2 O AMADOR NAS DIÁPORAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS
3.3 TELEVISÃO PÚBLICA NO BRASIL: CONCEITO, CONSENSOS E
Refletir sobre a atuação e/ou incorporação da produção de não-jornalistas em um telejornal veiculado na TV Brasil implica em uma tarefa que vai além da reunião de estudos de mídia e de jornalismo para compreendermos seus usos, discursos e narrativas na contemporaneidade. Exige levarmos em conta que, nos noticiários televisivos, há engrenagens permeadas por motivações políticas e pessoais (FOX, 2004, p.10) que colocam a produção amadora num espaço privilegiado da narrativa testemunhal construída a partir da experiência.
Significa, ainda, trabalhar com os conceitos amador e colaborador, os quais não devem ser considerados como sinônimos. No caso do amador, pesa sua caracterização como sujeito ―não profissional‖ e, portanto, mais ilustrativo do que de fato colaborativo na narrativa do telejornal, conforme discutiremos adiante. Ao observarmos a televisão pública no Brasil46, percebemos que a (con-) fusão se estabelece entre os conceitos de televisão pública e estatal, onde, conforme explica Sodré (2008, p.9), ―a TV pública é vista como o canal do governo, ou seja, algo público, mas que tem dono‖. Estes pontos nevrálgicos conceituais ou mesmo as relações entre governo e EBC foram analisados em profundidade pela pesquisa ―Avaliação do Telejornalismo na TV Brasil - Monitoramento do cumprimento dos direitos à comunicação e à informação‖ realizada entre 2010 e 2012 (CNPq- Edital Universal) pelo grupo ―Jornalismo,
46 De acordo com Meireles (2013, p.22) a primeira televisão pública brasileira foi a TV Universitária de
Pernambuco, inaugurada em 1968, 18 anos depois do surgimento da televisão no Brasil. Em nações europeias como Alemanha, França e Inglaterra a televisão já nasceu pública, como é o caso da britânica BBC (1926) considerada por Laurindo Leal Filho (1997) como a ―melhor TV do mundo‖.
Imagem e representação‖, da Universidade Federal de Juiz de Fora.47
Anunciada em 2007, a Empresa Brasileira de Comunicação - EBC48 surgiu da edição da Medida Provisória 398, depois convertida pelo Congresso na Lei 11 652/2008. A empresa ficou encarregada de unificar e gerir, sob controle social, as emissoras federais de televisão e rádio já existentes e de instituir o Sistema Público de Comunicação com a criação da Agência Brasil. O quadro ―Outro Olhar‖ é exibido pela EBC desde abril de 2008, data da estreia do próprio telenoticiário Repórter Brasil, edição noturna, veiculado de segunda a sábado pela TV Brasil. Se estudiosos da área da Comunicação como Othon Jambeiro e Murilo César Ramos já ressaltaram a necessidade de compreender o emaranhado jurídico, e a diferenças entre os sistemas comercial, público e estatal de radiodifusão, complementares de acordo com nossa legislação, ainda persiste como desafio de entendimento e de apropriação efetiva pela sociedade da distinção entre uma emissora de televisão pública e uma emissora de televisão do poder executivo, estatal. Para este trabalho, trabalhamos com as noções de televisão pública tributárias de Manuel Pinto e delineadas por Bucci, Chiaretti e Fiorini (2012). Para Pinto (2005), a televisão de serviço público pode ser caracterizada como aquela que se assume como instituição da sociedade, agindo em estreita relação com outras instituições, vocacionada para lhes dar vez e voz (PINTO, 2005, p.16). Porém, no documento intitulado ―Indicadores de qualidade nas emissoras públicas- uma avaliação contemporânea‖, as emissoras públicas não deveriam se atrelar ao mercado e deveriam dar voz às expressões da cultura e debate público que não têm vez nas comerciais. As televisões públicas seriam caracterizadas por uma não subordinação de gestão a nenhum dos três poderes da República, sem finalidade de lucro e não devem prestar qualquer forma de contrapartida política ao recebimento de recursos dos poderes públicos ( BUCCI, CHIARETTI e FIORINI, 2012, p.12- 13. Martín- Barbero ( 2002 apud MEIRELLES, 2013) discorda desta cartilha elaborada a pedido da Unesco no que diz respeito a não veiculação de comerciais nas emissoras de tevê públicas por não acreditar que isto as descaracterize. Enquanto isso, Rincón (RINCÓN, 2002, p.320 apud MEIRELLES, 2013, p.18) aposta numa televisão pública competitiva, que inova, crie propostas diversas e novos talentos, mesmo que as questões de ordem econômica- típicos
47 O projeto de avaliação propôs-se a monitorar a efetivação do compromisso com o interesse público nas
edições dos telejornais da emissora e resultou no livro ―A informação na TV Pública‖ (Iluska Coutinho-org. Florianópolis, Insular, 2013).
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A atuação da Empresa Brasileira de Comunicação, EBC, é acompanhada/ planejada por um Conselho Curador, mas é importante destacar os veículos de comunicação que compõe a sua figura jurídica, responsáveis pelo contato de fato com a sociedade, com a produção e veiculação de informação. São eles: Agência Brasil, Radioagência Nacional (Rádio MEC AM e FM no Rio e AM no Amazonas; Rádio Nacional Brasília, Amazônia, Rio), TV Brasil e TV Brasil Internacional. Assim, nesse texto, passaremos a fazer referência à TV Brasil, ambiente de nossa reflexão sobre um telejornalismo cidadão.
da televisão de mercado- fiquem em posição secundária.
As ―televisões públicas‖ são diversas e seus vários modelos e contextos alicerçados em nações e épocas distintas não nos permitem reduzi-las a um grupo de diretrizes fechado. O que temos, como vimos, são algumas características comuns que fazem com que o termo público possa estar associado a uma emissora. Neste trabalho especificamente, a palavra chave ― alternativa ― contribuiu para alinhavar nossa proposta de estudo, a qual também figura em definições gerais de TV pública. Tal termo permite agrupar neste texto as noções de produção amadora e de televisão pública num mesmo recorte de análise. Isto por que o amador e suas produções e anseios são vistos como alternativas aos produtos audiovisuais ofertados pela mídia ―tradicional‖, representando, ainda que de modo idealizado, a liberdade de expressão, quesito relevante e necessário para a saúde democrática de um país. Nesse sentido, assumimos a conceituação de televisão pública proposta por Rincón (2002) , aqui compreendida, portanto, como ―uma alternativa audiovisual de encontro da sociedade, de fomento dos direitos dos cidadãos, e de reconhecimento da pluralidade social que nos habita‖ (Idem , p.29). Assim, entendemos que ética, disponibilização de conteúdos não encontrados em outros canais, independência e valorização do interesse público norteariam a razão de ser das emissoras públicas. Porém, questionamos se as produções audiovisuais amadoras na televisão pública atuam como uma alternativa aos conteúdos produzidos pela mídia ―profissional e/ou comercial‖, o que pretendemos descobrir por meio da posterior análise de um dos quadros de nosso recorte, o ―Outro Olhar‖, da TV Brasil.