Tendo definido meu objeto, meus objetivos e minhas referências teóricas, começo agora a apresentar algumas escolhas metodológicas que foram tomadas ao longo dos caminhos que trilhei na construção e reconstrução deste trabalho.
Apesar de se constituir eminentemente em um trabalho de análise de romances, autobiografias e entrevistas, considero-o também um trabalho etnográfico, não nos termos propostos por Malinowisk, que pressupunha que para “encontrar o nativo em carne e osso”, era preciso viajar dias, ficar reclusa de meu próprio mundo, mas na medida em que meu objeto está ao meu lado, vive comigo e compartilha de gostos e interesses comuns. Segundo Hélio Silva (2005, p. 12), “observar o campo e interagir é [...] um permanente auto-observar- se e uma auto-avaliação permanente. E isto é mais que teoria, método, técnica. É uma atitude necessária que subsume todas as outras dimensões e produz uma identidade ambígua e oscilante: a do etnógrafo”. É essa identidade ambígua, oscilante e constante que tenho vivenciado ao longo da elaboração deste trabalho. Quando questionada se fiz etnografia, afirmo que vivi etnografando esses últimos anos. Mas, afinal, o que seria um trabalho etnográfico?
Clifford Geertz, ao questionar o que seria a etnografia e quem seria seu autor, observa que “A ilusão de que a etnografia é uma questão de dispor fatos estranhos e irregulares em categorias familiares e ordenadas – [...] – foi demolida há muito tempo. O que ela é, entretanto, não está muito claro” (2009, p. 11).
Além de chamar atenção para o fato de que hoje a etnografia não pode mais ser concebida nos mesmos termos em que Bronislaw Malinowski a propôs, também demonstra que a questão da autoria nos textos etnográficos é essencial, sobretudo por que:
A capacidade dos antropólogos de nos fazer levar a sério o que dizem tem menos a ver com uma aparência factual, ou com um ar de elegância conceitual, do que com sua capacidade de nos convencer de que o que eles dizem resulta de haverem realmente penetrado numa outra forma de vida (ou se você preferir, de terem sido penetrados por ela) – de realmente haverem, de um modo ou de outro, ‘estado lá’. E é aí, ao nos convencer de que esse milagre dos bastidores ocorreu, que entra a escrita. (GEERTZ, 2009, p. 15, grifos meus).
Geertz já havia advogado em trabalhos anteriores que “os textos antropológicos são eles mesmos interpretações e, na verdade, de segunda ou terceira mão. [...]. Trata-se, portanto, de ficções; ficções no sentido de que são ‘algo construído’, ‘algo modelado’” (GEERTZ, 1989, p. 25-6). Assim, segundo ele, a etnografia é uma atividade eminentemente interpretativa, uma descrição densa, voltada para a busca de estruturas de significação.
Mas, quais seriam as características cruciais da escrita etnográfica para Geertz? “Impossibilitados de recuperar os dados imediatos do trabalho de campo para uma reinspeção empírica, damos ouvidos a algumas vozes e ignoramos outras” (GEERTZ, 2009, p. 17). Daí surge o questionamento de por que escolher uns/umas e outr@s não? Segundo ele, porque alguns/algumas antropólog@s são mais eficientes em sua escrita etnográfica que outr@s, por
isso a questão do que vem a ser um@ autor@ na antropologia é fundamental e num claro diálogo com Foucault, em seu texto O que é um autor, afirma:
Pode ser que, noutros campos de discurso, o autor (juntamente com o homem, a história, o eu, Deus e outros petrechos da classe média) esteja morrendo, mas ele, ou ela, ainda está vivíssimo entre os antropólogos. Em nossa ingênua disciplina, talvez uma episteme atrasada, como de praxe, ainda é muito importante saber quem está falando. (GEERTZ, 2009, p. 18, grifos meus).
Para James Clifford (2008a), mais importante do que saber quem está falando é reconhecer que há uma autoridade etnográfica. Ele propõe verificar em quatro estilos esta autoridade – experiencial, interpretativo, dialógico e polifônico – que “são encontrados de forma discordante, em cada etnografia” (James CLIFFORD, 2008a, p. 55).
Embora apresente esses quatro estilos, Clifford se afasta dos entendimentos disciplinares clássicos da etnografia, para propor entender a diversidade dos processos de
construção de textos etnográficos, pensando-os como construções textuais situadas em circunstâncias históricas e culturais específicas, portanto, a partir de uma autoridade
etnográfica polifônica, que eu prefiro chamar de performática. Gonçalves (2008a, p. 11, grifos meus) observa que para ele: “[...] A experiência etnográfica é sempre textualizada, enquanto que o texto etnográfico está sempre contaminado pela experiência. Em outras palavras, os temas da etnografia estão simultaneamente no texto e fora do texto”. Por isso, nas palavras de Clifford (2008a, p. 41, grifos meus):
Torna-se necessário conceber a etnografia não como a experiência e a interpretação de uma ‘outra’ realidade circunscrita, mas sim como uma negociação construtiva envolvendo pelo menos dois, e muitas vezes mais, sujeitos conscientes e politicamente significativos. Paradigmas de experiência e interpretação estão dando lugar a paradigmas discursivos de diálogos e polifonia.
Nessa perspectiva, “o trabalho de campo é significativamente composto de eventos de linguagem” (CLIFFORD, 2008a, p. 41) e essa linguagem é atravessada por subjetividades, nunca será neutra e desinteressada.
James Clifford e George Marcus, em 1986, em uma coletânea de artigos intitulada Writing culture: The poetics and politics of ethnography, publicada em português vinte anos depois, sob o título A escrita da Cultura: poética e política da etnografia (2016), chamaram atenção para a entrada da antropologia norte-americana na virada pós-moderna e pós- estruturalista52. Os questionamentos sobre a própria etnografia e sua autoridade autoral já são
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Rachel Nigro (2009, p. 196) chama atenção para uma virada que também ocorre no campo da linguística, da qual Derrida é um dos responsáveis. Para ela, “A crítica pós-estruturalista da razão, muitas vezes identificada como pós-moderna ancora-se em parte sobre essa constatação: uma vez que a linguagem é criadora de mundo, ou seja, uma vez que são as expressões lingüísticas [sic] que fornecem sentido à realidade, torna-se insustentável qualquer tentativa de interpretar toda a realidade através de um metadiscurso que abarque todos os variados jogos de linguagem existentes. Certamente um metadiscurso é apenas mais um jogo de linguagem que não
indícios fortes de entrada nesta virada, quando apontam inclusive um etnocentrismo implícito nas etnografias que privilegiam a autoridade do antropólogo e não do “nativo”. Para os autores de Writing culture a etnografia deve se constituir de uma negociação de diálogos, uma polifonia, em que o outro seja evidenciado ao final, no texto que resultou da etnografia, e não apenas uma interpretação dele.
A partir da rápida discussão que fiz acima, é possível perceber que o termo etnografia é, por si só polissêmico, tem mais de um significado, dependendo do enquadre teórico que se queira dar. Assim, me proponho, em uma perspectiva pós-estruturalista, a pensar a etnografia como uma linguagem, perpassada por interesses e subjetividades que se (re)produzem entre quem pesquisa e quem é pesquisad@, portanto quero convidá-l@ a conceber a etnografia como ato performativo, como uma representação parcial e não como um retrato fidedigno da realidade que pretende mostrar.
É interessante chamar atenção de que a palavra performance também é polissêmica. Segundo Carla Rodrigues (2012a, p. 142, grifos da autora): “Perfomance tem como origem latina a palavra formare, que chega até nós como ‘formar, dar forma a, criar’. Perfomance também dá origem a dois outros termos, que eventualmente podem se confundir, mas em muito diferem: performático e performativo”53
. Muitos autores têm trabalhado a ideia de performance na etnografia. Já nos anos 1980, James Clifford começa seu ensaio Sobre a alegoria etnográfica, afirmando que, assim como Victor Turner lida com dramas sociais, ele pretende tratar “a própria etnografia como uma performance com enredo estruturado através de histórias poderosas” (CLIFFORD, 2008b, p. 60). O próprio Victor Turner é autor de um artigo intitulado The anthropology of performance, publicado postumamente, em 1987. De lá para cá, as discussões têm sido constantes, como se pode perceber em um volume inteiro de Horizontes Antropológicos (Maria Elizabeth LUCAS, 2005), dedicado à temática da visibilidade que a performance vem ganhando dentro da antropologia anglo-americana, principalmente.
conhece (ou não reconhece) a infinidade de outros jogos, de outras formas narrativas de interpretar a realidade. Essa crítica, frequentemente descartada como relativista, não pode ser facilmente contornada sem algum tipo de apelo metafísico. Assim, após a virada lingüística, todo discurso que se pretende rigoroso deve justificar sua posição, ou seja, reconhecer de onde fala e colocar em questão sua noção de verdade”.
53Explicitando a diferença entre performático e performativo afirma: “Para performático, o dicionário registra
sua origem no Brasil dos anos 1970, quando a palavra passou a ser usada para designar ‘forma de arte colaborativa surgida na década de 1970 com uma fusão de diversas linguagens de arte, como pintura, cinema, vídeo, música, drama e dança’. Já performativo é um termo que vai além das ligações que performance tem com as atividades artísticas. É seu uso nos campos da linguística e do gênero que pretendo explorar aqui: a articulação entre performance de gênero, tal qual proposta por Judith Butler, com o pensamento do filósofo franco-argelino Jacques Derrida” (RODRIGUES, 2012a, p. 142).
Em uma etnografia, um cocktail de técnicas aparece, mas a observação participante, combinada com entrevistas formais e informais parece ser o favorito. Independentemente do que se utilize nela para coletar os seus dados de pesquisa, o que importa é:
A etnografia abrange, portanto, métodos que envolvem contacto social direto e continuado com os agentes da investigação. Implica, por isso, um sentido de estar presente. A tarefa etnográfica refere a experiência que se adquire com as práticas incorporadas do encontro dialógico com o outro, que considera o dialógico como um evento, decorrente das interações sociais entre investigador e seus interlocutores. A etnografia pretende explicar e analisar a partir da tradução da experiência resultante com o outro, e reconhece, identifica e regista [sic] como essa experiência embarca no fluxo da história. (Ricardo Seiça SALGADO, 2015, p. 27).
Mais que isso, Salgado chama a atenção para o fato de que @ antropólog@ precisa ter uma sensibilidade performativa, pois:
A vida é sempre fazer algo. Não há ser sem o fazer e, por isso, todas as dimensões sociais se definem enquanto se age, atualizando-se constantemente, como a dimensão performativa em Butler [...]. Dito de outra forma, as palavras têm efeitos materiais nas pessoas (falante e ouvinte), constituindo-as através e ao longo dos seus atos performativos, o espaço onde as posições da vida se tomam e as pessoas se definem. Então, não há identidade performativamente produzida sem as suas expressões (do discurso e das ações), aquelas que o antropólogo localiza para responder às suas questões, no limbo das suas próprias posições, também elas performativamente constituídas. [...] Dar conta dessa performatividade é, justamente, parte do que se entende por fazer etnografia, da prática para a teoria. (SALGADO, 2015, p. 30, grifos meus).
É justamente pensando nessas performatividades constituídas que por hora, transcrevo anotações de campo com interlocuções e reflexões teóricas escritas por mim, mas reconheço que a possibilidade dessa escrita só pode ser constituída a partir da relação de polifonia com os espaços e com as falas que foram sendo incorporadas às minhas vivências, enquanto vivia, ouvia, lia, etnografava e refletia.
Os textos a seguir foram retirados do meu diário de campo – escrito não em um caderno de capa preta, mas no bloco de notas do meu celular. É a virada pós-moderna, mudando os artefatos... Escolhi-os por que representam três momentos cruciais na construção desta tese. Primeiro, a ampliação de meu objeto que pretendia estudar os processos sociais de abjeção em gays e lésbicas para um público mais amplo, constituído por bissexuais, transexuais e travestis. Posteriormente, o grupo focal me levaria à percepção de que no processo subjetivo de constituição d@s sujeit@s, a abjeção é o outro lado da moeda, independentemente da sexualidade, da cor, da condição social, em algum momento esses processos de abjeção alcançarão aquel@s que serão produzid@s sujeit@s, me fazendo também considerar os relatos de abjeção sofridos também por pessoas heterossexuais. Segundo, a descoberta de que a minha vida se misturava ao meu objeto de estudo e eu nem havia ainda me dado conta. Por último, a inspiração que resultou na escolha do meu título.
26 de janeiro de 201654
Decidida por meu objeto de estudo, comecei a procurar jovens universitári@s que pudesse entrevistar, porém, até esse momento ainda estava com intenção de entrevistar apenas gays e lésbicas, tanto que, no final de 2015, apresentei meu projeto de pesquisa a uma disciplina do Programa sob o título Entre sombras e reflexos: processos de produção de corpos e sexualidades vivenciados por gays e lésbicas em São Luís-MA. A decisão por universitári@s se deveu, sobretudo, ao fato de ser professora nesse meio, como já mencionei anteriormente, e já ter experimentado a facilidade, ao elaborar o artigo para o congresso em Bogotá, de abordar este público. No início de 2016, aprovada em um concurso público para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, tomei posse em uma cidade do interior chamada Santa Inês. Minha realidade havia se modificado, estava em uma escola onde também seria professora do ensino médio, e com várias demandas acerca (do controle) da sexualidade de adolescentes. Apesar dessa súbita mudança, meu foco continuou sendo jovens universitári@s residentes em São Luís, mas as vivências e conversas que tive com alun@s e funcionári@s, certamente marcaram minha trajetória e me fizeram pensar para além da possibilidade de entrevistar sujeit@s que se reconheciam ao mesmo tempo em que eram reconhecid@s como gays e lésbicas.
Comecei a ver nos meios de comunicação local a divulgação da Semana de Visibilidade Trans de São Luís, que aconteceria de 25 a 31 de janeiro de 2016, com o tema Eu tenho nome, eu tenho uma identidade. O objetivo da programação da semana era conscientizar a população para o fim do preconceito, violência e discriminação contra as pessoas que participavam do movimento trans, representado por travestis, transexuais e transgêneros. O período era mais que oportuno, já que em 29 de janeiro é comemorado em todo o país o dia Nacional da Visibilidade Trans. Imediatamente fiz minha inscrição no evento.
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Neste trabalho, como forma de distinguir o que escrevi em minhas anotações de campo, quando as cito utilizo mesma fonte e tamanho, mas altero o espacejamento das linhas para “1,0”.
Figura 1: Solenidade de abertura da Semana de Visibilidade Trans em 2016
Fonte: Governo do Estado do Maranhão, 26 jan. 2016.
Considero essa participação minha primeira incursão etnográfica na pesquisa e um marco divisor para a minha delimitação final, pois a partir dela, percebi que transexuais e travestis eram invisibilizad@s, muitas vezes até em seus sofrimentos. Era preciso ampliar o grupo de pessoas que sofriam abjeções e que eu, por não conhecer muito das problemáticas no momento do recorte do meu objeto, não havia me dado conta. Se a abjeção é vivida, singularmente por cada sujeit@, não importa na verdade o seu gênero, é preciso conhecer essas experiências e apreender delas as possibilidades de resistência e subversão.
Durante essa semana também pude perceber como a referência identitária pode ser forte no discurso LGBT. No dia 26, durante a mesa Gênero, identidade e movimentos sociais, uma transmulher, de outro estado, convidada para palestrar em outro momento, fez uma intervenção da plateia na qual afirmava que “essa tal de teoria queer agora quer acabar
com a nossa identidade...”. Ato contínuo, em uma tentativa de explicar o mal-entendido,
levantei e passei a falar que a identidade tem um papel político importante para a teoria queer, mas não pode ser entendida exclusivamente como substância. A discussão estava colocada e, pela primeira vez – mas não pela única ou última – me depararia com reificações do tipo “mas você é uma mulher cis, branca, hétero...”. De fato, o meu corpo generificado e sexualizado foi trazido à pauta várias vezes ao longo das tentativas de contatos com travestis localizadas em várias partes do Brasil55, das próprias entrevistas e, em algumas situações em que nunca consegui marcar um encontro real ou virtual porque as pessoas sempre tinham “algo para fazer”. Senti que, de alguma forma, o fato de ser entendida como cis e/ou hétero provocava uma não identificação imediata. Luiz Felipe Zago e Luís Henrique S. dos Santos (2011) chamam atenção para o fato de que em pesquisas sobre gênero e sexualidade,
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Não encontrei no espaço universitário ludovicense a presença de pessoas que se identificassem como travestis. Quando percebi que não conseguiria entrevistar nenhuma travesti cursando uma graduação ou pós-graduação fui à busca de outros estados onde houvesse tal situação. Encontrei travestis estudando tanto em estados do nordeste quanto do sul e sudeste. De maneira geral entrei em contato pelo Messenger do Facebook, me apresentei como pesquisadora, falei da minha pesquisa e deixei o meu perfil desbloqueado para poder ser visto. Na grande maioria das tentativas de contato obtive mais silêncios que respostas e, atribuo isso ao fato de ser uma pesquisadora vista pel@ “outr@” com cis hétero.
O sexo, o gênero, a sexualidade e os desejos sexuais do/a pesquisador/a podem ser solicitados pelos/as pesquisados/as como condição de possibilidade para o desenvolvimento da pesquisa. O primeiro é entender que o corpo sexuado, generificado e sexualizado do/a pesquisador/a importa e é, muitas vezes, o ‘passaporte’ para sua entrada no campo de pesquisa. (ZAGO; SANTOS, 2011, p. 46).
Até a Semana de Visibilidade Trans não sabia que dentro do movimento social LGBT havia a pretensa convivência, não tão harmônica, de dois grupos: os “identitários” e os “queer”56
. Miskolci (2010) embora discorde dessa classificação simplista, parte dela para demonstrar que a década de 1980, período marcado pelo pânico provocado pela proliferação, no Brasil e no mundo, do vírus da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) ou, em inglês aids – termo bem mais conhecido e difundido no Brasil – foi um momento de “[...] relativo sucesso do movimento brasileiro [que] se deu por meio de uma relação privilegiada com o Estado na constituição de políticas públicas – [...] – na ampliação de sua ‘base’ por meio da somatória de identidades sexuais” (MISKOLCI, 2010, p. 3). Entretanto, salienta que, esse modelo identitário de aglutinação de identidades sexuais sem levar em conta suas diferenciações, tem se modificado e dado claras demonstrações de que as relações com o Estado, nesses termos, estão chegando ao fim. Dessa forma, “é contra estas mudanças, inexoráveis em seu caráter histórico e social, que alguns que se auto-intitulam identitários buscam unir forças criando este Outro que chamam de ‘os queer’” (MISKOLCI, 2010, p. 3).
Todavia, foi apenas quase um ano depois que, lendo o texto de Miskolci, não só me dei conta destas disputas internas, como soube que uma das transexuais universitárias com quem tinha conversado no evento pedindo permissão para entrevistá-la, me apresentou em inúmeras vezes, nas mais diversas circunstâncias, dificuldades para não se encontrar comigo porque eu havia ficado “mal vista” com a defesa que havia feito da teoria queer57. As dificuldades no campo são muitas, às vezes chego a pensar em desistir, mas logo em seguida algo chama minha atenção e outras possibilidades de entrevistas e convivências se abrem.
Ainda assim, este evento, com todas as discussões que presenciei nele, foi fundamental não só para que eu estabelecesse uma rede de contatos, como também para perceber que trabalhar com pessoas que se autoidentificavam apenas como gays e lésbicas universitári@s reduziria muito o espectro das experiências de normalização e abjeção que o público LGBT vivencia diariamente nos espaços que frequenta.
28 de fevereiro de 2017
Saio despretensiosamente para “esfriar a cabeça”. É carnaval e passei quase todo o feriado lendo sobre “viadagens” – como dizem alguns que me conhecem e sabem que estou fazendo uma tese sobre LGBTs. O termo viadagens parece incluir tudo que não é heteronormativo. Apenas parece! Para Judith Butler, paradoxalmente, as pessoas não hétero de forma alguma estariam fora da norma. Segundo ela,
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Leandro Colling (2015) faz uma análise bem mais aprofundada acerca das tensões entre o que ele denomina de movimento LGBT e ativismo queer, entretanto o faz em quatro países estrangeiros – Espanha, Portugal, Chile e Argentina. Também lá as disputas são acirradas, mas, assim como aqui no Brasil, não dá para pensar que essas designações teóricas reflitam de fato uma homogeneidade interna nesses “grupos”.
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É importante salientar que em 12 de abril de 2018, depois que já havia finalizado as entrevistas consegui, finalmente, entrevistar essa pessoa. O campo oferece surpresas: pude reencontrá-la em outro evento, em março de 2018, e estabelecer outro vínculo. Não sei se suas primeiras negativas tiveram de fato relação com a minha defesa aos estudos queer ou se a pessoa que me confidenciou isso falou de suas próprias conclusões. O fato é que