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7.2 – Tecnociência e poiésis

CAPÍTULO II – Tecnociência e metafísica da modernidade

II. 7.2 – Tecnociência e poiésis

Sucede, ipso facto, que à ciência que não pensa não é facultado “tratar cientificamente de sua própria essência”541, tanto mais não seja pelo inacessível mesmo, como um dado incontornável, dessa essência inabarcável542 pelo extremo da “representação”. Com a asserção “a ciência não pensa” pretendeu Heidegger alertar para a ausência da “meditação” ou do “pensamento do sentido”, ausência essa já assumida pelo rumo da “coisa” como disposição do previamente fixado por uma Bildung, por uma

537Ibidem, p. 37: “L’indagine su un certo campo di oggetti, nel suo lavoro, deve necessariamente conformarsi

allo specifico modo di essere degli oggetti che vi appartengono. Un tale conformarsi alla specificità fa sí che il procedere della scienza settorializzata diventi ricerca specialistica. La specializzazione, per ciò, non è per nulla una sorta di accecamento dovuto a una degenerazione o una semplice manifestazione di decadenza della scienza moderna. E non è neppure semplicemente un male inevitabile. Essa è invece una coseguenza positiva dell’essenza della scienza moderna”.

538 Ibidem.

539 Ibidem, p. 29. A propósito, convém aduzir o seguinte: ‘Τέχνη no significa arte, ni habilidad, ni mucho menos

técnica en el sentido modemo. Traducimos Τέχνη por «saber»” [HEIDEGGER, M., 2001 (1987), op. cit., p. 146].

540 Cf. designação empregada por CEREZO GALÁN, P., 1990, op. cit., e também por DUQUE, Félix, 1995, op. cit..

541 HEIDEGGER, M., “Che cosa significa pensare?”, 1991 [1952], op. cit, p. 88. Conferir, a propósito, com

vistas a detalhes esclarecedores, a Nota 522 do p. 133, bem como o item I.5 do Capítulo I.

542 HEIDEGGER, M., “Scienza e meditazione”, 1991 [1954], op. cit., p. 41: “Solo quando prendiamo in

considerazione anche questa inaccessibilità dell’inaggirabile diventa visibile lo stato di cose che domina l’essenza della scienza”.

135 “imagem-modelo (Vor-bild)”543 condutora dos nexos que conferem cabimento e razão ao mundo ontologicamente despojado, qua fenomenon, e portanto como “disposição preexistente” do caráter de todo entendimento e juízo. Diversamente, o pensamento efetivamente questionador do que é digno de ser questionado, por força de sua remissão à “nossa essência”, encaminha-se na perspectiva do “retorno ao lar”544.

No âmbito, então, da episteme que serve à técnica como matriz de conhecimento informada pela “teoria do real”, é suposto o seu constructo estar já de antemão agenciado pelo princípio da “representação asseguradora” da entidade do ente enquanto objetidade, para o que o re-presentar que assegura e calcula se constitui no sine qua non de toda a possibilidade do conhecimento. Nas palavras de Heidegger,

“A «teoria do conhecimento» e o que se compreende sob tal designação são, em rigor, a metafísica e a ontologia fundadas sobre a verdade entendida como certeza do representar assegurador. Por outro lado, é incorreto interpretar a «teoria do conhecimento» como explicação do «conhecer» e como «teoria das ciências», conquanto esta atividade asseguradora seja apenas uma consequência da reviravolta ocorrida quando o ser começou a ser interpretado como objetidade e como coisa representada”545.

Como uma espécie de urdidura ou de mal necessário a que esteve preso o ocidente, a metafísica da presença que involucra a ciência moderna com os fios da techné é o centro de gravidade constituinte da instrumentalidade técnico-antropológica dessa mesma ciência já como tecnociência, em sua determinação operatória de efetuação do ser como presença, isto é, como “real”, na modernidade, conforme o pré-disposto pelo dis-positivo, pela

armação –numa palavra, pelo Ge-stell como essência metafísica da técnica moderna.

Nada disso, por certo, corresponde, peculiarmente, ao pôr-em-obra da verdade do ser. Daí que Heidegger se tenha referido à metafísica na condição tanto de fatalidade quanto

543 Ibidem, p. 43.

544 Ibidem: “Il caminare nella direzzione di ciò che è degno di esser domandato non è aventura, ma retorno in

pátria. Seguire una via che una cosa (Sache) há già di sé presa si disse, nella nostra lingua, sinnan, sinnen. Impegnarsi nel Sinn, cioè nel senso, è l’essenza della meditazione (Besinnung). Questa significa di piú che il semplice divenire consapevoli di qualcosa. Non siamo ancora nella meditazione quando siamo solo nella coscienza (Bewusstsein). La meditazione è qualcosa di piú. Essa è il tranquillo abbandono (Gelassenheit) a ciò che è degno di essere domandato”.

545 HEIDEGGER, M., “Oltrepassamento della metafisica”, 1991 [1951], op. cit, p. 48: “La «teoria della

conoscenza» e ciò che si intende sotto questo nome sono, in sostanza, la metafisica e l’ontologia fondate sulla verità intesa come certezza del rapresentare assicurante. Invece è sbagliato interpretare la teoria della conoscenza come spiegazione del «conoscere» e come «teoria delle scienze», benchè questa attività assicurante sia solo una conseguenza del rovesciamento intervenuto quando l’essere ha cominciato a essere interpretato come oggetità e come cosa rappresentata”.

136 de pressuposto da “dominação planetária”546 que se fez cumprir como essencialização547 do pensar técnico através da tecnologia. Tecnologia, bem entendida, cientificizada na qualidade de tecnociência, como entranhamento do horizonte do cálculo da presença antecipada (“produzida”) na representação tecnocientífica. Seu fundo, por isto, é o arbitrário mesmo da violência criadora (poiética) na qual está enredada, e que forjou a ciência moderna, na tecnificação, como tecnociência a priori. Como um todo, o processo inscreve-se como expressão do acabamento da própria metafísica enquanto des-ocultação tecnológica da

verdade na configuração essencial do Ge-stell, quer dizer, na “estrutura que dis-põe, im-põe

e pre-dispõe o humano a desocultar a realidade natural no modo da provocação”548 –e não, portanto, como corolário de um eventual descaminho da razão crítica, libertária, cooptada pela instrumentalidade da dominação social, segundo se depreende da “filosofia da técnica” de Marcuse.

Uma tal coisa equivaleria a reposicionar a tecnologia como o desfecho, supostamente neutral, de uma ciência imbuída unicamente do intuito de cooperar, tecnicamente, para a resolução de problemas para os quais ela teria sido convocada como esfera privilegiada do conhecimento humano, isto é, como lugar da imanência da razão emancipatória e autoconsciente, como locus certificador da verdade em última instância.

Supõe-se, aí, que, ao vir à luz, como obra final da investigação científica, a tecnologia dá testemunho tangível da capacidade da ciência em sua autodeterminação comprometida com a revelação da verdade que avança do certificável, como correspondência proposição- fato, para a externação propriamente dita da entidade do ente, como exposição das propriedades da coisa enquanto “domínio do fenômeno tecnologicamente implementado” em sua “confiabilidade e reprodutibilidade”549. Trata-se, segundo Nordmann, da ideia de

546 Ibidem, cf. Seção VIII, p. 67.

547 Acerca do emprego de “essenciar” e “essencialização”, no léxico heideggeriano, convém notar o que sobre

isto observou Félix Duque (DUQUE, F., El cofre de la nada: deriva del nihilismo en la modernidad”. Madrid: Abada Editores, 2006, p. 100): “En Heidegger, «esencia» (Wesen) tiene siempre un sentido verbal, transitivo (llega a utilizar el término efectivamente como verbo, aqui vertido como «esenciar»). La esencia es el modo

activo mediante el cual, el despliegue durante (wörhend, término emparentado con Wesen) el cual el ser se

despliega a la vez en el hombre (en el lenguaje, en el quehacer artístico) y en la cosa-obra-lugar cuidada por él”.

548 LINARES, J. E., 2008, op. cit., p. 83.

549 NORDMANN, Alfred, “Object lessons: towards an epistemology of technoscience”. São Paulo: Scientiæ Studia, v. 10, special issue, 2012, p. 16: “The technologically implemented mastery of phenomena proves itself

137 circularidade do “conhecimento da coisa” que é provado no fazer funcionar da coisa conhecida550.

Diversamente, o trazer então “para fora”, sempre segundo uma ordenação sistemática e metódica, em vez de exprimir uma autojustificação derivada da acumulação da observação e da exploração experimental do fenômeno, como prática técnica, profere, isto sim, o caráter mesmo de empresa metafísica da ciência, em seu cunho, não de meio para um fim, e nem mesmo, originalmente, de uma práxis, entendida “como manifestação de uma vontade produtora de um efeito concreto”551, mas de uma poiésis, ou seja, da “produção”, como o disse Agamben, “da verdade e na abertura”552, por meio da qual algo vem do “não ser ao ser”553, num modus de desvelamento da verdade (αλήθεια) que não guarda vínculo com o caráter volitivamente humano e propriamente prático do trabalho. Não, não se trata do corrente agir processador para uma qualquer finalidade especificada e terminativa –ainda mais quando se sabe que, na era da técnica moderna, o próprio objeto (Gegenstand) tende a se desintegrar554 no jogo da pro-vocação infinda de toda a dis-ponibilidade.

Assim, em seu caráter poiético, a techné nem era bem uma “realização da vontade” e nem tampouco um mero fabricar, mas um gênero da verdade e do desvelamento que, como “pro-dução” (Hervor-bringen), conduzia as coisas do ocultamento à vigência, à presença555. Portanto, não se tratava de um “fazer-aparecer” (Veranlassung) concebido como agere, mas

550 Ibidem: “Thing knowledge is expressed in the reliable functioning of a machine; at the same time, the fact

that the machine works is proof of the existence of thing knowledge. Although this circularity also holds for any actually given belief of an individual, it does not hold for the epistemic knowledge that is to be acquired by the scientific research process”.

551 AGAMBEN, Giorgio, O homem sem conteúdo. Tradução: Cláudio Oliveira. 2ª ed. Belo Horizonte:

Autêntica, 2012, p. 89.

552 Ibidem, p. 93. 553 Ibidem, p. 89.

554 CEREZO GALÁN, P., 1990, op. cit, p. 36: “La exhaustiva explotación de la realidad por obra de la técnica

conduce a la desintegración del objeto (Gegenstand) en cuanto tal en lo carente de consistencia (Gegenstandslos) o constitución, porque solo cuenta como real lo efectivo o efectuable, lo ya dispuesto o siempre disponible en la red de los sistemas operatorios. En cuanto pro-ducto de tal producir (Herstand), el ob- jeto (Gegen-stand) acaba perdiendo su propia consistencia para devenir en última instancia, al término de su evolución, lo meramente dis-puesto (Bestand) y a disposición”.

555 “...todo «pro-ducir» técnico, como acto «poiético» y no como mera fabricación, se funda en el desocultar

el ser. El ser de la técnica es el desocultar, es decir, la αλήθεια. En ella reside, según Heidegger, la posibilidad de toda fabricación productiva. La técnica no es, por tanto, un simple medio, sino el medio de desocultar la realidad. La esencia de lo humano está estrechamente vinculada con dicha capacidad de desocultamiento ontológico. Esta determinación general también es aplicable a la técnica moderna, pero ésta tiene una forma peculiar de desocultar: el desocultamiento imperante en la técnica moderna es una «pro-vocación»” (LINARES, J. E., 2008, op. cit., p. 79).

138 como saber, relativamente ao qual se pode dizer que, do ponto de vista grego, techné e práxis não se equivaliam556.

Só mesmo mais tarde, na modernidade –quando se inclui uma nova modulação conferida à ciência– a poiésis se subtrai à práxis, culminando um transcurso histórico que teve lugar quando se legou à metafísica ocidental a compreensão do ser como efetividade e ato557. “Quando esse processo”, diz Agamben,

“se cumpre na época moderna, não há mais qualquer possibilidade de distinguir poiésis e práxis, pro-dução e ação. O «fazer» do homem é determinado como atividade produtora de um efeito real (o opus do

operari, o factum do facere, o actus do agere), cujo valor é apreciado

em função da vontade que nela se exprime, e, portanto, em relação com a sua liberdade e a sua criatividade”558.

Sob o estatuto da técnica, portanto, da técnica moderna, a “relação de proximidade [...] que rege e determina o ingresso na presença não mais tem lugar”; há agora uma espécie de “paradigma externo, de molde, ao qual o produto deve se conformar para vir ao ser, enquanto o ato poiético permanece indefinidamente reprodutível”559, como no estar ao dispor de toda disponibilidade tal qual num repositório peculiar à produção sem um telos, fim ou limite560. Nesse contexto, entende-se o porquê de ambas, técnica e ciência, estarem reciprocamente implicadas ab initio; formam um corpus que, na modernidade, torna mais proeminente a determinação do cálculo prévio de todo colocar que é um trazer à presença. Precisamente por isto é que se haverá de ver, no próximo capítulo, a dita racionalidade econômica como extensão desse domínio, como um perímetro do pensamento calculador da técnica e de sua vontade de querer que institucionaliza o ser no ente561, no vórtice da provisão ampliada que acompanha a errância da “faculdade apetitiva”562 do sujeito econômico563.

556 Cf. AGAMBEN, G., 2012, op. cit., p. 93. 557 Ibidem, p. 91.

558 Ibidem. 559 Ibidem, p. 81

560 Aliás, conforme esclarecimento do Agamben, τέλοζ e πέρας, como fim e limite, “são em grego a mesma

coisa” (ibidem, p. 94). Daí se poder associar a ausência de um telos na produção moderna como o aberto do desmedido da própria práxis, no sentido da circularidade de seu agir, que, não correspondendo consistentemente a um autêntico pro-duzir, “conduz à presença apenas a si mesmo” (ibidem, p. 96).

561 Cf. HEIDEGGER, M, “Oltrepassamento della metafisica”, 1991 [1951], op. cit., Seção XIX, pp. 56-57. 562 Cf. KANT, Immanuel, Critica de la razón practica. Traducción: J. Rovira Armengol. Buenos Aires:

Editorial Losada, 2003, p. 22.

563 Em virtude da importância de que esta questão da vontade se revestirá quando do trato com a questão da

subjetividade maximizadora do sujeito econômico, adiante-se logo que seria errôneo, no entender de Heidegger, circunscrever a vontade de vontade à manifestação da vontade de indivíduos, como se de vontade

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