TÉCNICA, TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO
EM
PAUL VIRILIO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM
COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIAS EDUCATIVAS
NATÁLIA MOURA LOPES
UNIVERSIDADE DE TRÁS - OS - MONTES E ALTO DOURO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM
COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIAS EDUCATIVAS
TÉCNICA, TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO
EM
PAUL VIRILIO
Natália Moura Lopes
Trabalho realizado sob a orientação do
Professor Doutor Joaquim José Jacinto Escola
Dissertação de Mestrado elaborada com vista à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Educação, na especialidade de Comunicação e Tecnologia Educativa, em conformidade com o Decreto - Lei nº 216/92, de 31 de Outubro.
Dedico este trabalho àqueles que sempre me deram força, que sempre se preocuparam comigo, e que sempre me ajudam nos momentos mais difíceis, FÁTIMA minha mãe, MANUEL meu pai, À memória da minha avó DOLORES.
AGRADECIMENTOS
Escrever uma tese proporciona ao seu autor uma oportunidade bem-vinda de agradecer às pessoas que o ajudaram, pois a elaboração de uma dissertação é um trabalho construído com o auxílio de outras pessoas. Nos arquivos, nas bibliotecas, nas livrarias, nas salas de aula, nas disciplinas frequentadas, nos seminários do mestrado, nos encontros regionais e nacionais, nos bares encontrei ajudas. Na verdade, foram muitas as contribuições intelectuais e afectivas que recebi ao longo da pesquisa. São tantos os lugares e as pessoas que seria difícil nomear todas. O espaço limitado apenas me permite mencionar alguns nomes, embora desejasse incluir todos. Por isso, aqui, estão temporalizados pessoas, lugares, passagens, reencontros, memórias involuntárias de experiências que perpassam a construção desta tese.
Doutor Joaquim José Jacinto Escola, meu orientador, pela confiança, incentivo, amizade, dedicação e orientação competente em todas as fases de desenvolvimento do trabalho. A sua disponibilidade e atenção incansáveis nas muitas leituras críticas de rascunhos e pertinentes sugestões de revisão constituíram encorajamentos oportunos que eu muito apreciei. As suas ideias e discussões entusiasmadas ajudaram-me na manutenção do meu interesse pelo assunto nesses meses e na escolha dos caminhos teóricos e metodológicos que tornaram possíveis a conclusão desta tese. Compartilhamos inquietações, descobertas e o privilégio de vivermos numa época de mutações físicas aceleradas, profundas e excitantes, das quais podemos participar activamente. A sua contribuição neste trabalho foi muitíssimo importante, pois sempre me alicerçou quando pensava desabar.
Uma palavra de reconhecimento às professoras Filomena Ferreira e Dores Felício que discutiram comigo a parte da primeira versão do manuscrito e apresentaram uma mistura tonificante de críticas e boas sugestões. Ajudaram-me a definir o estilo de contribuição intelectual mais adequado aos meus interesses na trajectória da formação académica. Com generosidade e paciência, dividiram comigo as suas histórias, dúvidas, esperanças e sempre me apoiaram com uma palavra amiga.
Manifesto também o meu respeito e afeição ao Professor Doutor José Bianchi e ao Professor Doutor Costa Pinto pelo apoio que me deram para que eu pudesse concluir o meu Mestrado.
Uma palavra de reconhecimento também para todas as instituições onde me desloquei para profundas pesquisas e aos respectivos funcionários com quem contactei: Biblioteca da UTAD, Biblioteca da Universidade do Minho, Bibliothèque Nationale de France, Bibliothèque Louvre, Bibliothèque Port-Royal, Bibliothèque Europe, Bibliothèque François – Villon, Bibliothèque Italie, Bibliothèque Vandamme.
Agradeço ainda aos amigos, Mina Almeida, Artur Martins, Cátia Crespo, Ana Afonso, Ana Luísa Erbert, Sílvia Reis, Hugo Nascimento e familiares Fátima e Irene Pereira, Sandra Correia, Júlia Durão, Justi, Lurdes Marinheiro pelo apoio prestado. Cada um, de diferentes maneiras, deu a sua contribuição. Alguns acolheram-me nas suas casas nas minhas viagens a França, a Braga, Vila Real, Viseu, outros leram e comentaram partes da pesquisa, indicaram-me bibliografia. Todos, com a dose certa de paciência e bom humor, deram-me valiosas sugestões nas muitas conversas que tivemos sobre o Virilio (corpo e as próteses tecnológicas, realidade virtual, cibernética, imagem, comunicação, TIC…). Guardo boas recordações de tudo o que vivemos. Foram BONS AMIGOS!!!
Minha gratidão infindável à minha querida amiga Anabela Gomes e ao seu marido Lucas Lage que me rodearam no calor da sua inestimável amizade e protecção e me apoiaram sempre. Ambos foram incansáveis quando precisei de ajuda. Mas, principalmente ela, “a minha loura”, como carinhosamente lhe chamo, foi nos momentos difíceis o meu porto seguro, o meu bastião, o meu braço direito, a minha luz... uma verdadeira AMIGA.
Ao João pela compreensão na ausência de muitos momentos e pelas imensas palavras de incentivo para nunca desistir.
Não posso esquecer o extremoso apoio que os meus pais me deram durante toda esta caminhada, apesar da simplicidade dos seus saberes, e pedir-lhes desculpas pelas imensas horas que não estive com eles. À minha QUERIDA AVOZINHA que apesar de já ter partido enquanto viveu, muito me apoiou e por isso mais uma vez a relembro e lhe agradeço incondicionalmente.
De modo especial reforço o meu agradecimento ao Prof. Dr. Escola, à minha amiga Anabela Gomes e aos meus pais porque estiveram presentes no começo, no meio, no meio, no meio, no meio, no meio e no fim do trabalho. As suas ponderações acalmaram-me muitas vezes e a suas palavras amigas estimularam-me sempre. A todos que directa ou indirectamente contribuíram para a realização deste trabalho, principalmente à minha
ÍNDICE GERAL
Página Resumo --- V Abstract --- VI Resumen--- VII Résumé --- VIII Siglas --- IX Introdução --- 1 I PARTE Capítulo 1 – Tecnologia Educativa 8 1. Técnica/ Tecnologia --- 91.1. Técnica --- 9
1.2. Tecnologia/ TIC/ TE --- 18
1.2.1. Tecnologia e Sociedade --- 35
1.2.2. Tecnologia na Educação --- 43
1.2.2.1. Desenvolver as competências dos alunos/ professores: quais os contributos das TIC para a aprendizagem e para o saber --- 57
1.2.2.2. Valores Tecnológicos --- 58
1.2.2.3. Vantagens do uso das Novas Tecnologias no Ensino --- 60
1.2.2.4. Desvantagens do uso das Novas Tecnologias no Ensino --- 62
2. Sociedade da Informação --- 65
II PARTE Capítulo 1I – Comunicação 72 1. O Acto do Comunicar --- 73
2. Uma Nova Era da Comunicação --- 75
2.1. A Comunicação na Educação --- 82
2.2. A (In)comunicação e as Novas Tecnologias --- 85
III PARTE
Capítulo 1II – Técnica, Tecnologia e Comunicação em Paul Virilio
1. Biografia de Paul Virilio ---
93 97
2. Evolução do Pensamento de Virilio --- 101
2.1. Bunker Archéologie – 1974 --- 101
2.2. L’Insécurité du Territoire – 1976 --- 101
2.3. Vitesse e Politique – 1977 --- 101
2.4. Esthétique de la Disparition – 1980 --- 106
2.5. L’Espace Critique – 1984 --- 107
2.6. Guerre et Cinéma I – Logistique de la perpeption – 1984 --- 117
2.7. L’ Horizon Négatif – 1985 --- 119
2.8. La Machine de Vision – 1988 --- 121
2.9. L’Inertie Polaire – 1990 --- 124
2.10. L’ écran du désert : chroniques de la guerre – 1991 --- 126
2.11. L’ Art du Moteur – 1993 --- 126
2.12. La Vitesse de Libération – 1995 --- 130
2.13. Cybermonde, la Politique du Pire – 1996 --- 135
2.14. Un Paysage D’événements – 1996 --- 136
2.15. La Bombe Informatique – 1998 --- 137
2.16. Stratégie de la Déception – 1999 --- 140
2.17. La Procédure Silence – 2000 --- 142
2.18. Ce qui arrive – 29 de Novembro de 2002 a 30 de Março de 2003 ---- 142
2.19. Ville Panique – Ailleurs commence ici – 2004 --- 143
3. Para uma Nova meditação da Técnica --- 149
3.1. Tempo/ Espaço --- 153 3.2. Território --- 163 3.3. Cidade --- 165 3.4. Velocidade --- 169 3.5. Acidente --- 178 3.6. Realidade Virtual --- 180 3.7. Ciberespaço --- 190 3.8. Imagem --- 198 3.9. Cinema --- 203 3.10. Corpo --- 209 3.11. Próteses --- 225 Considerações Finais --- 229 Referências Bibliográficas --- 238
1. Obras de Paul Virilio --- 239
RESUMO
A presente Dissertação teve como finalidade compreender o pensamento de Paul Virilio no âmbito das Novas Tecnologias e da Comunicação. Consubstanciados pelas concepções de Virilio, reflectimos a técnica, como uma forma, ainda que modesta, de contribuirmos para a continuidade da consciência cultural no século XXI.
Em linhas gerais, as leituras das obras de Virilio, locus do estudo, expressam uma perspectiva um tanto céptica quanto aos rumos da técnica, que alterou a deontologia do devir da história da humanidade, tornando o Homem numa quase máquina. Abordámos também a sua vertente de pensamento relativo ao movimento geral de virtualização da nova era tecnológica. A partir da contextualização histórica do virtual temos um caminho em aberto pela frente, tanto na direcção da construção de uma nova humanidade e de novas subjectividades, bem como em direcção para a catástrofe da massificação e homogeneização do Homem, posição esta bastante marcada na produção intelectual de Virilio.
Constatámos que o urbanista francês considera que a nova era da tecnologia é caracterizada como a era do (neg)ócio (nec-otium), ócio e o negócio, hoje totalmente tecnológica, uma das traves mestras da nossa sociedade. Virilio levanta também o problema, da relação entre uma macro-estrutura dominada pela comunicação de massas e as práticas quotidianas claramente assumidas como micro-estruturas onde o Homem se transformou num sedentário domiciliário.
Partindo deste ponto, também explicitámos o pensamento de Virilio quanto à recente expansibilidade das Novas Tecnologias a todos os campos da vida quotidiana, dado que esta se encontra em franca expansão. O desencanto perante o tecnológico que a modernidade tem assumido, após as experiências terríveis das guerras e os desastres tecnológicos, e descritas por Virilio, parece, nos nossos dias, não ter profundamente alterado e invertido a nossa forma de encarar essa mesma modernidade. À decepção impõe-se, hoje, o deslumbramento. A reflexão, por parte de cada um de nós, impõe-se, então, como particularmente importante para que exista uma lucidez de análise face à invasão das Novas Tecnologias na nossa vida.
As reflexões sobre o pensamento de Virilio implicam que se continue a dar mais atenção, apesar das controvérsias a que está votado, às contingências da acção da tecnologia para que esta não se oponha às necessidades dos processos naturais do Homem e para que este não seja manipulado pelo seu poderio, bem como pela ambição universal de domínio.
ABSTRACT
The present essay had as aim the understanding of Paul Virilio thinking about New Technologies and Communication. Consubstantiated by Virilio conceptions, we reflected upon technique as a way, despite its modesty, to contribute to the continuity of the XXI century awareness.
In a broad way, reading Virilio works, which are the locus of this essay, they express, in a way, a sceptic view of the path taken by technique development, which altered the upcoming deontology of the history of humanity, transforming Mankind in to a kind of machine. We also approached the under discussion of his thinking, related to a global virtualization movement of the new era of technology. From the historical contextualization of what is called virtual, we find an open path leading to the construction of a new humanity and a new subjectivity, as well as leading to a catastrophic massification and homogenization of Mankind, being thisa situation rather marked in Virilio intellectual production.
We have verified that the French urbanist considers that a new era of technology is characterized as an era of “(neg)ócio (nec- otium)” idleness/business, nowadays completely technological, one of the main beams of our society. Virilio also raises a problem, that is the relationship between a macrostructure dominated by mass communication and daily practices that are clearly assumed as microstructures, where Mankind becomes a domiciliary sedentary.
From this point we also explain Virilio thoughts about the recent expansibility of New Technologies in all matters of daily life. The apparent disenchantment in technology that modernity ha assumed, after the terrible experience of war and technological disasters, described by Virilio, it appears that in our days it has not deeply changed and inverted our way of facing that same modernity. To deception, nowadays, overcomes dazzling. Therefore reflection, that should start from each one of us, compels, with particular importance, to the existence of clearness of analyses of the invasion of New Technologies in our lives.
The reflections of Virilio thinking, implies that it is needed to continue giving more attention, despite controversy, to the contingencies of technological actions, so that it does not oppose the necessity of Mankind’s natural process, and that Mankind is not manipulated by its power, as well by the universal ambition to domain.
RESUMEN
La presente disertación tuvo como finalidad comprender el pensamiento de Paul Virilio en el ámbito de las Nuevas Tecnologías y de la Comunicación. Consustanciados por las concepciones de Virilio, observamos la técnica, como una forma, modesta, de contribución para la continuidad de la conciencia cultural en el siglo XXI.
En líneas generales, las lecturas de las obras de Virilio, locus de estudio, expresan una perspectiva un tanto escéptica en lo que a los rumbos de la técnica se refiere, alterando la deontología del devenir de la historia de la humanidad, transformando al hombre casi en una máquina. Abordamos también su vertiente de pensamiento relativo al movimiento general de virtualización de la nueva era tecnológica. A partir de la contextualización histórica de lo virtual tenemos abierto un camino hacia el frente, tanto en dirección a la construcción de una nueva humanidad y de nuevas subjetividades, así como en dirección hacia la catástrofe de masificación y homogenización del Hombre, posición esta bastante marcada en la producción intelectual de Virilio.
Constatamos que el urbanista francés considera que la nueva era de la tecnología esta caracterizada como la era del neg(ocio) (nec-otium), ocio y negocio, hoy totalmente tecnológica, como uno de los pilares maestros de nuestra sociedad. Virilio destaca también el problema, de la relación entre una macro-estructura dominada por la comunicación de masas y las prácticas cotidianas claramente asumidas como micro-estructuras donde el Hombre se ha transformado en un sedentario domiciliario.
Partiendo de este punto, también explicitamos el pensamiento de Virilio en cuanto a la reciente expansión de las Nuevas Tecnologías a todos los campos de la vida cotidiana, dado que esta se encuentra en franca expansión. El desencanto ante lo tecnológico que la modernidad ha asumido, después de las terribles experiencias de las guerras y los desastres tecnológicos, y descritas por Virilio, parece, en nuestros días, no haber alterado e invertido nuestra forma de encarar esa misma modernidad. El deslumbramiento se impone, hoy, a la decepción. La reflexión, por parte de cada uno de nosotros, se impone, particularmente importante para que exista una lucidez de análisis en contra partida a la invasión de las Nuevas Tecnologías en nuestras vidas.
Las reflexiones sobre el pensamiento de Virilio implican que se continúe dando mas atención, a pesar de las controversias a las que están sujetas, a las contingencias de la acción de la tecnología para que esta no se oponga a las necesidades de los procesos naturales del Hombre y para que este no sea manipulado por su poder, así como por la ambición universal de dominio.
RÉSUMÉ
La Présente Dissertation a eu comme finalité comprendre la pensée de Paul Virilio dans le contexte des Nouvelles Technologies et de la Communication. Encouragés par les conceptions de Virilio, nous réfléchissons la technique, comme une forme, bien que modeste, de contribuer pour la continuité de la conscience culturelle dans le siècle XXI.
En lignes générales, les lectures des oeuvres de Virilio, la locus de l'étude, expriment une perspective un peu sceptique quant aux chemins de la technique, qui a modifié la déontologie du devenir de l'histoire de l'humanité, en transformant l’Homme en une presque machine. Nous avons également abordé la versant de sa pensée qui concerne le mouvement général du virtuel de la nouvelle époque technologique. À partir de l’apparition du virtuel nous avons un chemin en ouverture devant nous, soit dans la direction de la construction d'une nouvelle humanité, soit dans la direction d’une catastrophe de l'homogénéisation de l'Homme, étant cette dernière, une position suffisamment marquée dans l’oeuvre intellectuelle de Virilio.
Nous avons constaté que l'urbaniste français considère que la nouvelle Ére de la Technologie est caractérisée comme celle du (nég)oce nec-otium, de loisir et d´affaire, aujourd'hui complètement technologique, une des poutres maîtres de notre société. Virilio soulève également le problème, de la relation entre une macrostructure dominée par la communication de masses et les pratiques quotidiennes clairement assumées des micro- structures où l'Homme s'est transformé dans un domiciliaire sédentaire.
Partant de ce point, nous avons aussi explicité la pensée de Virilio quant à la récente expansion des Nouvelles Technologies à tous les champs de la vie quotidienne, une fois que celle-ci se trouve en expansion éminente. Le désenchantement devant le technologique, que la modernité soutien, après les expériences terribles des guerres et des désastres technologiques, et décrites par Virilio, semble, dans nos jours, ne pas avoir profondément modifié et inversé notre forme d'envisager cette même modernité. À la déception il s'impose, aujourd'hui, l'éblouissement. Notre réflexion, s'impose, alors, comme particulièrement importante pour qu’il puisse exister une lucidité d'analyse face à l'invasion des Nouvelles Technologies dans notre vie.
Les réflexions sur la pensée de Virilio impliquent qu'il se continue à donner plus attention, malgré les controverses auxquelles elle est votée, aux contingences de l'action de la technologie pour ne pas qu´elle s´oppose aux nécessités des processus naturels de l'Homme et pour que celui-ci ne soit pas manipulée par son pouvoir, ainsi que manipulé par l'ambition universelle de domaine.
SIGLAS
Ao longo desta dissertação utilizaram-se um conjunto de siglas, que se descrevem na lista seguinte, juntamente com o seu significado, para identificar as diversas obras de Paul Virilio.
AAM A Arte do Motor
ABI A Bomba Informática
AC Alerte dans le cyberespace
AD América: depoimentos
AIP A Inércia Polar
LAM L’art du moteur AMV A máquina de visão
AVL A Velocidade de Libertação
BA Bunker Archéologie
BI La Bombe informatique
CAPP Cibermundo: A Política do Pior
CPP Cybermonde: la Politique du Pire
CSE A cidade super exposta
DPLE Défense Populaire et Luttes Ecologiques
EC L’ Espace Critique
ECPTR O espaço crítico e as perspectivas do tempo real
ED Esthétique de la disparition
EDCG L’écran du désert - Chroniques de Guerra
GC Guerra e cinema
GCLP Guerre et Cinéma – Logistique de la perception
GP Guerra pura: a militarização do quotidiano
HN L’horizon négatif
IP L’inertie polaire
IT Insegurança do território
LIT L’ Insécurité du territoire
LPS La Procédure Silence
MH Os motores da história
OEL The over-exposed city in Leach PE Un paysage d’événements RL Rat de Laboratoire
RT O Resto do Tempo
SD Stratégie de la Déception
VEP Velocidade e política
VH Voyage d’Hiver
VL La vitesse de libération
VPACI Ville panique- Ailleurs commence ici
Justificação do interesse pela temática
Objectivos do estudo
Estrutura do trabalho
INTRODUÇÃO
O Homem é um ser social, facto que implica, por si só, uma aprendizagem para que a sua integração na comunidade seja plena e dela advenham realizações mútuas. Esta aprendizagem decorre de diferentes actos e múltiplos contextos mas, a Escola ainda detém responsabilidade para fazer mais e melhor. Objecto de múltiplas e diferentes solicitações compete-lhe dar resposta às exigências de desenvolvimento económico, social, cultural e ético e vencer ainda o desafio da tecnologia que, com os riscos eventuais que isso comporta, constitui umas das principais vias de acesso à educação contemporânea. A complexidade desta ‘paisagem’ educativa exige que sejam consideradas diferentes formas de ensino e aprendizagem, valorizando a complementaridade dos espaços, dos tempos e dos agentes educativos.
Só um estudante ‘vitalício’ será capaz de se manter actualizado face ao impacto das novas tecnologias, aprendendo o seu valor, mas exercendo simultaneamente uma atitude crítica perante as diferentes consequências do seu uso.
Partindo desse pressuposto e por defendermos que o professor deve estar em formação contínua resolvemos desenvolver um estudo no âmbito das Novas Tecnologias e da Comunicação. Estamos bem cientes que não é uma tarefa fácil, contudo será, certamente, um desafio muito gratificante.
Optamos por dissertar no âmbito das Novas Tecnologias e da Comunicação baseando-nos em Paul Virilio porque sendo ele um “observador” (Virilio, VH, 1997: 37) que olha tudo com esse sentimento de observação e sendo também “(…) um verdadeiro amante das novas tecnologias …” (Virilio, CAPP, 2000: 13), já que há mais de trinta anos estuda o papel da velocidade e das novas tecnologias na evolução da sociedade, alguns dos seus pensamentos suscitaram em nós muitas interrogações. Decidimos questionar o que é dito por Virilio ‘olhando-o’ por dentro, pois pretendemos, tal como ele, “(…) mostrar as tendências negativas para prevenir o mal (…). Ele antecipa as “tendências que já se podem observar” (Virilio, CAPP, 2000: 68).
Virilio é um filósofo, urbanista e sociólogo que se tornou um dos pensadores de referência da ‘modernidade’. Há vários anos que desenvolve uma reflexão inovadora sobre grandes questões, que as tecnologias potenciaram como a velocidade, o poder e o futuro da cidade e do mundo. Não sendo um conservador, no sentido de não aceitar o progresso, pretende analisar a evolução tecnológica, o ‘acidente’ que a inovação técnica acaba por arrastar consigo, iludida por uma sociedade tecnocrata e positivista. Como se pode inferir
das suas palavras Virilio não é “absolutamente nada contra a progresso”, apenas não compreende muito bem como é que o homem depois de catástrofes ecológicas como Auschwitz e Hiroxima ainda se deixa embalar na doce utopia de que a técnica só trará a felicidade. Recorrendo à terminologia, popularizada durante a ocupação nazi de França, entre colaboracionistas e resistentes, Virilio classifica a sua reflexão como “(…) um trabalho de «resistente» porque há demasiados «colaboradores» que, de novo, nos dão o golpe do progresso salvador, da emancipação, do homem liberto de toda o constrangimento” (Virilio, CAPP, 2000: 85).
Impôs-se-nos ainda aprofundar o conhecimento e implicações das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) 1porque a sua implementação na educação tem vindo
a ser uma das mais significativas mudanças ocorridas no ensino, nos últimos anos, e as suas aplicações no processo educativo permitiram, a nosso ver, um desenvolvimento pedagógico importante.
Não consideramos no entanto que as TIC sejam a solução para todos os males da Educação, pois seria muito optimismo acreditar que uma ‘nova’ tecnologia resolvesse ‘velhos’ problemas. As TIC não representam a alvorada de um novo mundo, sem problemas. Há mesmo quem considere que os problemas que as escolas não podem resolver sem computadores também não os poderão resolver com eles (Postman, 2002). Contudo é aceitável esperar que, tal como aconteceu no século XV com a imprensa, também a actual revolução social e tecnológica venha a ter profundos impactos na Escola.
Embora as TIC sejam instrumentos relativamente novos nas escolas, pois a sua invasão foi tardia, essa introdução tem ocorrido, agora de forma mais rápida. Por isso, também procuraremos analisar os argumentos apresentados quer pelos defensores quer pelos contestatários da infiltração das TIC no ensino e na aprendizagem escolar. Analisaremos ainda o papel que as tecnologias têm tido na escola e as dificuldades que têm
1
Tecnologias necessárias para o processamento da informação ou, mais especificamente, o
hardware e o software utilizados para converter, armazenar, proteger, tratar, transmitir e recuperar a
informação, a partir de qualquer lugar e em qualquer momento. Embora nesta definição esteja incluída a componente de comunicação da informação, os desenvolvimentos actuais da multimédia e das telecomunicações, designadamente as redes de computadores e em especial a Internet, levaram à adopção generalizada do termo “tecnologias da informação e comunicação (TIC)”.
Muitas vezes temos um problema de terminologia. Durante muitos anos falava-se apenas no computador. Depois, com a proeminência que os periféricos começaram a ter (impressoras, plotters,
scanners), começou a falar-se em novas tecnologias de informação (NTI). Com a associação entre
informática em telecomunicações generalizou-se o termo tecnologias de informação e comunicação (TIC). Qualquer das designações é redutora, porque o que é importante não é a máquina, nem o facto de lidar com informação, nem o de possibilitar a sua comunicação à distância em condições francamente vantajosas. Mas não há, por enquanto, melhor termo para designar estas tecnologias.
surgido na sua integração, as alterações que as TIC produzem sobre o trabalho dos professores e as suas relações com outros agentes educativos.
Na perspectiva instrumental será pertinente analisar o núcleo das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) cuja origem remonta aproximadamente a 1975. Foi nessa altura que se viu emergir, ao lado dos audiovisuais, (expressão que designa simultaneamente os instrumentos de apresentação áudio e visual), a micro-informática que permite o desenvolvimento de novas relações com o princípio do saber.
Cada casa, vila, cidade, país torna-se um centro interactivo, graças às novas tecnologias. Com a sua introdução na sociedade ocidental, a escola no futuro (de hoje em diante) deverá incluir essas ferramentas no processo de formação e socialização dos alunos.
Porém, cada vez que aparece um novo medium 2, questiona-se se a sua maior
abrangência lhe permitirá substituir os seus precedentes. Na realidade sabemos que neste domínio, raramente é uma lógica de substituição que prevalece, mas antes uma lógica de complementaridade. O cinema não substituiu o teatro, a televisão não supriu o cinema e o computador também não acabou com a televisão nem com o livro. Continuaremos a ver televisão e a ler livros, tal como ainda vamos ao teatro e ao cinema.
Não podemos ignorar que o mundo em que vivemos se revela, cada vez mais, num mundo informático. Estamos na Era das redes, do virtual, do nomadismo, da abundância da oferta, da proliferação das mensagens e dos enunciados. É neste mundo que as crianças de hoje serão chamados a viver, a traçar o seu caminho. Para sobreviverem, terão certamente que arrastar consigo as tecnologias, já que as possibilidades educativas das novas tecnologias são quase ilimitadas.
Entendemos que a escola, em todos os níveis e em todos os aspectos de trabalho desenvolvidos, tem como preocupação maior a compreensão e apreensão de conceitos e a construção do conhecimento que permitam ao aluno aprender as relações existentes na sociedade.
2 Tomamos o devido cuidado em utilizar o termo medium, pois segundo o sociólogo e pensador Ciro
Marcondes Filho:
“o vocábulo media significa ‘meios de comunicação’. É o plural latino do termo medium. É equivocado, portanto, dizer-se, como fazem os publicitários e editores, ‘midia’, que implica ao mesmo tempo dois erros, devido à ignorância dos que o introduziram na nossa língua: ‘mídia’ é como os norte-americanos pronunciam o termo media — não passa, portanto, da pronúncia de um termo que pode ser aqui muito bem usado na forma original — e no nosso país adoptou-se ainda o absurdo singular ‘a mídia’, o que, numa expressão muito corrente como ‘a mídia televisão’, significa literalmente ‘os meios de comunicação televisiva’ (sic). Em francês, usa-se correctamente ‘les médias’.No nosso idioma pode-se falar perfeitamente dos media e usar a sua adjectivação adequada, mediático” (Marcondes Filho, 1988:17).
Para promover um ensino eficaz, o professor deverá definir o que vai ensinar, conhecer técnicas de ensino e gerir metodologias eficientes que lhe permitam transmitir aos alunos de forma clara e significativa os conteúdos que ele domina. Sendo assim, o professor deve saber organizar o seu dia-a-dia, lidar com situações não pedagógicas que possam interferir no seu trabalho, bem como organizar o seu tempo e os recursos didácticos.
Face a esta problemática pretendemos, com este trabalho:
- perceber porque razão Virilio criticou tanto a informática e os avanços tecnológicos, numa época que se rege exacerbadamente pelos mesmos;
- aprofundar mais os nossos conhecimentos acerca de conceitos chave de Virilio (tecnologia, velocidade, tempo, espaço, cidade, território, realidade virtual, ciberespaço, corpo), sob o ponto de vista diacrónico das suas obras.
Esta dissertação que começa por apresentar e contextualizar a problemática a estudar (a tecnologia, a comunicação e o pensamento de Paul Virilio), está estruturada em três capítulos, cada um dos quais dividido em várias partes, culminando com algumas considerações finais.
No primeiro capítulo, apresentamos várias definições/perspectivas sobre a técnica e a tecnologia, estabelecendo a sua distinção, bem como, experimentamos compreender, pelo recurso a bibliografia variada, em que domínios e em que condições as novas tecnologias podem contribuir para transformar o Homem e a sociedade e ainda analisar as consequências das alterações que essas tecnologias promovem.
Se as TIC continuarem a integrar no nosso quotidiano ao ritmo a que assistimos é necessário que daqui a alguns anos toda a população activa esteja já familiarizada com as tecnologias. Esta torna necessário que os alunos de hoje se dotem de competências metodológicas ligadas às TIC, pois elas condicionam eventualmente a sua integração social e profissional.
Porém, a inserção das TIC no ensino, até muito recentemente, foi feita de modo pouco significativo. Contudo, essa tendência tem vindo a sofrer alterações pois estamos assistir a uma revolução tecnológica. Os argumentos que frequentemente são invocados para inverter esta situação são, primeiramente que as TIC podem, potencialmente, aumentar a acessibilidade da educação a um maior número de pessoas e deste modo contribuir para a democratização das sociedades (UNESCO, 1998), além do que também é
absolutamente urgente alfabetizar os homens de amanhã no plano informático já que a tendência do ‘novo mundo’ é progressivamente tecnológica.
No que respeita à Educação e às TIC pretendemos mostrar como as novas tecnologias da informação e da comunicação podem tornar reais tantos sonhos dos professores, apontando as vantagens do seu uso no ensino, mas também os fantasmas que elas criam apresentando as suas desvantagens. A análise do sentido, dos ganhos e das perdas da utilização das TIC é um meio essencial para compreender os modelos sociais emergentes. Essa análise permite compreender como e porquê os indivíduos se apropriam ou não das tecnologias colocando-as ao serviço dos seus interesses e das suas necessidades sociais, de identidade e de autonomia.
Quando abordarmos a Sociedade da Informação pretendemos esclarecer o significado desta nova sociedade, apresentando os vários significados que são atribuídos, bem como, uma reflexão sobre o paradigma que estamos a viver, fazendo referência à dicotomia da sociedade da informação e do conhecimento.
No segundo capítulo abordamos a comunicação. Comentamos a importância e a necessidade do Homem Comunicar, falamos também da nova Era da comunicação, da sua presença na educação e da incomunicação das novas tecnologias.
O terceiro capítulo face à emergência tecnológica tem, portanto, como única referência Paul Virilio, uma vez que este urbanista, tal como nós, se sente curioso face aos resultados que irão advir dos progressos tecnológicos. Far-se-á, em primeira instância, uma breve referência, de cariz introdutório, na qual mencionamos, algumas das grandes questões do seu pensamento que contextualizam a escolha deste autor. Apresentar-se-á também uma breve biografia de Paul Virilio onde destacamos o assunto de cada uma das suas obras e mencionamos as suas problemáticas iniciais. Explicitaremos ainda a forma como escreve para tentar compreender as reflexões que o autor faz.
De modo a percebermos como o seu pensamento evolui abordaremos, ainda que de forma sucinta, as problemáticas que retrata em cada uma das suas obras realçando aspectos fulcrais das suas reflexões. Para melhor compreendermos o que o seu pensamento nos traz de novo, os seus conceitos chave serão tratados a título individual e, relacionados sempre que necessário.
Por último, teceremos algumas considerações que em jeito de conclusão reflectirão os aspectos que, ao longo desta investigação, se tornaram mais relevantes.
Capítulo I – Tecnologia Educativa
“A técnica é o melhor e o pior”. (Virilio, VH, 1997: 20).
“Eu mesmo sou um apaixonado pela técnica e sei que nenhum território existe independentemente das tecnologias de transporte ou de transmissão e que isso aconteceu sempre, inclusive, na época em que se ia montado no asno. O meu trabalho procura, então, ilustrar a frase de Esopo: «Qual é a pior e a melhor das coisas?»” .
(Virilio, CAPP, 2000: 57).
“ (...) as tecnologias novas evitam deslocar-se para habitar”. (Virilio, CAPP, 2000: 71).
1. Técnica / Tecnologia
2. Sociedade da Informação
1.
TÉCNICA/TECNOLOGIA
1.1. Técnica
No âmbito do uso da linguagem corrente na qual a ambiguidade é característica significativa, os termos ‘técnica’ e ‘tecnologia’ são usados frequentemente como sinónimos, embora não tenham como referência o mesmo objecto, nem partam da mesma perspectiva de interpretação. Nem a técnica nem a tecnologia são uma novidade na vida da humanidade. Elas têm a mesma idade do homem (Gehlen, 1980). Sobre esta questão uma copiosa literatura, durante o século XX, se tem depositado no fundo bibliotecário da humanidade.
A origem do termo provém do latim ars e do grego teckné. O termo teckné significa habilidade, arte, mestria, e expressa a constituição do sentido e da razão de ser da própria existência do homem.
Dentro do horizonte lexical, preponderante no nosso tempo, o mais habitual é que a expressão ‘técnica’ referencie um âmbito sobretudo procedimental e rudimentar; enquanto que ‘tecnologia’, pela sua componente de ‘Logos’, corresponda a um universo de uma praxis mais elaborada e de um conhecimento mais especificado.
A técnica é, inicialmente considerada como habilidade humana para interagir com a natureza e confunde-se com a arte, no seu sentido original, na medida em que ambas se submetem a um conjunto de regras muito específicas.
Segundo Heidegger (1990), “a essência da técnica é algo de natureza não técnica”.
Para Boukharaeva (1995: 58),
“(…) este termo inicialmente fixa o sentido do processo de profissionalização da actividade do homem, bem como o seu resultado em forma de objecto material”.
Referindo-se à noção de técnica, Nicola Abbagnano (1998: 939) considerou que:
“o sentido desse termo coincide com o sentido geral de arte: compreende qualquer conjunto de regras aptas a dirigir eficazmente uma actividade qualquer”.
Ruy Moreira (1998:34) considera que a técnica é:
“ (…) a habilidade demonstrada pelo homem quando ele realiza uma determinada prática, como a de expor uma ideia, plantar trigo, manusear um
forno, dar uma aula ou tocar o violão, enquanto tecnologia seria o conjunto dos princípios que orientam a criação das técnicas de uma civilização”.
Ortega y Gasset (1939) entende-a como uma dimensão capaz de libertar o homem. Não deixa de haver um certo paradoxo: esse horizonte artificial que gera a técnica em torno do homem serve para o libertar de necessidades naturais e abrir-lhe um conjunto de novas possibilidades criativas mas, simultaneamente, restringe-o e condiciona-o para resolver novos problemas que a mesma tecnologia gerou.
Falarmos em técnica, traz-nos à memória Álvaro de Campos (o heterónimo de Fernando Pessoa), autor da Ode Triunfal e da Ode Moderna, publicadas na Revista Orfeu em, 1915, na qual canta a máquina, a modernidade. O poeta canta, de maneira exuberante e prodigiosa a técnica e elogia a actividade humana mecânica, “Em febre e olhando os motores como a Natureza tropical - / Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força”; cantando o “presente, e também o passado e o futuro (…)” (vv. 15-20, Ode Triunfal). Ela é um exemplo da expressão máxima do modernismo, da ciência moderna, da técnica, da actualidade de meios através dos quais, o Homem pode garantir a sua omnipotência e omnipresença.
A palavra técnica faz-nos imediatamente evocar o termo progresso, que não pretendemos, de modo algum, reduzir à simples constatação de uma evolução e de uma diversificação de técnicas, uma vez que entendemos “progresso”, na esteira de Dominique Bourg (1997), como um processo contínuo e indefinido de acumulações do poder.
Segundo esta perspectiva, a referida autora, afirma que a noção de progresso das técnicas dificilmente será dissociável de uma outra, mais geral, do Progresso, ou seja, da pressuposição de uma melhoria geral da condição humana, orientada para uma perfeição final. Ora, esta concepção do progresso técnico, é ao mesmo tempo, admirável e nociva. Tem origem num antigo imaginário religioso e impede-nos de medir a realidade e os limites do nosso poder sobre a natureza assim como, as dificuldades que o progresso técnico não pára de criar à organização das nossas sociedades.
Francis Bacon e René Descartes, conhecidos pensadores referidos por Bourg (1997), apreenderam sem dificuldade, a novidade da ciência moderna, o poder com que ela poderia dotar as nossas técnicas. Mas interpretaram-na imediatamente como uma promessa de um regresso ao estado original da humanidade, que prevalecia no Éden da Bíblia antes de sermos expulsos. Adão, criado à imagem e semelhança de Deus, reinava sobre a Criação como senhor quase omnisciente e omnipotente. “A ciência, através das técnicas, fazia com que lhes parecesse acessível, ou mesmo iminente, o regresso à
primitiva realeza da humanidade. Francis Bacon e, em menos medida, René Descartes, apreenderam assim em termos religiosos o advento da nova física” (Bourg, 1997: 12).
Esta esperança numa emancipação da humanidade, face a toda a espécie de entraves, secularizou-se posteriormente em todas as formas do Progresso. Os arautos do Progresso foram numerosos e variados, desde a época de Fontenelle até aos primeiros decénios deste século, passando pelas obras Condorcet e de Karl Marx. No entanto, os horrores do século, dos massacres de Verdun aos de Auschwitz, a conversão da esperança comunista em pesadelo totalitário, Hiroxima e Chernobil, acabaram por abalar, ou mesmo arruinar, a fé num futuro radioso. O advento de uma sociedade singela, devotada à felicidade universal parece, a partir de então, fora do nosso alcance. Em contrapartida, o núcleo duro desta antiga escatologia, o saber, a afirmação de uma omnipotência das ciências e das técnicas, permaneceu quase intacto. Assim fascinado, o nosso pensamento não pára de oscilar entre dois escolhos simétricos: uma «tecnofilia», e uma «tecnofobia» igualmente hiperbólicas, intimamente cúmplices, cuja única utilidade é comprometer a difícil compreensão das nossas sociedades (Bourg, 1997).
O homem moderno detém, pelo recurso à técnica, relevante poder sobre o ecossistema, visível na gestão das relações inter ou intra – específicas. A aldeia global em que o mundo se transformou alterou de forma irreversível o nosso papel social pois “abolindo as distâncias, molda-se a sociedade do futuro, que não corresponderá por isso mesmo, a nenhum modelo do passado” (Delors, 1997: 35). Contudo esta evolução tem contrapartidas negativas “o seu domínio confere às grandes potências ou aos interesses particulares um verdadeiro poder cultural e político” (Delors, 1997: 36).
Por isso, pleiteamos, nesta dissertação, uma concepção desencantada do progresso técnico, desembaraçada de qualquer nostalgia adâmica ou divinização dos nossos poderes. Examinamos, sucessivamente, como fomos levados a fazer recuar a natureza à nossa volta, entre nós e dentro de nós e, contemplamos igualmente as dificuldades e as novas responsabilidades ocasionadas por este recuo.
De onde nos virá a ideia de que encontraremos sempre uma solução técnica para os nossos problemas? Terão sido os dois séculos que acabam de se escoar, com o triunfo planetário da civilização industrial, que no-la ensinaram? A estas questões, Bourg responde, dizendo que,
“ não, pois esta crença é anterior e o passado, por mais remoto que seja, não a pode validar. A circunstância do poderio das nossas técnicas não ter parado de crescer e de termos continuado a arquitectar soluções técnicas de todas as espécies não prova minimamente que, de futuro, continue sempre a ser assim, tal como o facto de o sol se ter levantado esta manhã não basta para provar que se
levantará amanhã. Se se basear na sua experiência imediata quando está a poucos metros do solo, um gato cego a cair do alto da Torre Eiffel pode muito bem convencer-se de que não lhe vai acontecer nada” (Bourg, 1997: 13).
Segundo depreendemos desta asserção, não está, de modo algum assegurado que tenhamos, nos dias que correm, encontrado soluções técnicas para todas as nossas dificuldades. Grande parte das expectativas humanas enraízam-se no universo técnico mas tendo em conta esta constatação, inferimos que, para a autora, o futuro é promissor. A este propósito, Coppens (1996, apud Bourg, 1997: 18) refere que:
“a geração que agora chega vai aprender a passar a pente fino o seu mapa genético, a aumentar a eficácia do seu sistema nervoso, a fazer os filhos que sonhou, a dominar a tectónica das placas, a programar os climas, a passear nas estrelas e a colonizar os planetas a seu bel-prazer”.
Aqui está um límpido testemunho de utopismo técnico, tão próximo que fará sonhar alguns dos nossos contemporâneos e mergulhará outros num estado de pesadelo.
Seja como for, a esperança técnica tem duas versões, mas o seu ponto de partida nem sempre é claro. Pode esperar-se, do evoluir das ciências e das técnicas, um progresso social e moral indefinido, à maneira de Fontenelle (1766, apud Bourg, 1997), para quem parecia que a humanidade poderia atingir a idade viril sem deixar de acumular conhecimentos e de progredir. Também podemos esperar dessa evolução o advento de uma sociedade ideal, livre de todas as formas de injustiça, à maneira de Karl Marx.
Mediante estas conceptualizações, questiona-se: Quais serão, afinal, as origens desta crença desmesurada no poder das técnicas? Convém-nos recuar até bem antes da alvorada da civilização industrial, debruçando-nos sobre a ideia mais geral de progresso, que se poderia realizar de várias formas, culminando nesta civilização. É a Francis Bacon, na opinião de Gould (1996), que devemos a primeira utilização do termo progresso, do grego prokopé, latinizado de Cícero como progressus, já não com um sentido espacial, mas temporal.
Contudo, não podemos compreender Francis Bacon sem perseguir a génese da ideia de progresso até às longínquas origens bíblicas, como sustentava o historiador Jules Delvaille. Sem um tempo linear, a própria ideia de uma marcha temporal não teria qualquer sentido. Ora, esta concepção do tempo tem origem na Bíblia, na tradição judaico-cristã, embora de forma ambígua, já que é possível conceber a totalidade do tempo histórico e bíblico como um exílio de Deus e um regresso a Ele, logo como um ciclo único. Jules Delvaille discernia, no excerto eloísta da narrativa do Génesis, “ideias
de progresso cosmológico e sobretudo de progresso moral”, desenvolvidas em particular pelos profetas que, como escrevia,
“são os arautos do progresso social, que se fará pela renovação da consciência humana e que não consiste apenas na simples modificação das leis e regulamentos [...] o que nos importa é pois a sua ideia de idade do ouro [que está perante nós], a sua afirmação do progresso, que foram os primeiros no mundo a conceber” (Delvaille, 1910, apud Bourg, 1997: 20).
Em contrapartida, será difícil descortinar qualquer sinal prenunciado da ideia moderna de progresso na Antiguidade Greco-Romana, mesmo que, como Jules Delvaille, possamos desenterrar alguns indícios, por exemplo entre os epicuristas e, nomeadamente, em Lucrécio.
Caberá antes à cristandade latina tirar proveito da concepção linear do tempo legada pelas Escrituras. A partir da reflexão Agostiniana sobre a linearidade do tempo histórico, será necessário esperar pelo século XII, com as especulações de Flore para que a ideia de uma vida terrena melhor reapareça. O abade calabrês considera que os tempos estão ‘maduros’ para o advento de uma nova era, a Era do Espírito, que verá na terra o reinado do espírito evangélico e contemplativo de pobreza e concórdia. Na mesma época, outros religiosos, os monges da abadia de Saint-Victor, põem de certo modo a escatologia religiosa em uníssono com o espírito medieval ocidental de conquista técnica. Não contentes por classificarem, tal como Hugo de Saint-Victor, as ciências mecânicas, que tratam da obra do artífice, entre as ciências nobres, teóricas e éticas, os monges de Saint -Victor parecem, ter de facto, lobrigado na técnica um meio de Redenção e, melhor ainda, aquele que permitia ao homem aperfeiçoar a Criação Divina (Saint-Victor, 1991).
Algum tempo depois, o franciscano Roger Bacon, numa célebre passagem da sua Carta sobre as obras secretas, alimentará a esperança na invenção das coisas como barcos sem remadores, movidos por um só homem, máquinas voadoras, viaturas automóveis, pontes suspensas. Defensor da «ciência experimental», acredita na sua progressão definida, embora sem nunca atingir a perfeição, e na possibilidade de prolongar a vida. O doutor Mirabilis será, de resto, condenado por magia e passará catorze anos da sua vida na prisão. Como justamente faz notar Jules Delvaille “Bacon não sonha apenas com o progresso científico, tem um ideal político e social” (Delvaille 1910, apud Bourg, 1997: 22).
É espantosa a proximidade entre Roger Bacon e Francis Bacon, autor do Novum
sobre a natureza é mais a expressão de uma profunda continuidade que de uma ruptura real com o universo medieval.
De acordo com Canguilhem (1996), Descartes defendia a ideia de que somos donos e senhores da natureza. Esta afirmação pode parecer banal, mas, não o era no tempo da publicação do Discurso do Método. Em que razões poderia fundar-se tal promessa que, na altura, não se relacionava grandemente com o estado das técnicas? Descartes não afirmou, à maneira de Cícero, que éramos os “senhores absolutos” das coisas que a “terra” e o “mar” apresentam, capazes de “domar a terra e os ventos” assim como a “força e a velocidade dos quadrúpedes”. Para ele, tratava-se de um domínio bastante mais ambicioso: o da própria natureza, que tanto engloba o conhecimento da “força e das acções do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos rodeiam”, como o dos “diversos ofícios dos nossos artífices” (Cícero, apud Bourg, 1997: 23-4).
Esta afirmação decorre da nova natureza da ciência moderna e, sob este ângulo, há uma verdadeira ruptura com a tradição antiga e medieval. Para compreender a reviravolta introduzida pelo aparecimento da física matematizada, examinemos e concepção aristotélica da natureza e da técnica. Por ‘natureza’ convirá entender o que não decorre de uma intervenção humana. A natureza remete-nos para a necessidade, daquilo que não pode não ser nem ser o que não é, ao passo que a acção humana, quer se trate de fazer, quer de fabricar, releva da contingência (daquilo que pode não ser ou ser o que não é).
Assim, o desenvolvimento da técnica, permite ao Homem construir instrumentos que asseguram a sua sobrevivência e uma melhor qualidade de vida. Isso parece-nos consensual, pois, o avanço tecnológico da actualidade permite um conjunto de facilidades que, potencialmente, podem liberar o ser humano de actividades desgastantes e desnecessárias.
O homem conseguiu transformar os recursos disponíveis na natureza, em algo que lhe possibilite uma vida melhor, com mais recursos e conforto. A todas estas criações realizadas em benefício próprio ou em prol dos demais seres da sua espécie, chamamos tecnologia.
Este lugar preponderante da técnica na hominização foi reconhecido claramente desde a segunda metade do século XIX. Rousseau foi, no século XVIII, um dos filósofos percursores no âmbito deste entendimento. A partir do momento em que se torna natural considerar o homem no seio do reino animal, mergulhado nele mesmo, teologicamente
ou ontologicamente, à procura do que tem em comum com os outros animais ou do que os distingue, a humanidade e a técnica devem ser apreendidas em conjunto. Onde houver instrumentos, mesmo rudimentares, há o humano.
As vitórias humanas sobre a natureza e as fatalidades, tal como a barbárie que as acompanhou, foram tidas em conta “pela persuasão do mundo pela técnica” (Heidegger, 1990). De qualquer modo, antigas ou novas, todas as técnicas foram afectadas pela formidável extensão dos conhecimentos.
No fundo, a técnica é o conjunto de procedimentos e recursos de que se serve uma ciência ou uma arte, ou seja, a técnica refere-se sempre aos procedimentos, ao emprego de certos instrumentos e à utilização de certos materiais. Ela é também a perícia ou habilidade para usar esses procedimentos e recursos. Filosoficamente, a técnica é sinónimo de prática e opõe-se ao teórico e ao especulativo. A técnica refere-se ao modo de fazer a acção, contrariamente à teoria que se preocupa exclusivamente com o pensamento. No entanto, a noção de técnica usa-se em algumas ocasiões como característica de um domínio de conhecimento. Palavras técnicas são aquelas que têm o seu uso e sentido dentro de uma ciência e que transcendem o saber comum.
Cournot falava de ciências técnicas e de ciências especulativas. Kant, ao contrário, aproximava o conceito teórico e a técnica.
Podemos distinguir três grupos de técnicas segundo o grau de utilidade e as suas aplicações distintas na vida: a técnica propriamente dita, a técnica artística, (distinta também segundo a índole de cada arte) e a técnica dos actos humanos (morais, políticos e económicos).
Segundo Virilio (VH, 1997), o lugar da técnica e das máquinas pode ser observado em três momentos complementares. O primeiro está associado ao desenvolvimento dos meios de transportes; o segundo, ao aumento dos meios de comunicação, e o terceiro, num momento especial para o homem deste fim de milénio, é a integração das máquinas que invadem e aceleram o corpo. Cada uma destas etapas envolveu operações que resultaram no alcance de velocidades cada vez maiores.
O fascínio contemporâneo pela técnica, pelo movimento e pelas imagens, instala o homem no seio de tudo o que é provisório. Fazer parte da sociedade tecnológica é encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformação de si e do mundo – real e virtual – e, por isso mesmo, é deixar-se envolver pelo tufão das mudanças. Importa, nesse contexto, de um mundo determinado pela velocidade mediática, desenvolver a acção, o pensamento e os desejos por meio da
proliferação, justaposição e disjunção de “ferramentas” técnicas. É preferir o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os arranjos móveis aos sistemas. É acreditar que o produtivo não é o sedentário mas o que é móvel.
Para Virilio, (VH, 1997: 20) a técnica é o melhor e o pior. Todas as revoluções são um drama, mas a revolução técnica que se anuncia é, sem dúvida, mais que um drama, uma tragédia de conhecimentos, uma confusão de saberes individuais e colectivos.
“Pode-se considerar que a minha abordagem é negativista. Ela não o é absolutamente nada. Simplesmente, este trabalho sobre a negatividade, eu sou obrigado a fazê-lo, enquanto a maior parte dos intelectuais já se tornaram colaboradores, ou mesmo publicitários do desenvolvimento da técnica. (…) Eu mesmo sou um apaixonado pela técnica e sei que nenhum território existe independentemente das tecnologias de transporte ou de transmissão e que isso aconteceu sempre, inclusive, na época em que se ia montado no asno. O meu trabalho procura, então, ilustrar a frase de Esopo: «Qual é a pior e a melhor das coisas?»” (Virilio, CAPP, 2000: 57).
Desta asserção, podemos depreender que o autor não se revela um tecnófobo, não manifesta um antagonismo cego em relação à técnica, mas antes, um ser capaz de ver nela a sua dupla face de Jano: a positiva, como a esperança da emancipação da humanidade de todas as espécies de entraves, como um arauto do Progresso; a negativa, que a põe em descrédito face, por exemplo, aos horrores de Hiroxima e Chernobil.
Nesta linha de pensamento, subscrevemos a asserção de Ungaro (2003: 85-6):
“Cada período da evolução técnica traz, com a sua equipa de instrumentos e máquinas, a evolução de acidentes específicos: inovar o navio foi inventar o naufrágio, inventar a máquina a vapor, a locomotora, e outros, foi inventar o descarrilamento, a catástrofe ferroviária. Com a invenção da aviação os aeroplanos inventam a catástrofe aérea, o choque contra o solo. O mesmo se aplica ao automóvel com a colisão em série a grande velocidade … Analisando a negatividade do acidente de um objecto pode-se desenvolver esse mesmo objecto para o aperfeiçoamento, para o humanizar e o civilizar”.
Ungaro (2003) considera que estamos a tornarmo-nos legatários e oriundos de uma ameaçadora raça, prisioneiros de taras hereditárias transmitidas não mais pelos genes, o esperma, o sangue, mas por uma contaminação técnica indizível. Esta afirmação remete-nos para os aspectos negativos da técnica, contrariando a ideia de que o progresso científico e técnico nos podem conduzir à felicidade universal. Assim, vislumbra-se uma frustração do próprio Homem.
Virilio constata consequências destas inovações:
“Devido a essa perda de ‘liberdade comportamental’, toda a crítica da técnica desapareceu pouco a pouco e deslizamos inconscientemente da pura tecnologia para a tecnocultura e finalmente para o dogmatismo de uma tecnocultura totalitária em que todos se vêem presos na armadilha, não mais de uma sociedade, de suas leis ou de seus interditos morais, sociais, culturais, mas justamente daquilo que esses séculos de progresso fizeram de nós, do nosso próprio corpo” (Virilio, ABI, 1999: 44).
Este autor parece reconhecer a inexistência de uma crítica da técnica e, de certa forma, lamenta esse facto, mas a impressão que temos, em função da pesquisa bibliográfica que realizámos, é a de que a crítica da técnica existe embora suplantada pelas vozes favoráveis.
Vattimo (1989) entende que, ao abordar-se a questão civilização da técnica, temos de compreender que esta não se reporta única e exclusivamente ao conjunto de ‘ferramentas’ técnicas que mediatizam a relação entre o Homem e a Natureza, pelo que advoga que
“embora esta definição da técnica seja válida, em geral, para todas as épocas, revela-se hoje demasiado genérica e superficial: a técnica que domina e modela o mundo em que vivemos é certamente feita de máquinas, que fornecem os meios para ‘dominar’ a natureza externa; mas é sobretudo definida, e de maneira essencial, por sistemas de recolha e transmissão de informações” (Vattimo, 1989: 24).
Neste contexto, o historiador, Fernand Braudel (apud Salomon, 1984: 15) considerava que “tudo é técnica, mas toda e qualquer técnica não é tecnologia”. Embora a tecnologia seja tanto o resultado, como a extensão da técnica, esta não pode ser considerada nem sua equivalente nem sua substituta. A partir desta definição podemos deduzir que a técnica, de modo muito amplo, define o homem como apto a realizar actividades mesmo sem instrumentos.
1.2. Tecnologia/ TIC/ TE
A abrangência da designação de tecnologia é uma questão que frequentemente é abordada por pesquisadores, estudantes, autores, estudiosos e profissionais de diversas áreas.
Segundo o dicionário de Grego-Inglês de Liddell e Scott (1969), tanto a etimologia da palavra ‘técnica’ como a do vocábulo ‘tecnologia’ apresentam a mesma raiz: o verbo grego teckné, que significa ‘criar, produzir, conceber, dar à luz’, o que nos permite inferir que a tecnologia abrange muito mais do que máquinas, meios, suportes. Consiste num sistema complexo que envolve um objecto desde o surgimento da ideia até à sua concretização. Sendo assim, o objecto livro, à semelhança de outros meios, é um produto da tecnologia.
O dicionário da Língua Portuguesa define tecnologia como um conjunto de instrumentos, métodos e processos específicos de qualquer arte ou técnica (Costa e Melo, 1998).
Constata-se que a sociedade está dependente da tecnologia e que urge disseminar essa tecnologia, sendo neste ponto que a educação se assume como suporte da própria tecnologia.
Em linguagem corrente, é habitual a definição de tecnologia estar relacionada a máquinas, no seu sentido genérico, tais como: ferramentas, instrumentos fabris, computadores, equipamentos. Em termos gerais, tecnologia é a simples aplicação prática
do saber.
Kranzberg e Purcell (1984: 14), à medida que desfazem a ideia da tecnologia, entendida como máquinas e processos, enfatizam que ela afecta o trabalho humano e as intenções do homem para satisfazer os seus desejos, por meio da sua acção sobre os objectos físicos e justificam que “a ênfase no ‘trabalho’ da tecnologia revela que esta abarca também a organização, ao mesmo tempo que a finalidade do trabalho”.
Dessa definição podemos depreender que a tecnologia é um dos principais agentes de transformação das sociedades actuais, sob as suas diferentes formas, com os seus mais variados usos e, tem implicações no nosso quotidiano e nas nossas actividades. O ser humano procura constantemente meios para facilitar, organizar, aprimorar e conceber os seus modos de produção com mais qualidade, rapidez e eficiência. Esta constante busca de superação, de transposição das hodiernas limitações, tem provocado
em algumas sociedades avanços e problemas de ordem educacional, relacional, estrutural e de desenvolvimento.
A UNESCO – United Nations Education Social and Cultural (Unesco, 1985) define tecnologia como “(...) processos de saber que podem ajudar as pessoas a utilizar instrumentos, recursos e sistemas para resolver problemas e aumentar o controle sobre o ambiente natural e para melhorar a condição humana”.
Esta perspectiva dá-nos uma visão sobre o enfoque positivo da tecnologia. No entanto, entendemos que as pessoas que beneficiam desta tecnologia, deverão estar bem conscientes e preparadas para a sua utilização, porquanto dela advêm consequências positivas e negativas o que exige o recurso constante ao espírito crítico.
Por isto é que Postman (1994: 10-12) considera a tecnologia tanto como “um amigo como um inimigo. Toda a tecnologia é tanto um fardo como uma bênção”.
Segundo Abbagnano (1998: 939), a tecnologia, é “o estudo dos processos técnicos de determinado ramo da produção industrial ou de vários ramos”.
Vargas (1994a: 213) propõe, na sua definição, que tecnologia é “o estudo ou tratado das aplicações de métodos, teorias, experiências e conclusões das ciências ao conhecimento dos materiais e processos utilizados pela técnica”.
Nestes termos, a tecnologia é como uma ciência aplicada. Na sua obra, ‘Para uma
filosofia da tecnologia ’ teoriza o entendimento de que a tecnologia está relacionada com
a resolução de problemas práticos (Vargas, 1994b: 20).
Com o aprofundar dos seus estudos, elabora o que seria, para ele, realmente a tecnologia e propõe a seguinte definição:
“ simbiose da técnica com a ciência moderna, consistindo também num conjunto de actividades humanas, associadas a um sistema de símbolos, instrumentos e máquinas que visam a construção de obras e a fabricação de produtos, segundo teorias, métodos e processos da ciência moderna” (Vargas, 1994b: 182).
Nesta definição, Vargas, reafirma o entendimento da tecnologia como uma ciência direccionada para uma intenção e uma aplicação, no sentido de resolver problemas práticos.
Para Gama (1994: 45) tecnologia
“ (…) não é técnica, não é um conjunto de técnicas. Então, tecnologia não é o fazer, mas sim o estudo do fazer, é o logos da técnica; é o logos, é o
discurso, é o conhecimento sistematizado, é o raciocínio racionalmente organizado sobre a técnica”.
Portanto, para que a tecnologia se concretize são necessários conhecimentos científicos que não sejam fragmentados, porque a tecnologia não é um agregado de técnicas ou disciplinas.
Desta forma, além de propor uma definição de tecnologia, Gama (1986) relaciona alguns itens que não configuram a tecnologia, ou seja, a tecnologia não é um conjunto de técnicas; não é a forma como os homens constroem as coisas; não é o meio pelo qual o homem se apropria da natureza e nem é o meio pelo qual os homens retiram do seu habitat os alimentos, as roupas, o abrigo e as ferramentas de que precisam para sobreviver; não é o conjunto de ferramentas, máquinas, aparelhos ou dispositivos quer mecânicos quer electrónicos, quer manuais quer automáticos; não é o conjunto de invenções; não é a ciência aplicada.
Para Barnett (1993) tecnologia engloba os seguintes componentes:
- hardware técnico: configuração específica de máquinas, equipamentos,
dispositivos, instrumentos, processos, estruturas físicas (plantas) e respectivos lay-out, necessários à geração de produtos ou serviços;
- conhecimento (brainware): conhecimento científico e tecnológico, habilidades técnicas, talento, criatividade, valores, atitudes, cultura geral, educação formal, formação e aperfeiçoamento profissional, experiência, know-how (como realizar determinadas tarefas para alcançar objectivos específicos), know-what e know-why da tecnologia;
- organização: arranjo institucional (administrativo, burocrático, gerencial), por meio do qual o hardware técnico e o conhecimento são combinados; e meios pelos quais são gerenciados (as técnicas gerenciais, organização da produção, controlo de qualidade, manutenção, entre outras). Consiste também numa rede de relações físicas, informacionais e socio-económicas.
Esses componentes da tecnologia são interdependentes, co-determinantes e, igualmente, importantes, o que faz com que o relacionamento entre eles seja circular, logo não linear e não hierárquico.
Na nossa perspectiva, estas tecnologias constituem tanto um meio fundamental de acesso à informação (Internet, bases de dados) como, um instrumento de transformação