• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 – REVISÃO DE LITERATURA

1.1 ESTADO DO CONHECIMENTO

1.1.1 Tecnologia Analógica

De acordo com a Tabela 1, nesta categoria os trabalhos foram agrupados por focarem nos recursos analógicos, como tecnologia assistiva para o ensino e aprendizagem das pessoas com deficiência visual.

Miranda (2016), em sua pesquisa qualitativa com abordagem etnográfica delineada pelo estudo de caso, buscou observar condições necessárias para a participação e o sucesso do aluno cego no processo de ensino e de aprendizagem de matemática. Ela traz também uma reflexão sobre o quanto que o uso da matemática falada pode levar a um ambiente desfavorável para a aprendizagem matemática dos alunos cegos, e ressalta que, quando o processo de ensino e aprendizado é adaptado ao aluno cego, ele permite potencializar suas experiências e aprendizados. Enfatiza ainda que a formação inicial e continuada do professor influencia diretamente nesse processo. Segundo a autora, as dificuldades enfrentadas pelos alunos com deficiência visual em sala de aula regular para aprender os conteúdos de matemática juntamente com o apoio da sala de recursos foram minimizadas consideravelmente com a utilização de tecnologias assistivas, como Soroban, materiais em Braile e régua adaptada. Miranda (2016) aponta também que,

o professor, muitas vezes, tem dificuldade de preparar uma aula onde não se privilegie, principalmente, o sentido da visão. Lembramos que o ser humano é dotado de cinco sentidos e costumamos atribuir ao sentido da visão uma valorização maior do que a que atribuímos aos demais sentidos, inclusive quando se trata da aprendizagem. (p. 139)

Miranda (2016) ressalta ainda que não é preciso o professor preparar aulas distintas para o aluno normal e para o aluno cego, basta preparar uma aula que contemple o uso de um material manipulável ou a tecnologia assistiva de forma que torne a aula interessante e inclusiva para qualquer aluno em sala de aula.

Ataíde (2019), em sua pesquisa qualitativa, buscou investigar os impasses que o professor de química encontra no processo de ensino e aprendizagem do aluno cego, e constatou que o professor sente muita dificuldade em fazer adaptações em materiais, mesmo contando com um bom suporte oferecido pela instituição em que foi realizada sua pesquisa.

A autora constatou não só a falta de preparo do professor, mas também um certo descaso com o processo educativo da aluna cega, pois não se mostrou interessado em buscar novos meios para facilitar esse processo, não construiu nenhum tipo de recurso material para que a aluna cega pudesse compreender suas aulas. Durante as observações da autora, foi percebido um isolamento da aluna cega em relação aos demais estudantes, ela não participava nem

perguntava nada, a aula era ministrada como se ela não estivesse na sala. Para Ataíde (2019),

“as adaptações de materiais e a utilização de recursos pedagógicos deveria ser algo presente na rotina da sala de aula, desta forma a aluna se sentiria mais parte dessa sala de aula e interagia mais com a turma, com o professor [...]” (p. 81).

Splett (2015), num estudo de caso qualitativo, mostrou que a utilização de materiais concretos e manipuláveis nas aulas de matemática faz com que o aluno sinta mais prazer em aprender, além de proporcionar maior interação entre todos os alunos, incluindo os deficientes. A autora enfatiza a necessidade de o aluno com deficiência visual explorar seus outros sentidos ao utilizar materiais manipuláveis como complemento das aulas, proporcionando a eles melhor compreensão e aprendizado significativo dos conceitos matemáticos. Ela diz que “a utilização do material concreto vai permitir que o aluno literalmente ‘sinta’ o que está sendo ensinado e seja capaz de desenvolver suas abstrações compreendendo assim, os conceitos matemáticos envolvidos” (p. 93). A autora ressalta ainda a importância do papel do professor em “procurar desenvolver metodologias e materiais que permitam um trabalho integrado entre os alunos cegos e os alunos videntes, favorecendo assim o processo de ensino e aprendizagem de ambos” (p. 94).

Costa (2019), em sua tese de doutorado intitulada Avaliação das Relações Pré-Aritméticas em Crianças e Adolescentes com Deficiência Visual, com abordagem do ponto de vista da análise do comportamento, notou o desempenho bem-sucedido dos participantes cegos em seu protocolo de avaliação de habilidades matemáticas com o uso de materiais concretos e manipuláveis. O protocolo de avaliação foi criado pelo autor a partir dos seus estudos analisados na revisão da literatura científica nacional e internacional, entre os anos de 2001 e 2016, sobre o ensino de repertórios matemáticos para pessoas com deficiência visual. Os dados do seu estudo mostraram também certo grau de dificuldade dos participantes

“em habilidades matemáticas que fazem parte do repertório de crianças de três a cinco anos de idade, indicando uma defasagem na aprendizagem [...]” (p. 87).

Gonçalves (2014), em sua investigação pautada na visão sócio, histórico e cultural de Vygotsky, com abordagem qualitativa em um curso de licenciatura em matemática apontou o grande potencial do uso de materiais manipuláveis, especialmente na educação matemática, no desenvolvimento das funções superiores, tendo em vista que tato é um importante campo perceptivo do cego. O autor buscou analisar possíveis contribuições que o uso de materiais manipuláveis aliado ao uso do computador possibilitam à apropriação do conceito de função derivada para um aluno cego. Para Gonçalves (2014), “a prática docente é muito mais que transferir conhecimento, mas, acima de tudo, criar as condições necessárias para que cada

um, dentro de suas particularidades e necessidades, possa participar do processo de construção do seu próprio conhecimento” (p. 151). Como produto desta pesquisa, foi elaborado um livreto com atividades e confecção de materiais sugestivos, para professores, futuros professores e formadores que se sintam desafiados pela inclusão de alunos com necessidades especiais no ensino superior.

Lorencini (2019), em sua pesquisa-ação, investigou as possibilidades inclusivas de uma sequência didática sobre Função Afim, e trouxe como resultado a dificuldade dos alunos na consolidação do conceito de função mesmo com o auxílio de materiais manipuláveis nesse estudo. A autora relata que somente a descrição oral dos conceitos de função não são suficientes para a interpretação e compreensão das tarefas por estudantes com baixa visão grave; como também só a transcrição em braile desses conceitos deixa lacunas na compreensão, uma vez que esses alunos precisam de um maior número possível de informações para criar as abstrações dos conceitos. A oralidade combinada com material em braile dentre outros materiais manipuláveis quando utilizados em conjunto torna o aprendizado mais significativo, mesmo com as dificuldades dos alunos em consolidar os conceitos de função. Lorencini (2019) acredita que,

para ocorrer efetivamente a inclusão, dentro do ambiente escolar, seja necessário, primeiramente, conhecer e aceitar as diferenças, considerando tanto as limitações quanto as potencialidades de cada aluno. E, a partir destes aspectos, o professor deve se preparar buscando novos conhecimentos para promover um ambiente que respeite as diferenças e que oportunize aprendizagem para todos. (p. 172)

Rodrigues (2018) pautou sua pesquisa qualitativa exploratória na investigação de como se dá o ensino de Ciências Biológicas da educação básica ao ensino superior para estudantes com deficiência visual. Ela inferiu sobre a necessidade da formação continuada aos professores na temática da deficiência visual e o ensino de Ciências Biológicas objetivando melhorar a utilização e criação de recursos de tecnologia assistiva e materiais adaptados para o ensino. Os estudantes com deficiência visual participantes desta pesquisa mencionaram a dificuldade de convivência porque sentem que ainda há muito preconceito e exclusão; apontaram também o descaso e despreparo de alguns professores, a ausência de recursos adaptados e a falta de diálogo com os professores como as principais barreiras da inclusão. Como produto desta dissertação, foi criado um caderno de apoio com orientações teórico-práticas e sugestões de aulas com material adaptado.

Martins (2017) realizou sua pesquisa de mestrado a partir das contribuições de um curso de extensão sobre os saberes docentes e o ensino de matemática para alunos com

deficiência visual em que participaram professores, futuros professores, monitores e intérpretes de libras. Houve significativa sensibilização dos participantes em relação à educação matemática inclusiva, mobilização de saberes quanto ao ensino, preocupação com a didática e a produção de materiais adequados à inclusão de todos os alunos. A autora percebeu que a maioria dos participantes desse curso de extensão experimentaram “a sensação de que é possível aprender Matemática, mesmo privado da visão e que é possível criar situações de ensino que não envolvam grandes gastos e possam ser desenvolvidas com toda a classe” (p. 127). Segundo Martins (2017) “essa experiência favoreceu a compreensão da necessidade de criar, estudar, pesquisar, se envolver, refletir, ou seja, os dados sugerem que perceberam a inclusão como um processo que demandaria deles constante crescimento profissional e protagonismo diante desse desafio” (p. 128).

Lourenço (2014), em sua dissertação, realizou um estudo de caso etnográfico com o objetivo de refletir sobre a inclusão do deficiente visual e a matemática escolar com foco nas criações e estratégias dos professores de matemática da escola pesquisada. Como resultado, notou-se que os professores não têm muito espaço para mudanças, pois a escola preserva práticas já existentes, e então os professores utilizam o giz e a lousa como principais ferramentas de ensino.

Pereira (2012), em sua dissertação sobre ensino de geometria para alunos com deficiência visual, fez uma análise de uma proposta de ensino com a utilização de materiais manipuláveis, a expressão oral e escrita dos alunos cegos e com baixa acuidade visual participantes da pesquisa. A questão que norteou esse estudo foi “Quais são as possíveis contribuições de uma proposta de ensino envolvendo o uso de materiais manipulativos para a aprendizagem de conceitos geométricos de alunos cegos ou com baixa acuidade visual do 7º ano do ensino fundamental de uma escola especializada de Belo Horizonte (MG)?” (p.

12). Seus resultados evidenciaram o desenvolvimento do pensamento e da linguagem geométrica, bem como a motivação e o interesse dos alunos em participar das atividades. A autora pôde verificar que o uso de materiais manipuláveis nas aulas tem um grande potencial no aprendizado, e o diálogo entre professores e alunos também contribuiu significativamente para o conhecimento de relações geométricas. A partir dessa pesquisa foi construído um livreto com sugestões de atividades comentadas para professores, futuros professores e formadores.