2 DO AMERICANISMO AO COMUNISMO: O UNIVERSO CONCEITUAL DA
2.3 Tempo, continuidade e o romance histórico de Howard Fast
A terceira característica do pensamento teórico-literário de Howard Fast, que
analisaremos na presente seção, diz respeito à sua percepção de tempo histórico, que está
muito relacionada a uma ideia de continuidade. Esta é uma questão de central importância
para a presente pesquisa, tendo em vista que a maior parte de sua obra literária aborda
justamente temas históricos, incluindo os três livros que aqui tomamos como objeto central de
análise. Muito em função disso, o conjunto de seus romances constitui uma boa via de acesso
para visualizarmos este aspecto da sua concepção de história e de tempo, elemento para o qual
chamaremos atenção ao longo da análise que empreenderemos nos próximos capítulos. Cabe-
nos, em um primeiro momento, examinarmos as suas linhas mestras, tal qual ele próprio as
concebia em seus escritos teóricos.
Em um artigo de 1944, intitulado History in Fiction
174, Fast aborda esta questão, ao
tecer uma forte crítica ao que se chamava de “historical novel” no cenário literário americano
do período. De fato, para ele, os livros que se inseriam no gênero denominado de romance
histórico nas décadas de 1930 e 1940 nos Estados Unidos eram obras mal escritas,
essencialmente vazias, apesar do grande volume de páginas, sendo, em última análise, um tipo
de literatura escapista:
You can take a score of such novels and blueprint them. The writer used a broad canvas, which meant that his characters scurried around like soul-sick rabbits. The writer did extensive research, which meant two or three hundred additional pages of top-heavy description. The writer took care that his characters should not talk like human beings, which gave the book a much sought after archaic flavor. The writer indulged his characters in quests, in driving passions, which took them across continents and spanned generations. In other words, retreating from the writers who sought to portray human beings, the historical novelist found a dusty closet which, since it contained dolls and puppets beyond number, became the perfect workshop for mediocrity and reaction175.
Ecoa, novamente, aqui, a crítica de Fast a uma literatura escapista que, distanciada da
realidade material da sociedade, produziria nada mais do que um gosto estético medíocre e
um posicionamento político reacionário. Dessa forma, reafirmando seu comprometimento
174 FAST, Howard. “History in Fiction”. In: New Masses, 18/01/1944, p. 7-9.
175 “Pode-se pegar uma quantidade de tais romances e definir o seu modelo. O escritor usou um amplo cenário, o
que significa que seus personagens correm em círculos como coelhos desorientados. O escritor fez uma pesquisa extensa, o que significa duzentas ou trezentas páginas adicionais de densas descrições. O escritor cuidou que seus personagens não falassem como seres humanos, o que deu ao livro um muito procurado sabor arcaico. O escritor consente que seus personagens se envolvam em buscas, em paixões motrizes, que os levaram através de continentes e abrangeram gerações. Em outras palavras, distanciando-se dos escritores que procuraram retratar seres humanos, o romancista histórico encontrou um armário empoeirado que, uma vez que continha inúmeras bonecas e marionetes, se tornou a oficina perfeita para a mediocridade e a reação”. Grifos do autor. Tradução minha. Ibid., p. 7.
com uma arte socialmente engajada, que busque refletir sobre as contradições materiais da
sociedade e contribuir para a luta pela libertação humana, Fast busca dissociar-se de uma arte
considerada escapista, neste caso, de uma noção estéril de romance histórico, baseada em um
fetiche pelo arcaísmo do passado, ou melhor, de um passado imaginado, idealizado. Neste
sentido, Fast faz questão de deixar claro que ele não se vê como um escritor de romances
históricos, mas sim como um novelista que trabalha essencialmente com seres humanos:
I conceive of my own branch of the trade as story-telling. The stories I want to tell have a direct inter-relation – in that they all deal with the struggles of men for freedom. They are not historical studies and they are not political studies – they are stories about people. Some stories happened a long while ago, some a few generations past, some are happening today176.
Tal entendimento de Fast acerca dos objetivos de sua própria obra literária está
relacionado à concepção de que a problemática fundamental da vida humana e, por
consequência, da história, é justamente a luta pela liberdade. Esta concepção, por sua vez,
decorre essencialmente do posicionamento artístico materialista assumido por Fast e do
caráter humanista deste, que conecta de modo indissociável arte, vida, política e trabalho, os
quais examinamos nas duas seções precedentes.
No cerne desta crítica ao que se produzia sob o título de romance histórico em seu
tempo, e da afirmação de seu compromisso em contar histórias centradas na luta humana
essencial pela conquista da liberdade, está implícita uma concepção de tempo histórico
baseada em uma noção de continuidade. De fato, podemos perceber este elemento na própria
frase final do trecho acima citado: as histórias que Fast tem interesse em retratar em seus
livros tem em comum seu interesse pelo homem e pela sua constante luta por libertar-se,
porém diferem quanto ao seu marco temporal; enquanto algumas localizam-se em um passado
remoto, outras referem-se a acontecimentos mais recentes, ou que ainda estavam se
desenrolando na sociedade americana.
Tal percepção de uma continuidade histórica, a partir de uma ótica eminentemente
materialista, é reafirmada de modo explícito por Fast em Literature and Reality. Para ele,
“The reality of today is unique; a continuity joins it with the reality of yesterday, just as in
176
“Eu concebo meu próprio ramo do ofício como o contar de histórias. As histórias que eu quero contar possuem uma inter-relação direta – no sentido de que todas elas lidam com as lutas dos homens pela liberdade. Elas não são estudos históricos e não são estudos políticos – são histórias sobre pessoas. Algumas histórias aconteceram há muito tempo atrás, outras estão acontecendo hoje”. Tradução minha. Ibid., p. 8.
itself it becomes a part of that continuity which will join it with tomorrow”
177. E esta clareza
em relação à prevalência de uma continuidade temporal, para Fast, deriva do modo de pensar
materialista e do comprometimento e produzir uma literatura a partir do viés do realismo
socialista:
Today, the writer who practices socialist realism sees the world in its whole process of change. Not only is man a product of class society, but man is also a product of socialist society. The past, the present, and the future exist not only in one world but very often in one nation. An interrelation of time and space binds all of life into an acting and reacting whole178.
Neste sentido, influenciado pelo pensamento materialista, Fast apresenta uma
concepção de história que toma a libertação do homem e de seu trabalho como o ímpeto
fundamental da história, sua força motriz, sua problemática central. Dessa forma, há a
percepção de uma grande continuidade da luta por esta libertação ao longo da história da
humanidade – desde a escravidão antiga, passando pela servidão feudal e pela exploração do
trabalho capitalista, visando chegar à verdadeira e efetiva liberdade na sociedade comunista.
Um dos principais exemplos da aplicação desta visão de história na obra de Fast está
relacionado a um de seus romances de maior sucesso, Spartacus, na qual aborda a exploração
do trabalho escravo na Roma Antiga, traçando paralelos com a continuidade desta exploração
na sociedade capitalista
179.
Deste modo, esta dimensão de continuidade presente no pensamento de Fast perpassa
também o seu entendimento a respeito da classe trabalhadora, aquela realmente interessada e
empenhada na constante luta pela liberdade e que, portanto, tem um papel central no
progresso da história. De fato, podemos entrever este aspecto na citação do artigo Working
Class Materials Challenge Creative Artists, que fizemos na página 68 da seção anterior, na
qual Fast exalta o amplo e inexplorado material que a classe trabalhadora tem a oferecer ao
escritor realista. Nela, Fast afirma que a classe trabalhadora “contém em si mesma passado,
177
“A realidade de hoje é singular; uma continuidade a conecta com a realidade de ontem, assim como em si mesma ela se torna parte da continuidade que a conectará com o amanhã”. Tradução minha. FAST, Howard. Literature and Reality. New York: Open Road Integrated Media, 2011 [Ed. Kindle da Amazon], pos. 351.
178 “Hoje, o escritor que pratica o realismo socialista enxerga o mundo em todo seu processo de mudança. Não
apenas o homem é um produto da sociedade de classes, mas o homem é também um produto da sociedade socialista. O passado, o presente e o futuro existem não apenas em um mundo, mas muito frequentemente em uma nação. Uma inter-relação de tempo e espaço conecta toda a vida em um todo que age e reage”. Tradução minha. Ibid., pos. 774-780.
179
Uma análise de Spartacus foi empreendida por mim em KLEIN, Rafael Belló. “‘I’m Spartacus!’: os usos do passado na narrativa literária e cinematográfica do Spartacus de Howard Fast e de Stanley Kubrick”. In: REBLIN, Iuri Andreas; REINKE, André Daniel; COSTA, Carolina Bittencourt da (org.). Vamos falar de cultura pop?: Episódio 2: A mídia contra ataca. Leopoldina: ASPAS, 2018.
presente e futuro, uma saga épica que os homens cantarão pelos séculos que virão”
180. Neste
excerto aparece de forma explícita a ideia de continuidade relacionada à classe trabalhadora e
à sua luta, que atravessa os tempos e que, por isso, constitui um farto material criativo para o
escritor realista. No extenso trecho que citamos logo a seguir, nas páginas 68 a 70, Fast
reafirma esta mesma concepção ao enumerar, com grande erudição, diversos episódios,
personagens e instituições que demonstram como a classe trabalhadora e sua luta atravessam
de forma contínua e fundamental a história americana.
De fato, esta continuidade que Fast identifica na história está essencialmente
relacionada à continuidade da luta pela libertação do homem e do trabalho, encabeçada pela
classe trabalhadora e por seus representantes e defensores. Esta perspectiva é evidenciada pelo
próprio Fast no artigo History in Fiction, ao explicar o seu interesse em abordar o passado em
seus livros:
As to why I write about the past – my books give answer. These great and splendid forgotten men did not live and die so that all they did might be traduced and falsified; they lived and fought and died so that we might inherit and use the things they built. And the same type of scoundrels as opposed them then oppose men of good will today. It all becomes one; and the great tradition we fight for today is the same tradition they sustained and handed down to us181.
Há, portanto, na concepção de Fast, uma grande continuidade entre a luta dos
trabalhadores do passado e a dos do seu presente. As tradições que defendem e seus inimigos
são os mesmos. Fast os concebe como uma grande unidade histórica. Neste contexto, Fast
compreende ser seu papel enquanto escritor resgatar os grandes homens e feitos esquecidos da
história desta luta e trazer à luz a verdade sobre eles, combatendo a falsificação e deturpação
da história promovida pelos inimigos da classe trabalhadora. É a partir desta preocupação que
surge o seu interesse pelo tratamento do passado em seus romances, como um instrumento
para contribuir para a luta dos trabalhadores do seu próprio tempo.
Neste sentido, a noção de continuidade que perpassa a sua concepção de história, tem
também um papel preponderante na sua compreensão acerca dos objetivos e funções de sua
própria escrita ficcional:
180FAST, Howard. “Working Class Materials Challenge Creative Artists”. In: Daily Worker, 02/09/1946, s/p. 181 “Quanto a por que eu escrevo sobre o passado – meus livros dão a resposta. Estes grandes e esplêndidos
homens esquecidos não viveram e morreram para que fossem traduzidos e falsificados; eles viveram e lutaram e morreram para que pudéssemos herdar e usar as coisas que construíram. E o mesmo tipo de canalhas que se opuseram a eles então, hoje opõem-se aos homens de boa vontade. Tudo se torna um; e a grande tradição pela qual lutamos hoje é a mesma tradição que eles sustentaram e nos legaram”. Tradução minha. FAST, Howard. “History in Fiction”. In: New Masses, 18/01/1944, p. 9.
True, the reader is a stranger in the land; but through the writer's skill he becomes a sympathetic stranger; and if the writer is skillful enough, the reader subjectively partakes of that sameness and brotherhood which binds all men, whatever their time or race or condition.
There, in a sense, is a definition, if a rather vague one, of the books I write. They are outside my experience, but the people of America live in a tradition that remains constant. (...) The people's wars we fought in the past were as hotly contested by traitors within as is the people's war of today182.
Como podemos perceber, a concepção de continuidade histórica apresentada por Fast
envolve também uma ideia de igualdade e fraternidade universal, algo que envolve e une os
homens através do tempo. Esta está, naturalmente, conectada à luta transtemporal pela
libertação do homem e do seu trabalho. Nesta perspectiva, cabe ao escritor fazer uma ponte
desta continuidade com o leitor, por meio de seus livros. Este é o papel conscientemente
assumido por Fast. Tal como na luta empreendida pelos trabalhadores do passado, a luta
“atual”, do presente de Fast, também é contestada pelos inimigos e “traidores” de seu tempo.
O escritor deve, portanto, usar as armas à sua disposição para conectar o leitor com os grandes
valores, tradições e lutas do passado – que tem correspondência direta com as do presente –
com essa grande fraternidade universal, com o grande ímpeto dos trabalhadores de todos os
tempos que lutam pela sua liberdade. Ao fazer isto, o escritor contribui para combater a ação
dos inimigos e traidores da causa popular, que visam não somente desmerecer sua luta no
presente, mas distorcer e difamar as suas lutas no passado.
Este é, em suma, o fundamento do interesse de Howard Fast por tratar com temas
históricos em seus romances. Rejeitando a sua inclusão no gênero de “romance histórico” tal
qual era praticado em sua época, por ele considerado mais uma forma estéril de literatura
escapista desconectada da realidade, Fast reivindica uma literatura interessada essencialmente
no ser humano e na sua luta mais fundamental por liberdade. Tal postura reflete uma
concepção de história baseada em uma noção determinante de continuidade, originada do
reconhecimento de que esta luta, levada a cabo pela classe trabalhadora, é uma única luta,
contínua, permanente, que perpassa toda a história. Neste sentido, Fast afirma ser papel do
escritor realista, comprometido com uma postura materialista, engajar-se nesta luta,
enfocando acontecimentos passados com o objetivo de desvelar a “verdade” a respeito de seu
182 “Verdade, o leitor é um estrangeiro na terra; mas através da habilidade do escritor, ele se torna um estrangeiro
simpático; e se o escritor for hábil o suficiente, o leitor compartilha subjetivamente daquela mesma igualdade e fraternidade que envolve todos os homens, qualquer que seja seu tempo, raça ou condição.
Aí está, em certo sentido, uma definição, ainda que vaga, dos livros que eu escrevo. Eles estão fora da minha experiência, mas o povo americano vive em uma tradição que permanece constante. (...) As guerras do povo que lutamos no passado foram tão ardentemente contestadas por traidores internos quanto as guerras do povo de hoje”. Tradução minha. Ibid., p. 8-9.