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Flávia Silveira Serralvo

O jogo de máscaras na cena política:

construção e desconstrução do ethos em debate presidencial televisivo

Doutorado em Língua Portuguesa

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Flávia Silveira Serralvo

O jogo de máscaras na cena política:

construção e desconstrução do ethos em debate presidencial televisivo

Doutorado em Língua Portuguesa

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Língua Portuguesa, sob a orientação do Prof. Doutor João Hilton Sayeg de Siqueira.

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Banca Examinadora

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AGRADECIMENTOS

Ao professor Doutor João Hilton Sayeg de Siqueira, por quem tenho profunda admiração e respeito, sou grata pelas orientações e pela confiança em mim depositada.

À Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pelo fomento a esta pesquisa.

À professora Doutora Sílvia Cristina Dotta, colega e amiga, pelo auxílio e motivação constantes.

Aos docentes e funcionários do Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa da PUC-SP.

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RESUMO

SERRALVO, Flávia Silveira. O jogo de máscaras na cena política: construção e desconstrução do ethos em debate presidencial televisivo. Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, SP, Brasil, 2011.

O presente trabalho fundamenta-se nos estudos da Análise Crítica do Discurso (ACD) e tem como objetivo verificar de que maneira os participantes de um debate político televisivo constroem para si uma imagem favorável, ao mesmo tempo em que colocam em xeque a imagem positiva de seu adversário. Com base no modelo tridimensional idealizado por Fairclough (2001), analisamos quais são as estratégias argumentativas utilizadas pelos candidatos para a construção de seu ethos e para a

desconstrução do ethos de seu oponente. Além disso, buscamos ainda observar de

que maneira os candidatos dividem seu tempo entre essas duas estratégias, ou seja, se há um equilíbrio ou a predominância de uma delas. Compõem nossas unidades de análise os textos orais dos candidatos à Presidência da República no ano de 2006, Geraldo Alckmin (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante o último debate veiculado pela TV Globo. A hipótese é de que o lugar que cada candidato ocupa no contexto em que está inserido o debate (situação versus oposição)

determina a postura adotada em seu discurso. A análise do corpus permitiu observar

que, no geral, Lula dedicou tempo maior para trabalhar sua própria imagem do que para desconstruir a do adversário; Alckmin, ao contrário, voltou-se mais frequentemente à desconstrução do ethos de seu oponente do que à construção de

seu próprio ethos.

Palavras-chave: Análise crítica do discurso; Discurso político; Debate televisivo;

(8)

ABSTRACT

SERRALVO, Flávia Silveira. The game of masks on the political scene: construction and deconstruction of the ethos in television presidential debate. Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, SP, Brasil, 2011.

This work, based on the Critical Discourse Analysis (CDA) studies, intends to investigate how the participants of a television political debate create a favorable image for themselves, and, at the same time, put in check the adversary’s positive image. Based on the tridimensional model idealized by Fairclough (2001), we analyze the argumentative strategies used by the candidates to construct their ethos

and to deconstruct the opponent’s ethos. Moreover, we observe, as well, how the

candidates divide their time between these two strategies, in other words, if there is a balance or the predominance of one. Our units of analysis are the oral texts of the candidates for president in 2006, Geraldo Alckmin (PSDB) and Luiz Inácio Lula da Silva (PT), during the last debate aired by TV Globo. The hypothesis is that the place taken by each candidate, in the context in which the debate is inserted (situation

versus opposition), determines the posture adopted in their speech. Corpus analysis

enabled to conclude that, in general, Lula has devoted more time to work his own image than to deconstruct the opponent’s; Alckmin, on the other hand, spent more time deconstructing his rival’s ethos than constructing his own.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 12

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO ... 18

1.1 Análise Crítica do Discurso ... 18

1.1.1 Análise tridimensional do discurso ... 20

1.2 Gêneros do discurso ... 27

1.2.1 Discurso político ... 30

1.3 Ethos: da Retórica à AD ... 40

1.3.1 Peculiaridades do ethos no discurso político ... 46

1.3.2 Ethos em debate: construção e desconstrução de imagens ... 50

2 CONTEXTUALIZAÇÃO: ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2006 ... 64

2.1 Telepanopticon: a mídia e a transformação da visibilidade ... 64

2.2 Os meios de comunicação nas eleições de 2006 ... 67

2.3 Debates políticos televisivos ... 71

2.3.1 O último debate das eleições de 2006 ... 74

3 METODOLOGIA E ANÁLISE ... 77

3.1 Categorias de análise da prática discursiva ... 78

3.1.1 Categoria recursos argumentativos para a construção do ethos ... 79

3.1.2 Categoria recursos argumentativos para a desconstrução do ethos ... 82

3.2 Análise ... 83

3.2.1 Análise da prática discursiva ... 83

3.2.2 Descrição da estrutura textual ... 146

3.2.3 Análise da prática social ... 155

4 O JOGO DE MÁSCARAS NA CENA POLÍTICA: RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 161

REFERÊNCIAS ... 169

APÊNDICE 1 ... 174

(10)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Ethos: esquematização ... 42

Figura 2. Ethos efetivo ... 44

(11)

LISTA DE TABELAS E QUADROS

Tabela 1. Participação negativa nos cinco jornais – primeiro turno ... 68

Tabela 2. Participação negativa nos cinco jornais – segundo turno ... 68

Quadro 1. Modelo tridimensional de análise do discurso ... 27

Quadro 2. Estratégias de polidez positiva ... 56

Quadro 3. Estratégias de polidez negativa ... 57

Quadro 4. Alckmin no papel de candidato A1. Primeiro recurso argumentativo ... 84

Quadro 5. Alckmin no papel de candidato A1. Polidez positiva ... 85

Quadro 6. Alckmin no papel de candidato A1. Construções de ethos ... 86

Quadro 7. Alckmin no papel de candidato A1. Desconstruções de ethos ... 87

Quadro 8. Alckmin no papel de candidato A1. Perguntas retóricas ... 88

Quadro 9. Alckmin no papel de candidato A2. Primeiro recurso argumentativo ... 89

Quadro 10. Alckmin no papel de candidato A2. Polidez positiva ... 90

Quadro 11. Alckmin no papel de candidato A2. Perguntas retóricas ... 92

Quadro 12. Alckmin no papel de candidato A2. Construções de ethos ... 93

Quadro 13. Alckmin no papel de candidato A2. Desconstruções de ethos ... 93

Quadro 14. Alckmin no papel de candidato A3. Primeiro recurso argumentativo ... 95

Quadro 15. Alckmin no papel de candidato A3. Construções e desconstruções de ethos ... 97

Quadro 16. Alckmin no papel de candidato B1. Primeiro recurso argumentativo ... 99

Quadro 17. Alckmin no papel de candidato B1. Construções de ethos ... 101

Quadro 18. Alckmin no papel de candidato B1. Desconstruções de ethos ... 101

Quadro 19. Alckmin no papel de candidato B2. Primeiro recurso argumentativo ... 102

Quadro 20. Alckmin no papel de candidato B2. Construções de ethos precedidas por perguntas retóricas ... 104

Quadro 21. Alckmin no papel de candidato B2. Construções de ethos precedidas e sucedidas por polidez positiva ... 105

Quadro 22. Alckmin no papel de candidato B2. Construções de ethos sucedidas por desconstruções de ethos ... 106

Quadro 23. Lula no papel de candidato A1. Primeiro recurso argumentativo ...115

Quadro 24. Lula no papel de candidato A1. Construções de ethos ...116

Quadro 25. Lula no papel de candidato A1. Ameaças à face do próprio enunciador ...119

Quadro 26. Lula no papel de candidato A2. Primeiro recurso argumentativo ...120

Quadro 27. Lula no papel de candidato A2. Desconstruções de ethos ... 122

Quadro 28. Lula no papel de candidato A2. Polidez positiva ...123

Quadro 29. Lula no papel de candidato A3. Primeiro recurso argumentativo ...124

Quadro 30. Lula no papel de candidato A3. Construções de ethos ...126

Quadro 31. Lula no papel de candidato A3. Perguntas retóricas ...127

Quadro 32. Lula no papel de candidato A3. Ironia ...128

(12)

Quadro 36. Lula no papel de candidato B2. Polidez positiva ...136

Quadro 37. Lula no papel de candidato B2. Construções de ethos ...137

Quadro 38. Lula no papel de candidato B2. Desconstruções de ethos ... 138

(13)

INTRODUÇÃO

O presente estudo dedica-se às especificidades do discurso político, que é,

por excelência, o lugar de um jogo de máscaras, por meio das quais os sujeitos

escondem-se e revelam-se, segundo considerarem mais conveniente a uma dada

situação. A fim de ser bem-sucedido, o enunciador utiliza estratégias para a

construção de seu ethos, isto é, projeta no discurso uma imagem positiva de si

próprio.

Além das artimanhas para a construção de imagens no discurso,

interessam-nos ainda aquelas usadas para a “desconstrução” do ethos do antagonista, uma vez

que este trabalho tem como tema as estratégias argumentativas utilizadas por

candidatos em debates políticos televisivos para construírem uma imagem favorável

de si e colocarem em xeque a imagem positiva do adversário.

A motivação para a seleção desse tema surgiu em virtude de os debates

apresentarem uma “tensão” que lhes é peculiar, visto que, neles, torna-se inevitável

a ocorrência de ameaças à autoimagem pública construída pelos participantes da

interação, de modo que o enunciador tende a apresentar seus pontos positivos e,

em contrapartida, elencar somente os pontos negativos do oponente.

Compõem nossas unidades de análise os textos orais dos candidatos à

Presidência da República no ano de 2006, Geraldo Alckmin (PSDB) e Luiz Inácio

Lula da Silva (PT), durante o último debate veiculado pela Rede Globo (Apêndice 1).

O problema de pesquisa que norteia este trabalho é: de que maneira se

desenvolve o jogo de máscaras na cena política, tendo como base o debate que

compõe nosso corpus de análise?

Para responder a tal questão, utilizamos como abordagem

teórico-metodológica a Análise Crítica do Discurso (ACD), tendo como base o modelo

tridimensional proposto por Fairclough (2001), com quem compartilhamos a

concepção de que o discurso deve ser considerado, concomitantemente, como

(14)

O autor ressalta que, apesar de seu modelo tridimensional ter sido concebido

como uma forma de análise social qualitativa, é recomendável complementá-la com

uma análise quantitativa. Consequentemente, com base em dados quantitativos,

elaboramos interpretações de cunho qualitativo.

Definimos a seguinte sequência de análise: 1. análise da prática discursiva; 2.

descrição da estrutura textual; e 3. análise da prática social. Para a análise da

prática discursiva, foco principal deste estudo, estabelecemos duas categorias:

recursos argumentativos para a construção do ethos e recursos argumentativos para a desconstrução do ethos.

Partimos da hipótese de que o lugar que cada candidato ocupa no contexto

em que está inserido o debate (situação versus oposição) determina a postura

adotada em seu discurso, isto é, em termos quantitativos, o representante da

situação (Lula) dedica-se mais frequentemente à manutenção de sua própria

imagem, enquanto o candidato da oposição (Alckmin) preocupa-se mais em

desconstruir o ethos do adversário.

A seguir, apresentamos um breve perfil dos candidatos Alckmin e Lula,

elaborado a partir de informações publicadas na versão online do jornal Folha de

S.Paulo, que destinou uma seção especial do site para as eleições do ano de 2006.

Alckmin, o candidato da oposição

Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho nasceu no dia 7 de novembro de 1952,

em Pindamonhangaba, localizada a 150 quilômetros de São Paulo. Ainda cursava

medicina em Taubaté quando, em 1972, o presidente do MDB (Movimento

Democrático Brasileiro) da cidade foi à instituição filiar um amigo dele. Alckmin

aproveitou a ocasião e filiou-se também. Seu pai, que havia militado na

conservadora UDN (União Democrática Nacional), não foi contra o ingresso do filho

na oposição ao regime militar. Ele assinou sua ficha de filiação em agosto de 1972

e, nesse mesmo ano, quando um colega desistiu de concorrer a uma cadeira na

Câmara Municipal, Alckmin resolveu disputar o cargo. Venceu a eleição como o

vereador mais votado na história da cidade, com 1.447 votos, mais de 10% dos

(15)

Em 1976, com apenas vinte e três anos, foi eleito prefeito de

Pindamonhangaba. Assumiu em 1977, quando cursava o último ano da faculdade, e

exerceu mandato de seis anos. À época, recebeu acusações de nepotismo por

nomear chefe de gabinete seu pai, o veterinário Geraldo José Rodrigues Alckmin,

que morreu em 1998, aos 85 anos.

Depois disso, a carreira política do então médico evoluiu rapidamente. Em

1982, elegeu-se deputado estadual e, em 1986, foi eleito deputado federal pelo

PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Foi vice-líder da bancada do

partido na Assembleia Nacional Constituinte, tendo apresentado o primeiro projeto

do Código de Defesa do Consumidor e da lei sobre doação e transplante de órgãos.

Posteriormente, em 1990, foi um dos fundadores do Partido da Social

Democracia Brasileira, o PSDB. Ainda em 1990, Alckmin foi reeleito deputado

federal por São Paulo como o quarto candidato mais votado. Em 1991, foi eleito

presidente do PSDB paulista. Saiu pelo interior fundando diretórios e atraindo

aliados. Esse trabalho chamou a atenção de Mário Covas, que, em 1994, escolheu-o

para ser seu vice na disputa pelo governo de São Paulo.

Em 2000, Alckmin participou das eleições para prefeito de São Paulo, mas

não chegou ao segundo turno. Em janeiro de 2001, assumiu interinamente o

governo do Estado de São Paulo, após afastamento médico de Mário Covas. Nas

eleições de 2002, com bons índices de aprovação a sua gestão (56% de aprovação

em outubro de 2002), foi reeleito governador, derrotando José Genoino (PT) no

segundo turno, com 58,6% dos votos válidos. Em 2006, concorreu à Presidência da

República, ano em que Lula foi reeleito. Alckmin obteve, no segundo turno, 39,17%

dos votos válidos.

Católico praticante (mantinha uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no

gabinete e em todos os cômodos do Palácio dos Bandeirantes), Alckmin é

considerado mais conservador do que os principais fundadores do PSDB (Fernando

Henrique Cardoso, Mário Covas e Franco Montoro). Ele nega ter ligação com a

Opus Dei, instituição da Igreja Católica considerada ultraconservadora e totalitária,

porém, seu pai, simpático ao grupo, chegou a pedir ao filho, em 1978, que batizasse

uma das ruas de Pindamonhangaba com o nome do fundador da organização.

(16)

Lula, o candidato da situação

Luiz Inácio da Silva nasceu no dia 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, a

230 quilômetros de Recife (PE). Aos cinco anos de idade, migrou com os irmãos e a

mãe, Eurídice, para Vicente de Carvalho, distrito do Guarujá, litoral de São Paulo. A

viagem de pau de arara foi feita em treze dias, período em que a família se

alimentou de farinha, rapadura e queijo. No litoral, onde o pai, Aristides, já

trabalhava como estivador do porto de Santos, o garoto vendia amendoim, tapioca e

laranja para sobreviver.

Aos doze anos, mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar como

engraxate e entregador de roupas em uma lavanderia. Formou-se torneiro mecânico

no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) em 1963, aos dezoito anos

de idade e, no ano seguinte, foi contratado pela metalúrgica Aliança, onde, em um

acidente, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda.

A passagem da vida de operário para a de político aconteceu com a atividade

sindical, para a qual entrou em 1966, por intermédio de seu irmão José Ferreira da

Silva, o Frei Chico, militante do extinto Partido Comunista. Em 1972, foi eleito

primeiro-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e

Diadema. Três anos depois, elegeu-se presidente da entidade. Lula compareceu à

posse de terno, gravata e colete. O traje virou alvo de comentários, pois nenhum

sindicalista havia se vestido assim antes.

O gosto pela "beca" (palavra usada por Lula), aliás, nunca foi segredo. Em

uma entrevista ao programa "Vox Populi", da TV Cultura, em maio de 1978, o então

sindicalista disse que a classe trabalhadora não gosta de miséria e que tem o direito

de consumir tudo o que produz. Mas foi durante a campanha presidencial de 2002

que Lula mudou radicalmente o visual: emagreceu, cortou o cabelo, aparou bastante

a barba e passou a usar ternos de estilistas famosos.

No fim dos anos 70, apesar de negar pretensões políticas partidárias em

constantes entrevistas que concedia à imprensa, Lula começou a se firmar como

líder social do país. A dedicação ao trabalho coincidiu com a morte de sua primeira

mulher, Maria de Lourdes. Nessa época, o Brasil vivia sob o regime militar, e os

sindicatos dos metalúrgicos do ABC desafiavam o poder constituído lutando por

melhores salários. Eram movimentos de massa com piquetes nas ruas, assembleias

(17)

Na paralisação de 1979, o sindicato de São Bernardo e Diadema sofreu

intervenção do governo federal, e Lula foi destituído do cargo. Em 1980, mais de

cem mil trabalhadores aderiram ao que foi considerada pela imprensa da época "a

maior paralisação operária da história do sindicalismo brasileiro".

Lula e mais sete sindicalistas foram presos pelo DEOPS (Departamento

Estadual de Ordem Política e Social) como forma de pressionar a volta ao trabalho.

Populares foram às ruas pedir a libertação de Lula, solto após um mês de prisão. Foi

nessa época que o sindicalista conheceu e passou a conviver com Tancredo Neves,

Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e outros nomes importantes da política nacional.

Em fevereiro de 1980, participou da fundação do PT (Partido dos

Trabalhadores), em São Paulo, e, em 26 de maio, sua chapa foi eleita para

comandar a executiva da sigla. Em 1982, Luiz Inácio da Silva acrescentou o apelido

"Lula" ao nome e disputou o governo de São Paulo. Foi depois disso que se engajou

definitivamente na política, liderando o movimento das “Diretas Já” com Ulysses

Guimarães, Teotônio Vilela e Franco Montoro.

Em 1986, foi eleito com a maior votação do país para a Assembleia Nacional

Constituinte. Em 1989, disputou pela primeira vez a Presidência da República e foi

derrotado por Fernando Collor de Mello no segundo turno. Em 1994 e 1998,

concorreu ao cargo de presidente e perdeu novamente, ambas as vezes para

Fernando Henrique Cardoso, do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira).

Em 2002, chegou à Presidência da República no dia em que completou 57 anos de

idade, derrotando José Serra, o candidato da situação. Em 2006, concorrendo à

reeleição, venceu Geraldo Alckmin (PSDB), com 60,83% dos votos válidos.

Contra ou a favor?

Durante a campanha eleitoral de 2006, a Folha de S.Paulo solicitou a Alckmin

e Lula que se posicionassem em relação a sete tópicos: pena de morte,

descriminalização da maconha, adoção por casais homossexuais, serviço militar

obrigatório, experiências com clones humanos, eutanásia em casos terminais e

esmolas. Por fim, o jornal questionou se os candidatos acreditavam em Deus.

Lula afirmou ser contra a pena de morte, o serviço militar obrigatório, as

(18)

descriminalização da maconha e da adoção por casais homossexuais. Para o

candidato, que disse acreditar em Deus, a eutanásia em casos terminais deve ser

uma decisão da família.

Alckmin também afirmou acreditar em Deus. Assim como Lula, o candidato do

PSDB posicionou-se contra a pena de morte, o serviço militar obrigatório e as

experiências com clones humanos. Da mesma forma que Lula, afirmou ser favorável

à adoção por casais homossexuais.

O que diferencia a postura de ambos é o fato de Alckmin ter se colocado a

favor das esmolas, mas contra a descriminalização da maconha e a eutanásia em

casos terminais.

Organização do trabalho

Nosso trabalho está organizado em quatro capítulos. No primeiro,

apresentamos nossa fundamentação teórica, dividida da seguinte forma: Análise

Crítica do Discurso; Análise tridimensional do discurso; Gêneros do discurso;

Discurso político; Ethos: da Retórica à AD; Peculiaridades do ethos no discurso

político; Ethos em debate: construção e desconstrução de imagens.

Contextualizamos as eleições do ano de 2006 no segundo capítulo, que

apresenta a seguinte divisão: Telepanopticon: a mídia e a transformação da

visibilidade; Os meios de comunicação nas eleições de 2006; Debates políticos

televisivos; O último debate das eleições de 2006.

No terceiro capítulo, discorremos sobre a metodologia utilizada e

desenvolvemos as análises, a partir das três dimensões que compõem o modelo de

Fairclough (2001). No quarto capítulo, apresentamos os resultados obtidos e

fazemos nossas considerações finais.

Exibimos, no apêndice do trabalho, a transcrição integral do debate analisado,

totalizando cerca de cem mil caracteres. Por fim, como anexo, disponibilizamos o

(19)

CAPÍTULO 1

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO

Iniciamos o presente capítulo com a apresentação da base teórica que norteia

este trabalho: a Análise Crítica do Discurso e o modelo tridimensional proposto por

Fairclough (2001). Discorremos também sobre os gêneros discursivos e, em

seguida, tratamos do discurso político e suas especificidades. Apresentamos, ainda,

o conceito de ethos, desde a Retórica até a Análise do Discurso, e, por fim,

discutimos suas peculiaridades na esfera política em geral e, mais especificamente,

nos debates políticos.

1.1 Análise Crítica do Discurso

A Linguística Crítica foi uma abordagem desenvolvida por um grupo da

Universidade de East Anglia, em Norwich, Inglaterra, na década de 1970. De acordo

com Fairclough (2001), desde seu início, a unidade linguística considerada relevante

nessa abordagem é o texto, incluindo-se ainda, nas análises, categorias como a

frase ou mesmo unidades menores, em busca de desvendar, nos textos, as

estruturas de poder e responder a questões de equidade social.

O autor ressalta o caráter transdisciplinar dessa versão da Análise do

Discurso (doravante AD):

(20)

Para a abordagem crítica, a linguagem à qual as pessoas têm acesso

depende da posição que ocupam no sistema social e, nesse sentido, conforme

destaca Fairclough (2001, p. 62), o trabalho de Michel Foucault representa “uma

importante contribuição para uma teoria social do discurso em áreas como a relação

entre discurso e poder, a construção discursiva de sujeitos sociais e do

conhecimento e o funcionamento do discurso na mudança social”. Para Foucault,

tudo existe por meio da linguagem, inclusive o poder.

Na contramão do pensamento de Bakhtin (1997), para quem as esferas de

atividades humanas determinam o discurso e os gêneros discursivos1, Fairclough

afirma que a instituição da esfera social é que decorre da formação discursiva. Para

o autor, não são as esferas sociais que determinam o discurso, mas é o discurso

que as determina, ou seja, o discurso existe antes da esfera social.

Na abordagem crítica, o discurso é estudado histórica e dinamicamente. Ele é

“socialmente construtivo, construindo os sujeitos sociais, as relações sociais e os

sistemas de conhecimento e crença, e o estudo do discurso focaliza seus efeitos

ideológicos construtivos” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 58).

Pedro (1997) destaca que a linguística autônoma, tal como muitas

abordagens de análise do discurso, não leva em consideração nem a função

mediadora da linguagem nem a distorção sistemática da comunicação resultante dos

efeitos do exercício do poder, o que conduz à mistificação, visto que a forma

linguística é sempre deformada pelos efeitos do poder.

A Análise Crítica do Discurso (doravante ACD), explica a autora, opera,

necessariamente, com uma abordagem de discurso em que o contexto é uma

dimensão fundamental. O que diferencia a ACD de outras abordagens é o fato de o

sujeito ser conceituado não como um agente processual com graus relativos de

autonomia, mas como sujeito construído por e construindo os processos discursivos

a partir da sua natureza de ator ideológico.

A ideologia, conforme Althusser (2007), funciona pela constituição das

pessoas em sujeitos sociais e sua fixação em posições de sujeito, enquanto ao

mesmo tempo lhes dá a ilusão de serem agentes livres. Pêcheux (1988) destaca que

a linguagem é uma forma material muito importante da ideologia.

Fairclough (2001) ressalta que, apesar das grandes contribuições de Foucault

e Pêcheux nos estudos da ACD, há limitações nos trabalhos de ambos os autores. O

1

(21)

que torna o trabalho de Foucault limitado é o fato de se dedicar apenas ao discurso

das ciências humanas (como a medicina, a psiquiatria, a economia e a gramática). A

análise de discurso textualmente orientada (ADTO), por outro lado, ampliou seu

corpus de análise, visto que está preocupada com qualquer discurso. Além disso, outra diferença entre a ADTO e a perspectiva de Foucault é que a primeira tem

como parte central a análise de textos da linguagem falada ou escrita, enquanto a

última volta-se para as condições de possibilidades do discurso.

No tocante ao trabalho de Pêcheux, há limitações no tratamento dos textos,

considerado por Fairclough “insatisfatório”, pois os objetos de análise são

efetivamente as orações, e não os textos completos. O autor vai além das

concepções de Foucault e Pêcheux quando afirma que não basta fazer uma análise

ideológica da linguagem: é preciso, também, considerar a linguagem enquanto ação

social. De van Dijk, Fairclough retoma os conceitos de interação e contexto

discursivo; a partir dessa ótica, a informação que se encontra organizada em

modelos contextuais influencia a forma como os modelos de acontecimentos e de

ações serão formulados no discurso. Van Dijk afirma que:

Os modelos contextuais definem também o ponto de vista e a perspectiva – bem como as opiniões que lhes estão associadas – a partir dos quais os acontecimentos de um modelo serão descritos a nível discursivo, explicando, desta forma, as implicações fundamentalmente ideológicas da posição social (VAN DIJK, 1997, p. 119).

Fairclough propõe uma análise tridimensional do discurso, em que este é

analisado como texto, prática discursiva e prática social, conforme apresentamos a

seguir.

1.1.1 Análise tridimensional do discurso

O modelo tridimensional de análise proposto por Fairclough (2001) está

embasado na concepção de que qualquer discurso é considerado,

concomitantemente, como texto, prática discursiva e prática social. O autor explica

(22)

discurso: “a parte do procedimento que trata da análise textual pode ser denominada

‘descrição’, e as partes que tratam da análise da prática discursiva e da análise da

prática social da qual o discurso faz parte podem ser denominadas ‘interpretação’”

(FAIRCLOUGH, 2001, p. 101).

A dimensão do texto trata da análise linguística de textos. O autor salienta

que o conceito de texto deve ser entendido como qualquer produto escrito ou falado,

de modo que a transcrição de uma entrevista ou conversa seria denominada um

texto. Segundo o autor, na análise textual, os linguistas críticos costumam voltar-se,

principalmente, para a gramática (transitividade, nominalização, apassivação,

modalidade) e o vocabulário.

Explana o autor que a análise textual pode ser organizada em quatro

categorias, em escala ascendente: vocabulário (palavras individuais), gramática

(palavras combinadas em orações e frases), coesão (ligação entre orações e frases)

e estrutura textual (propriedades organizacionais de larga escala dos textos, ou seja,

as maneiras e a ordem em que os elementos são combinados; no caso específico

dos diálogos, que nos interessam particularmente, envolve as convenções para abrir

e fechar entrevistas ou conversas).

Há ainda três outras categorias principais que, embora envolvam aspectos

formais do texto, são usadas na análise da prática discursiva: a força dos

enunciados (os tipos de atos de fala por eles construídos, isto é, promessas,

pedidos, ameaças etc.), a coerência dos textos e a intertextualidade. Conforme

Fairclough, essas sete categorias reunidas “constituem um quadro para análise

textual que abrange aspectos de sua produção e interpretação como também as

propriedades formais do texto” (2001, p. 104).

A prática discursiva abrange processos de produção, distribuição e consumo

de textos, que variam, dependendo dos tipos de discurso e de acordo com fatores

sociais. Fairclough (2001, p. 107) cita um exemplo para ilustrar essa afirmação:

(23)

O contexto social determina a forma como os textos são consumidos: alguns

destes, como entrevistas oficiais ou discursos políticos, são transcritos, preservados,

relidos; outros, como conversas casuais, são transitórios e esquecidos. A

distribuição de textos pode ser simples (apenas no contexto imediato em que

ocorrem, como as conversas casuais) ou complexa (um pronunciamento político é

veiculado em diferentes meios de comunicação, de modo que cada texto elaborado

possui padrões próprios de produção e consumo). O autor considera o texto como

um conjunto de “traços” do processo de produção e um conjunto de “pistas” para o

processo de interpretação.

A prática discursiva é constitutiva de maneira convencional e criativa:

“contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais,

sistemas de conhecimento e crença) como é, mas também contribui para

transformá-la” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 92). Se essa constatação cabe às mais

diversas práticas discursivas, parece-nos que essa possibilidade de transformação

social fica ainda mais evidente no que tange ao discurso político.

O autor explica que a categoria coerência está inserida na prática discursiva

(e não na dimensão do texto, como frequentemente ocorre), porque entende ser

mais adequado considerá-la como propriedade das interpretações, visto que um

texto só faz sentido para alguém que nele vê sentido. Não basta, portanto, descrever

textos – é preciso ainda que estes sejam interpretados, o que ocorrerá em dois

níveis: o da interpretação propriamente dita (quando se procura construir um sentido

para os aspectos do texto, explorando-se suas potencialidades) e o da explicação

(quando o leitor se assenhora das propriedades).

A intertextualidade também está inserida na dimensão da prática discursiva.

Fairclough (2001, p. 114) define esse conceito como “a propriedade que têm os

textos de ser cheios de fragmentos de outros textos, que podem ser delimitados

explicitamente ou mesclados e que o texto pode assimilar, contradizer, ecoar

ironicamente, e assim por diante”. Quando se recorre explicitamente a outros textos

específicos, ocorre o que o autor classifica como “intertextualidade manifesta”, que

se distingue da chamada “interdiscursividade” ou “intertextualidade constitutiva” (não

marcada em superfície, mas possível de ser definida a partir de hipóteses, por meio

(24)

A terceira e última dimensão de análise proposta por Fairclough considera o

discurso como prática social, isto é, como “alguma coisa que as pessoas produzem

ativamente e entendem com base em procedimentos de senso comum partilhados”

(2001, p. 100). Trata-se de formas relativamente estáveis de atividades sociais, tais

como as aulas, os telejornais, as refeições em família, as consultas médias etc., nas

quais o discurso sempre está presente. De acordo com o autor, deve-se buscar

compreender de que maneira os membros das comunidades sociais produzem seus

mundos “ordenados” ou “explicáveis”.

Em sua obra, explicitamente marxista, o autor discute o conceito de discurso

como prática social em relação à ideologia e ao poder (entendido como hegemonia).

Segundo Fairclough, as ideologias são significações da realidade construídas em

diversas dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e contribuem tanto

para a produção quanto para a reprodução e a transformação das relações de

dominação. Quando as ideologias presentes nas práticas discursivas passam a ser

vistas como naturalizadas e consideradas como “senso comum”, sua eficácia

aumenta, porém, o autor ressalta:

(...) essa propriedade estável e estabelecida das ideologias não deve ser muito enfatizada, porque minha referência a ‘transformação’ aponta a luta ideológica como dimensão da prática discursiva, uma luta para remoldar as práticas discursivas e as ideologias nelas construídas no contexto da reestruturação ou da transformação das relações de dominação (FAIRCLOUGH, 2001, p. 117).

A presença de práticas discursivas contrastantes em um determinado domínio

ou instituição é o indicativo de que parte desse contraste seja ideológica. O autor

destaca que a questão-chave no que se refere à ideologia é definir se ela é uma

propriedade de estruturas (como propõem os primeiros trabalhos de Pêcheux) ou

uma propriedade de eventos (concepção textual da linguística crítica, que propõe

que as ideologias estão nos textos). Fairclough acredita que a ideologia localiza-se

tanto nas estruturas (ou seja, nas ordens de discurso) que constituem o resultado de

eventos passados como nas condições para os eventos atuais e nos eventos

(25)

Fairclough discorda da concepção de Althusser de que todo discurso é

ideológico. Para o autor, é fato que todos os discursos estão abertos ao investimento

ideológico, no entanto, isso não significa que todos os tipos de discurso são

investidos ideologicamente no mesmo grau. “Não deve ser muito difícil mostrar que a

publicidade em termos amplos é investida com mais vigor do que as ciências físicas”

(2001, p. 122).

O conceito de ideologia é definido por Chauí como:

(...) um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou de regras (de conduta) que indicam e preservam aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes, a partir das divisões na esfera da produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças como de classes e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos, como por exemplo, a Humanidade, a Liberdade, a Igualdade, a Nação ou o Estado (1981, pp. 113-4).

Para servir de instrumento de dominação de forma velada, a ideologia

depende do que Althusser (2007) denominou ‘Aparelhos Ideológicos do Estado’

(doravante AIE). O autor diferencia o aparelho repressivo do Estado (que

compreende o governo, o exército, a polícia, os tribunais, as prisões etc.) dos AIE (a

família, a escola, a religião, os meios de comunicação, os sindicatos, os partidos

políticos).

Althusser ressalta que “enquanto que o Aparelho (repressivo) do Estado,

unificado, pertence inteiramente ao domínio público, a maior parte dos Aparelhos

Ideológicos do Estado (em sua aparente dispersão) remete ao domínio privado”

(2007, p. 69). Porém, a principal diferença entre os AIE e o aparelho repressivo

reside no fato de que este funciona, predominantemente, por meio da violência,

enquanto os AIE funcionam, principalmente, por meio da ideologia.

Essa ideologia, que se configura como unidade comum a todos os AIE, é,

(26)

e que dispõem, por conseguinte, do aparelho repressivo do Estado. “Ao que

sabemos, nenhuma classe pode, de forma duradoura, deter o poder do Estado sem

exercer ao mesmo tempo sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos do Estado” (2007, p. 71, grifo do autor). Todos os AIE, cada um a sua maneira, visam a um mesmo resultado: a reprodução das relações de produção, de dominação e de

exploração.

De acordo com Goffman, ao se apresentar diante de outras pessoas, o

indivíduo tende a incorporar e exemplificar os valores oficialmente reconhecidos pela

sociedade. O autor destaca que:

Na medida em que uma representação ressalta os valores oficiais comuns da sociedade em que se processa, podemos considerá-la, à maneira de Durkheim e Radcliffe-Brown, como uma cerimônia, um rejuvenescimento e reafirmação expressivos dos valores morais da comunidade (2001, p. 41).

A esse respeito, van Dijk (2008) afirma que o poder dos grupos dominantes

“pode estar integrado a leis, regras, normas, hábitos e mesmo a um consenso geral,

e assim assume a forma do que Gramsci denominou ‘hegemonia’” (p. 118).

Exemplos dessa hegemonia são a dominação de classe, o sexismo e o racismo.

O conceito de hegemonia, que também é levado em consideração na análise

da prática social, deve, segundo Fairclough, ser entendido da seguinte maneira:

liderança e dominação nas esferas econômica, política, cultural e ideológica de uma

sociedade; o poder sobre a sociedade como um todo de uma das classes

economicamente definidas como fundamentais em aliança com outras forças

sociais, mas nunca atingido (a não ser de forma parcial e temporária), como um

“equilíbrio instável”; a construção de alianças e a integração muito mais do que

simplesmente a dominação de classes subalternas, a partir de concessões ou meios

ideológicos para ganhar seu consentimento; um foco de constante luta sobre pontos

de maior instabilidade entre classes e blocos a fim de construir, manter ou romper

alianças e relações de dominação/subordinação, que assume formas econômicas,

políticas e ideológicas.

O autor ressalta que a importância do conceito de hegemonia está no fato de

(27)

qual pertence o discurso em termos de relações de poder, isto é, se essas relações

de poder reproduzem, reestruturam ou desafiam as hegemonias existentes”) como

um modelo (“uma forma de analisar a própria prática discursiva como um modo de

luta hegemônica, que reproduz, reestrutura ou desafia as ordens de discurso

existentes”) (2001, p. 126).

Fairclough afirma que, diferentemente das duas dimensões anteriores, a

análise da prática social é mais difícil de ser reduzida a uma lista, sendo seu objetivo

geral especificar: “a natureza da prática social da qual a prática discursiva é uma

parte, constituindo a base para explicar por que a prática discursiva é como é; e os

efeitos da prática discursiva sobre a prática social” (2001, p. 289). Dessa forma, o

autor sugere que, nessa dimensão, sejam analisados os efeitos ideológicos e

hegemônicos do discurso.

Para van Dijk, a base de poder de um grupo ou instituição está,

principalmente, no acesso à comunicação e ao discurso público e/ou no controle

exercido sobre esses elementos. De fato, a maioria das pessoas consegue controlar

ativamente apenas suas conversas cotidianas com seus familiares, amigos ou

colegas, sendo passivo, por exemplo, seu controle sobre o uso da mídia. “Aqueles

que possuem maior controle sobre mais discursos e sobre discursos mais influentes

(e ainda sobre mais propriedades discursivas) são também aqueles, segundo essa

definição, mais poderosos” (2008, p. 119).

O quadro a seguir resume o modelo de análise proposto por Fairclough: são

dois procedimentos (descrição e interpretação), três dimensões (análise textual,

análise da prática discursiva e da prática social) e sete categorias (quatro da análise

textual e três da análise da prática discursiva; a análise da prática social, em que se

verificam os efeitos ideológicos e hegemônicos do discurso, não tem categorias

(28)

Quadro 1. Modelo tridimensional de análise do discurso. Adaptado de Fairclough, 2001

 Estrutura textual

 Coesão

 Gramática

DESCRIÇÃO

Análise textual

 Vocabulário

 Força

 Coerência

Análise da prática discursiva

 Intertextualidade

INTERP

RET

A

Ç

Ã

O

Análise da prática

social  Efeitos ideológicos e hegemônicos do discurso

Para o presente trabalho, um conceito fundamental é o de gêneros do

discurso, sobre o qual discorremos a seguir.

1.2 Gêneros do discurso

Em sua teoria sobre os gêneros do discurso, desenvolvida na década de

1920, na Rússia, Bakhtin parte do pressuposto de que existe uma relação intrínseca

entre a utilização da linguagem e as atividades humanas: “Todas as esferas da

atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a

utilização da língua” (1997, p. 279).

Os seres humanos, sem exceção, agem em determinadas esferas de

atividades (esferas do trabalho, da família, da escola, da política, etc.), que implicam

a utilização da linguagem na forma de enunciados (orais e escritos), concretos e

únicos. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma

dessas esferas. O autor destaca: “Qualquer enunciado considerado isoladamente é,

claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos

relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso” (1997, p. 279, grifo do autor).

Assim, entendemos que a comunicação humana se dá necessariamente por

(29)

“relativamente” revela não haver uma normatividade nesse conceito, pois é preciso

levar em consideração a historicidade dos gêneros, que estão em contínua

mudança:

A riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (BAKHTIN, 1997, p. 279).

Os gêneros são compostos por um conteúdo temático, um estilo e uma

construção composicional. De acordo com Dotta (2009, p. 42), “o tema é o sentido

da enunciação completa, um sentido definido e único, uma significação unitária. O

tema é individual e não-reiterável e apresenta-se como a expressão de uma situação

histórica concreta”. A autora ressalta que a diferença entre o tema e a significação

reside no fato de que esta é reiterável e idêntica a cada vez que é repetida, é

abstrata, não tem existência concreta independente. O tema, por sua vez, é um

sistema de signos dinâmico e complexo que procura adaptar-se às condições de um

dado momento da evolução.

A respeito do estilo, Bakhtin destaca que se trata de uma seleção de recursos

da língua (lexicais, fraseológicos e gramaticais), que depende “do modo que o

locutor percebe e compreende seu destinatário, e do modo que ele presume uma

compreensão responsiva ativa” (1997, p. 324). Como exemplo, o autor cita o estilo

oficial (composto por formas respeitosas), o estilo objetivo-neutro (das exposições

científicas), o estilo familiar (em que há uma atitude pessoal e informal) e o estilo

íntimo (em que há uma confiança profunda no destinatário, na sua simpatia, na

sensibilidade e na boa vontade de sua compreensão responsiva).

A construção composicional, por sua vez, diz respeito ao modo como um

texto é organizado e estruturado:

(30)

O filósofo russo classifica os gêneros em primários (simples) e secundários

(complexos). Os primários são os gêneros da vida cotidiana, predominantemente

orais, constituídos “em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea”. Já

os secundários “aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural, mais

complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita” (BAKHTIN, 1997, p.

281).

O autor destaca que existe uma interdependência entre os gêneros: os

secundários absorvem e transmutam os gêneros primários, enquanto os primários,

“ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro

destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a

realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios” (1997, p. 281.). Como

exemplo, o autor cita as réplicas do diálogo cotidiano (gênero primário), que, quando

inseridas em um romance, conservam sua forma e seu cotidiano apenas no plano do

conteúdo desse romance, que é um evento artístico (gênero secundário) e não um

acontecimento da vida cotidiana.

Assim como ocorre na esfera literária, são classificados como secundários os

gêneros pertencentes à esfera política. Van Dijk (2008) cita como exemplo de

gêneros do discurso político os debates parlamentares, leis, propagandas, slogans,

tratados internacionais, negociações de paz, entre outros. De acordo com o autor,

ao contrário do que ocorre com determinados gêneros – tais como as conversações,

as narrativas, os poemas, as notícias, a propaganda, os artigos científicos –, que são

definidos em termos de suas estruturas específicas, a definição genérica do discurso

político dá-se antes em termos contextuais do que textuais.

Tal constatação deve-se ao fato de serem poucas as propriedades estruturais

exclusivas de gêneros do discurso político, sendo estas compartilhadas com outros

tipos de discurso. “Contudo, o que é específico são os elementos do contexto da fala

e da escrita políticas, a saber, o domínio e a definição geral da situação, do cenário,

das circunstâncias, dos papéis, das metas, das opiniões e das emoções dos

participantes” (VAN DIJK, 2008, p. 212).

Explica van Dijk que “o discurso político não é principalmente definido pelo

tópico ou pelo estilo, mas antes por quem fala com quem, como, em que ocasião e

com que objetivos” (2008, p. 221). Com isso, depreendemos que tudo o que é dito

por um político ou por alguém que tenha um objetivo político é, por definição, uma

(31)

1.2.1 Discurso político

“O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra”.

(Charaudeau)

Segundo Charaudeau, “todo ato de linguagem está ligado à ação mediante as

relações de força que os sujeitos mantêm entre si, relações de força que constroem

simultaneamente o vínculo social” (2006, p. 17). Ele explica que toda ação é

finalizada em função de um objetivo: a política, por exemplo, nasceu com o intuito de

organizar a vida dos indivíduos em comunidade. Aqui, a linguagem tem um papel

fundamental, pois o autor destaca que o espaço da ação política depende de um

espaço de discussão.

Há duas instâncias implicadas na ação política: a primeira delas é a instância

política, que é delegada e assume a realização da ação política, e a outra é a

instância cidadã, que está na origem da escolha dos representantes do poder. De

acordo com o autor, a instância política é contraditória: “ela chegou ao poder por

uma vontade cidadã (e não autoritária), mas esta, não estando encarregada dos

negócios de Estado, não conhece as regras de seu funcionamento e ignora as

condições de realização da ação política” (2006, pp. 18-9). A instância política (de

decisão) deve agir em função do que é possível, enquanto a instância cidadã a

elegeu para realizar o que é desejável.

Ressalta Charaudeau (2006) que o poder político é conceituado de maneiras

diferentes por Weber (2003), Arendt (1972) e Habermas (1990). Para Weber, o

poder político está ligado à dominação e à violência por meio do Estado, que, por ter

força de dominação, impõe sua autoridade sob a aparência de legalidade e,

consequentemente, obriga os sujeitos a se submeterem a ela. Por outro lado, Arendt

afirma que o poder político é resultado de um consentimento, visto que quem está

no poder recebeu de um determinado número de pessoas o poder de agir em seu

nome, consequentemente, nesse caso, o poder político não é relacionado à

opressão, mas à livre opinião. Habermas posiciona-se entre os dois autores

(32)

todo poder, pois o povo é seu iniciador e depositário) e um poder administrativo

(implica relações de dominação).

Charaudeau declara inscrever-se na linha de pensamento de Habermas, pois

defende uma concepção de poder político que resulta dialeticamente de dois

componentes da atividade humana: “o do debate de idéias no vasto campo do

espaço público” e o “do fazer político no campo mais restrito do espaço político,

onde se tomam as decisões e se instituem os atos”. No entanto, Charaudeau

destaca que se diferencia dos autores previamente citados pelo fato de acreditar que

o campo do debate de ideias e o do fazer político são definidos segundo relações de

força que exigem processos de regulação, que se desenvolvem segundo um jogo de

dominação que lhes é próprio. O autor explica: “Cada um o faz misturando

linguagem e ação: no primeiro é a linguagem que domina; no segundo, a ação”

(2006, p. 23).

De que maneira a análise do discurso político se distingue da Filosofia

Política, da Ciência Política e da História? Charaudeau explica que essas disciplinas

compartilham certos pontos de vista, mas diferenciam-se no que tange a suas

finalidades. A Filosofia Política está voltada para os fundamentos do pensamento

político e as categorias que o compõem. A Ciência Política questiona-se menos

sobre o fundamento de um tipo de pensamento do que sobre a própria ação política

em relação às suas finalidades pragmáticas e a seus efeitos. A História,

tradicionalmente, busca reconstruir os acontecimentos políticos do passado e

construir explicações para as causas e consequências. A AD, por sua vez,

contrariamente às disciplinas precedentes:

(...) não se questiona sobre a legitimidade da racionalidade política, nem sobre os mecanismos que produzem esse ou aquele comportamento político, nem sobre as explicações causais, mas sobre os discursos que tornam possíveis tanto a emergência de uma racionalidade política quanto a regulação dos fatos políticos (2006, p. 37, grifo nosso).

Na tradição da AD, discurso é geralmente conceituado como um enunciado

emitido sob condições de produção definidas. Charaudeau define discurso como

“atos de linguagem que circulam no mundo social e que testemunham, eles próprios,

(33)

tempo histórico dado” (2006, p. 37). O autor destaca que o discurso político não

esgota o conceito político, mas não há política sem discurso.

Osakabe adverte que o discurso não é uma “somatória livre de frases, mas

um todo, semanticamente organizável, no plano da ação que o caracteriza e dos

efeitos que provoca” (1999, p. 217). O autor, que alia em seu trabalho noções de

AD, de Linguística e da Retórica2, faz uma distinção entre dois tipos de discursos

políticos: um discurso político-teórico e um discurso de natureza político-militante (ou

pragmático), que possuem diferenças com relação aos seus objetivos e auditórios:

A argumentação sociológica e o apelo emotivo, de um lado, e o ouvinte intelectualizado e o povo brasileiro, de outro, definem bem os móveis que orientam a prática de, no primeiro caso, um ato de convencer e, no segundo caso, um ato de persuasão (1999, p. 60).

O discurso político-militante, reforça o autor, visa a uma ação (obtenção de

um resultado positivo em disputas eleitorais) e justifica-se apenas na medida em que

é dirigido a um ouvinte cuja participação interessa ao locutor, mesmo que esse

ouvinte não possua reais condições de decisão.

Para van Dijk (2008), a organização global e esquemática do discurso político

é convencional, não sofrendo variações em função de restrições contextuais. Para

justificar tal afirmação, o autor destaca que um discurso parlamentar tem as mesmas

categorias constituintes se for feito por um político de esquerda ou de direita.

Segundo ele, “o que pode variar são, de forma especial, a ordem, a proeminência, o

tipo e a extensão da informação incluída nessas categorias”, variações estas que

ocorrerão em função da “auto-apresentação positiva” e da “outro-apresentação

negativa” (p. 225).

Com base nos estudos de Pêcheux, Osakabe afirma que o locutor deve

respeitar as condições de produção de seu discurso, que são determinadas pelo

conjunto de imagens ou significações que ele pressupõe existirem no locutor, além

de outro conjunto de imagens ou significações que pressupõe que o locutor

2

(34)

pressuponha existirem nele. Essas imagens são os implícitos do discurso: a imagem

da dominação e seu reverso; a imagem da função pública; a imagem sobre o

referente e a questão dos atos3.

A primeira das imagens que sustentam o discurso pode ser representada com

a pergunta “Que imagem faço do ouvinte para lhe falar dessa forma?”, que remete a

dois tipos de significações distintas: “O primeiro refere-se à relação interpessoal que

se articula entre locutor e ouvinte. O segundo refere-se diretamente ao quadro de

conhecimento em que o locutor situa o ouvinte” (1999, p. 70).

As imagens relativas à relação interpessoal referem-se às relações que se

articulam entre locutor e ouvinte: uma relação de dominação. O autor salienta que

não se trata de uma dominação psíquica ou social, mas de dominação pela posse

do discurso. Na medida em que quem enuncia manipula as coordenadas do

discurso, o dominador será sempre o locutor, coincida ou não essa dominação com

a dominação efetiva (seja social ou psicológica). Consequentemente, ao ouvinte

cabe o papel de dominado.

No entanto, se no momento da fala o locutor assume o papel de dominador

do discurso, conduzindo seu ouvinte por meio da palavra, ele é dominado pelo

locutor no momento do desenvolvimento do discurso, na medida em que este é

situado em um quadro de significações a que ele próprio deverá obedecer, visto que

suas escolhas são feitas visando a obter a adesão do auditório. O locutor pressupõe

que o ouvinte possui algumas noções e as assume para si – é a imagem que o

locutor tem do ouvinte que irá definir as noções que irão compor o quadro de

significações.

A imagem da função pública ou da função política traz a seguinte questão:

“Que imagem penso que o ouvinte faz de mim para que eu fale dessa forma?”, ou

seja, trata-se da imagem que o ouvinte tem do locutor enquanto locutor político:

“[nos textos analisados pelo autor,] o que basicamente conta para essa imagem são

os implícitos a respeito da função política ou da função pública”. Osakabe sugere

que “a melhor forma de se saber qual é a imagem que o locutor pensa que o ouvinte

faz dele é a de tentar saber a quais imagens, enquanto candidato, o locutor insiste

em atender” (1999, p. 82). O que o locutor procura saber é a expectativa do ouvinte

não com relação a ele (indivíduo), mas a sua função (homem público), ajustando-se

ou procurando parecer ajustado à imagem que pressupõe no ouvinte.

3

(35)

A terceira imagem diz respeito à imagem sobre o referente, que gera duas

questões para o locutor: “Que imagem tenho do referente para falar dessa forma?” e

“Que imagem penso que o ouvinte tem do referente para eu falar dessa forma?”. O

autor enfatiza que a segunda pergunta é muito mais relevante do que a primeira, já

que é ela que fornece a medida e a justificativa para a produção do discurso, pois “é

o pressuposto de o ouvinte ter uma imagem distinta do referente que justifica da

parte do locutor a produção de seu discurso” (1999, p. 91). Em outras palavras,

busca-se obter a adesão daqueles que ainda não foram convencidos ou persuadidos

a pensar da forma que o locutor gostaria.

A quarta e última questão trata dos atos de linguagem, praticados pelo próprio

ato de discursar. O autor distingue dois atos de linguagem: os atos perlocucionários,

expressos pelas ações persuadir e convencer, e um ato ilocucionário, expresso pelo

verbo argumentar. O ato perlocucionário ou perlocutório é aquele que exerce um

efeito sobre o ouvinte – por exemplo, para amedrontar –, já o ato ilocucionário ou

ilocutório realiza a ação denominada pelo respectivo verbo – promessa, juramento,

ordem, pedido4. Segundo Osakabe, todo discurso constitui um ato de argumentação:

Mais do que cumprir uma função de informação, constitui-se basicamente na sua própria realização um ato concreto. Isto é, constitui-se em ato pela própria realização de sua natureza argumentativa. E, como ato, ele se circunscreve nos limites de sua temporalidade, que, como afirma Perelman, tem uma força criadora, pois permite a seu agente sua reformulação e seu contínuo ajuste no tempo (1999, p. 100).

De acordo com Citelli (2006), o discurso político elabora três grandes

movimentos estratégicos: divulgação, adesão, justificativa/explicação. A divulgação

ocorre quando o candidato se apresenta ao público, dizendo quem é, de onde veio,

o que pretende. Quer sendo governo, quer sendo oposição, os candidatos se

municiam “de palavras de ordem, símbolos, bandeiras, broches; sobrevoam tucanos,

reluzem estrelas, tremulam foices e martelos” (p. 86), como forma de reatualizar o

discurso de divulgação.

O segundo movimento, a adesão, é intrínseco ao discurso político, visto que o

propósito de divulgar tem o intuito de garantir que a opinião pública, em setores os

4

(36)

mais amplos possíveis, venha a aderir às mensagens enunciadas. Mais do que

manter seus adeptos, busca-se ampliar esse número, conquistar novos eleitores.

Se, por um lado, a divulgação pode gerar adesões, a manutenção ou

continuidade dessas adesões dependerá da capacidade de o partido / candidato /

instituição explicar e justificar suas ações. Manter aliados é de extrema importância

para os partidos políticos – daí verem-se, com muita frequência, prefeitos,

governadores e presidentes da República ocupando o horário nobre da televisão

com pronunciamentos que explicam suas atitudes em determinadas situações.

Fairclough (1996) destaca:

Na política, cada partido opositor ou força política tenta conquistar, para o seu próprio tipo de discurso, o status de preferido e, em última instância, de discurso ‘natural’ para se falar e escrever sobre o Estado, o governo, formas de ação política e todos os aspectos da política – bem como para demarcar a própria política de outros domínios (p. 90, grifo do autor, tradução nossa).

O discurso manipulador (em que o enunciador joga com a ambivalência de

seu enunciatário) geralmente resulta em decepção e, em alguns casos, suas

consequências podem ser catastróficas. No âmbito da política, isso não é raro.

Muitas vezes, os eleitores são levados pelo discurso do candidato, por sua fala bem

articulada, por sua aparência (que é cuidadosamente trabalhada por hábeis

marqueteiros), enfim, há um conjunto de elementos que poderá levar os cidadãos a

elegerem um determinado político que irá, futuramente, decepcioná-los,

envolvendo-se em escândalos e falcatruas. O envolvendo-sentimento de decepção e vergonha certamente

surgirá no eleitor que imaginou ter escolhido o político mais adequado para

representá-lo politicamente e, finalmente, descobre que foi manipulado por seu

discurso mal-intencionado.

Breton (2005) faz algumas recomendações que podem auxiliar as pessoas a

se prepararem melhor para “enfrentar as situações difíceis”, ou seja, como lidar com

o discurso manipulador, que costuma ser sedutor, muitas vezes até irresistível. São

elas: refletir sobre o passado (a fim de evitar erros repetidos); observar situações

semelhantes (circunstâncias reais ou de ficção, como as mostradas em filmes e

telenovelas, podem ajudar a preparar a pessoa para o “confronto” de uma dessas

(37)

descrever (analisar uma situação como se estivesse fora dela proporciona um olhar

mais objetivo, ajudando a pessoa a ficar menos envolvida e dificultando que a

manipulação concretize-se); aprender a argumentar melhor (apresentar fatos, ideias,

provas, razões lógicas que comprovem uma afirmação, uma tese); nunca se opor à

força (considerar a situação difícil a partir de um ponto de vista totalmente diferente);

preparar-se psicologicamente (estar preparado mentalmente para o que poderá vir a

ocorrer).

Em resumo, terá mais chances de não ser iludido pelo discurso manipulador

aquele que desenvolver uma escuta ativa, além da objetivação e da afirmação

argumentada do próprio ponto de vista. Para os receptores do discurso político,

essas qualidades são essenciais, pois ouvidos mais críticos evitam (ou, pelo menos,

minimizam) futuras frustrações.

Para Perelman, a eficácia de um discurso demagógico, ou seja, a simulação

de virtudes com objetivos escusos, depende da qualidade do auditório. “Um discurso

demagógico e enganador poderia talvez persuadir um auditório de ignorantes, mas

não um auditório de elite” (1987, p. 239).

O ouvinte, apesar do pressuposto de possuir uma imagem do referente

distinta da que o locutor possui, não é tomado por este como um adversário. No

discurso político, o ouvinte é visto como um possível aliado, de modo que o locutor

atribui a uma terceira pessoa a imagem contrária a sua (ou seja, seu adversário

político). Em um debate político, no entanto, o ouvinte tem um duplo papel, pois

ouve o locutor e também o adversário deste:

(...) enquanto instância que o ouve, o ouvinte caracteriza-se como parceiro político, o que não justificaria o discurso, mas enquanto aquele que pode ouvir o adversário, ele é, ao mesmo tempo, portador de uma imagem contrária, mas, por não ser o adversário, é um possível aliado. Só isso pode justificar a produção do discurso (OSAKABE, 1999, p. 91).

Ao adversário cabe, em um jogo maniqueísta, o papel representativo das

forças do mal, visto que sua imagem é necessariamente contrária à do locutor.

Osakabe (1999, p. 104) ilustra uma tentativa de neutralização do adversário com um

discurso de Getúlio Vargas, pautado na racionalidade (“clareza de raciocínio”,

(38)

Os doestos5 com que certos opositores gratuitos procuram feri-lo (o Governo Provisório) não lhe entibiam6 o ânimo. O melhor meio de convencer não consiste em atacar o agressor, o crítico pertinaz ou o descrente de má-fé. Cumpre não abater o adversário com as mesmas armas aleivosas7 de que ele se utiliza no afã de tudo recusar, mas dominá-lo pela clareza do raciocínio, pela concatenação dos argumentos, pela exposição serena dos fatos. Os atos são preferíveis às palavras, porque aqueles provam e estas simplesmente alegam.

Em confrontações políticas, uma das formas de atingir o adversário é

evidenciando suas incompatibilidades (contradição formal): “evidenciar

incompatibilidades é a essência da ironia socrática que visa ridicularizar o adversário

e obrigá-lo assim a rever suas opiniões” (PERELMAN, 1987, p. 248). De acordo com

o autor, o acesso a diferentes pontos de vista é fundamental para intensificar a

criticidade do auditório, pois uma afirmação e uma apresentação, que, à primeira

vista, parecem objetivas e imparciais, manifestam o seu caráter voluntaria ou

involuntariamente tendencioso quando são confrontadas com outras enunciações,

em sentido oposto. Conclui o autor: “Inevitavelmente, a confrontação, o pluralismo

agudizam o sentido crítico. É graças à intervenção sempre renovada dos outros que

se poderá distinguir melhor o subjetivo do objetivo” (1987, p. 243).

Osakabe (1999, p. 122) destaca que, apesar de buscar a adesão do auditório,

cuja consequência será o voto, o locutor político, em fase de campanha eleitoral,

costuma respeitar o direito de opção do próprio ouvinte, adequando sua imagem

com a ideia do liberalismo e alertando-o para suas obrigações cívicas. O autor cita,

como exemplo, os discursos de Getúlio Vargas, que utilizava essa estratégia: “Ao

povo cabe decidir, na sua incontestável soberania”; “Todos os brasileiros têm não

apenas o direito, mas o dever de se pronunciar por esta ou aquela candidatura no

terreno eleitoral, exigindo que seu voto seja integralmente respeitado”.

Dascal endossa a importância do tema “liberdade” nos discursos realizados

em contextos democráticos, citando a distinção feita por Aristóteles entre a

democracia, a oligarquia, a aristocracia e a tirania. A finalidade da democracia é a

liberdade; a da oligarquia, a riqueza; a da aristocracia, a educação e as leis; e a da

5

Acusações desonrosas, injúrias. 6

Enfraquecem. 7

(39)

tirania, a defesa da polis. “Assim, em uma democracia, o discurso de um dirigente

ganhará em credibilidade entre os que governam se conseguir apresentar-se como

favorecendo a liberdade” (DASCAL, 2005, p. 66).

Conforme aponta Pinzani, Maquiavel, em O Príncipe, afirma que é essencial o

cuidado do príncipe (aqui entendido como o político) com as palavras durante os

seus discursos:

Um príncipe deve cuidar para que jamais lhe escape da boca qualquer coisa que não contenha as cinco qualidades citadas. Ele deve parecer, para os que o virem e ouvirem, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo humanidade e todo religião. Não há nada mais necessário do que parecer ter esta última qualidade (2004, pp. 60-1).

Vale destacar o trecho da obra de Maquiavel que trata da importância de o

príncipe saber dissimular, de forma velada, em seu discurso:

Assim, um príncipe prudente não pode, nem deve, guardar a palavra dada, quando isso se torna prejudicial ou quando deixem de existir as razões que o haviam levado a prometer. Se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom, mas, como são maus e não mantêm sua palavra para contigo, não tens também que cumprir a tua. Tampouco faltam ao príncipe razões legítimas para desculpar sua falta de palavra. (...) Quem melhor se sai é quem melhor sabe valer-se das qualidades da raposa. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e ser grande simulador e dissimulador, pois os homens são tão simples e obedecem tanto às necessidades presentes, que o enganador encontrará sempre quem se deixe enganar... (MAQUIAVEL, 1996, pp. 83-4).

Amossy reforça que a questão da moralidade não eliminava nos clássicos a

ideia de uma construção do orador pelo seu discurso, distinguindo a imagem real

(caracteres reais) daquela que é produzida no discurso (caracteres oratórios): “(...)

pode-se mostrar algo sem sê-lo; e pode-se não parecer tal, e ainda assim o ser; pois

isso depende da maneira como se fala” (2005, p. 18).

De acordo com Courtine, o discurso político passa atualmente pela

experiência de uma profunda transformação, com o desenvolvimento de outra

política do discurso: com formas curtas, de fórmulas, de diálogos. “Um discurso

Imagem

Figura 1. Ethos: esquematização. Fonte: Adam, 2005, p. 108
Figura 2. Ethos efetivo. Fonte: Maingueneau, 2008, p. 19
Figura 3. Atos ameaçadores de faces. Adaptada de Brown; Levinson, 1996, p. 69 Ameaçar a face
Tabela 1. Participação negativa nos cinco jornais – primeiro turno (%). Fonte: Jakobsen, 2007, p

Referências

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