2.2 Fundamentação Teórica deste estudo
2.2.2 Temporalidade dos Saberes Docentes e suas Fontes
Nessa subseção apresentamos os estudos de Pierre Bourdieu (1995) e Tardif e Raymond (2000) para relacionar a temporalidade e as fontes dos saberes docentes. Esses estudos nos ajudaram a analisar os fatores tempo e a fonte do saber na formação profissional de futuros professores.
Bourdieu (1995) fez uma crítica ao sistema educacional gratuito que sanaria os problemas de desigualdade, trazendo assim a igualdade de oportunidade entre todos os cidadãos, pois neste sistema os indivíduos competiriam entre si e em condições igualitárias e quem se destacassem com seus dons, por uma questão de justiça, iriam elevar-se nas suas carreiras. Neste ponto a escola seria uma instituição neutra que seu objetivo seria difundir conhecimento racional e objetivo para seleção dos alunos em uma base racional.
Nos anos 60, o modelo otimista de educação gratuita igualitária entra em crise a partir de estudos dos realizados durante a década de 50 pelos governos americano, inglês e francês que mostra de forma clara e objetiva que os fatores sociais influenciam sobre o destino escolares dos alunos. A partir desses levantamentos observou que o dom, tidos como natural, não era o bastante para elevação desse aluno, mas a origem social dos alunos (classe, etnia, sexo, local de moradia, religião, etc.) são determinantes no desempenho escolar e ascensão social. E a partir dos anos 60 o sistema educacional sofre uma massificação, com a popularização da educação no pós-guerra e a desvalorização dos certificados emitidos pelas instituições de ensino.
Com esse cenário, Bourdieu (1995) realiza uma análise crítica trazendo à tona a relação entre o desempenho escolar está totalmente ligada com a origem social do estudante, onde a velha escola procurava promover a igualdade de oportunidade, meritocracia, justiça social e com isso a escola promovia a legitimação da desigualdade social. Assim a educação perde o papel que fora designado de transformadora e democratizada da sociedade e se torna
legitimadora de privilégios sociais. Sendo assim uma inversão total da perspectiva.
Em sua obra, Bourdieu (1995) analisa a influência social em dois prismas que corroboram para entendimento da influência social na formação de profissionais durante anos de estudos: Herança Familiar e Implicações Escolares.
Nesse capítulo Bourdieu (1995) apresenta o conceito de Habitus Familiar, ou seja, os indivíduos incorporariam a sua individualidade conjuntos de disposições e ações típicas dessa estrutura social. A partir dessa forma inicial o indivíduo será posicionado dentro de um papel estrutural desse organismo e tendo interação interna externa e nunca inversa. E os indivíduos passam a ser caracterizados pela bagagem social herdada. Essa bagagem compreende por componentes objetivos e externos ao indivíduo e pode ser posto a serviço do sucesso escolar (BOURDIEU, 1995). Fazendo parte dessa bagagem o capital econômico, bens e serviços, capital social, relações sociais, influência e por fim e não menos importante o capital cultural, formado pelos títulos escolares.
O Capital Cultural somente pode ser transmitido pela família e é incorporado a subjetividade e chamada como “cultura geral”, sendo uma forma vaga para designar os gostos por arte, culinária, decoração, vestuário, esporte, domínio de língua, informações sobre o mundo etc. Para Bourdieu (1995) o fator cultural terá impacto no destino escolar desse indivíduo. Pois quanto maior a posse do Capital Cultural favoreceria o desempenho escolar na medida que facilitaria o aprendizado dos conteúdos e códigos escolares. Pois a bagagem de conhecimentos considerados legítimos – culto – domínio maior da língua materna facilitaria o aprendizado, pois o espaço escolar seria uma ponte entre o ambiente familiar e a sociedade. Já para crianças que não dispõe dessa bagagem a escola seria um ambiente hostil, diferente do ambiente natural ao seu convívio, distante e assustador. Bourdieu (1995) ainda, nesse sentido, analisa as questões de avaliações na escola, que além de uma verificação de aprendizagem, mas sim de uma análise mais profunda sobre o comportamento, do modo de falar, escrever e desenvolvimento da curiosidade intelectual.
A bagagem herdada por cada indivíduo não pode ser classificada como pior ou melhor que outro, mas sim conforme a função social que esse indivíduo possui dentro do grupo social. Sendo que os grupos sociais validam os conhecimentos que os integrantes dessa classe e quais capitais devem possuir (econômico, social, cultural e simbólico).
Acreditamos ser fundamental que conheçamos o perfil dos participantes de nossa pesquisa uma vez que segundo Bourdieu (1995) o ambiente escolar deve ser o elo entre a vida familiar e a sociedade, e a escola em seu papel fundamental deve conhecer o histórico do seu estudante nesse contexto na nossa analise pauta também a história de vida de cada participante. Além disso, buscamos compreender também as fontes dos saberes profissionais construídos pelas professoras, para tanto nos pautaremos nos estudos de Tardif e Raymond.
Tardif e Raymond (2000) em seu artigo intitulado “Saberes, Tempos e Aprendizagem no Magistério” apresentam o contexto social da formação dos professores.
Segundo esses autores, diferente de outras profissões que o primeiro contato com o ambiente de trabalho no início de sua carreira, os futuros professores já têm esse contato previamente, pois por pelo menos 15.000 horas, ou seja, 16 anos esse futuro professor frequentou os bancos escolares (Tardif e Raymond, 2000, p. 216-217), trazendo consigo preconcepções de qual o papel do professor devido esse longo período de observação e atuação de professores durante sua formação.
Durante os primeiros anos de formação dos professores essas marcas profundas das preconcepções dos modelos de ensino são trazidas à tona, tentando repetir padrões de ensinos vivenciados nos anos anteriores. Essa retomada Tardif e Raymond (2000) descrevem como “temporalidade do professor”, ou seja, devido a experiências anteriores, o jovem professor acredita que já possui os saberes necessários para atuação.
Mas quais são os saberes comuns que todos os professores devem saber? Existe uma generalidade na formação dos professores? Há outras
influências externas que influenciam o papel do professor? Essas são algumas indagações que Tardif e Raymond (2000) buscam esclarecer.
O ponto de partida da pesquisa foi buscar compreender quais fatores influenciam a escolha da carreira de magistério, e em entrevista a alguns profissionais, Tardif e Raymond (2000) deparam com os seguintes discursos:
• Influência familiar “minha mãe era professora”,
• Pessoal “sempre me vi fazendo isso, sempre gostei de ensinar”
• Admiração “o professor me cativou, tinha admiração de como ele desenvolvia a aula”.
A análise desses discursos faz com que os autores concluam que a escolha pela carreira de professor tem grande influência pelo ambiente que está inserido, devido ao contato com a carreira durante boa parte de sua vida.
Em suas pesquisas Tardif e Raymond (2000) elencaram quais sãos os saberes necessários para desempenhar o papel de professor.
Tardif e Raymond definem os Saberes como
[...] plurais, compósitos, heterogêneos, pois trazem à tona, no próprio exercício do trabalho, conhecimentos e manifestações do saber-fazer e do saber-ser bastante diversificados, provenientes de fontes variadas, as quais podemos supor que sejam também de natureza diferente” (TARDIF e RAYMOND, 2000, p. 213).
Devido esse contato precoce com a carreira de docente, o profissional acredita estar apto a exercer a função de professor, pois acredita já possuir os saberes necessários, mas Tardif e Raymond (2000, p. 215) categoriza os saberes dos professores em cinco categorias:
• Saberes Pessoais: são aqueles adquiridos no ambiente familiar, social e é aplicado no trabalho docente pela história de vida e socialização primária
• Saberes Provenientes da Formação Escolar Anterior: adquirido no âmbito escolar, ciclo básico (Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio, Técnico) aplicado na formação e socialização.
• Saberes Provenientes da Formação Profissional para o Magistério:
adquirido em escolas de formação de professores e aplicado através da
socialização de profissionais
• Saberes Provenientes de Programas e Livros Didáticos usados no Trabalho: adquirido e aplicado através de livros utilizados como ferramenta de trabalho
• Saberes provenientes de sua própria experiência na profissão, na sala de aula e na escola: adquirido pela prática e a socialização da profissão no momento da atuação
A seguir apresentamos no quadro 2 a descrição dos saberes dos professores, suas fontes e modos de integração na prática profissional de acordo com os autores.
Quadro 2 – Os saberes dos Professor
Os saberes dos professores
Saberes dos Professores Fontes Sociais de Aquisição
educação no sentido lato etc. Pela história de vida e pela socialização primária profissão, na sala de aula e
na escola
A prática do ofício na escola e na sala de aula, a experiência dos pares etc.
Pela prática do trabalho e pela socialização Fonte: Tardif e Raymond (2000, p. 215).
Apesar de Tardif e Raymond (2000) reconhecerem as diferentes fontes de saberes e chamarem a atenção para os saberes da experiência, os autores fazem críticas a pesquisas que apresentam categorizações de saberes
docentes. Os autores consideram que apesar de elencarem o critério pluralista do saber do professor, destacando os saberes que são realmente colocados em prática pelo professor em sala de aula, essa separação não deve ser unicamente levada em consideração, uma vez que a outro fator que não foi considerado, o tempo. É possível notar o tempo como o fio condutor entre as fontes e os modos de integração no trabalho docente dos diferentes saberes. Apesar dessas críticas de Tardif nesta investigação, utilizamos de investigações de Ball, Thames e Phelps (2008) que categorizam o conhecimento profissional docente como meio de planejar uma maior variedade de vivências durante os estudos em grupo.
Todavia, apesar de seu interesse, uma abordagem tipológica baseada na proveniência social dos saberes parece ser relativamente simplificadora, pois dá a impressão de que todos os saberes são, de um certo modo, contemporâneos uns dos outros, imóveis e igualmente disponíveis na memória do professor, o qual buscaria nesse “reservatório de conhecimentos” aqueles que lhe são necessários no momento presente da ação. Mas as coisas não são tão simples assim. O que essa abordagem negligencia são as dimensões temporais do saber profissional, ou seja, sua inscrição na história de vida do professor e sua construção ao longo de uma carreira.
Segundo o autor a Temporalidade é o elemento determinando no perfil do professor, pois é ela que moldará a identidade docente, pois antes dos saberes técnicos, o professor antes de tudo foi aluno e traz consigo marcas e referenciais de outros professores, até mesmo reproduzindo alguns modelos que lhe foi aplicado nos tempos de estudante. Outro contexto importante que se deve ser considerado é o contexto sociocultural desse professor, uma vez que, esse conhecimento não pode ser alterado por meio de uma reprogramação e leva-se tempo para que essa mudança ocorra.
Para o autor, a profissão professor é considerada no âmbito social que tem seus altos e baixos, medos, anseios, motivações e frustrações que qualquer outra profissão possui, o diferencial da profissão é que o jovem professor acredita que por ter frequentado durante anos uma instituição escolar como objeto observado se sente preparado para atuar e mudar o modo de ver,
passando a ser o sujeito observador. O professor tem que desenvolver habilidades e saberes e transformá-los em competências, e saber que a identidade professor é um papel desempenhado socialmente importante.