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2. TECNOLOGIAS NA ESCOLA: CONCEITOS E DETERMINAÇÕES

2.3 TECNOLOGIAS: PODER, RELAÇÕES DE TRABALHO E ESCOLA

No sistema capitalista predominante em nossa sociedade, o homem se mostra como um produtor e consumidor cada vez mais insatisfeito. Há tempos que é

discutida a questão da máquina substituir o trabalho do homem3. Hoje parece ser

notável que máquinas desempenhem com muito mais precisão e rapidez muitas funções que antes eram realizadas manualmente pelo homem. Assim, o homem ao invés de desempenhar tais funções passou a ter que aprender a manipular tais máquinas para que realizem essas funções.

Entretanto, exercer o simples controle desses recursos tecnológicos, manipulando-os e levando-os a exercer funções que antes desempenhava, não

3 O filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin (1936) faz forte menção à questão da máquina

significa desenvolver tecnologia ou ter controle tecnológico. Sobre tais questões Vieira Pinto (2005) chama a atenção, pois em muitos casos nos tornamos consumidores cada vez mais vorazes de aparatos tecnológicos dos países desenvolvidos, que nos fazem acreditar que dessa forma estamos inseridos tecnologicamente, esquecendo-nos de trabalhar a fim de nos desvencilharmos de seu controle, desenvolvendo nossa própria tecnologia.

A tecnologia em si não tem poder algum, pois ela é produto das necessidades impostas por aqueles que a desenvolvem e a controlam e, portanto dos que detêm o poder. De acordo com Vieira Pinto (2005, p. 286):

A tecnologia não é causa, mas mediação, de que as forças em ascensão no país pobre tomam consciência e de que precisam lançar mão para lutar contra velhas estruturas de relações sociais, sustentadas por procedimentos obsoletos, para se firmarem, recolherem a justa parte que lhes compete dos proventos coletivos, e eventualmente chegarem a dominar o sistema.

Dessa forma, considera-se que no país em ascensão tecnológica, primeiramente, muitas vezes é preciso importar tecnologias dos países desenvolvidos. Pois, entendendo a tecnologia como um processo da produção humana, para avançar em termos tecnológicos é preciso partir do que já está posto, sendo necessário conhecer e entender o que se produziu ao longo dos tempos para não correr o risco de se lançar rumo ao que já está superado. Mas isso não é algo simples, visto que normalmente importam-se tecnologias já ultrapassadas, frequentemente por falta de recursos financeiros. Assim, uma das formas que Vieira Pinto (2005, p. 278) aponta para que os países subdesenvolvidos consigam avançar em termos tecnológicos é “executar uma política de apropriação de suas forças criadoras para si. A consciência dessa necessidade só pode ter por fundamento a prática de uma política nacional de apropriação para si das riquezas naturais”.

Entretanto, o que se vê normalmente é o contrário, políticas que exportam as riquezas do país que são apropriadas pelos países desenvolvidos por um custo extremamente baixo, e revertidas ao país exportador por uma fortuna que lhe consome possibilidades de emancipação tecnológica. Dessa forma financia-se a aceleração do crescimento das nações desenvolvidas que, já possuidoras do conhecimento e das técnicas atuais, conseguem mais recursos para ampliá-las

ainda mais. Nesse sentido, não se pode esperar que todos tenham a mesma reação ao se depararem com novas tecnologias, pois sempre que algo novo é apresentado, levará um certo tempo para ser apropriado e incorporado pelos demais, que podem apresentar diferentes respostas ao que lhes é ainda desconhecido. Assim sendo, realidades diferentes são atingidas e reagem de forma diferente aos avanços tecnológicos, pois: “O choque de diferentes mundos é inevitável numa sociedade que se baseia no domínio tecnológico” (FEENBERG, 2004, p. 4).

Da mesma forma, algo novo normalmente demorará certo tempo para avançar, pois terá que passar por um período de apropriação e incorporação para poder dar-se outro salto em relação a algo original. Vieira Pinto (2005, p. 333) declara que quando uma tecnologia “adiantada” é exportada para uma “área atrasada”, ao invés de produzir “efeitos multiplicadores” inicialmente chega mesmo a apresentar “efeito inverso e perigoso”, pois ao sobrepor-se um processo

desconhecido sobre algo já enraizado ocorre a desorganização do “sistema global

de produção nacional” que precisa se adaptar à nova forma imposta.

Mas é certo que todos são afetados direta ou indiretamente pelas decisões tomadas por aqueles que constituem o grupo dominante, visto que as tecnologias estão ligadas ao poder, nas mais diversas formas e instâncias. Não há como ficarmos alheios à influência tecnológica que se presencia cotidianamente, pois pode ser sentida através daqueles que governam o Estado e também na forma como as nações tidas como dominantes operam no país. No caso dos países subdesenvolvidos as decisões dos que detêm maior poder neste meio são capazes de produzir ainda maiores reações nos que são afetados por suas decisões. As nações subdesenvolvidas, ao assumirem a postura que os detentores do poder tecnológico esperam que tenham, de passível consumidor e, portanto, importador da tecnologia por eles produzida, colocam a sua nação submissa à produção desses países. E em muitos casos isso vai além, tornando seu país local embrionário do desenvolvimento tecnológico das nações desenvolvidas, uma vez que não são raras as situações em que nos deparamos com todo o arsenal desenvolvimentista desses países instalado nas regiões pobres que lhes emprestam, além do solo estrangeiro, suas riquezas naturais e sua mão de obra barata a ser explorada pelos técnicos

desses países perante a promessa de, dessa forma, serem inseridos tecnologicamente.

Entretanto, se por outro lado a decisão é por aventurar-se e, ainda que a passos lentos iniciar o próprio caminho na independência tecnológica, há a possibilidade de futuramente apresentar-se como uma nação competitiva no mercado, além de não permitir a exploração de seu território nem de seu povo.

Porém, essa transposição não é simples e não ocorre por ações isoladas ou esporádicas. Depende da concepção que aqueles que tomam as decisões em nome da nação têm em relação às possibilidades de avanço de seu país. Para Vieira Pinto (2005, p. 280), os técnicos sempre consideram que há falta de recursos. No entanto: “Se existisse a compreensão correta, seria fácil perceber imediatamente que a rigor nunca há falta de recursos, porque esses são sempre suficientes para dar os primeiros passos no caminho certo. O que falta é a consciência do que seja o caminho certo” (VIEIRA PINTO, 2005, p. 280).

Nesse sentido, o trabalho de Bueno (2013) fornece elementos para compreendermos melhor tais questões no ambiente escolar. A pesquisadora, embasada em Marx, Lukács e outros autores, investigou como as tecnologias educacionais quando usadas nas escolas de ensino fundamental, podem colaborar

nos processos de reificação4 e superação da lógica do sistema capitalista.

Apontando que atualmente ainda as questões apresentadas por Marx são bastante pertinentes, uma vez que predomina o sistema capitalista em nossa sociedade, a autora destaca que “faz-se necessário o aprofundamento na formação continuada dos professores, destacando, sobretudo, o caráter histórico-social da tecnologia” (BUENO, 2013, p. 420). Tal caráter histórico-social da tecnologia é tratado pela autora a partir dos estudos realizados em que defende que:

Com efeito, Marx adota também o conceito de história crítica da tecnologia que pressupõe reconhecer que tanto ferramentas como máquinas são produtos de um processo histórico e não pertence à invenção de uma única mente ou força de um único trabalhador, mas implica, substancialmente, a

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Deriva do latim res = coisa, reifis, tornar coisa, coisificar; portanto, pensar em algo já formatado, uma coisa, um objeto, uma ação materializada que toma vida própria. No entanto, é somente a partir de uma perspectiva dialética da teoria de Marx que a reificação ganha um caráter mais significativo, identificada e analisada à luz de uma concepção crítica de sociedade capitalista (BUENO, 2013, p. 27).

relação histórico-social. De modo geral a produção da maquinaria, objetivação da relação social é para Marx também uma expressão ideológica dominante e se cristaliza no avanço da tecnologia moderna. Portanto, o ser humano vai se produzindo no seu trabalho e se humanizando através da tecnologia e confere ao ser a sua condição social; o trabalho como atividade abstrata, revela o modo pelo qual o ser humano se humaniza. (BUENO, 2013, p. 190)

Em seu trabalho (BUENO, 2013) revelam que as tecnologias e as

tecnologias educacionais5 são tidas como mercadorias no interior da escola. A

possibilidade da superação da reificação da tecnologia no interior das escolas é possível, de acordo com a autora, pela tomada de consciência dos professores de que podem superar os limites da escola e da sala de aula criando espaços coletivos de discussão, a fim de repensar a forma como a tecnologia é concebida na escola. Bueno (2013) adverte ainda que os discursos democráticos ficam presos ao papel, não se concretizando nas ações que se desenvolvem no ambiente educacional.

A mesma autora conclui que “ousa enfatizar ainda que torna-se urgente

repensar todo o design da escola – sua estrutura – atualmente em face da

tecnologia educacional seguido da organização do trabalho pedagógico” (BUENO,

2013, p. 422), pois o modelo vigente é o de “linha de montagem”, que tende a reificar e robotizar cada vez mais alunos e professores. Sua pesquisa evidencia, ainda, a necessidade de uma reflexão mais ampla, crítica e problematizadora em torno da tecnologia educacional, sendo um dos caminhos apontados o conhecimento da história da tecnologia pelos professsores e alunos, o que, segundo

ela, poderia levar à superação do que denomina “linha de montagem”, pois

professores e alunos poderiam compreender como, por que e com que finalidade se desenvolveu a tecnologia. A intenção de despertar uma visão realmente crítica em relação à tecnologia que não se limite ao uso de artefatos ou submeta toda a proposta pedagógica “à ilusão e endeusamento da mercadoria projetada nas novas ferramentas [...]” (BUENO, 2013, p. 423), seria então atingida.

Porém, a mesma autora assinala que a forma como os professores participam das decisões políticas também é muito superficial, pois se limitam a no máximo ouvir alguns que possuem um pouco mais de afinidade com as ferramentas

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De acordo com Bueno (1999, p. 88) a tecnologia educacional é entendida como “a tecnologia

tecnológicas (BUENO, 2013), não havendo portanto, real participação dos profissionais da educação nos processos de decisão em relação a tecnologias e

tecnologias educacionais nas escolas públicas, o que é um “indicador de que o

discurso da gestão democrática é apenas uma oratória” e que na verdade o que se concretiza é a mercantilização das ferramentas tecnológicas.

Bueno (2013) destaca ainda que os projetos político-pedagógicos das escolas revelam o caráter instrumental assumido pelas tecnologias, sendo o

professor um “trabalhador solitário” com sua prática fragmentada, já que espaços

para discussões coletivas não são incentivados. Daí a necessidade do professor se “rebelar” contra a ridigez e burocracia do sistema e construir seu espaço, o que segundo a autora seria o caminho apontado para a superação da reificação frente às tecnologias a partir de uma concepção histórico-crítica e revolucionária.

Quando se questiona por quanto tempo ainda será necessária a profissão de professor, percebe-se que o avanço das tecnologias não abdicou do professor, sendo sua atuação no processo de aprendizagem de suma importância, como aponta Libâneo:

Não só o professor tem o seu lugar, como sua presença torna-se indispensável para a criação das condições cognitivas e afetivas que ajudarão o aluno a atribuir significados às mensagens e informações recebidas das mídias, das multimídias e formas variadas de intervenção educativa urbana a valor da aprendizagem escolar está justamente na sua capacidade de introduzir os alunos nos significados da cultura e da ciência por meio de mediações cognitivas e interacionais providas pelo professor. Essa escola, concebida como espaço de síntese, estaria buscando atingir aqueles objetivos mencionados anteriormente para uma educação básica de qualidade: formação geral e preparação para o uso da tecnologia, desenvolvimento de capacidades cognitivas e operativas, formação para o exercício da cidadania crítica, formação ética. Para isso, professores são necessários, sim (LIBÂNEO, 2000, p. 12).

Assim, o avanço das tecnologias trouxe mudanças ao trabalho em geral e também ao trabalho do professor, mas não a ponto de excluí-lo desse processo, embora seu trabalho frente às mudanças ocasionadas na sociedade pelas tecnologias da informação e comunicação também devesse sofrer mudanças, uma vez que a sociedade da informação pede profissionais com:

[...] uma cultura geral mais ampliada, capacidade de aprender a aprender, competência para saber agir na sala de aula, habilidades comunicativas, domínio da linguagem informacional, saber usar meios de comunicação e articular as aulas com as mídias e multimídias (LIBÂNEO, 2000, p. 4).

Embora isso seja o que se espera do trabalho do professor atualmente, não é o que se concretiza normalmente, pois de acordo com Simonian (2009, p. 62) referenciando Sancho (2006), o que tem acontecido é que os professores adaptam as novas tecnologias à forma como acreditam que ocorre a aprendizagem dos alunos, preservando a velha metodologia utilizada em suas aulas. Assim, ao invés de aproveitarem as possibilidades que as novas tecnologias oferecem para modificarem seu método de trabalho em sala de aula, normalmente o que ocorre é adaptarem o uso dessas tecnologias a sua prática em sala de aula, não trazendo grandes mudanças à sua atuação pedagógica. Isso parece estar relacionado aos cursos de formação continuada dos professores para o uso de recursos tecnológicos na educação, que normalmente privilegiam o aspecto instrumental em detrimento do pedagógico, o que faz com que o professor valorize apenas a forma como o instrumento opera, mas não entende que o equipamento oferece meios para refletir sobre as possibilidades de inserção de novas alternativas pedagógicas em sala de aula. E assim os novos recursos tecnológicos passam a desempenhar as mesmas funções dos velhos recursos didáticos, sem modificarem a metodologia do professor, perdendo-se grande potencial para o desenvolvimento de tecnologias educacionais que proporcionem reais mudanças no cotidiano escolar.

Portanto, há necessidade de repensar a formação dos professores para que sejam propiciados espaços de discussão das formas de uso das tecnologias na educação, considerando a exclusão sócio-tecnológica dos professores e suas necessidades (SIMONIAN, 2009).

Garcia (1999 apud SIMONIAN, 2009, p. 64) destaca também a necessidade

de, ao formar professores, viabilizar condições para realizar trabalhos em colaboração, como: “a participação na elaboração e discussão de propostas de ensino, projetos pedagógicos, análise e avaliação de materiais didáticos, incluindo também as tecnologias”.

2.4 EDUCAÇÃO E TECNOLOGIAS: QUE RELAÇÕES É POSSÍVEL