II. SOCIEDADE, TRABALHO, CORPORALIDADE E NOVAS
2.1 Taylorismo e fordismo: notas preliminares
A própria edificação do trabalho fabril no sistema produtor de mercadorias partia dos princípios de economia de tempo e energia a fim de obter-se um resultado satisfatório na produção. Embora empreenda uma perspectiva analítica distinta, M. Foucault e suas reflexões contribuem sobremaneira para compreender as mudanças que se processavam na racionalidade que se instaurava e a necessidade coercitiva de arregimentar voluntários para as demandas do trabalho fabril assalariado. A este processo, foi substancial a emergência das
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Esse novo paradigma no Japão recebe a denominação de toyotismo, e em outros parques industriais avançados como, por exemplo, na Itália, na Suécia, entre outros países, emprega -se a denominação neofordismo, pós - fordismo e acumulação flexível. No caso do Brasil, o paradigma da flexibilidade está presente nos setores de ponta, mas de forma seletiva. O taylorismo/fordismo predomina no processo produtivo do nosso país, apesar de assimilar algumas características do paradigma produtivo emergente.
disciplinas entre os séculos XVII e XVIII, impondo uma dinâmica econômica e utilitária aos usos dos corpos.
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos (FOUCAULT, 2003, p. 119).
Contudo, foi com o advento da Revolução Industrial e a conseqüente subsunção real do trabalho no capital que a força de trabalho – o ser social – passou a sofrer mais acentuadamente os efeitos coercitivos da nova política corporal, pois era mister “[...] ensinar os indivíduos a adquirir forças, a adquirir também uma destreza geral que favorece não só o manejo de instrumentos no mundo do trabalho, mas também melhora a utilização das forças físicas e morais” (SOARES, 1998, p. 137).
Utilidade e obediência são qualidades essenciais tanto da personalidade quanto do corpo, para o ordenamento social que se estabelecia, até mesmo porque sob a vigência do trabalho assalariado, a disciplina corporal não se restringe à imposição de uma série de gestos definidos, mas sobretudo
[...] impõe a melhor relação entre um gesto e a atitude global do corpo, que é sua condição de eficácia e rapidez. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso ou inútil: tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido. Um corpo bem disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto [...] Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente (FOUCAULT, 2003, p. 130).
O alcance desse objetivo de manipular e disciplinar os gestos e os comportamentos contou com a participação e influência de várias instituições, mas sem dúvida a escola representou o local mais adequado para levar os sujeitos – desde as idades mais tenras – a adaptarem-se às relações sociais inerentes às necessidades produtivas do capitalismo (ENGUITA, 1989). Segundo Thompson (1991), a escola foi uma instituição auxiliar fundamental para incutir a mentalidade da economia do tempo.
Ainda assim o espaço fabril continuava a prover com eficiência uma disciplina corporal a partir da gestualidade requerida e a cultivar uma mentalidade econômica do tempo imposta pelas condições do trabalho.
Foi com essas bases relacionadas ao propósito de inculcar os valores que eram essenciais às demandas da produção, que no início do século XX o engenheiro e economista norte-americano Fredrerick Winslow Taylor (1856-1915) empreendeu estudos minuciosos a numerosas técnicas, entre elas a cronometragem do tempo de realização de movimentos pelos trabalhadores e a transmissão por correias, além de descobrir os aços de corte rápido, criando assim a organização científica do trabalho, ou uma “pedagogia do trabalho”.
Dessa mentalidade organizacional e altamente racionalizada, depreende-se que
a divisão e a especialização do trabalho – exigidas pelo próprio desenvolvimento técnico – convertem-se numa divisão do próprio homem, que põe todo seu ser a serviço de uma só e única atividade, que corresponde a uma das operações da máquina. A universalidade do trabalho, do ponto-de- vista do operário, desaparece e, em seu lugar, temos a especialização estreita e unilateral do trabalhador que se converte num apêndice da máquina. Êle [sic] fica limitado, assim, a uma só operação, com o que seu trabalho se transforma numa atividade que se repete monotonamente e que não exige – ou o faz em grau mínimo – a intervenção da consciência (VÁZQUEZ, 1977, p. 266).
Eis o maior desejo de Taylor: evitar que o trabalhador pensasse muito e apenas executasse a tarefa que lhe era exigida no posto de trabalho. Não seria errôneo entender os estudos de tempo e movimento empreendidos por esse engenheiro/empresário como uma forma latente de intervenção ergonômica, aliando os princípios de separação programada da concepção/planejamento das tarefas de execução, intensificação da divisão do trabalho e controle de tempos e movimentos, cuja finalidade era eliminar o tempo que não fosse destinado à atividade produtiva de trabalho (CATTANI, 2002).
A organização científica do trabalho se enquadra para a corporalidade dos trabalhadores, como sendo uma
nova tecnologia de submissão, de disciplina do corpo [...] gera exigências fisiológicas até então desconhecidas, especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. As performances exigidas são inteiramente novas, e fazem que o corpo apareça como principal fonte de impacto dos prejuízos do trabalho. O esgotamento físico não concerne somente aos trabalhadores braçais, mas ao conjunto dos operários da produção de massa. Ao separar, radicalmente, o trabalho intelectual do trabalho manual, o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários (DEJOURS, 1992, p. 18-9).
Estavam lançadas as bases científicas empenhadas na maximização da produtividade do trabalho e na submissão da vontade do trabalhador. Outro norte-americano, o Sr. Henry
Ford37 (1863-1947), industrial pioneiro da indústria automobilística dos Estados Unidos da América, fez florescer a fabricação em série com a padronização das principais peças que compõem um conjunto; ou seja, incorporou a organização científica do trabalho de Taylor, a sua linha de montagem38, daí derivando outro conhecido método de racionalização do trabalho denominado fordismo.
Poder-se-ia afirmar que, “como o processo de trabalho é progressivamente racionalizado e mecanizado, a falta de vontade é reforçada pelo fato de a atividade do trabalhador perder cada vez mais seu caráter ativo para tornar-se uma atitude contemplativa” (LUKÁCS, 2003, p. 204).
Realizar a atividade que deveria distinguir o homem das demais espécies acaba por igualá-lo a estas. A atividade que deveria ter um caráter ativo e criador resume-se a uma ação vazia. Sob as orientações propostas por Ford,
[...] o trabalho alcança o grau máximo de submetimento ao controle da direção, desqualificação e rotinização, e os trabalhadores vêem diminuído ao mínimo o controle sobre seu próprio processo produtivo e reduzida a zero ou a pouco mais que zero a satisfação intrínseca derivada do mesmo (ENGUITA, 1989, p. 17).
A gerência científica de Ford acentua o grau de submissão do trabalhador iniciado por seu compatriota Taylor, desqualificando e rotinizando a atividade dos trabalhadores responsáveis pela execução e ampliando a qualificação do trabalho de concepção.
O processo de produção fordista fundamenta-se na linha de montagem acoplada à esteira rolante, que evita o deslocamento dos trabalhadores e mantém um fluxo contínuo das peças e partes, permitindo a redução dos tempos mortos, e, portanto, da porosidade. O trabalho nessas condições, torna-se repetitivo, parcelado e monótono, sendo sua velocidade e ritmo estabelecidos independentemente do trabalhador, que o executa através de uma rígida disciplina. O trabalhador perde suas qualificações que são incorporadas à máquina (LARANGEIRA, 2002, p. 123-24).
Da associação dessas duas concepções – taylorismo e fordismo – tinha-se um modelo racional e econômico de intervir sobre o uso da força de trabalho, a fim de lhe extrair a maior eficiência possível; enfim, economia de tempo e esforço do corpo na realização de movimentos, que não poderiam ser gastos inutilmente, mas sim executados corretamente
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Proprietário e fundador da Ford Company e da Ford Motor Company no início do século XX. 38
Essa incorporação foi possível com a descoberta da eletricidade – tecnologia da segunda Revolução Industrial que substituiu a mecânica pela eletromecânica.
dentro de um tempo e métrica adequados, pois “a energia, „moeda do universo‟, não podia ser desperdiçada. Aprender a sua utilização com o corpo e no corpo era tornar-se senhor do seu gasto” (SOARES, 1998, p. 137).
A influência de tais processos sobre a totalidade corporal dos trabalhadores tem no cômico, expressivo e contundente filme de Charles Chaplin, Tempos Modernos39, a representação cinematográfica da corporalidade sob o jugo do trabalho industrial nas primeiras décadas do século XX.
O operário Carlitos vivido por Chaplin nesse filme representa o trabalhador sob a égide do taylorismo/fordismo. Talvez seja a personificação da tão almejada conversão que Taylor gostaria de empreender no trabalhador, a saber, gorila amestrado, que de tão condicionado pelos movimentos repetitivos do trabalho, acaba por incorporá-los como movimentos realizados até quando não se está mais no trabalho40; ou ainda o trabalhador (des)qualificado de Ford, mas “qualificado” na realização de movimentos curtos, cíclicos e repetitivos. De tanto apertar parafusos, a incorporação do habitus da sua atividade, aliada ao estresse por ela ocasionado, leva-o a querer apertar tudo o que lhe lembra um parafuso. Nada mais sugestivo para o cultivo do habitus proporcionado pela educação do corpo oriunda do trabalho; ou seja, moldar à sua maneira a corporalidade do trabalhador.
Qual o motivo dessa necessidade de moldar e retirar do ser social que trabalha a sua capacidade conceptual? Uma possível compreensão nos é dada a seguir:
Porque se a execução dos trabalhadores é orientada por sua própria concepção, não é possível [...] impor-lhes a eficiência metodológica ou o ritmo de trabalho desejado pelo capital. Em conseqüência, o capitalista aprende desde o início a tirar vantagem desse aspecto da força de trabalho humana, e a quebrar a unidade do processo de trabalho (BRAVERMAN, 1980, p. 104).
Era preciso superar as limitações impostas pelas barreiras naturais, e estas foram transpostas. O humano em sua totalidade – mãos e inteligência, execução e concepção, corpo e mente – foi cindido em partes, ficando relegado ao mero papel de uma peça empregada para efetuar trabalho. Lembremos que o trabalho deveria ser aquela atividade livre, criativa, mas que, sujeita ao capital, converte-se em liberdade cerceada e monotonia.
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Modern Times (Tempos Modernos) teve estréia em 05 de fevereiro de 1936, no Rivoli Theatre em Nova York. 40
Comentando sobre as marcas da disciplina do taylorismo -fordismo na corporalidade, Alves (2005, p. 425) entende que, “[...] ao ter o surto nervoso, Carlitos baila na linha de produção, sugerindo que deseja subverter a disciplina psicocorporal imposta pela linha/posto de trabalho [...]”. Os trabalhadores não se rendem, mas criam formas de resistência à rigidez da disciplina produtiva imposta pelo taylorismo -fordismo.
Na acepção gramsciana, o trabalhador amestrado e/ou domesticado demonstra a finalidade da organização e da gerência científica do trabalho, em que o principal objetivo era,
[...] desenvolver ao máximo no trabalhador, as atitudes maquinais e automáticas, romper o velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualificado, que exigia uma determinada participação ativa da inteligência, da fantasia, da iniciativa do trabalhador, e reduzir as operações produtivas apenas no aspecto maquinal (GRAMSCI, 1991, p. 397).
O capital encetou uma ruptura drástica à essência humana ao promulgar a separação entre concepção e execução. Então, levando a cabo esse projeto necessário a sua expansão e manutenção, são confirmadas algumas das premissas marxianas desenvolvidas nos
Manuscritos econômico-filosóficos, pois a redução da ação da consciência humana em sua
atividade vital aproxima o trabalho realizado pelo ser social sob essas condições, em atividade animal.
Assim, ao estabelecer relações sociais antagônicas de trabalho alienado, mão e cérebro tornam-se não apenas separados, mas divididos e hostis, e a unidade humana de mão e cérebro converte-se em seu oposto, algo menos que humano (BRAVERMAN, 1980, p. 113).
Sinteticamente, essas são algumas das características básicas do taylorismo e do fordismo; mas vale ressaltar que existem diferenças cruciais entre ambos os processos, não obstante ser comum referir-se a um associado ao outro, como expressa o binômio taylorismo/fordismo.
A respeito de tal distinção, é factível afirmar:
O que havia de especial em Ford (e que, em última análise, distingue o fordismo do taylorismo) era a sua visão, seu reconhecimento explícito de que produção de massa significava consumo de massa, um novo sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada e populista (HARVEY, 2006, p. 121).
As linhas produtivas do fordismo, para atingir a produção em massa almejada, aplicaram formas diferenciadas de controle e gerenciamento das atividades do trabalho. Portanto, “a gerência científica [...] significa empenho no sentido de aplicar os métodos da ciência aos problemas complexos e crescentes do controle do trabalho nas empresas capitalistas em rápida expansão” (BRAVERMAN, 1980, p. 82).
No entanto, esse procedimento de incorporação dos princípios da gerência científica não era passivamente assimilado pelos trabalhadores, mas acabava por enquadrá-los pouco a pouco às novas formas de trabalho que se estabeleciam. De acordo com as palavras de H. Braverman,
nesta reação inicial contra a linha de montagem percebemos a repulsa natural do trabalhador contra a nova espécie de trabalho. O que torna possível perceber isso claramente é o fato de que Ford, como pioneiro do novo modo de produção, estava competindo com modos anteriores de organização do trabalho que ainda caracterizavam o restante da indústria automobilística e outras indústrias nesse campo. Nesse microcosmos há uma ilustração da regra de que a classe trabalhadora está progressivamente submetida ao modo capitalista de produção, e às novas formas sucessivas que ele assume, apenas à medida que o modo capitalista de produção conquista e destrói todas as demais formas de organização do trabalho, e com elas, todas as alternativas para a população trabalhadora. À medida que Ford, pela vantagem concorrencial que adquiria, forçava a linha de montagem ao restante da indústria automobilística, no mesmo grau os trabalhadores eram obrigados a submeter-se a ela pelo desaparecimento de outras formas de trabalho naquela indústria (BRAVERMAN, 1980, p. 132).
A longa passagem é elucidativa no entendimento acerca da gestação e a conseqüente incorporação dos trabalhadores com relação a novos modos de organização do trabalho; isso porque, por volta da década de 1970, esses modelos de racionalização produtiva – taylorismo/fordismo – tornavam-se anacrônicos diante das novas exigências vigentes. Começava a emergir um novo paradigma produtivo. Mas qual seu alcance? O fato de haverem se tornado anacrônicos, quer dizer que eles desapareceram?
Ponderando sobre essa questão, ver-se-á que não é possível negar o surgimento de um novo ordenamento produtivo, mas sua abrangência é relativa em um nível global, pois nem todos os países encontram-se num mesmo estágio de desenvolvimento das forças produtivas, além de as mudanças sócio-econômicas não serem processadas linearmente.