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2.1 TECNOLOGIA SOCIAL

2.1.2 Tecnologia Social: conceitos e características

O conceito da Tecnologia Social parece ser uma construção tipicamente brasileira, já que, ao pesquisá-lo nas publicações internacionais, o seu possível equivalente na língua inglesa (social technology) não possui o mesmo sentido. Um sentido bastante comum refere-se às mídias ou tecnologias que possibilitam interação social, como as redes sociais on-line (por exemplo, os sítios Facebook, Twiter, YouTube, Flickr, etc.) e os serviços de comunicação móvel, incluindo o que se denominou de ‘Web 2.0’, ou de ‘read/write Web’ (rede mundial interativa/colaborativa, com leitura e escrita). Este sentido de ‘Tecnologia Social’ é observado em Li (2010), Klososky (2011), Li e Bernoff (2011), Hemmi, Bayne e Land (2009).

Outro sentido de ‘tecnologia social’ é o cunhado por Nelson e Sampat, e referenciado em algumas publicações, a exemplo de Conceição (2008, citando NELSON e SAMPAT, 2001, e NELSON, 2002), Chatawaya, Hanlinb, Mugwagwab e Muragurib (2010, citando NELSON, 2008), e Merito e Bonaccorsi (2007, citando NELSON e SAMPAT, 2001, e NELSON, 2005). Neste ponto de vista, uma dada atividade econômica teria um componente denominado ‘tecnologia física’, acompanhado de um componente denominado ‘tecnologia social’, que seria a forma de divisão e coordenação do trabalho, ou a governança desta atividade econômica.

Na íntegra, Nelson (2008, p. 3) indica: “Sampat and I proposed that it might be useful to call the recipe aspect of an activity its “physical” technology, and the way work is divided and coordinated its “social” technology.” O autor utilizou-se de uma analogia com receita de bolo, indicando que a tecnologia física diz respeito aos passos ou procedimentos que precisam ser executados para se alcançar o resultado desejado, e que a ‘Tecnologia Social’ diz respeito à como isto será feito, o que inclui aspectos do contexto da aplicação da ‘tecnologia física’.

Assim, a Tecnologia Social, nos termos como é registrada nas publicações brasileiras, não é foco de estudos nas publicações internacionais. E, muito embora Dagnino (2009, contracapa) em obra por ele organizada, reconheça que a Tecnologia Social é “uma alternativa dos excluídos latino-americanos às dificuldades impostas por mais esta crise do capitalismo mundial”, também não foram localizadas publicações em periódicos científicos em espanhol sobre o tema (bases indexadas pela Capes).

Outro aspecto interessante das publicações sobre o tema é que grande parte do que é produzido gira em torno de um pequeno grupo de fontes, que inclui obras organizadas pela Fundação Banco do Brasil (2004), RTS (2010), ITS (2007), e Dagnino (2009). Além disso, muitos textos são publicados por diferentes combinações do mesmo grupo de autores, o que demonstra um resultado bastante coletivo e coeso dos estudos, embora referenciado individualmente, e dentre autores que não fazem parte destas obras, há uma recorrência em citá-las como fonte conceitual.

Desta forma, em termos de Brasil, o conceito atual da Tecnologia Social (TS) é considerado uma evolução dos estudos registrados na década de 1970 que trataram da então denominada Tecnologia Apropriada (TA) (DAGNINO, BRANDÃO E NOVAES, 2004; DAGNINO e NOVAES, 2005; ITS, 2007; RODRIGUES e

BARBIERI, 2008; DAGNINO, 2009; FONSECA e SERAFIM, 2009; NOVAES e DIAS, 2009; FONSECA, 2010; MACIEL e FERNANDES, 2011), conforme destacado no item anterior. No entanto, se diferencia da TA por superar a concepção de simples transferência de tecnologia, ao incluir a participação das populações que a utilizarão, que “passam a ser atores diretos no processo de construção de desenvolvimento tecnológico, sem se limitar mais à ‘recepção de tecnologias’” (ITS, 2007, p. 28).

A definição conceitual da Tecnologia Social é consolidada em torno de alguns elementos essenciais, que aparecem na maioria das referências sobre o tema. O Quadro 3 apresenta uma compilação das definições conceituais deste tipo de tecnologia na literatura pesquisada.

Autor do estudo/texto: Autoria citada para o

conceito utilizado: Conceito de Tecnologia Social adotado:

Rede de Tecnologia Social (RTS) (2011, s.p.)

Compreende produtos, técnicas ou

metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que

representam efetivas soluções de transformação social.

Bava (2004, p. 106)

RTS Singer e Kruppa (2004, p. 91)

Barros e Miranda (2010, p. 62) Bonilha e Sachuk (2011, p. 414).

Maciel e Fernandes (2011, p. 151) Rodrigues e Barbieri (2008, p. 1070)

Não citam a RTS como

Souza (2010, p. 47, grifo nosso) Cita a RTS, mas apresenta grafia diferenciada quanto à interação com a

comunidade.

“produtos, técnicas e metodologias desenvolvidas na interação dos saberes científico e popular e que representam efetivas soluções de transformação da sociedade”.

Fundação Banco do Brasil (2011, s.p.) Compreende produto, processo, técnicas ou metodologias replicáveis desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social.

Rodrigues e Barbieri (2008, p. 1077).

Fundação Banco do Brasil Pena e Mello (2004, p. 84)

Fundação Banco do Brasil

“processo, método ou instrumento capaz de solucionar algum tipo de problema social e que atenda aos quesitos de simplicidade, baixo custo, fácil reaplicabilidade e impacto social comprovado.”

Instituto de Tecnologia Social (ITS) (2004, p. 130; 2007, p. 29) “conjunto de técnicas, metodologias

transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela, que representam soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida”. associados a formas de organização coletiva, que representam soluções para a

inclusão social e melhoria da qualidade de vida”.

Fonseca (2010, p. 75)

“tecnologias que incorporem, da concepção à aplicação, uma intencionalidade de inclusão social e desenvolvimento econômico-social e ambientalmente sustentável [...] definida de acordo com o contexto, pela relação particular da tecnologia com a sociedade e envolvimento dos atores interessados.”

QUADRO 3 – DEFINIÇÕES CONCEITUAIS DE TECNOLOGIA SOCIAL FONTE: A autora (2012)

Analisando-se as definições conceituais elencadas no Quadro 1, percebe-se que a maior parte dos estudos ou textos pesquisados faz referência a uma origem comum para o conceito da Tecnologia Social, e a mais indicada é a RTS (em seis dos textos). Em menor número são referenciados a Fundação Banco do Brasil e o ITS. Alguns autores não citam a RTS como fonte, mas o conceito indicado é idêntico: Rodrigues e Barbieri (2008, p. 1070), Otterloo (2010), FINEP (2011b).

Observa-se também que dos 17 conceitos apresentados, oito foram apresentados em trabalhos publicados em coletâneas organizadas pela RTS (04 trabalhos) e pela Fundação Banco do Brasil (04 trabalhos), o que poderia estar gerando esta unanimidade conceitual alcançada, já que os autores estão integrados nestas redes de discussões. No entanto, mesmo em fontes não relacionadas diretamente com estas instituições, a unanimidade permanece, como se identifica em Maciel e Fernandes (2011), Bonilha e Sachuk (2011), Rodrigues e Barbieri (2008), e FINEP (2011b).

Apenas duas fontes, Fonseca (2010) e Lassance Jr. e Pedreira (2004), utilizam-se de texto diferenciado, mas contemplam os mesmos elementos definidores da Tecnologia Social, não destoando dos demais.

Desta forma, analisando-se os textos referenciados, observa-se que a conceituação da Tecnologia Social é bastante consolidada dentre os estudiosos do tema no Brasil. Como partes componentes deste conceito, reunindo-se todas as definições apresentadas, os elementos essenciais que aparecem são:

a) a que se refere: produtos, instrumento, técnicas, tecnologias, metodologias, método, processo, procedimentos;

b) condição necessária: reaplicáveis, transformadoras, simples, de baixo custo;

c) origem: desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a comunidade/população que dela se apropria; desenvolvidas na interação dos saberes científico e popular; associadas a formas de organização coletiva; definida conforme o contexto de tecnologia-sociedade e com envolvimento dos atores interessados;

d) propósito: efetivas soluções de transformação social; de problema social;

de inclusão social; de melhoria das condições de vida; de desenvolvimento econômico-social e ambientalmente sustentável.

Em relação às condições necessárias é importante notar que a Tecnologia Social não pode ser transferida simplesmente, e, por isso, se aponta a sua reaplicação ao invés de replicação, ou seja, a reaplicação implica na participação dos receptores como atores da sua aplicação e adaptação à sua realidade. (RTS, 2008, citada por BONILHA e SACHUK, 2011).

Em relação às origens, também se pode adicionar a observação de Lassance Jr. e Pedreira (2004), destacando a Tecnologia Social tem dimensão local (famílias, cooperativas, associações), o que pode ser uma dificuldade para sua aplicação em maiores escalas e que não são necessariamente associadas a organizações coletivas. Estas observações ampliam um pouco as possibilidades de desenvolvimento, no entanto, não aparecem compartilhadas por outros autores.

Alguns trabalhos apresentam uma caracterização das Tecnologias Sociais, útil para que se aprofunde a compreensão de como estes elementos conceituais se aplicam no campo prático. O ITS (2004, p. 130, citado por RODRIGUES e BARBIERI, 2008, p. 1075) indica como características:

 razão de ser: atender demandas sociais;

 processo de tomada de decisão: democrático e desenvolvido com mobilização e participação da população;

 papel da população: participação, apropriação e aprendizado;

 sistemática: há planejamento, aplicação ou sistematização de conhecimento;

 construção do conhecimento: produção de novos conhecimentos a partir da prática;

 sustentabilidade: econômica, social e ambiental;

 ampliação de escala: serve de referência para novas experiências.

A RTS (2008, 2006, citada por BONILHA e SACHUK, 2011, p. 414), indica como características da Tecnologia Social:

 adaptada a pequenos produtores e consumidores de baixo poder econômico;

 não promovedora do controle, segmentação, hierarquização e dominação nas relações patrão-empregado;

 orientada para o mercado interno de massa;

 incentivadora do potencial e da criatividade do produtor direto e dos usuários;

 capaz de viabilizar economicamente os empreendimentos como cooperativas populares, incubadoras e pequenas empresas.

Novaes e Dias (2009, p. 18-19, citados por MACIEL E FERNANDES, 2011, p. 151), indicam que a Tecnologia Social tem por condições necessárias:

 ser adaptada a pequenos produtores e consumidores;

 não promover o tipo de controle capitalista, segmentar, hierarquizar e dominar os trabalhadores;

 ser orientada para satisfação das necessidades humanas [...];

 incentivar o potencial e a criatividade do produtor direto e dos usuários;

 ser capaz de viabilizar economicamente empreendimentos como

cooperativas populares, assentamentos de reforma agrária, a agricultura familiar e pequenas empresa.

Note-se que a caracterização é relativamente coesa, tal como ocorre com a definição conceitual, abordando essencialmente as mesmas condições ou características classificatórias da Tecnologia Social.