenas, com pouca direção e ordem, porque umas estão metidas para dentro, e outras para fora com pouco modo de se aumentarem, por ser muito pobres...”275

Essas Missões, enquanto estrutura urbana, eram pobres, rústicas e organicamente organizadas, isto é, conforme o modelo sugerido por Sylvio Vasconcelos, foram construídas adaptadas às condições ambientais, criadas livremente pelos povoadores, funcionários régios ou eclesiásticos e baseadas numa irregularidade do traçado que obedecia à topografia.276 Eram povoações com organização espontânea, informal e, algumas vezes, improvisadas que pareciam ao olhar setecentista, como o do Governador de Mato Grosso, como uma demonstração de “...negligência, incivilidade e desordem” que

273

Ver nota 41 do Capítulo 1. Cf. também em LOPES, Fátima M. Índios, colonos e missionários na colonização da

Capitania do Rio Grande do Norte, p. 188.

274

BCCIC, Viaggio in África e América portoguesa fatto dal p. Annibale da Genova...

275

AHU, cód. 1822, Cópia da carta do Diretor da Vila de Estremoz, Antônio de Barros Passos, ao Governador de Pernambuco, Luiz Diogo Lobo da Silva, em 02/-7/1759.

276

necessitavam ser mudadas para “introduzir-lhe quanto possível fosse, um modo de viver

menos grosseiro, e silvestre e aquela sujeição de que tanto precisavam.”277

Esta citação nos permite admitir que as povoações missioneiras, apesar de seu caráter urbano, não haviam atendido às intenções metropolitanas. Segundo Nelson Omegna, elas foram apenas capazes de criar “...uma civilização material, mas não

conseguiram criar os cidadãos porque não puderam despir os seus moradores indígenas da alma inurbana.”278 Isto porque, apesar dos limites da légua quadrada impostos pela colonização, as Missões e seus habitantes continuavam ligados aos espaços naturais circundantes, integrados à “paisagem verde” dos campos, permitindo a manutenção de muitos aspectos da cultura indígena e, por isso, continuavam a excitar o desejo “civilizacional” dos colonizadores. As vilas e cidades coloniais, ao contrário, eram “espaços culturais”, finitos, delimitados por cercas, valadas e tapagens; lugares da “...cultura estatal, eclesiástica, militar, policial, mercantil, humanista, monetária e

legalista...”, que se opunha ao caos dos descampados e que pretendiam que fosse o lugar

de “civilização”.279

As Missões ao serem transformadas em Vilas deveriam apresentar, portanto, uma nova organização espacial para atender às intenções “civilizacionais” do Diretório: “a

reforma dos abusos, dos vícios e dos costumes destes povos” (§ 93). Assim, deveriam

apresentar, à semelhança das vilas coloniais, uma ordenação das ruas, dos locais para a construção da praça central, dos prédios da administração colonial e dos espaços públicos que deveriam ser reservados para os currais comunitários e oficinas públicas. Deveriam também atender às determinações régias para que na criação das Vilas do Estado do Brasil seguissem as definições que haviam sido dadas para a criação da Vila de São José, da nova Capitania do Rio Negro. Essas determinações régias quanto à construção dos espaços das vilas eram para que o Ministro encarregado da criação das Vilas determinasse

“...o lugar mais próprio para servir de praça, fazendo levantar no meio dela o

Pelourinho, assignando área para se edificar uma igreja, capaz de receber o competente número de fregueses quando a povoação se aumentar; como também as outras áreas competentes para as casas das vereações e audiências, cadeias e 277

Carta do Governador de Mato Grosso, Luís de Albuquerque e Cáceres à Metrópole, em 04/01/1774, apud FARIA, Miguel. Mato Grosso: Estado fronteira. Oceanos: A formação territorial do Brasil, n. 40, p. 176, out./ dez. 1999.

278

OMEGNA, Nelson. A cidade colonial, p.13.

279

194

mais oficinas públicas, fazendo delinear as casas dos moradores por linha reta de sorte que fiquem largas e direitas as ruas.”280

Esta formatação proposta era muito assemelhada à descrição que o Frei Aníbal de Gênova fez da Missão de Mipibu, principalmente pela existência da grande praça e pelo ordenamento retilíneo das casas “à maneira de um quartel”. No entanto, a da Missão de Guajiru, ao contrário, dava mais a idéia do desregramento espacial que era, afinal, associado a um desregramento moral que se queria extirpar dentre os índios.

E nisso, pode-se pensar com Antônio Rodrigues quando estudou os modelos imagéticos das cidades européias redefinidos a partir da renovação mental do homem renascentista. Na América, como um espelho, abria-se a possibilidade da renovação, onde o que era corrompido poderia ser corrigido. Era a concretização na América de um modelo europeu de reforma da cidade real para atingir uma “cidade ideal” de escopo renascentista que perdurava no imaginário barroco, associada à idéia de uma cultura aristocrática e de um refinamento estético expressos principalmente pela geometrização definida por critérios de organização e ordenação do espaço, que seria capaz de “...alterar hábitos e

produzir novas relações de sociabilidade.”281

Geralmente, nos estudos sobre o urbanismo colonial na América, essa organização do espaço em busca de uma “cidade ideal” era vinculada apenas aos espanhóis na construção de suas cidades e vilas na América282, no entanto, admite-se hoje que o século XVIII vai presenciar a um esforço português semelhante, principalmente no sentido de aplicar um planejamento urbano mais efetivo. É o que defendem Paulo Santos283, Maria Helena Ochi Flexor284 e Roberta Marx Delson285 para as novas vilas que foram formadas, seja a partir dos aldeamentos indígenas, seja de pequenos núcleos coloniais ou de complexos militares, através de um planejamento e de um traçado pré-definidos.

280

IHGRN, Livro de Registros da Antiga Vila Flor, fl. 15-22, Cópia da Carta Régia pela qual se mandou estabelecer a Vila nova de São José do Rio Negro, ao Governador do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, datada de 3 de março de 1755.

281

RODRIGUES, Antônio E. M. Os sonhos renascentistas: cidades ideais e cidades utópicas. In: RODRIGUES, Antônio E. M. e FALCON, Francisco J. C. Tempos modernos: ensaios de história cultural, p. 132-43.

282

Idéia defendida por Sérgio Buarque de Holanda no capítulo 4 “O semeador e o ladrilhador”, de seu Raízes do Brasil, p. 61-100.

283

SANTOS, Paulo. Formação das cidades no Brasil colonial.

284

FLEXOR, Maria Helena Ochi. Núcleos urbanos planeados do século XVIII e a estratégia de civilização dos índios do Brasil. In: SILVA, Maria Beatriz Nizza da (Org.). Cultura portuguesa na Terra de Santa Cruz, p. 79-88

285

Para Maria Helena Flexor, “...o traçado regular pombalino substituiu a

morfologia urbana livre do urbanismo luso e começou a assimilar a experiência hispano- americana...”286,na construção das vilas e cidades, conforme já o dissera Paulo Santos287. Era, no dizer da autora, um planejamento resultante de uma “...vontade do governo luso em

povoar efetivamente o vasto território do seu domínio através de uma política urbanizadora...”, que previa a criação de novas povoações coloniais e a elevação das

aldeias indígenas em vilas de forma ordenada.288

No entanto, Roberta Delson demonstra que mesmo antes do Ministério do Conde de Oeiras, desde o início do século XVIII no governo de D. João V e, independentemente de uma influência espanhola, os portugueses já utilizavam a mesma política de urbanização planejada com a finalidade de intensificar a interiorização e o controle social e político da população já interiorizada, principalmente dada a movimentação da população colonial que acontecia com as descobertas e exploração minerais.289 Roberta Delson ressalta que a criação das vilas planejadas destinava-se principalmente a “...controlar as atividades de

vagabundos e desordeiros... agrupando tais elementos à força em povoações adrede criadas... [a fim de] ´reduzir` a população errante, exatamente a mesma terminologia empregada pelos missionários nas suas ´reduções` (aldeias).”290 Sobre essa aproximação ideológica entre figuras consideradas com um estatuto social bastante inferior - vagabundos, vadios, ciganos e indígenas - que deveriam ser controladas e direcionadas à uma vida “civilizada”, remete-se ao que foi comentado no capítulo 2.3, sobre o pensamento de Michel Foucault.

A construção ou reordenamento planejado das aldeias e Missões indígenas, ordenados pelo Conde de Oeiras, na segunda metade do século XVIII, eram então um aspecto dessa política de povoamento do interior do governo metropolitano português e seguiriam o que passou a ser o “modelo” urbanístico em vigor, isto é a geometrização das

286

Op. cit., p. 84.

287Op. cit., pp. 64 e 68. 288

FLEXOR, Maria helena Ochi. Op. cit., p. 79-80.

289 DELSON, Roberta. Op. Cit., p.9-16. Há ainda outro autor, Nestor Goulart Reis Filho, que em sua obra Evolução

urbana do Brasil que defende a existência de uma legislação reguladora da construção das cidades portuguesa, no

entanto, só analisa as vilas até 1720. Em seus trabalhos posteriores também aceita que no século XVIII a administração portuguesa passou a aplicar no Brasil “políticas urbanísticas de controle mais amplo e diversificado, que incluíam

também a padronização das fachadas, com normas técnicas que assegurassem, nas ruas e praças, uma aparência semelhante à das cidades portuguesas. As casas deveriam ter todas a mesma altura em suas fachadas, com portas, janelas e arremates dos telhados sempre alinhados, de modo a que produzissem a aparência de um conjunto, ainda que as unidades fossem produzidas em diferentes momentos.” REIS FILHO, Nestor Goulart. As primeiras cidades e

vilas do Brasil: importância da vida urbana colonial. Oceanos, n. 41, p. 67, jan./ mar. 2000.

290

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Vilas, através do estabelecimento das praças regulares e bem traçadas, além das fachadas uniformes e regulares das casas.

Novas Vila: espaços de poder e domínio coloniais

A primeira Vila ordenada a ser construída nesses moldes sob o Ministério de Oeiras e sob o governo de seu irmão no Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, foi a Vila de São José do Rio Negro, com Carta Régia datada de 3 de março de 1755291. No entanto, a sua legislação básica era semelhante, quanto às definições do espaço da vila, às Ordens Régias emitidas anteriormente para a criação das Vilas do Icó, de 1736292, da Vila de Aracati, em 1748293, e, principalmente, a da Vila Bela da Santíssima Trindade, de 1746:

“...se determine o lugar da praça no meio da qual se levante o pelourinho, e se assinale área para o edifício da igreja capaz de receber o competente número de fregueses, quando a povoação se aumente, e fará logo ele o Ouvidor delinear por linhas retas, a área para as casas se edificarem deixando ruas largas e direitas, e em primeiro lugar se determine nesta área, as que devem fazer para a Câmara, cadeia, casa de Audiências , e mais oficinas públicas...” 294

Os editais que o Juiz de Fora Castelo Branco fez para a criação das Vilas de São José e de Vila Flor no Rio Grande do Norte eram concordantes com estas determinações régias, inclusive nos termos utilizados, e traziam impressas a convocação para que a população presenciasse a medição do que se destinaria para “... lugar que há de servir de

Praça com Pelourinho, assignando área para as ruas que de novo se devem formar, e a competente para casas de vereação e audiência e cadeia, oficinas públicas, e moradas proporcionadas a cada um dos habitantes, logradouros comuns, patrimônio da Câmara e Distrito do Termo.”295

291

MENDONÇA, Marcos Carneiro, A Amazônia na era pombalina, v.2, p. 652-655.

292

SANTOS, Paulo, Op. cit., p. 51-52.

293Ibidem, p. 53. 294

Ibidem, p. 65-66.

295

IHGRN, LCPCSJM, fl. 2-13v., Cópia do Edital que se afixou com as Ordens Régias nele incorporadas para a criação da nova Vila, em 20/02/1762; IHGRN, Livro de Registros da Antiga Vila Flor, fl. 1-12, Cópia do Edital que se fixou com as Ordens Régias para a criação da nova Vila, em 07/10/1762.

No delineamento desses espaços destinados às várias ocupações eram utilizados instrumentos de medição como “astrolábio”, “semi-círculo dimensório”, “agulha” [bússola] e corda manuseados pelo Sargento de Artilharia Antônio Albino do Amaral, “curioso da geometria e inteligente do instrumento da bússola” e Sebastião Gonçalves dos Santos, ajudante da corda. 296 Pode-se pensar, conforme Patrícia Seed, que esta era a maneira portuguesa de tomar posse dos novos espaços para a colonização, medindo as terras, demarcando os limites, plantando marcos físicos, como os padrões de pedra que eram chantados nessas demarcações. Segundo esta autora, os portugueses faziam dessas atividades demarcatórias parte das cerimônias e rituais que instituíam a posse e sancionavam o poder régio no Novo Mundo.297

Nesse sentido, as antigas terras indígenas, de posse imemorial como o próprio Rei e seus funcionários admitiam e já demarcadas anteriormente, eram transformadas agora em

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