Figure 8: Creatures evolved for jumping
2.1. Conhecer Frei Otto
2.2.4. Tecnologia Animal
2.2.4. Tecnologia Animal
A tecnologia animal encontra-‐se claramente presente na obra de Frei Otto. É um assunto pelo qual Otto demonstrou grande interesse e procurou compreender, avaliar e aplicar às suas variadas e distintas técnicas construtivas. As suas eficácia e soluções simplistas revelam uma capacidade brilhante de inventar e, através dela, quer a tecnologia humana, quer os “objectos” construídos pelo Homem podem aprender e evoluir de forma positiva.
É necessário ter em conta que este tipo de construção não se encontra inserido na classe de formas dos seres vivos, no entanto é resultado das construções realizadas por estes organismos. A tecnologia construtiva natural revela como, através da evolução das espécies e da programação genética das formas vivas, é possível criar técnicas construtivas capazes de fornecer soluções necessárias para a sua sobrevivência.
A programação genética é, sem dúvida, um factor relevante na construção e formação da tecnologia animal. Ao observar as tecnologias naturais dos invertebrados conclui-‐se que existe uma predominância deste factor nos exemplos das teias e ângulos utilizados pelas aranhas, nas colmeias das abelhas ou nas colónias criadas pelas térmitas. Relativamente às estruturas criadas pelos animais vertebrados, esta programação não se encontra tão patente. Não obstante, a tecnologia animal é ainda utilizada para diferentes fins, de entre os quais, o abrigo, os mecanismos de caça, de produção e de reprodução ou as estruturas capazes de conferir ordem e funcionamento de uma colónia.
Frei Otto realiza, ao longo da sua obra, um estudo das técnicas construtivas dos animais invertebrados e vertebrados e constata que existe uma maior eficiência técnica
nas construções rígidas dos invertebrados, ao invés das estruturas apresentadas pelos vertebrados.
Seguindo esta conclusão e pela constatação da aparência similar à dos seus modelos, a sua atenção converge especialmente para as técnicas de construção de teias e ramos presentes na natureza viva. Para compreender o princípio ligeiro destas construções utiliza o já referido exercício Caminho Oposto e, com o auxílio do biólogo Ernst Kullmann, participante no grupo Biologie und Bauen, consegue observar os nós e os pontos de união microscopicamente. Assim, foi capaz de compreender e obter um precioso conhecimento acerca desta tecnologia construtiva que viria a constituir a base de todas as construções “Ottianas” em rede.
“As redes podem ser descritas como sistemas ramificados. Sistemas tubulares ramificados construídos com pneus ocorrem frequentemente nos organismos vivos. Eles servem como sistemas de apoio -‐ por exemplo, os sistemas vasculares dos animais, o sistema de brônquios e bronquíolos nos pulmões dos vertebrados, o sistema respiratório traqueal dos insectos o sistema vascular das plantas.” 103
Existe uma clara relação estrutural e morfológica das redes com as tecnologias animais, tais como os elementos constituintes dos organismos vivos. Outros tipos de tecnologia, neste caso humana, também poderão fornecer alguma informação nesta matéria. Se observarmos as construções milenares de sistemas de redes de caminhos realizados pelo Homem, planeados e não planeados, também poderemos apercebermo-‐ nos de como estes sistemas funcionam e agregam-‐se, criando uma rede estrutural.
A estruturação destes sistemas e formas biológicas é uma componente que Frei Otto têm vindo a estudar ao longo da sua obra. Contudo, quando falamos de elementos reguladores da organização espacial, as estruturas vivas revelam uma complexidade distinta das estruturas resultantes da tecnologia humana. Para descodificar e compreender a estruturação organizacional da Natureza viva, é necessário destacar o factor genético como elemento regulador e principal responsável pela estruturação das funções nos corpos biológicos.
A informação genética de que todos os organismos são portadores, em confrontação com o meio ambiente, tem sido “modelada” de harmonia com o processo de interação evolutivo dos organismos, influenciando desta forma as suas morfogéneses. Actualmente, é através da cartografia genética (mapas genéticos) que é possível determinar os genes reguladores da distribuição morfológica nos organismos. Este grupo (de genes), denominado genes Hox, são os responsáveis pelo o controlo do desenvolvimento embrionário da maioria dos animais.104
Por conseguinte, constatamos a importância da genética como factor decisivo tanto na regulação da morfogénese biológica, como na construção e formação de tecnologia animal. Através da programação genética, as estruturas vivas e técnicas de construção são reguladas por um conjunto de “parâmetros” herdados dos biliões de anos de evolução e da adaptação das espécies ao meio ambiente. Como tal, a programação genética não deve ser ignorada e uma melhor compreensão desta possibilitará uma melhor conversão análoga dos mecanismos construtivos e das viabilidades estruturais da Natureza, como é o caso das redes de Frei Otto.
No entanto, segundo as conclusões provenientes de Otto e das investigações biológicas, é possível pelo menos afirmar que “[...] se a pressão e volume continua constante, o requerimento total de fibras absorção-‐força mantêm o mesmo valor para todas as formas tridimensionais construídas em rede. Por outras palavras, a mudança de formas não necessita de energia extra, apenas é necessário reorientar as direcção das fibras.” 105
Este princípio revela a capacidade, eficácia e facilidade estrutural que esta tecnologia construtiva possui ao adaptar-‐se às variadas formas. Ao nível do natural seguem os princípios de auto-‐organização da Natureza, influenciados directamente pela carga genética que carregam e formando inúmeras e potencias soluções de grande interesse para a Arquitectura. Através delas podemos constatar e ampliar o número de
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Os genes Hox ou genes homeóticos são um subconjunto da família homeobox. Estes genes actuam no controle maestro do desenvolvimento de vários organismos multicelulares, sendo um dos principais responsáveis pela morfogénese e diferenciação celular durante o seu desenvolvimento. Foram descobertos graças às primeiras observações do biólogo inglês Willian de mutantes espontâneos da mosca da fruta Drosophila melanogaster e, mais tarde, comprovados com os estudos genéticos de Edward Lewis do Instituto de Tecnologia da Califórnia, da Christiana Nüsslein-‐ Vollhard e do Eric Wieschaus na Alemanha. Embora este grupo de genes esteja presente na maioria dos animais, as moscas e vermes possuem um conjunto Hox de apenas 8 genes, ao contrário dos peixes e mamíferos, que possuem 4 conjuntos, sendo cada conjunto similar ao conjunto das moscas e vermes. Esta similaridade serviu para perceber que o desenvolvimento embrionário destes seres , numa fase inicial, é praticamente idêntico.
↑ Fig.96 Proposta de Frei Otto para uma casa encrostada numa colina. ↓ Fig.97 Casa árvore por Frei Otto.
formas, formações e técnicas capazes de resolver várias componentes da boa prática arquitectónica, tais como a relação entre forma, estrutura e volume.
2.2.5. Arquitectura Ecológica
Os estudos e observações reunidas por Frei Otto influenciaram decisivamente o seu pensamento e a prática da Arquitectura direccionada aos princípios da ecologia. A eficiência energética formal, estrutural e material presente nos modelos naturais foram factores cruciais incapazes de serem ignorados, pelo que “forçaram” a reconsiderar as finalidades da Arquitectura a diferentes níveis. Destas finalidades surge a problemática e fracassada relação ecológica com o meio, presente em vários exemplos contemporâneos.
A preocupação ecológica de Otto nasce da oposição aos modelos e objectivos dispensáveis que esta Arquitectura tem praticado, em parte devido à necessidade implícita de traduzir novas formas e resultados adequados à ideia progressista, tecnológica e consumista, do modelo social actual.
O crescimento demográfico e o modo como se tem expandido no território, constituem também variantes a que devem ser dadas novas soluções, a fim de se restabelecer um equilíbrio demográfico contrariado pelos modelos urbanos actuais caracterizados por um crescimento desenfreado.
“Todas as semanas 1.3 milhão de pessoas novas – 70 milhões por ano – chegam às cidades. A população mundial supera os 50 por cento nos centros urbanos (era 14 por cento em 1900). O crescimento das cidades levou as tendências demográficas exactamente ao contrário do que muitos especialistas previram. Poucos especialistas previam o efeito dominante que a urbanização teria. Demograficamente, os próximos 50 anos podem ser os mais violentos da história humana. Um grande número de pessoas estão fazendo grandes mudanças.”106