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Professora de Física e pesquisadora em Ensino de Física: entre a Escola e a Academia

T RAJETÓRIA ESCOLAR DE ELEVADO APROVEITAMENTO

Diante de um contexto familiar marcado pelo magistério e pela valorização dos estudos, Fernanda teve uma trajetória escolar de muito sucesso. De alguma maneira a gente sempre teve

a ideia de que estudar era uma coisa importante. Antes mesmo de ingressar na escola regular,

a mãe e a avó já a ensinaram a ler e escrever as primeiras palavras. Fernanda entrou na escola com cinco anos de idade. Nesse primeiro ano, segundo o que sua mãe lhe contou, acabou não permanecendo o ano inteiro, pois, uma estagiária que auxiliava a professora havia saído da escola. Fernanda sentiu muito a saída da estagiária e por esse motivo só conseguiu voltar quando ela também voltou, no ano seguinte. [...] minha mãe conta que eu não quis ir mais para a escola

e só chorava, pois não tinha mais uma relação afetiva com aquela moça. Aí como a estagiária ia voltar no próximo ano, foi quando de fato fui para a escola e fiquei direto.

Todo o percurso de Fernanda na escola básica foi em um mesmo colégio, uma instituição particular de ensino que ficava localizada no bairro onde morava. Eu estudava em uma escola

particular do bairro. Eu entrei nessa escola no jardim e fiquei até o ensino médio. Tratava-se

de uma escola de referência no bairro, muito antiga, considerada de cunho tradicional, muito rígida com relação à disciplina dos alunos e que exigia muito esforço para que se obtivesse aprovações. Nessa escola, os alunos tinham contato, desde o ensino fundamental, com aulas de línguas como latim, francês, espanhol e inglês. Além da irmã, a mãe de Fernanda também havia estudado nessa escola. Sua avó estudou em outra escola que era localizada no mesmo terreno. Assim, toda a família tinha uma relação de grande apego com aquele espaço: Eu tive uma

relação forte com esta escola, pois foi a única que eu estudei. As pessoas de lá, a estrutura de lá, era uma escola antiga, minha mãe estudou nessa escola [...]. Desde quando estava no

Ensino Fundamental, a mãe de Fernanda lecionou nessa escola, porém nunca chegou a ter a filha como aluna. Elizete continuou atuando nessa instituição até o seu fechamento. Na época das entrevistas, a referida escola não existia mais; Fernanda nos contou que ela havia sido demolida havia alguns anos, dando lugar a um estacionamento. O desaparecimento daquela escola foi um “choque” para todos do bairro, sobretudo para a família de Fernanda. Ela conta que atualmente não consegue sequer deixar seu carro no estacionamento onde era localizada a escola, tamanha a afeição que tinha com aquele espaço escolar, que agora não existe mais. Eu

não deixo meu carro lá, não dá para mim.

Em seu percurso escolar de elevado sucesso, Fernanda colecionou, além de constantes notas altas em todas as disciplinas, inúmeros prêmios e aprovações com muita tranquilidade.

Eu tenho um histórico de sempre ser uma aluna muito exemplar, de ter notas muito altas em todas as matérias. Desde muito cedo, já no ensino fundamental I, Fernanda teve uma

poesias: Eu lembro que eu ganhei o concurso daquela série, que era de falar o poema, de

interpretação e conteúdo do poema. Também era comum a premiação dos alunos que

obtivessem melhor desempenho durante o ano. Fernanda chegou a ganhar esse prêmio algumas vezes. Conta que no ensino fundamental II foi premiada com uma calculadora científica que ela utilizou durante sua graduação inteira e que guarda até os dias atuais: Era uma calculadora de

qualidade e eu gostava de usar por ser uma coisa que veio da minha infância. Eu ganhei aquilo porque eu estudava.

Com relação aos esportes, ela declara que, diferentemente de seu desempenho escolar, não teve distinção em nenhum deles, mas nunca deixou de participar das atividades esportivas da escola. Gostava de praticar alguns esportes, como vôlei e handebol, e, muitas vezes, os utilizava para se aproximar de meninas com as quais não tinha tanta proximidade. Justifica o fato de não ter um desempenho brilhante no esporte por ser pouco competitiva: Eu não era

muito boa, mas eu gostava de participar das coisas [...] Eu nunca fui muito competitiva, tinha certa dificuldade com uma competição muito exacerbada.

Em uma escola que valorizava muito o ensino de idiomas, Fernanda logo pegou interesse pelo estudo de línguas, chegando a cursar Espanhol em uma escola especializada. Eu queria

fazer francês na verdade, mas era muito caro e não tinha, aí eu acabei indo para o Espanhol, que eu amo de paixão até hoje. O estudo da língua espanhola se tornou uma paixão para

Fernanda, possibilitando que ela conhecesse outras culturas sem precisar viajar. Lembra com especial apreço das aulas de idiomas e recorda-se com bastante satisfação de suas aulas de língua portuguesa na escola, que, para ela, foram responsáveis por todo seu talento com a escrita:

[...] as pessoas sempre dizem que eu escrevo bem, e de fato eu sei que eu escrevo muito bem e eu sei que isso não foi por conta da faculdade, foi por conta daquela escola, eu tenho muita clareza disso, de desenvolver a escrita nas aulas de redação, onde a professora falava: “use essa regra, isso se escreve assim”.

Fernanda atribui, ainda a essa fase escolar, a maneira como ela é disciplinada com seus compromissos. Para ela, ter passado por aquele contexto, caracterizado como uma escola rígida em relação a regras e disciplina, foi de fundamental importância para que carregasse essa característica com ela, tão salutar para sua trajetória acadêmica posterior. Essa coisa da rigidez

da escola me deu bastante disciplina, em outros aspectos da minha vida isso ajudou muito. De você ter regras, ter rotinas, ter horários para fazer as coisas, acho que a escola ajudou nisso.

O anseio de Fernanda em ser professora foi despertado durante o ensino fundamental II, onde, em uma aula de Matemática, ela se deu conta do quanto gostava daquilo e da importância de se trabalhar com o que realmente gosta.

Eu tenho certa clareza de quando eu resolvi ser professora [...] eu me lembro que foi na sétima série quando eu tive uma aula em que a professora de Matemática, que eu adorava e que é minha grande amiga hoje, deu aula e depois, por ter faltado um professor, deu uma aula a mais do que ela tinha que dar.

Fernanda conta que, naquela ocasião, grande parte da turma reclamou do fato de ter mais uma aula de Matemática, mas ela, ao contrário, exclamou: “gente, mas é aula de Matemática,

é tudo que há de melhor no universo!”. O episódio em questão fez com que Fernanda refletisse

sobre essa sua relação com a Matemática, disciplina que era odiada por muitos outros alunos e adorada por ela:

[...] eu me lembro de pensar: “nossa, mas é estranho, porque só eu estou contente que vai ter aula de Matemática e as pessoas não estão contentes como eu”. Aí eu entendi. Achava que a Matemática era uma coisa que eu gostava e todas as provas tirava dez em tudo, era muito boa, fazia tudo, a professora gostava de mim. [...] acho que eu entendi que eu queria ser talvez professora de Matemática naquele momento, pois na sétima série não tinha aula de Física.

Assim, inicialmente seu desejo era se tornar professora de Matemática, bem como sua mãe e aquela professora que gostava dela.

Paralelamente a isso, fruto do investimento escolar de sua família, Fernanda fazia um curso de Espanhol em uma escola de idiomas. Muito rapidamente, estabeleceu com a professora de Espanhol uma relação de bastante afeto e, ao mesmo tempo, espelhou-se nela profissionalmente. Assim, também vislumbrava lecionar Espanhol: Eu adorava minha

professora de Espanhol e eu falava: “eu quero ser professora de Espanhol também em algum momento”.

De fato, essas professoras, de Matemática e Espanhol, tiveram grande importância na trajetória de Fernanda, mas quem viria a ser seu grande espelho e alvo de maior admiração era o professor de Física do ensino médio. Segundo ela, foi ele o responsável por sua paixão pela Física e por inspirar seu percurso no ensino de Física.

Ele era um professor de extrema inteligência, de uma inteligência absurda, ele era excelente em dar exemplos, um cara super afinado com a Física e preocupado com os alunos, às vezes um pouco incompreendido, pois essas práticas inovadoras os alunos não estavam acostumados.

O que mais chamou a atenção de Fernanda foi a maneira como ele conduzia o ensino em sala de aula, com práticas muito inovadoras para aquela época e escola, que cultivava métodos mais tradicionais de ensino. Esse professor tinha uma prática, que depois eu pude perceber,

graduação em Física, Fernanda percebeu que aquele professor utilizava o material do GREF71 em suas aulas, assim, ela pôde entender melhor aquelas práticas e o quanto foi cativada por elas: [...] depois na faculdade, quando fui entender, ele estava seguindo o GREF.

A partir daquelas aulas, Fernanda se deu conta de que a Física prevalecia sobre a Matemática no que se refere a seus anseios profissionais. Aos poucos, com as práticas inovadoras do referido professor, as experimentações trazidas por ele e a forma como apresentava aquele tipo de conhecimento, Fernanda foi amadurecendo a ideia de se tornar professora de Física.

Foi com ele que eu vi experimentos de Física, dei seminários com experimentos que a gente tinha que levar para mostrar alguns fenômenos, levava e explicava lá na frente. Essas coisas me levaram a entender que essa coisa da experimentação era muito forte para mim e que a Matemática não me preenchia. Eu gostava da Matemática, mas como uma coisa que me ajudava a entender os fenômenos, entendia que a Matemática seria uma ferramenta, a grosso modo, e não seria a minha praia. A decisão de Fernanda, ainda no ensino médio, de fazer graduação em Física, não foi bem recebida por muitos de seus colegas e professores da escola, que a consideravam “muito inteligente para fazer Física e ser professora”. Para eles, Fernanda deveria usufruir de sua inteligência para fazer um curso mais valorizado socialmente, por exemplo, Medicina: As

pessoas não aceitavam muito que eu fosse fazer Física. As pessoas falavam: “você é tão boa aluna, você tem que fazer Medicina”. Cabe destacar que essa não era visão dos pais de

Fernanda, que sempre a apoiaram em suas escolhas, sobretudo sua mãe, que também era professora. A minha mãe nunca falou para eu fazer Física, mas ela também nunca falou para

eu não fazer. O que a gente fizesse lá em casa ela ia respeitar, até porque hoje ela vê o quanto minha trajetória foi diferente da dela. A expectativa dos outros para que ela se tornasse médica

nunca a abalou e não foi capaz de fazer com que ela declinasse de sua opção de fazer a graduação em Física.

Ao percorrermos o caminho de Fernanda no contexto da escolaridade básica, ficou claro o papel de sua família, que deu todo o suporte para que conseguisse ter um percurso escolar de elevado aproveitamento. Essa inculcação ideológica simbólica, presente desde muito cedo em sua família, a nosso ver, teve o efeito de gestar uma disposição ao conhecimento, tanto em Fernanda quanto em sua irmã, Deborah. Essa crença de que a educação é importante eu acho

que é uma coisa que a gente sempre teve lá em casa. A valorização e os investimentos nos

71 O Grupo de Reelaboração do Ensino de Física é composto por professores da Educação Básica e docentes do

Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) que, na década de 1980, além de investir na formação continuada de professores de Física, elaborou uma coleção de três volumes. Os livros, publicados pela editora da USP, são direcionados a professores de Física e apresentam os conteúdos a partir de elementos do cotidiano dos estudantes, contendo ainda sugestões de atividades, bem como exercícios resolvidos e propostos.

estudos e na aprendizagem por meio da escola, em detrimento de outros bens materiais, nos revelam um contexto altamente favorável para a gênese de uma disposição ao conhecimento.

A gente ficou muito tempo sem carro em casa e a gente se queixava às vezes que não tínhamos carro. Aí minha mãe dizia: “é, mas eu pago escola particular para vocês”. Ela tinha razão. Ela pagava o curso de Espanhol, curso de Informática. Minha mãe sempre pagou; a prioridade sempre foi essa, nunca foi comprar roupa cara de marca ou viajar para outros lugares.

Seu encantamento e satisfação com os estudos durante toda sua trajetória na escola básica são fortes indícios de que o contexto familiar teve influência decisiva sobre a relação que estabeleceu com o conhecimento, algo que perpassou também toda sua trajetória acadêmica e profissional.

ENSINO SUPERIOR: DUAS GRADUAÇÕES, DOIS CAMINHOS QUE LEVAM PARA A

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