CAPÍTULO 7 – ANÁLISE DOS RESULTADOS 149
7.2. Relativas de sujeito e de objeto com e sem extração longa
Ao longo desta secção, serão apresentados os resultados na tarefa de imitação provocada, na tarefa de juízo de valor de verdade e na tarefa de juízo de referência, através das quais foram testadas as seguintes estruturas:
• Relativas de sujeito e de objeto com extração curta (76a e 76b respetivamente)
(76) a. RSeC - Este é o elefantei [que _i mordeu o urso].
b. ROeC - Este é o cavaloi [que o urso empurrou _i].
• Relativas de sujeito e de objeto com extração longa (77a e 77b respetivamente):
(77) a. RSeL - Este é o elefantei [que o cão disse que __i empurrou o cavalo].
b. ROeL - Este é o leãoi [que o cavalo disse que o porco lambeu __i].
Através da análise da performance na produção e compreensão das frases testadas, pretende-se averiguar de que forma as crianças em estudo se comportam na compreensão e produção de estruturas que diferem quanto à função sintática do constituinte extraído, ou seja, perante relativas de sujeito e de objeto, e em termos de complexidade, variando as frases relativas relativamente ao fator extração curta ou longa, como se pode verificar através dos exemplos em (76) e (77), respetivamente.
Evidentemente, as frases em que se assume existir um nível acrescido de complexidade, no caso as relativas que envolvem extração longa (RSeL e ROeL), são frases que inevitavelmente têm uma maior extensão, o que, por si, poderá constituir uma dificuldade acrescida para as crianças, particularmente no caso da tarefa de repetição. No entanto, a análise relevante é a comparação entre as estruturas com extração a partir da posição de sujeito e as estruturas com extração a partir da posição de objeto, tentando perceber se há um
Capítulo VI – Resultados
Página | 166 contraste de dificuldade que seja exacerbado no caso das estruturas mais complexas.
Desta forma, as variáveis consideradas para a análise estatística dos resultados nesta tarefa foram precisamente a Função Sintática do constituinte extraído (sujeito ou objeto) e a Complexidade (extração curta ou extração longa).
Como referido no início deste capítulo, para a análise estatística dos dados obtidos em cada uma das tarefas que testaram as condições referidas, foi utilizado um modelo GLMM, no qual foram inseridos os fatores fixos Grupo e a interação entre Grupo, Função Sintática e Complexidade. O fator Sujeito foi introduzido como variável aleatória. De forma equivalente em todas as tarefas, o modelo incluiu todos os grupos DT, das diferentes faixas etárias, e os grupos com desenvolvimento linguístico atípico, i.e. PDL(QIn) e PEA(+PL).
De seguida, são apresentados os resultados obtidos em cada tarefa.
7.2.1 Tarefa de imitação provocada
No caso desta tarefa, por se tratar de uma tarefa de repetição, foi necessário definir antecipadamente os critérios segundo os quais determinada produção seria classificada como erro ou como acerto. Esses critérios foram definidos tendo em conta as variáveis que se pretendem estudar. Assim, foram considerados como acertos as produções em que a criança preservou a estrutura sintática alvo (oração relativa).
Como erros na produção foram considerados os casos em que a estrutura sintática alvo foi alterada: estruturas agramaticais; ocorrência da omissão de um constituinte relevante para a estrutura sintática, como por exemplo o complementador; alteração da posição de extração de determinado constituinte; casos em que a estrutura produzida não correspondia ao tipo de relativa pretendido, como por exemplo, a produção de uma relativa de sujeito, quando se pretendia a produção de uma relativa de objeto.
Capítulo VI – Resultados
Página | 167 Por se tratar de uma tarefa de produção, procedeu-se à contabilização e classificação dos tipos de erros cometidos pelas crianças. No final desta secção, será apresentada a análise dos erros produzidos pelas crianças nos grupos com desenvolvimento atípico.
Os resultados obtidos na repetição dos enunciados testados podem ser observados no gráfico 3, que representa a percentagem de respostas corretas apresentadas pelas crianças nos diferentes grupos.
Gráfico 3 – Percentagem de respostas corretas por grupo - Tarefa de imitação provocada
Legenda: RSeC - Relativas de sujeito com extração curta; ROeC - Relativas de objeto com extração curta; RSeL – Relativas de sujeito com extração Longa; ROeL – Relativas de objeto com extração Longa.
Analisando os dados expostos no gráfico 3, verificamos que, tal como esperado, no caso das crianças dos grupos DT, parece existir um efeito de desenvolvimento que afeta a performance das crianças dos vários grupos na produção das quatro estruturas testadas nesta tarefa. Como se pode verificar, o aumento das percentagens de acerto em todas as estruturas testadas acompanha o aumento da idade. Observando de forma particular cada uma das estruturas testadas, a análise do Gráfico 3 permite ainda verificar que a maior taxa de precisão nas respostas das crianças até aos 5-7 anos
Capítulo VI – Resultados
Página | 168 corresponde, em todos os grupos, às RSeC, uma vez que neste tipo de estrutura as percentagens de acerto são mais altas, comparativamente com todas as outras.
O Gráfico 3 mostra-nos também que, embora a dificuldade seja mais evidente nas crianças mais jovens, as crianças dos grupos DT, independentemente da idade, têm dificuldade em repetir as estruturas mais complexas, ou seja, as relativas com extração longa. Relativamente aos grupos clínicos, PDL(Qin) e PEA(+PL), através da análise aos dados expostos no gráfico 3 verifica-se uma performance abaixo da revelada pelo grupo de crianças DT mais velhas, ou seja, na mesma faixa etária (8-11anos), em todas as estruturas testadas, que se traduz em percentagens de acerto mais baixas.
Para uma análise mais detalhada dos dados, e tal como referido na secção 7.2., a análise estatística foi realizada através da aplicação de um modelo GLMM, tendo sido inseridos como fatores fixos Grupo e interação entre Grupo, Função Sintática e Complexidade e o fator Sujeito como aleatório.
No caso da tarefa de repetição, o modelo identificou como significativos o fator Grupo (F(5,2056)=5,617, p<0,001) e a interação entre Grupo, Função Sintática e Complexidade (F(18,2056)=26,396, p<0,001).
Passaremos primeiramente à análise da performance das crianças que integram os grupos DT, dando de seguida lugar à análise dos resultados dos grupos de crianças com desenvolvimento atípico, os grupos PDL(QIn) e PEA(+PL), com as mesmas idades das crianças do grupo DT de crianças mais velhas (8-11anos).
Os dados da análise estatística estão na mesma linha do anteriormente descrito, pois indicam a existência de uma progressão na performance das crianças relacionada com a idade. Considerando de forma global o acerto na tarefa (i.e. nas quatro estruturas em análise), as diferenças entre o grupo de 8- -11 anos e todos os grupos DT de crianças mais novas são assinaladas como estatisticamente significativas (veja-se tabela 4).
Capítulo VI – Resultados
Página | 169 Tabela 4 – Comparações globais entre grupo DT (8-11anos) e grupos DT de crianças mais novas.
Comparação entre Grupos
t df Adj. Sig.
8-11 anos –
3 anos 4,694 2056 p<0,001 8-11 anos –
4 anos 4,254 2056 p<0,001 8-11 anos –
5-7 anos 3,106 2056 p<0,05 O nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Para além desta análise genérica, em que são consideradas todas as estruturas de forma global, o modelo fornece também comparações entre pares mais específicas, o que nos possibilita uma análise mais pormenorizada da performance das crianças de cada grupo, tendo em conta os contrastes mais relevantes.
Assim, quando analisadas as comparações entre pares, neste caso considerando a complexidade como campo de contraste, verificam-se diferenças significativas entre as relativas mais complexas e as relativas mais simples, em todos os grupos DT, independentemente da função sintática de sujeito ou de objeto do constituinte relativizado (veja-se tabela 5), confirmando o referido anteriormente. Percebe-se assim, tal como esperado, que as relativas de extração longa são efetivamente as mais difíceis de repetir pelas crianças de todos os grupos testados.
Capítulo VI – Resultados
Página | 170 Tabela 5 - Comparações entre relativas de extração curta e extração longa para cada grupo.
Grupo Função
Sintática
Complexidade t df Adj. Sig.
3 anos
Sujeito Extração curta -
extração longa 4,491 2056 p<0,001 Objeto Extração curta -
extração longa 2,792 2056 p<0,001 4 anos
Sujeito Extração curta -
extração longa 15,891 2056 p<0,001 Objeto Extração curta -
extração longa 7,881 2056 p<0,001 5-7 anos
Sujeito Extração curta -
extração longa 11,055 2056 p<0,001 Objeto Extração curta -
extração longa 26,237 2056 p<0,001 8-11 anos
Sujeito Extração curta -
extração longa 3,390 2056 p=0,001 Objeto Extração curta -
extração longa 5,597 2056 p<0,001 O nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Na realidade, tal como referido anteriormente, as estruturas que envolvem extração longa são mais extensas do que as que envolvem extração curta, sendo necessário ter em conta que a extensão da frase é um fator que se assume como extremamente relevante numa tarefa de repetição. Assim, o dado interessante que os resultados nos oferecem diz respeito ao facto de, no caso dos dois grupos DT de crianças mais velhas, de 5-7 anos e de 8-11 anos, a assimetria sujeito-objeto ser estatisticamente significativa apenas no caso das estruturas mais longas (veja-se tabela 6).
Capítulo VI – Resultados
Página | 171 Tabela 6 - Comparações entre relativas de sujeito e de objeto para cada grupo.
Ou seja, nos grupos de 5-7 anos e 8-11anos, regista-se, nesta tarefa, uma assimetria sujeito / objeto no caso das relativas de extração longa (entre as RSeL e as ROeL), o mesmo não acontecendo já no caso das relativas de extração curta (RSeC e ROeC). Verifica-se deste modo que a assimetria entre as estruturas de sujeito e de objeto parece ser exacerbada pelo fator Complexidade. Desta forma, a falha na repetição das RSeL e nas ROeL não pode ser explicada unicamente por dificuldades de memória, porque as crianças estão efetivamente a processar a estrutura sintática. O que parece acontecer é que a dificuldade em processar uma estrutura mais complexa (com extração longa) exacerba a dificuldade em produzir uma relativa com extração da posição de objeto.
Contrastando com os grupos de crianças mais velhas, os resultados na produção das relativas mais simples no grupo de crianças com 3 anos indicam a existência de uma assimetria entre a extração de um constituinte com a função sintática de sujeito (RSeC) e a extração de um constituinte com a função sintática de objeto (ROeC) (veja-se tabela 6), o mesmo não
Grupo Complexidade Função
Sintática t df Adj. Sig.
3 anos
Extração curta Sujeito -
Objeto 2,222 2056 p<0,05 Extração longa Sujeito -
Objeto 0,875 2056 p=0,382 4
anos
Extração curta Sujeito -
Objeto 1,364 2056 p=0,173 Extração longa Sujeito -
Objeto 1,079 2056 p=0,281 5-7
anos
Extração curta Sujeito -
Objeto 1,742 2056 p=0,082 Extração longa Sujeito -
Objeto 2,691 2056 p<0,001 8-11
anos
Extração curta Sujeito -
Objeto -0,705 2056 p=0,481 Extração longa Sujeito -
Objeto 4,245 2056 p<0,001 Nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Capítulo VI – Resultados
Página | 172 acontecendo com nenhum dos restantes grupos DT, para as relativas mais simples. Observa-se por isso que a assimetria sujeito/objeto, no caso das relativas de extração curta e nesta tarefa, afeta apenas as crianças mais novas, diferenciando-se, como visto, das crianças mais velhas. Ainda relativamente às crianças mais novas, de 3 e 4 anos, é relevante salientar que, ao contrário do que acontece nas crianças mais velhas, dos grupos 5-7 e 8-11 anos, verifica-se a ausência de contraste entre as relativas de sujeito e de objeto de extração longa. Provavelmente, a dificuldade com extração longa sobrepõe-se e assim poderá justificar os resultados globalmente baixos, tanto das relativas com extração da posição de sujeito como na relativas com extração da posição de objeto.
Passemos à comparação entre grupos fornecida pelo modelo, agora com Grupo como campo de contraste (veja-se a tabela 7).
Tabela 7 – Comparações para cada condição entre grupo DT (8-11anos) e restantes grupos DT
Comparação entre Grupos
Condição t df Adj. Sig.
8-11 anos – 3 anos
RSeC 2,720 2056 p=0,094
ROeC 4,609 2056 p<0,001
RSeL 9,799 2056 p<0,001
ROeL 4,834 2056 p<0,001
8-11 anos – 4 anos
RSeC 1,193 2056 p=0,930
ROeC 1,761 2056 p=0,479
RSeL 7,821 2056 p<0,001
ROeL 4,537 2056 p<0,001
8-11 anos – 5-7 anos
RSeC 0,700 2056 p=0,969
ROeC 1,977 2056 p=0,364
RSeL 4,950 2056 p<0,001
ROeL 4,054 2056 p=0,001
Nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Capítulo VI – Resultados
Página | 173 Relativamente às relativas mais simples, concretamente no caso das ROeC, é observável a existência de diferenças significativas entre o grupo DT de crianças mais velhas e o grupo DT de crianças mais novas (3 anos) (t(2056)=4,609, p<0,001), não se registando diferenças no caso da comparação com os outros grupos, o que confirma que este tipo de estrutura é particularmente difícil para as crianças mais novas.
Quanto às relativas de extração longa, mantendo o fator Grupo como campo de contraste (veja-se novamente tabela 7), como se pode verificar, apesar das dificuldades registadas na produção deste tipo de estrutura sintática no grupo de crianças mais velhas, verifica-se uma performance significativamente diferente da performance de todos os grupos de crianças mais novas. As relativas com extração longa são mais problemáticas para todos os grupos DT de crianças mais novas do que para o grupo DT 8-11anos, ainda que este grupo revele também dificuldades na sua produção. Este facto é verificado nas diferenças significativas encontradas entre o grupo DT de crianças mais velhas e todos os restantes grupos com desenvolvimento típico, no caso da repetição de relativas com extração longa, tanto com extração da posição de sujeito (RSeL) como com extração da posição de objeto (ROeL).
Olhando agora com detalhe para dados da análise estatística através do modelo GLMM (já descrito – p.168) dos grupos de crianças com desenvolvimento atípico, com idades entre os 8 e os 11 anos, verificam-se diferenças significativas entre o grupo PDL(QIn) e o grupo DT 8-11anos, quando realizada uma comparação global, como se pode verificar na tabela 8.
Capítulo VI – Resultados
Página | 174 Tabela 8 – Comparações globais entre grupos DT e grupo PDL(QIn) e PEA(+PL)
Comparação
entre Grupos t df Adj. Sig.
3 anos -
PDL(QIn) -1,587 2056 p=0,567
3 anos -
PEA(+PL) -2,650 2056 p=0,078
4 anos -
PDL(QIn) -0,259 2056 p=0,958
4 anos -
PEA(+PL) -1,565 2056 p=0,567
5-7 anos -
PDL(QIn) 1,418 2056 p=0,573
5-7 anos -
PEA(+PL) -0,105 2056 p=0,958
8-11 anos -
PDL(QIn) 3,784 2056 p<0,001
8-11 anos -
PEA(+PL) 1,983 2056 p=0,354
PDL(QIn) -
PEA(+PL) -1,288 2056 p=0,573
Nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Por contraste, se esta comparação global for feita com grupos de crianças mais novas, não se registam diferenças entre os grupos de crianças DT de 3 anos, 4 anos e 5-7anos e o grupo PDL(QIn). Por seu lado, o grupo PEA(+PL) não difere significativamente de nenhum dos grupos, ainda considerando a comparação em termos globais, i.e., considerando todas as estruturas conjuntamente. Também a comparação entre os grupos PDL(QIn) e PEA(+PL) indica que os dois grupos clínicos não diferem significativamente entre si, isto, mais uma vez, para uma comparação global, considerando todas as estruturas.
Olhando agora para a comparação entre pares, tendo a função sintática do constituinte relativizado como campo de contraste, verifica-se precisamente que os dois grupos com desenvolvimento atípico se comportam de forma diferente (veja-se tabela 9).
Capítulo VI – Resultados
Página | 175 Tabela 9 - Comparações entre extração da posição de sujeito vs. objeto
Enquanto o grupo PEA(+PL), na repetição de ROeC, exibe um padrão de comportamento que se assemelha ao padrão de respostas do grupo das crianças mais velhas (8-11anos), já que não revela uma assimetria na produção de relativas de sujeito e de objeto de extração curta, no caso do grupo PDL(QIn), à semelhança do que se relatou acontecer no grupo de crianças mais novas (3anos), existe uma clara assimetria entre RSeC e ROeC.
Relativamente às ROeC, o grupo PEA(+PL) difere do grupo de crianças mais novas (3 anos) (veja-se tabela 10), o mesmo não acontecendo com o grupo PDL(QIn), que não difere de nenhum dos grupos DT, o que indica diferentes efeitos decorrentes da posição de extração dos constituintes relativizados. No entanto, apesar de o grupo PDL(QIn) apresentar piores resultados nas relativas de objeto mais simples do que o grupo PEA(+PL) (ver percentagens de acerto no gráfico 3), nesta condição a diferença entre os dois grupos não é indicada pelo modelo como significativa.
Grupo Complexidade Função
Sintática t df Adj. Sig.
PDL(QIn)
Extração curta Sujeito -
Objeto 2,215 2056 p<0,05 Extração longa Sujeito -
Objeto 0,297 2056 p=0,767 PEA(+PL)
Extração curta Sujeito -
Objeto -0,736 2056 p=0,462 Extração longa Sujeito -
Objeto 1,328 2056 p=0,184 Nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Capítulo VI – Resultados
Página | 176 Tabela 10 - Comparações entre grupos DT e grupo PDL(QIn) e PEA(+PL) na repetição de relativas de sujeito e de objeto de extração curta.
Comparação entre Grupos
Condição t df Adj. Sig.
3 anos - PDL(QIn)
RSeC -2,222 2056 p=0,294
ROeC -1,420 2056 p=0,628
3 anos - PEA(+PL)
RSeC -2,175 2056 p=0,304
ROeC -4,283 2056 p<0,001 4 anos -
PDL(QIn)
RSeC -0,240 2056 p=0,993
ROeC 0,808 2056 p=0,759
4 anos - PEA(+PL)
RSeC -0,183 2056 p=0,993
ROeC -1,433 2056 p=0,628
5-7 anos - PDL(QIn)
RSeC 0,760 2056 p=0,969
ROeC 1,725 2056 p=0,479
5-7 anos - PEA(+PL)
RSeC 0,775 2056 p=0,969
ROeC -0,894 2056 p=0,759
8-11 anos - PDL(QIn)
RSeC 1,055 2056 p=0,955
ROeC 2,248 2056 p=0,240
8-11 anos - PEA(+PL)
RSeC 1,046 2056 p=0,955
ROeC 0,874 2056 p=0,759
PDL(QIn) - PEA(+PL)
RSeC 0,054 2056 p=0,993
ROeC -2,013 2056 p=0,364
Nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
No que diz respeito ao fator complexidade, tal como observado para todos os grupos DT, também no caso dos dois grupos com desenvolvimento atípico existe uma diferença significativa entre relativas de extração longa e relativas de extração curta, independentemente da posição de extração, reforçando a ideia de que as frases com maior complexidade sintática (e mais longas, também) são mais difíceis também para estes grupos, como aliás seria de esperar (em todos os casos p<0,001).
Capítulo VI – Resultados
Página | 177 No caso das relativas com extração longa, o comportamento dos dois grupos clínicos revela algumas semelhanças, verificando-se que tanto o grupo PDL(QIn) como o grupo PEA(+PL) diferem significativamente do grupo de crianças mais velhas, mas não diferem de nenhum dos grupos de crianças mais novas e também não diferem entre si (tabela 11).
Tabela 11 - Comparações entre grupos DT e grupo PDL(QIn) e PEA(+PL) na produção (repetição) de relativas de sujeito e de objeto de extração longa.
Comparação entre Grupos
Condição t df Adj. Sig.
3 anos - PDL(QIn)
RSeL -1,416 2056 p=0,641
ROeL -1,462 2056 p=0,711
3 anos - PEA(+PL)
RSeL -1,854 2056 p=0,441
ROeL -1,574 2056 p=0,669
4 anos - PDL(QIn)
RSeL -0,216 2056 p=0,971
ROeL -0,902 2056 p=0,847
4 anos - PEA(+PL)
RSeL -1,231 2056 p=0,686
ROeL -1,188 2056 p=0,847
5-7 anos - PDL(QIn)
RSeL 1,643 2056 p=0,524
ROeL -0,070 2056 p=0,944
5-7 anos - PEA(+PL)
RSeL 0,138 2056 p=0,971
ROeL -0,561 2056 p=0,923
8-11 anos - PDL(QIn)
RSeL 7,419 2056 p<0,001
ROeL 3,813 2056 p<0,05
8-11 anos - PEA(+PL)
RSeL 4,127 2056 p<0.001
ROeL 3,211 2056 p<0,05
PDL(QIn) - PEA(+PL)
RSeL -1,087 2056 p=0,686
ROeL -0,457 2056 p=0,923
Nível de significância ajustado sequencial de Sidak é 0,05.
Capítulo VI – Resultados
Página | 178 Os dados parecem indicar que os dois grupos de crianças com desenvolvimento atípico se revelam afetados pela complexidade sintática que se encontra naturalmente aumentada no caso das relativas de extração longa.
No entanto, como já referido, pelo facto de se tratar de enunciados com maior extensão, as fracas taxas de acerto poderão ser devidas a um esforço adicional com estruturas mais longas, que, pela sua extensão, se apresentam como mais problemáticas para as crianças.
Assim, para melhor compreender a forma como as crianças estão a processar as condições testadas e para que a análise dos resultados obtidos na tarefa de repetição seja completa, passaremos à análise detalhada dos diferentes tipos de erros encontrados nos grupos PDL(QIn) e PEA(+PL), na produção de todas as estruturas testadas na tarefa de repetição (RSeC, ROeC, RSeL e ROeL).
Os gráficos 4 e 5, que são apresentados de seguida, sintetizam os tipos de erros cometidos pelas crianças destes dois grupos, PDL(QIn) e PEA(+PL) respetivamente. Para uma melhor compreensão, serão também exemplificados os tipos de erros referidos nos gráficos.
Passemos agora à análise do gráfico 4, que analisa ao pormenor os erros cometidos pelas crianças do grupo PDL(QIn).
Capítulo VI – Resultados
Página | 179 Gráfico 4 – Tipos de erros na tarefa de imitação provocada – GRUPO PDL(QIn)
Legenda: RSeC - Relativas de sujeito com extração Curta; ROeC - Relativas de objeto com extração Curta; RSeL – Relativas de sujeito com extração Longa; ROeL – Relativas de objeto com extração Longa.
O erro mais frequentemente cometido pelas crianças do grupo PDL(QIn), no caso das RSeC, corresponde à transformação da relativa numa frase simples (“frase simples”, no gráfico 4), como em (78):
(78) Item: Este é o porco que lambeu o macaco.
Resposta: Este porco lambeu o macaco
Quanto às ROeC, a maior percentagem de respostas incorretas corresponde à transformação da relativa de objeto numa relativa de sujeito (“RO/RS” no gráfico 4) (veja-se o exemplo em 79):
(79) Item: Este é o cavalo que o boi mordeu.
Resposta: Este é o cavalo que mordeu o boi.
No que diz respeito às RSeL, o erro mais frequente diz respeito à preferência pela extração curta em detrimento da extração longa (“extração longa-curta” no gráfico 4) (ver 80):
(80) Item: Este é o cão que o boi disse que molhou o porco.
Resposta: Este é o cão que disse que o boi molhou o porco.
Outro erro comum nesta condição foi a eliminação da oração completiva, transformando a extração longa numa extração curta (“eliminação da completiva” no gráfico 4), como podemos ver no exemplo a seguir (81):
Capítulo VI – Resultados
Página | 180 (81) Item: Este é o urso que o porco disse que lambeu o elefante.
Resposta: Este é o urso que lambeu o elefante.
No caso das ROeL, o erro mais frequente foi a produção de uma oração relativa com argumento nulo (“relativa c/ argumento nulo” no gráfico 4) (ver 82):
(82) Item: Este é o cão que o leão disse que o boi mordeu.
Resposta: Este é o cão que o leão disse que mordeu.
Ainda em relação às ROeL, a transformação de uma extração longa no que pode ser interpretado como uma extração curta (e simultaneamente relativa de sujeito) (veja-se 83), juntamente com a produção de fragmentos de frases, como em (84), foram outros erros frequentes produzidos pelas crianças do grupo PDL(QIn).
(83) Item: Este é o boi que o elefante disse que o porco empurrou.
Resposta: Este é o boi que disse que o elefante empurrou.
(84) Item: Este é o cão que o leão disse que o boi mordeu.
Resposta: Este é o cão
Os erros mais frequentes encontrados nas respostas dadas pelo grupo PEA(+PL) são apresentados no Gráfico 5.
Capítulo VI – Resultados
Página | 181 Gráfico 5 – Tipos de erros na tarefa de imitação provocada – GRUPO PEA(+PL)
Legenda: RSeC - Relativas de sujeito com extração Curta; ROeC - Relativas de objeto com extração Curta; RSeL – Relativas de sujeito com extração Longa; ROeL – Relativas de objeto com extração Longa.
No caso das relativas mais simples, o grupo PEA(+PL) revela um padrão de erro diferente do apresentado pelo grupo PDL(QIn). Conforme se pode verificar, os erros encontrados na repetição de relativas simples correspondem à omissão do complementador que ou à transformação da frase complexa numa frase simples, isto tanto para as RSeC como para as ROeC.
Este dado, de facto, combina-se com a observação anteriormente assinalada, referente à tabela 9 (página 175), que representa a comparação entre pares fornecida pelo modelo, com função sintática como campo de contraste, quando mostra que as crianças com PEA(+PL), ao contrário das crianças com PDL(QIn), não apresentam uma assimetria sujeito-objeto no caso das relativas mais simples. O tipo de erros cometido nas RSeC e nas ROeC parece indiciar que o grupo PEA(+PL) não é tão fortemente afetado, na tarefa de produção, pela posição de extração do constituinte relativizado (sujeito ou objeto), uma vez que os seus erros nesta tarefa sugerem mais problemas com a questão da complexidade associada à extração longa.
Quanto às relativas de sujeito que envolvem a extração a partir de orações completivas (RSeL), a maior percentagem de erros cometidos corresponde ao mesmo tipo de erro revelado pelo grupo PDL(QIn):
Capítulo VI – Resultados
Página | 182 transformação da extração longa em extração curta, o que, mais uma vez, parece indicar um problema com a estrutura sintática projetada e com a extração longa especificamente.
No entanto, e apesar de, no caso de relativas de objeto que envolvem extração a partir de completivas (ROeL), o grupo PEA(+PL) revelar igualmente uma preferência marcada pela produção de extração curta como forma de evitar a extração longa, sendo este o tipo de erro mais comum, são também visíveis erros que sugerem dificuldades com a extração da posição de objeto, isto porque é possível encontrar a transformação de relativas de objeto em relativas de sujeito (16%) e a produção de relativas com argumento nulo (18%).
Este dado parece ser indicativo de que, também neste grupo, existem problemas com as ROeL que não são paralelos aos encontrados nas RSeL, revelando assim que os erros cometidos na repetição das ROeL não podem ser exclusivamente explicados pelo aumento da extensão do enunciado, mas sim pelo facto de esta estrutura apresentar fatores de complexidade, incluindo, neste caso, a extração da posição de objeto.
Capítulo VI – Resultados
Página | 183 7.2.2 Tarefa de juízo de valor de verdade
Os resultados obtidos pelos diferentes grupos na tarefa de juízo de valor de verdade encontram-se representados no gráfico 6, no qual são apresentadas as percentagens de acerto em cada uma das condições testadas.
Gráfico 6 – Percentagem de respostas corretas por grupo - Tarefa de juízo de valor de verdade
Legenda: RSeC - Relativas de sujeito com extração Curta; ROeC - Relativas de objeto com extração Curta; RSeL – Relativas de sujeito com extração Longa; ROeL – Relativas de objeto com extração Longa.
Apesar de se tratar das mesmas estruturas testadas na tarefa anterior, uma tarefa de imitação provocada, a análise do gráfico 6 oferece informação que difere dos dados anteriormente descritos para a tarefa de produção.
Tratando-se neste caso de uma tarefa de compreensão, não é inesperado que o comportamento das crianças seja distinto do comportamento apresentado na tarefa de imitação provocada, que testa produção.
A observação do gráfico 6 parece indicar que a percentagem de respostas corretas não espelha de forma tão clara um aumento progressivo
Capítulo VI – Resultados
Página | 184 das respostas corretas com a idade, indiciando resultados mais uniformes entre grupos DT, contrariamente aos resultados da tarefa anterior. Nos grupos PDL(QIn) e PEA(+PL), observam-se taxas de acerto mais baixas em todas as estruturas testadas, quando comparados com os resultados das crianças DT da mesma idade.
À semelhança da tarefa de repetição, para se proceder à análise estatística, foi usado um modelo GLMM com os mesmos fatores fixos (Grupo e Interação entre Grupo, Função Sintática e Complexidade). O fator Sujeito foi, mais uma vez, introduzido como fator aleatório. Como assinalado para a tarefa de imitação provocada, também nesta tarefa o modelo incluiu todos os grupos DT e os grupos clínicos.
A analise estatística, através do modelo GLMM, indica-nos que, tal como na tarefa de imitação provocada, se observam efeitos significativos do fator Grupo (F(5;1200)=4,029, p=0,001) e da interação entre Grupo, Função Sintática e Complexidade (F(18;1200)=5,252, p<0,001).
À semelhança da análise efetuada na tarefa de imitação provocada, passamos de seguida à análise dos resultados obtidos pelas crianças dos grupos DT e posteriormente à análise dos dados referentes aos grupos de crianças com perturbações de linguagem, os grupos PDL(QIn) e PEA(+PL).
A análise estatística considerando todas as estruturas testadas conjuntamente é indicadora de que, no caso dos grupos DT, apenas o grupo dos 4 anos não revela diferenças significativas em relação ao grupo de crianças mais velhas (veja-se a tabela 12), isto no que diz respeito a uma comparação global, considerando todas as condições no seu conjunto.