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CAPÍTULO I Enquadramento Teórico

3. Acerca da Tecnologia

3.1. Tecnologia e Construtivismo

Numa visão “instrucionista”, o papel do computador na educação resume-se à possibilidade que oferece para informatizar os meios tradicionais de ensino. O computador apresenta a informação e disponibiliza um ambiente para a realização de jogos e exercícios, papel análogo ao que habitualmente desempenhou o manual escolar. Torna-se, assim, numa espécie de tutor/instrutor cuja função é proporcionar informações num fluxo modulado pela capacidade individual de cada aluno. Assume, de certa forma, o papel do professor transmissor da informação (Valente, 2001). Assim, a utilização do computador e de software educativo no processo de ensino e de aprendizagem não significa, por si só, uma alteração do papel do aluno que, ao lhe ser negada a possibilidade de explorar com autonomia os diversos problemas, (re)construindo e partilhando o conhecimento, permanece num registo passivo (idem).

Uma utilização do computador que promova ambientes de aprendizagem poderosos, onde o aluno, em interação com os objetos, com os outros e com o mundo construa o seu saber, será muito mais rica e valiosa, passando-se de uma perspetiva instrucionista para uma perspetiva construtivista (ibidem).

De acordo com a teoria construtivista, o desenvolvimento ocorre através da interação do sujeito com o mundo, com os objetos e situações, descobrindo e compreendendo as características e propriedades dos mesmos, transformando informações complexas e construindo as suas próprias

asserções e soluções para os problemas. Neste perspetiva, o professor assume o papel de facilitador, criador de ambientes de aprendizagem ricos que proporcionem ao aluno situações em que se envolva ativamente, centrando o processo no aluno e com a perceção de que a aprendizagemdepende, em muitos casos, do contexto, das suas crenças e atitudes (Trinity College, 2002).De outro modo, o construtivismo assenta na ideia de que o conhecimento não é recebido do exterior, mas o resultado de um processo de construção mental que é reflexo das experiências realizadas e da ligação de novas informações com outras já existentes. Como paradigma, o construtivismo sugere que a existência do mundo real tem significado apenas quando conferido pelas pessoas e pela cultura, privilegiando os processos e não os produtos acabados, a descoberta guiada em vez da aprendizagem expositiva, as situações reais de aprendizagem e não as abstratas ou artificiais e múltiplas experiências para conhecimentos significativos (idem).

A conceção do um conhecimento como um bem transmissível, que os alunos aprendem pelo simples copiar de ideias, ler ou ouvir informações que retêm na sua mente, foi rebatida por Piaget ao defender uma perspetiva cognitivista do construtivismo assente no princípio de que a aprendizagem é uma compilação de complexas estruturas de conhecimento (Guzdial, 1997). Segundo Arendt (2003), não existem estruturas cognitivas inatas, o aluno age sobre os objetos para obter conhecimentos.

Papert, ao invés de criticar ou reformular os princípios do cognitivismo procurando adaptar um pensamento epistemológico, e não pedagógico, à aprendizagem escolar reconstruiu, em termos teóricos, o construtivismo piagetiano (Antunes, 2003).

O construcionismo apresenta-se, segundo Kafai e Resnick (1996), como uma teoria de aprendizagem e uma estratégia para a educação. Baseado no princípio segundo o qual o conhecimento não é simplesmente adquirido mas construído, formando-se estruturas de conhecimento (knowledge structures) suportadas pelas experiências e interações com o mundo, o construcionismo acrescenta um outro pressuposto, segundo o qual o aluno aprende efetivamente quando constrói “artefactos” significativos e pessoais. Esta ideia é também defendida por Fino (1998) quando refere que o construcionismo acrescenta que o sujeito, para além de ser um construtor ativo da aprendizagem, desenvolve construções particulares que são externas e partilhadas, que não devem ser ignoradas. Kafai e Resnick (1996), também nesta de linha de pensamento, referem que o construcionismo sugere que os alunos constroem novas ideias e desenvolvem conceitos quando trabalham ativamente na produção de artefactos externos, como

um poema, um castelo de areia, um programa de computador, sobre os quais podem refletir, partilhar e discutir com os outros.

Descobrir caminhos em que as tecnologias permitam às crianças usar e alcançar conhecimentos diversos, não através da memorização de informações relevantes que anos depois estarão esquecidas, mas construindo conhecimentos que se apresentarão disponíveis nas situações certas e necessárias, é o objetivo do construcionismo (Papert, 1980).

De acordo com Papert, as crianças são então capazes de pensar e compreender conceitos abstratos, desde que lhes seja fornecida uma máquina inteligente ou um artefacto que proporcione a ligação entre o conhecimento sensório e o abstrato, tal como entre o mundo individual e o social. Segundo o mesmo autor (1993), as "Novas Tecnologias" facilitam a aprendizagem quando disponibilizam um conjunto de instrumentos que suportam diversos estilos intelectuais.

A construção de conhecimento, “com” e “para” os outros, aponta para outras perspetivas do construtivismo de carácter mais social: o sócio-construtivismo e o construtivismo comunal.

O construtivismo social, influenciado por Vygotsky, partindo do princípio construtivista de que o estudante está envolvido no processo de construção do seu conhecimento, acrescenta que esta ocorre pela e na interação com os outros (Holmes et al., 2001). Preconiza também, baseado nos contributos de Vygotsky (1987) e Bruner (1990), que a aprendizagem e o desenvolvimento são atividades sociais colaborativas, nas quais a comunidade assume um papel central conduzindo o aluno à construção de significado nas zonas de desenvolvimento proximal (Cabrita, 2005).Segundo Vygotsky, o indivíduo constrói conhecimento da zona de desenvolvimento próximo (ZDP) que não conseguiria construir sozinho, dada a sua zona de desenvolvimento atual (ZDA), a partir da interação com os outros “peritos” no assunto (idem).

O construtivismo comunal defende uma abordagem onde os alunos, para além de construírem o seu próprio conhecimento (construtivismo), como resultado da interação com o seu ambiente (construtivismo social), estão também envolvidos ativamente no processo de construção do conhecimento para a sua comunidade de aprendizagem (Holmes et al., 2001).

A ideia da partilha parece ser, então, o seu traço característico. Cabrita (2005) reforça esta conceção ao considerar que no processo de partilha o sujeito reconstrói o seu próprio conhecimento. Nesta perspectiva, emerge a importância de valores como a responsabilidade, o apoio, a cooperação e a colaboração.

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