• Nenhum resultado encontrado

TECNOLOGIA E A MÚSICA

No documento clintondavissonfialho (páginas 48-50)

Sob a influência infanto-juvenil de Star Wars e da corrida espacial, em contraste com o risco de uma guerra nuclear, os anos de 1980 ainda presenciaram a entrada dos primeiros computadores pessoais nos lares americanos com preços acessíveis à classe média.

Na música, o som conceitual do grupo alemão Kraftwerk, surgido nos anos 70, tomou força nos anos de 1980 falando de robôs e computadores de maneira conceitual. O grupo norte-americano Devo criou letras cheias de ironia sobre a tecnologia, pregou a “de- volução”, ou seja, o declínio da raça humana. Até no Brasil, em menor intensidade, tivemos Choveu no Meu Chip, da banda Eletrodomésticos, e Professor Digital, da banda Agentss.

A Music Television (MTV) nasceu em agosto de 1981, como uma parceria da Warner Bros. com a American Express. O objetivo era passar 24 horas no ar com programação estritamente musical visando o público juvenil. O primeiro videoclipe exibido pelo canal foi Video Killed the Radio Star, dos Buggles.

No artigo “Quem não se Comunica, se Estrumbica”: algumas considerações sobre o rock nacional dos anos de 1980 e a TV brasileira, Paulo Gustavo da Encarnação, afirma que depois de quase três anos de prejuízos, devido à falta de existência de cabos nos grandes centros urbanos americanos, a Music Television passaria a cobrar das gravadoras a transmissão dos vídeos, que até então eram veiculados gratuitamente.

Inicialmente, a MTV foi catalisadora de novas bandas e músicos menos conhecidos, entretanto, em meados dos anos 80, as gravadoras começaram a investir no padrão dos videoclipes, chegando a contratar profissionais de cinema e televisão para criação de vídeos para os músicos da mainstream (FRIEDLANDER, 2003). Em 1987, a Europa ganhava sua versão da MTV. Em sua estreia fora exibido o clipe Money for Nothing, da banda Dire Straits, e, logo, o canal de exibição de videoclipes ganharia a simpatia e especialmente a audiência do público jovem (ENCARNAÇÃO, 2011).

Inicialmente, a MTV privilegiava uma programação voltada para o heavy metal, rock e rap music. Posteriormente, ela ampliou seu repertório e também sua difusão pelo mundo, inaugurando a era do videoclipe no cenário pop. Goodwin (1992) destaca que o surgimento do videoclipe redimensionou algumas estratégias utilizadas pela televisão para provocar a visualização da música, mas não consistiu numa ruptura:

[...]Longe de representar uma nova estética ou um tipo radical de ruptura com as convenções televisivas, estas técnicas são exemplos clássicos das estratégias de significação do entretenimento leve [...] as convenções do videoclipe não diferem de nenhum modo qualitativo dos modos de endereçamento e retórica geral visual do entretenimento leve televisivo, no qual os códigos de realismo são rotineiramente abandonados (GOODWIN, 1992, p.67-68).

Na dissertação de mestrado Narratividade e Videoclipe: interação entre música e imagem nas três versões audiovisuais da canção “One” do U2 (2006), Claudiane de Oliveira Carvalho observa que na primeira fase da MTV, de 1981 a 1983, os clipes produzidos na Inglaterra dominaram a programação, divulgando, principalmente, o New Pop e o AOR (Album-Oriented Rock). “Nesses três primeiros anos, a maior parte da produção de videoclipes resumia-se a toscas peças promocionais ou gravações da apresentação ao vivo do cantor ou grupo. Mas alguns artistas, como Duran Duran, ABC e Thompson Twins, perceberam a influência do videoclipe no público adolescente e usaram a MTV para se projetar” (Carvalho, 2006,p.28).

Carvalho (2006, p. 29) define a segunda fase como o período compreendido entre 1983 a 1985. Nessa fase, o New Pop saiu de moda e a MTV começou a ocupar mais os centros urbanos nos Estados Unidos criando, assim, a necessidade de um repertório musical que atendesse ao gosto roqueiro daquela nova região e daquele novo público. A importação de bandas de rock europeias já não atendia mais à demanda. Naquele momento, a MTV aposta no heavy metal e constrói um novo estilo de montagem, por meio do qual os “dedos nervosos” cedem lugar a outros recursos. Esse também foi um período de críticas severas, crise e competição acirrada no mercado. A solução foi fazer um contrato de exclusividade com as seis maiores gravadoras do mundo.

A terceira fase, segundo Goodwin, começou em 1986 com uma maior flexibilização no repertório musical e um movimento acelerado em direção à programação

televisiva mais tradicional. Em 1987, a MTV chegou à Europa e foi o primeiro passo para a Music Television conquistar as fronteiras geográficas do mundo.

O clipe marca a consolidação do processo da canção numa dinâmica cadeia mercadológica, determinante na produção de sentido. A existência de outros canais de TV, que seguem a mesma linha da MTV, comprova que a canção mais do que ouvida, precisa ser "vista" (CARVALHO, 2006, p. 60).

De uma maneira geral, “o endereçamento linguístico da letra da música pop é distinto de outros discursos da mass media” (GOODWIN, 1992, p.79). É que, na música não há a distinção entre autor implícito e autor real, a própria natureza da música requer a presença física do narrador. Ela chega até o ouvinte “diretamente, pela boca e instrumentos dos músicos, os quais não são completamente mediatizados (como na câmera narrativa no cinema e na televisão)” (GOODWIN,1992, p.75).

O entrosamento entre música e imagem permite ao videoclipe deixar sua marca no fazer audiovisual. Assim como se "pode tocar com os olhos, como se a visão descobrisse, de repente, a sua função táctil" (ARISTARCO, 1990, p.98), o ouvir também se configura como gerador de cenários. Embora seja quase um consenso que o videoclipe incorporou elementos da vídeo-arte, do cinema e da televisão, este audiovisual não pode ser contemplado ao largo da indústria fonográfica. Parte integrante do processo de midiatização da música, o clipe só existe enquanto tensionamento entre elementos imagéticos e sonoros (CARVALHO, 2006, p. 30). Para Carvalho (2006, p. 61) o narrador é outro ponto de desencaixe entre as narrativas tradicionais no cinema, TV e literatura e a configuração no videoclipe. Quando se analisa a evolução do videoclipe, percebe-se que sua linguagem vai se adaptando às novas tecnologias de modo absolutamente natural. As narrativas são sempre o foco enquanto as novas tecnologias são sempre um meio para se atingir um objetivo. Assim, quando o videoclipe da música Triller de Michael Jackson, é dirigido por John Landis em 1982, temos a linguagem do cinema e seus efeitos especiais de maquiagem trabalhando em prol de uma narrativa, ou seja, embora o clipe tenha ganhado a duração de um curta metragem, 14 minutos, Triller continuou sendo um videoclipe e não um filme.

No documento clintondavissonfialho (páginas 48-50)

Documentos relacionados