Segundo Charaudeau (2006), para que uma sociedade se caracterize como tal, é condição sine qua non que esta tenha uma mediação social, um sistema de
valores mais ou menos mitificado que, para desempenhar seu papel de “cimento identitário”, deve ser partilhado pelo conjunto de membros da comunidade.
Ao longo da História, a circulação desse sistema de valores vem sendo assegurada pelo suporte de uma instância social que tenha autoridade. Conforme destaca Charaudeau, na Idade Média, cabia à Igreja assegurar o curso de uma moral divina. No século XVIII, a imprensa nascente e a escola faziam circular uma moral laica. No século XIX, com a industrialização, diferentes instâncias de organização da produção se reuniram para assegurar uma moral do trabalho. No século XX, os meios de informação das massas possibilitaram a dominação dos aparelhos de Estado ao facilitar a divulgação de modelos de vida e pensamento ao mesmo tempo diversos e dominantes. De acordo com o autor,
Na segunda metade do século XX, as mídias desempenharam o papel de suporte a ponto de terem midiatizado totalmente a sociedade contemporânea: elas são portadoras de imaginários sociais que têm influência sobre as opiniões sem que se saiba verdadeiramente qual é essa influência (CHARAUDEAU, 2006, p. 282).
Antes do desenvolvimento dos meios de comunicação, a única forma de interação disponível era a face a face, consequentemente, era muito reduzido o número de pessoas que poderiam ver ou ouvir indivíduos que detinham posições de poder político. Sendo assim, conforme destaca Thompson, “os líderes políticos eram invisíveis para a maioria das pessoas que eles governavam, e podiam restringir suas aparições públicas a grupos relativamente fechados em assembléias ou a reuniões da corte” (1998, p. 109).
De acordo com Fairclough (1996), uma das consequências do que ele classifica como “midiatização dos políticos e governos” é a transformação de líderes políticos em personalidades midiáticas, fato que “provavelmente teve início na Inglaterra com Harold Mcmillan, nos anos 50”. O autor destaca a importância do desenvolvimento de um estilo próprio por parte dos políticos, pois, por meio dele, exprimem-se “determinados valores que podem, poderosamente, melhorar a ‘mensagem’ política” (p. 4, tradução nossa).
Conforme destaca Foucault (2007), as sociedades do mundo antigo eram “sociedades de espetáculo” (o exercício do poder estava ligado à manifestação pública de força e superioridade do soberano), com um regime em que uns poucos se tornavam visíveis a muitos, e no qual a visibilidade de poucos era usada como meio de exercer o poder sobre muitos (um exemplo disso são as execuções em praças públicas). A partir do século XVI, a manifestação espetacular de poder cedeu lugar a novas formas de disciplina e controle: o exército, a escola, a prisão, o hospital, que vieram empregar gradativamente mecanismos mais sutis de poder baseados no treinamento, na disciplina, na observação e no registro.
A propagação destes mecanismos gradualmente fez surgir um novo tipo de “sociedade disciplinar” em que a visibilidade de poucos diante de muitos foi substituída pela visibilidade de muitos diante de poucos, e na qual a manifestação espetacular do poder soberano foi substituído pelo poder do olhar (THOMPSON, 1998, p. 120).
Para caracterizar essa nova relação entre poder e visibilidade, Foucault (2007) utiliza o conceito de Panopticon, proposto pelo jurista inglês Jeremy Bentham
no final do século XVIII. Bentham concebeu uma construção circular, que tem em sua parte central uma torre de observação vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do círculo. A construção periférica é dividida em celas com duas janelas (uma voltada para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, para o exterior, permitindo que a luz atravesse a cela de lado a lado). Para vigiar todas as celas, é necessário apenas um indivíduo na torre central, que, pelo efeito da contraluz, pode ver sem ser visto. O Panopticon tem como objetivo induzir no
detento um estado consciente e permanente de visibilidade, o que assegura o funcionamento automático do poder, mesmo quando este não é observado.
O Panopticon surgiu, assim, como uma alternativa às formas primitivas de
exercício do poder, em que a visibilidade passa a ser um meio de controle. A partir de então, os indivíduos “não são mais testemunhas de um grandioso espetáculo que se desenrola diante deles, mas antes objetos de múltiplos e interligados olhares que, através do exercício diário de controle, dispensa a necessidade de espetáculo” (THOMPSON, 1998, p. 121).
Thompson discorda de Foucault quanto à crença de que o Panopticon fornece
um modelo generalizável para o exercício do poder nas sociedades modernas, especialmente no que tange à mídia. Para ele, apesar de os meios de comunicação terem sido utilizados com objetivo de controle (pelos militares, por exemplo), a importância desse controle pode ser exagerada, além de ser ilusório atentar somente para as atividades de controle, sem considerar as novas formas de publicidade criadas pela mídia.
Se Foucault tivesse considerado o papel dos meios de comunicação mais cuidadosamente, ele poderia ter visto que eles estabelecem uma relação entre poder e visibilidade que é bem diferente da que está implícita no modelo do Panopticon. Enquanto este modelo torna muitas pessoas visíveis
a poucos e reforça o exercício do poder sobre elas, submetendo-as a um estado permanente de visibilidade, o desenvolvimento da comunicação mediada forneceu os meios pelos quais muitas pessoas podem reunir informações sobre poucos e, ao mesmo tempo, uns poucos podem aparecer diante de muitos; graças à mídia, aqueles que exercem o poder é que são submetidos agora a um certo tipo de visibilidade, mais do que aqueles sobre quem o poder é exercido (THOMPSON, 1998, p. 121, grifo do autor).
Como pudemos observar, os meios de comunicação geraram uma inversão nos papéis de observador e observado. Essa mudança alterou profundamente as condições sob as quais o poder político é exercido: os governantes passaram a se preocupar cada vez mais com sua apresentação diante de audiências que não estavam fisicamente presentes. Segundo Thompson (1998), ao longo dos séculos XIX e XX, a tarefa de administrar a visibilidade dos líderes políticos por meio da mídia assumiu uma importância ainda maior. O desenvolvimento da televisão enfatizou a preocupação com a aparência visual desses líderes: “o modo de se vestir, de se apresentar, de se portar, etc. torna-se um aspecto importante de sua auto-apresentação diante de audiências remotas em espaço e que podem ver sem se deixarem ver” (p. 124).
A partir dessa constatação, parece-nos coerente a proposição de uma nova terminologia para esse papel de “Grande Irmão”12 atribuído à mídia, especialmente à televisão: o Telepanopticon.
O grande poder de influência e manipulação normalmente atribuído à mídia foi posto à prova durante as eleições presidenciais de 2006, sobre as quais discorremos a seguir.