CAPÍTULO V – A discussão dos dados
5.3 Tecendo confetos
Esse primeiro encontro apontou elementos introdutoriamente responsivos ao objetivo específico de compreender o potencial criador do encontro enfermeira-pessoa hospitalizada no contexto do hospital psiquiátrico.
Um confeto que emerge é temp’outro - o anúncio de colocação do próprio tempo
entre parênteses em respeito ao tempo do outro. Ao aceitarem compor o GP e se disponibilizarem durante a experimentação vimos um misto do que fazem enquanto enfermeiras e do que entendem ter que fazer, respeitar a si mesmas, suas crenças e conhecimentos e, também o outro. Interagir com todo o seu corpo, e não apenas com seus conhecimentos teóricos e técnicos referentes a uma abordagem intelectualizada (MENDES, 2011), direção esperada dos profissionais da saúde mental, contudo, sem caminhos trilhados para despertar essa ação.
As limitações eclodem no encontro como um déficit de conhecimento específico em saúde mental, impelindo as enfermeiras a projetarem atividades lúdicas sem cunho terapêutico, ou, inferindo a mera ocupação do tempo como terapêuticas. Temp’outro –
estabelecer relações terapêuticas entre pessoas com ―tempos outros‖, enfermeiras e pessoas cuidadas no hospital psiquiátrico. Talvez a pista seja expressar para perceber-
se/transformar-para-conhecer-se - confeto que fala da urgência de transformação das
enfermeiras para conhecimento de outros tempos na internação, temp’outro de produção de
vida e não ocupação de tempo.
Ainda distantes do problema e personagem-conceitual almejados com a análise Sociopoética, outros confetos eclodem explorando esses objetivos: cuidado-experimentado, os corpos das enfermeiras ao mexerem na argila, ao acenderem o incenso, ao perceberem a água, ao tocarem o esmalte ou ao criarem uma história em quadrinhos, falam de prazer, satisfação e alegria em manusear os elementos oferecidos, agradecem o encontro com abraços apertados, a sensação relatada é de terem sido cuidadas, vivenciam a experimentação favorecendo a produção de subjetividades, potencializando os sujeitos que dela participam a acessarem devires e intuições, expressarem emoções, pensarem com o corpo inteiro e desenvolverem o autoconhecimento (TAVARES, 2016).
Permitem-nos disparar a discussão da experimentação como acionamento sensível, sem a pretensão de uma transformação imediata, pois, o que se sabe é que aquilo rapidamente produzido, rapidamente perece (SPINOZA, 2016). Ao experimentarem sensações no corpo
164
autorizam-nos a elucubrar um cuidado-passivo-ativo, possível de migração entre aquilo que vêm executando e o que poderão ativar mediante sensibilização, dado que, ainda segundo Spinoza (2016) a mente esforça-se, tanto quanto pode, para imaginar, e evita imaginar aquelas coisas que diminuem ou refreiam a sua potência e a do corpo.
Ao deslocar da sensação de não se sentir produtiva à elaboração de uma história em quadrinhos, de estar nos limites da instituição e devanear até a praia, do não sei o que fazer aqui ao posso aprender, temos narrativas representativas do confeto anunciado, com distância de qualquer passividade e, aproximação a movimentos.
Dito que as experimentações dadas nas oficinas têm efeitos no processo de socialização, elevação da autoestima e adesão ao tratamento dos usuários (LIMA e GUIMARÃES, 2014), aprioristicamente as vislumbradas pelo GP não acionam esses aspectos, marcando o cuidado-passivo-ativo, como passagem de polos a algo que ainda poder-se-á ocorrer, sabendo ser preciso que haja um tipo de movimento, de passagem, um sistema, de um lugar, a um outro (OURY, 2009).
Diante da dificuldade a essa passagem, o GP parece compreender o cuidado como um limite-solitário-solidário, sentem-se sós, e ao vivenciarem nas enfermarias o déficit de outros profissionais, reverberam que o deslocamento característico do confeto anterior mantém frágil justificado pela solidão. Requerem outros profissionais, inicialmente não revelam compartilhamento do cuidado, atribuem ao terapeuta ocupacional, ao educador físico, ao psicólogo, ..., ou seja, ao outro, as atividades que validaram na experimentação. Mas discretamente sugerem que podem aprender umas com as outras, que poderiam ser mais solidárias consigo mesmas.
Ainda que vivenciando um limite-solitário-solidário não expressam desejo de um trabalho multidisciplinar, e sim que o outro assuma aquilo que consideraram relevantes. Parece que a ausência de elementos criativos nas práticas cotidianas das enfermeiras dificulta a projeção de cuidados a partir desses, e a queixa anunciada de que ―ninguém olha para a enfermagem‖ reforça esse limite-solitário-solidário, que associa-se a definição de cuidado de Collière, ao afirmar que cuidar é agir sobre o poder de existir, permitindo a este poder mobilizar-se, desenvolver-se, utilizar-se, ou levando-o a imobilizar-se, a contrair-se, e reduzir- se, a certeza de estarem sozinhos os conduz a essa imobilização, contração e redução, o que consideramos esbarrar no funcionamento da instituição, pois alocar nas enfermarias apenas a equipe de enfermagem é minimamente contraproducente.
165
Temos, assim, o retrato do enraizamento das dificuldades na instituição atravessando a apropriação do cuidado investigado. Confetos que retratam não apenas as raízes da árvore do oprimido, mas sobretudo as asas anunciadas com a teatralidade.
Nesse momento, na condição de pesquisadores com implicações assumidas no início da pesquisa, portanto, não forjando uma neutralidade, precisamos ressaltar que embora alguns teóricos propositores de experiências de transformações do hospital psiquiátrico, como Tosquelles, Oury e Baremblitt dialoguem com esses confetos, mantemos nossa posição da contraindicação da manutenção desses espaços.
[...] a partir da proposta da Ergoterapia, com Tosquelles os internados desenvolvem seus engajamentos em diferentes atividades de trabalho, não apenas para ocupar o tempo dito ocioso ou para reduzir seus sintomas. Um dos principais objetivos do trabalho seria o de colaborar para que o protagonista se deslocasse do lugar passivo de paciente, assumindo-se como ativo usuário, cuidando do próprio hospital como estabelecimento de cuidados, neste mesmo processo em que ativamente cuida de si e dos outros. (RUIZ et al., 2013, p.860).
Trouxemos Tosquelles por concordamos e discordamos de suas propostas. Quando o GP projeta atividades enfaticamente para tratar do ócio dado no hospital psiquiátrico, o referido autor, com a psicoterapia institucional apresentada em suas experimentações no Hospital Psiquiátrico de Saint-Alban/França em 1984, já criticava que as atividades ocorressem apenas com essa intenção, ele propunha a busca por uma postura ativa do usuário. Afirmava não serem os muros do hospital a configurar as características manicomiais, mas sim as pessoas que faziam parte dele. Esses são nossos pontos de concordância.
Contudo, sua prática valorizava a atividade dentro do hospital psiquiátrico, propondo que tratassem também da instituição e das pessoas que nela trabalhavam, para além das pessoas internadas. E, embora isso se pareça com o pedido do GP, opondo-nos a manutenção do hospital psiquiátrico, propomos que esse movimento se dê para fora da instituição. Ainda que concordemos com a ideia de muros internos às pessoas, simbólicos, não vemos sentido nos muros institucionais por razões previamente elaboradas.
Também nos limites institucionais, e respondendo ao confeto limite-solitário-
solidário, Oury nos fala da potência do efeito de uma constelação heterogênea, em que as
pessoas que compõem a assistência não se pareçam, havendo então muito mais possibilidades de surpresas, de trocas, de manifestação, de expressão. O autor refere que se convocarmos numa constelação dez psicólogos diplomados, seria muito menos eficaz que um psicólogo, mais um cozinheiro, mais um jardineiro, mais um esquizofrênico, ...convocação suplicada
166
pelo GP, a qual fazemos ressalvas, que esses diferentes atores somem ao trabalho no sentido de promulgarem a direção do cuidado para fora da instituição.
Baremblitt, por meio das ideias esquizoanalíticas de Deleuze e Guattari, ao falar do esquizodrama como um catalisador incessante de novas produções, toma como tarefa não deixar nenhuma experiência sem comentários, além de propor e realizar outras destinadas a conseguir que o descoberto em qualquer delas seja elaborado e assimilado o máximo possível. Essa exigência de trabalho de reflexão a partir da experimentação responde a ambos os confetos, e essencialmente a direção do estudo.
Outros conceitos de Baremblitt conversam com os confetos, tal como os da Análise Institucional, trazendo as instituições como árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas, indicando o que é proibido, o que permitido e o que é indiferente. E toda instituição compreende um movimento que a gera, o instituinte, um resultado, o instituído, e um processo, a institucionalização (BAREMBLITT, 2012).
Movimentos de ruptura com a institucionalização da loucura favorecem práticas voltadas para vida, e não meramente para fora do hospital. Com isso, ressaltamos que a reinvenção que propomos não se refere a instituição, e sim as práticas das enfermeiras.
Referindo-se à relação profissional/paciente, Pál Palbeart (1993) diz que ora estamos de um lado, quando enlouquecemos, ora de outro, quando tratamos. E que é preciso muito senso estético, político, ético, clínico, para desfazer essa postura, sugere que:
Necessitamos de muito espírito aventureiro para ir forjando asas, tanto no interior de uma instituição como fora dela, que nos permitam — a nós e a nossos pacientes — escapar a essa violência binária, que consiste em ter que optar sempre seja por um precipício abissal, seja pelo suave paraíso asséptico de uma estranha saúde, saúde sem desejo de asas nem um devir-anjo (PÁL PALBEART, 1993, p. 19).
Os teóricos sustentam a missão profissional de termos raízes e asas, de assumirmos devires revolucionários e angelicais, de a partir do tempo-comum inventarmos um tempo- amplo. E tudo sem oposições. Não enfatizam dualidades, ensinam-nos a perceber o quanto que as diferenças partem de uma similaridade, e com a criação de confetos seguimos produzindo cuidado.
167