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1.2. Tecnologia/ TIC/ TE

1.2.1. Tecnologia e Sociedade

Subscrevemos o entendimento de Paul Virilio de que o quotidiano dos indivíduos está atravessado pela tecnologia enformando vários ambientes: na escola, em casa, no lazer, no trabalho. Ao longo do dia, o homem utiliza a tecnologia para optimizar o seu tempo e facilitar a sua vida.

As Tecnologias de Informação e Comunicação, operaram transformações revolucionárias, essencialmente nos últimos vinte anos, em todas as actividades humanas. Novos contornos, outras fronteiras ganham pertinência com as ferramentas electrónicas postas à disposição da humanidade.

Na realidade, desde finais do século XX que as TIC estão no cerne da revolução que se está a processar no seio da sociedade. Assim sendo, uma das grandes questões actuais é a de tentar saber como é que as elas evoluíram e que mudanças ocorrerão na nossa sociedade e, consequentemente, no modo de agir, pensar e de ser.

Perguntamo-nos, por exemplo, como é que as Novas Tecnologias de Informação e de Comunicação (NTIC) transformaram ou virão a transformar o acesso à informação. Será que a aquisição de saberes nomeadamente, a formação à distância e a aprendizagem

por computador, irão revolucionar a escola e fazer desaparecer as universidades? As modalidades de compra, ou seja, as compras on-line, depois da publicidade on-line, irão revolucionar a produção e a venda? Os passatempos como, a possível escolha de numerosas actividades na Internet, jogos, filmes, poderá transformar a indústria dos passatempos? O trabalho? Por que é que as novas técnicas de comunicação nos agradam tanto? Por que razão é importante para os jovens a ideia de abertura, mas também a rejeição da omnipresença dos media, o desejo de responder à inadiável angústia antropológica, o encanto pela modernidade, enfim, a procura de novas responsabilidades? As NTIC levantam, por isso, questões no âmbito dos problemas sociais, económicos, políticos, educacionais e ecológicos. Elas beneficiam duma publicidade tal, que nenhuma outra actividade social, política, desportiva ou cultural beneficia. Paradoxalmente, quase ninguém se atreve a criticá-las, nem pergunta se elas merecem a posição que têm no espaço público ou se o seu aparecimento significa um progresso incontornável.

Três características são essenciais à compreensão do sucesso das novas tecnologias: autonomia, mestria e velocidade. Cada pessoa pode agir quando quiser, sem intermediário, sem filtro nem hierarquia e em tempo real. Não ouve, age e o resultado é imediato. Isto dá-nos um sentimento de absoluta liberdade, até mesmo de poder. Este tempo real que constrói as dimensões habituais do tempo e da comunicação é provavelmente essencial como factor de sedução. Também podemos navegar até ao infinito, com uma mobilidade extrema. Pela abundância, os sistemas de informação parecem um tanto ao quanto hipermercados, é o ‘fast food’ da informação e da comunicação.

Vivemos, actualmente, num mundo aberto, acessível a tudo, que dá uma oportunidade a cada um, seja qual for o seu itinerário. Cada um faz o que quer, quando quer pois, ninguém o impede, nem Deus, nem Mestre. É por isto que as novas tecnologias adquiriram uma dimensão social: elas representam um pouco “uma nova hipótese” para todos aqueles que falharam na primeira. As novas tecnologias são, como uma figura da emancipação individual, uma “nova fronteira”. Sobretudo a Internet tornou-se uma figura utópica, duma sociedade onde os homens são livres, susceptíveis de se emancipar por eles mesmo. Tudo isto é possível e corresponde à era do tempo que valoriza a liberdade individual, num momento em que não há muitos mais terrenos disponíveis para as novas gerações.

Com as NTIC, doravante, nada do que é imaginável é impossível. As Novas Tecnologias relançam a confiança do Homem na ciência e na técnica e tornam-se instrumentos de satisfação e de desejo. A máquina anima a sua revolta e contribui para a vinda de uma ‘humanidade melhor’ (Breton et Proulxs, 1991).

As NTIC relançam o sonho tecnológico; restituem ao Homem a convicção de deixar de ser ‘vítima’ do progresso tecnológico (Scardigli, 1992).

Elas abolem as limitações espaciais e temporais, fazem com que ganhemos tempo, desenvolvem a nossa criatividade pessoal e permitem a todos um fácil acesso ao conhecimento e à informação; mas podem também subjugar-nos completamente fazendo perder o espírito crítico fundamental ao seu uso.

No que diz respeito ao saber, as NTIC multiplicam extraordinariamente as nossas possibilidades de aprender e permitem-nos dominar questões mais complexas; mas também podem desencadear o efeito contrário, entontecer-nos fazendo com que percamos o gosto pelo esforço de aprender, reflectir e criar. No que respeita à justiça, as NTIC vão permitir a redução das desigualdades no acesso à informação, ao saber e à cultura mas, podem igualmente reforçar essas desigualdades já que elas exigem competências desigualmente partilhadas, bem como condições sociais e económicas diferenciadas.

Quanto à Comunicação Humana, as NTIC possibilitam o verdadeiro convívio e a transformação da vida local mas, simultaneamente, podem isolar cada indivíduo perante a máquina, esvaziar os locais de convívio pelo fascínio das imagens animadas nos ecrãs, lançando-nos numa inactividade caseira.

Relativamente ao plano económico, a utilização das Novas Tecnologias vai permitir a saída da crise pelo desenvolvimento das indústrias culturais, mas ao mesmo tempo pode acelerar a crise dos valores.

Aos poucos a tecnologia destaca-se como instrumento facilitador da execução de actividades quotidianas, aparecendo em tarefas comuns e frequentes na vida dos indivíduos, tais como: operações bancárias, compras de supermercado, marcação de consultas médicas ou mesmo compras de livros; tornou-se também, numa forma eficaz de comunicação, ajudando muito no intercâmbio de informações, e conquistou um lugar ímpar no processo de desenvolvimento e aprendizagem do ser humano. Todas essas criações tecnológicas vêm ajudar o homem a viver o presente e a registar o passado de forma rápida e organizada, isto quer dizer que com as crescentes descobertas de novas

tecnologias, a comunicação, a conservação da informação e o processo de aprendizagem têm vindo a sofrer alterações significativas.

Por isso, quando, hoje em dia, falamos do sucesso das novas tecnologias de comunicação, é preciso relembrar que se trata duma mistura de realidades e de fantasmas e que o entusiasmo espantoso que as envolve será necessariamente relativizado quando o seu uso se tiver vulgarizado.

Assim sendo, não convém viver na ilusão de que as novas tecnologias por si só conseguem mudar uma sociedade, ou seja, mudar uma organização social e o modelo cultural da comunicação. As novas tecnologias de comunicação constituem, com efeito, uma inovação técnica, mas o estatuto da comunicação numa sociedade não depende somente da técnica, mas também das suas dimensões culturais e sociais.

A aplicação isolada das tecnologias não resolve nem os problemas que existem na sociedade, nem os atrasos económicos que ainda se verificam, pode até aumentá-los. Na verdade as TIC “têm, contrapartidas negativas. Os sistemas de informação são ainda relativamente caros e de difícil acesso para muitos países. O seu domínio confere às grandes potências ou aos interesses particulares um verdadeiro poder cultural e político” (Delors, 1997: 36).

A distância crítica de Virilio ajuda-nos a observar essa realidade.

“Elogiar os méritos das novas tecnologias, é certamente útil à publicidade dos novos produtos, penso que não seja útil à política das novas tecnologias. É necessário, doravante referenciar o que é negativo naquilo que parece positivo. Nós sabemo-lo, não progredimos através de uma tecnologia senão reconhecendo o seu acidente específico, a sua negatividade especifica…” (Virilio, CAPP, 2000: 12).

Virilio relembra, nessa enunciação e mais adiante (CAPP, 2000: 58), que “não há ganhos tecnológicos sem percas ao nível do vivo, do vital.” O elevador faz ‘perder’ as escadas, o automóvel o andar a pé, o e-mail a carta. Cada ganho em matéria de velocidade procura vantagens, mas provoca inevitavelmente mudanças e perdas, mais ou menos irreversíveis. O aumento da velocidade dos meios de transportes e de comunicação modificou radicalmente a nossa percepção da realidade.

O imaginário do progresso existe. É uma produção da nossa cultura. O fenómeno das novas tecnologias é uma característica da nossa época, mas cada inovação tecnológica está longe de se adaptar imediatamente com as vantagens com que foi pensada.

Preferir o computador à televisão, não é uma prova de ‘inteligência’ ou de ‘maior abertura de espírito’. Optar pela leitura do jornal ou ver televisão também não prova que somos mais dotados, mais competentes ou menos curiosos do que aquele que passa horas em frente ao seu televisor. Não existe nenhuma hierarquia ao nível individual entre estas duas formas de comunicação, a escolha apenas depende da realidade dos conteúdos e das preferências de cada um, o que não quer dizer que do ponto de vista duma teoria da comunicação, as duas sejam equivalentes. Cada vez mais, as relações entre os homens, o trabalho, a própria inteligência, as nossas noções de tempo e espaço são determinadas pela ‘tecnologia’ do relógio, dos meios de transporte e de comunicação.

À priori as NTIC executam o que o Homem as manda fazer. As suas

potencialidades são por isso o reflexo das potencialidades do seu ‘mestre’. É um espelho do trabalho intelectual do seu condutor. Embora nunca deixem de ser máquinas tornam- se um ‘amigo’, uma ajuda. Porém por mais sofisticada que possa ser a máquina, ela diferencia-se, essencialmente, pelo facto de não ter alterações de humor, nem demonstrar sentimentos.

As crianças dos finais do século XX, homens do século XXI, utilizam de forma tão natural muitas das novas tecnologias que não podemos deixar de antever ‘um homem do século XXI’ que não saiba pensar em termos de linguagem informática tão bem quanto sabe respirar.

A juventude agarrou este ‘novo milagre tecnológico’ com uma avidez incrível. Adora e acredita nas NTIC, por isso, a palavra de ordem deve ser ‘é preciso preparar as gerações futuras para viverem num ambiente informático’.

Enfim, com as NTIC cria-se um clima comportamental, mental e afectivo diferente daquele que viveram as gerações anteriores. Criam-se novos ambientes de aprendizagem a partir dos quais as pessoas vêem o mundo, comunicam, partilham informação e constroem conhecimento, estabelecem novas relações com o tempo e o espaço e exigem uma nova epistemologia e novas formas de conceber a aprendizagem. No fundo, muda a forma de pensar e de aprender.

O que de facto acontece é que o resultado desse desenvolvimento é, não só a ampliação do binómio homem/máquina mas, também, mudanças na natureza das habilidades intelectuais humanas exigidas para actuar no mundo.

Qualquer reflexão sobre o futuro da cultura contemporânea não pode ignorar os meios electrónicos, sobretudo a TV e a informática6. Actualmente, a tecnologia não é só

uma estratégia para se operar no mundo, diferente das anteriores; ela modifica o próprio mundo. Pierre Lévy (1993) entende que vivemos num desses raros momentos em que um novo estilo de humanidade é inventado.

Evidentemente, não vemos o mundo da mesma maneira: a pé, a cavalo, de bicicleta, de carro ou de avião ou a navegar na Internet. Quanto mais as nossas deslocações no tempo e no espaço se aceleram e se dissociam do corpo, mais a nossa visão da realidade se torna difícil.

Considerando a nova configuração da sociedade, na qual o domínio da tecnologia se torna cada vez mais uma questão de sobrevivência, incorrer no erro de a combater ou torná-la inacessível a qualquer indivíduo, com o argumento de ela ser responsável pelo desinteresse das pessoas pela leitura de livros é estar a contribuir para a info-exclusão, ou seja, para o surgimento de mais um tipo de excluído, o analfabeto digital.

Impõe-se por isso, fazer-se uma ‘alfabetização digital’, porque nas sociedades modernas não só é analfabeto o que não sabe ler e escrever mas também o é aquele que não domina minimamente as novas tecnologias, essencialmente o computador. Além disso estaríamos a lutar contra o que a Sociedade da Informação tanto anseia tal como poderemos ver, oportunamente, mais adiante num capítulo próprio.

No que se refere especificamente à informática, Paul Virilio (ABI, 1999) afirma que “não compreenderíamos nada, efectivamente, à desregulamentação sistemática da economia mundial sem estabelecer uma correlação com a desregulamentação sistemática da informação.”

Para esse crítico da informática, a economia de mercado é a que mais beneficia com a ‘mundialização da informação’, porque

“a ‘mundialização’ do mercado único exige a super - exposição de toda actividade, a concorrência simultânea das empresas, das sociedades, mas também dos consumidores e, portanto, dos próprios indivíduos, e não mais unicamente de determinadas categorias de ‘populações – alvo ’. (...) De facto, a famosa MUNDIALIZAÇÃO exige que todos se observem e se comparem incessantemente” (Virilio, ABI, 1999: 62-3).

6 O termo informática teve origem em França em 1962 e foi o resultado da contracção dos

conceitos: informação – automática. Este conceito pode ser definido como o conjunto de conhecimentos científicos e técnicas que tornam possível o tratamento automático da formação por meio de computadores electrónicos.

A aquisição de competências tornou-se num processo contínuo e múltiplo, nas suas fontes, nas suas vias de acesso e nas suas formas. Um autêntico «universo oceânico de informações»(Lévy, 2000) alimenta o fluxo incessante de construções possíveis de novos saberes, de reorganização de velhas certezas, que se transformam em novas perguntas, que buscam e estruturam ainda outras informações, que se conectam a ideias semelhantes em novos campos de conhecimento, reestruturando os paradigmas e impondo uma relação diferente entre os objectos de estudo e aqueles que pretendem apreender a sua estrutura e propriedades.

Esta relação é a da incerteza, da insatisfação, do «mais por fazer», e da impressão de que é preciso actualizar sempre, acompanhar o movimento incessante, rápido, intenso da multimédia. Informar-se mais – o que não significa conhecer mais, mas pode significar adquirir elementos para a construção do conhecimento – para não correr o risco de usar, suposições descartadas como comprovadamente falsas ou manter como proposição aquilo que já é certeza.

Ungaro (2003:19) considera que “actualmente o problema da imprensa, da televisão (das tecnologias em geral) não é tanto o que são capazes de mostrar, mas sim o que são capazes de ocultar. Nessa capacidade de omissão reside o essencial do seu poder”.

Vivemos na ‘aldeia global’7 anunciada por Marshall McLuhan (1974) nos anos

sessenta, onde povos e culturas distantes se interligam numa rede comunicacional que estabelece um contínuo presente, ou uma presença virtual. Tornou-se comum associar à Internet a imagem de que o cidadão pode cruzar o mundo sem sair de seu quarto. A aldeia planetária em que vivemos já existe descontrolada e incontrolável. É como que uma teia de aranha gigantesca que liga mais de trinta milhões de utilizadores, distribuídos por mais de uma centena de países, uma espécie de mapa-mundi gigantesco que se pode percorrer de ponta a ponta em alguns segundos. No fundo, a Internet é um «ciberespaço» que funciona vinte e quatro horas por dia, visitado por milhares de pessoas em todo o mundo. Vivemos um tempo em que a distância perdeu algum do seu sentido.

Foram, porventura, as tecnologias que mudaram o mundo, não porque este último tivesse deixado de ser igual ao que já era, mas porque as primeiras nos permitiram passar

7

Conceito desenvolvido pelo teórico Marshall McLuhan para explicar a tendência de evolução do sistema mediático como elo de ligação entre os indivíduos, num mundo cada vez mais pequeno perante o efeito das novas tecnologias da comunicação. McLuhan considerava que, com os novos media, o mundo se tornaria numa pequena aldeia, onde todos poderiam falar com todos e mais insignificante dos rumores poderia ganhar uma dimensão global.

a ver os acontecimentos em directo e sem o vínculo da presença. A telepresença trouxe a atitude passiva do sujeito sendo o acontecimento a vir ter com o homem, num espécie de – como designa Paul Virilio – inércia polar. Nos tempos que correm, já não temos que percorrer infindáveis distâncias com um imenso esforço, para adquirir conhecimentos. Sem sair do lugar viajamos até aos mais recônditos espaços.

Independentemente do que nos venham a trazer os avanços tecnológicos, uma coisa é certa, todos teremos que nos adaptar a este novo mundo, tal como outrora o Homem se adaptou ao caminho-de-ferro e ao automóvel que, a seu tempo, viera remodelar o espaço social e romper certas culturas. No fim de contas, os progressos que se estão a registar já estão a produzir efeitos no seio da sociedade, sem que muito do grande público esteja anda consciente de que o digital está muito bem instalado em todos os lares. Quanto mais avanços tecnológicos houver, mais incertas se tornam as fronteiras que até há pouco forneciam os parâmetros e limites segundo os quais o homem experimentava o mundo e a si mesmo.

As NTIC alteram conceitos lexicais; expressões como: presença e ausência, humano e não humano, matéria e espírito, natureza e artifício, orgânico e inorgânico, real e simulacro, próximo e longínquo, outrora nitidamente separados ou mesmo opostos, encontram-se cada vez mais imbricados pelas novas tecnologias perdendo muito do seu significado.

Com tantos progressos tecnológicos, quem, num futuro próximo, se deslocará à Grande Biblioteca? Os investigadores? Os nostálgicos do papel? Certamente que não, porque o objecto de consulta já não precisa de ser fisicamente inserido num dado lugar, estará ubiquamente em toda a parte. A Internet é, deste modo, o mais vasto espólio bibliográfico do mundo. Na verdade, se hoje nos questionamos sobre o futuro do livro impresso, é porque o seu ‘rival’, o livro electrónico, deixou de ser um objecto de ciência – ficção, ou um ‘Gadget’ tecnológico destinado a certos amadores curiosos das novidades. A sua aparição está consumada.

A Era Numérica, aquela em que acabamos de entrar, não apagará subitamente os cinco séculos da cultura do livro impresso, mas produzirá certamente efeitos tão profundos, como os que a primeira bíblia impressa causou na nossa maneira de pensar e na nossa sensibilidade. A diminuição do uso do livro, quer seja amanhã ou depois de amanhã, quer seja total ou parcial, marcará o fim de um ciclo e ao mesmo tempo o início de um outro.

Este adeus a Gutenberg deverá preocupar-nos? As crianças de amanhã continuarão a ler? Em que suportes e de que modo? O nosso património literário estará ameaçado? Na Internet é possível encontrar fóruns praticamente sobre todos os assuntos e há-de haver sempre alguém no mundo com quem partilhar as nossas paixões, quem ajude a satisfazê-las.

Nunca, desde o início da Era Industrial, se terá visto império tão poderoso. Deste modo, atrevemo-nos a dizer que, actualmente, o conhecimento pode manifestar-se de três formas: oral, escrita e digital.

Na linguagem falada, a apreensão dos conceitos fica ligada às pessoas que dominam o mesmo tipo de linguagem, permitindo que a mensagem seja passada a todos os componentes daquele grupo, permanecendo armazenada na memória de cada indivíduo. Na aquisição da linguagem escrita acontece uma “absorção” pela memória humana como ambiente de armazenamento de informações. O registo escrito retira ao homem a responsabilidade de armazenar todas as informações na sua memória. Até ao momento, quer na linguagem escrita quer na linguagem oral, as ideias e informações têm características lineares e encadeadas. Já na aquisição da linguagem digital (tecnológica) as informações não são armazenadas de forma linear. A propriedade mais importante da linguagem digital é, com efeito, a sua capacidade de ser difundida e armazenada num espaço mínimo.

Segundo Pierre Lévy (1993), a narrativa da linguagem digital rompe com o pensamento linear e sequencial, dando espaço a fenómenos descontínuos onde o espaço e o tempo têm características bem particulares de acordo com o que o aluno deseja e precisa saber. Um modelo digital não é lido ou interpretado como um texto clássico, é geralmente explorado de forma dinâmica, dotado de uma certa autonomia de acção e de reacção.

Na conversa digital, desaparece um factor importante no relacionamento humano: a comunicação não-verbal, traduzida em gestos e expressões que a inteligência do computador não consegue captar.

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