a frequentar a igreja
2.2 A Teologia da Prosperidade
Podemos ver no neopentecostalismo a “Teologia da Prosperidade” como fundamento principal de sua doutrina. Ao ver o sucesso e os bens de salvação voltados apenas para a pessoa, acompanhamos no discurso dos líderes e nas falas dos fiéis uma atitude narcisista. A igreja
67 critica o fracasso, prega que a miséria é coisa do “demônio”, mas nunca passa a noção de um bem-estar coletivo, de um conseguir as coisas para os outros também. Como já vimos nos pressupostos bourdiesianos, dentro do universo religioso, as organizações religiosas tendem a passar uma imagem ideal e semelhante ao mundo social. Uma visão do fiel que gostaria que a sociedade fosse de tal forma, encontrando na igreja o caminho para estar em determinado ponto. Assim, cada vez mais as religiosidades na pós-modernidade estão voltadas para o bem-estar individual, algo identificado por Bauman (1998).
Citamos como exemplo do fiel José da Igreja Verbo da Vida. A ele foi perguntado: qual o sentido da igreja em sua vida, o que espera dela e as modificações que já trouxeram ou estavam trazendo em sua vida? José respondeu de forma clara as perguntas. Em nossa análise de discurso, no que mais o entrevistado está voltado e da sua configuração no imaginário do contexto que estamos analisamos, detectamos o “eu” como o termo mais encontrado, embora pouco pronunciado. Vemos também que todas as suas conquistas e agradecimentos são voltadas para bens materiais e sucessos na carreira. Dos principais pontos da nossa conversa, destacamos a seguinte declaração de José:
Estou muito feliz na Igreja. Eu me sinto bem aqui e desde quando eu cheguei tive muitas conquistas na minha vida. Só tenho que agradecer ao “Senhor”. Passei num concurso do SEBRAE, estou lá fazem dois anos, tenho um escritório de contabilidade e aumentei os meus lucros, embora que agora não tenha mais tanto tempo quanto antes, mas você ter dois empregos é muito bom, você ter mais de uma fonte de renda. Eu venho para a Igreja todo domingo, faça questão de trazer minha família. Minha esposa se converteu através de mim...Também tenho uma irmã e um sobrinho na Igreja que trabalha com um comercio de roupas, que também está indo bem, não tem o que reclamar. A igreja fez muito bem na minha vida, você pode conhecer a igreja.
Vemos essa como uma das características existentes que diferenciam as igrejas neopentecostais de outras igrejas, a Teologia da Prosperidade como um fator motor que procura dar soluções ao problema enfrentado pelas pessoas que procuram a religião como fonte de salvação a partir deste mundo. Dentro das igrejas escolhidas, é forte a presença dessa teologia no discurso dos líderes, assim como também nos diálogos entre os seus membros e até mesmo, como pretendemos demonstrar, na sua forma de agir no dia a dia. Podemos assim concordar com a afirmação de Campos (1997) de que...
a ‘teologia da prosperidade’ [que] serve perfeitamente aos interesses de um pentecostalismo de acomodação a um novo estágio socioeconômico da sociedade Ocidental. Isto porque, é uma teologia que não se rege pelos ditames
68 da fuga e sim, por uma imersão na sociedade em sua dimensão econômica. Talvez, essa teologia represente um novo caminho coerente pelo qual a tensão entre economia e religião pode escapar. (CAMPOS, 1997, p.375)
A Teologia da Prosperidade tem a sua origem nos Estados Unidos na década de 60 do século passado. Surgiu em virtude de vários movimentos religiosos que enfatizavam a prosperidade econômica e a cura divina em virtude da fé, como forma de superar os problemas e as fragilidades da vida humana. Esses movimentos eram conhecidos como Health andWealth
Gospel. Neste movimento se destacava Kenneth Hagin, considerado o maior responsável pela
criação dessa Teologia. Hagin teve uma infância e uma adolescência pobre, com problemas de saúde e acabou por ser curado graças a sua fé. Foi evangelista da Igreja Batista e depois foi para a Assembleia de Deus, onde em 1937 se tornou pastor e organizou em 1962 o movimento que originou a Teologia da Prosperidade, doutrina que chegaria depois fortemente ao Brasil através das entidades neopentecostais.
O discurso da prosperidade pode ser visto de diversas formas dentro do neopentecostalismo. Podemos vê-lo através da aparência e do discurso do líder, do que é apresentado na mídia eletrônica e nos templos das igrejas neopentecostais. A IURD em João Pessoa, capital da Paraíba, possui um enorme e vistoso templo na principal rua comercial e de meios de transporte da cidade, a Avenida Epitácio Pessoa. Nesta se pode ver a grandeza da igreja e a sua visão de prosperidade.
Na doutrina das entidades neopentecostais (MARIANO, 1999) os fiéis são orientados a considerar o dinheiro como um agradecimento a Deus. Isto na forma de dízimos, contribuindo financeiramente em um retorno para a solução de seus problemas. Assim é passada para os fiéis uma mensagem de que todo o dinheiro depositado nos dízimos voltará em forma de grandeza, realizando assim os sonhos dos fiéis consumidores. Pagar os dízimos é uma forma de purificação que serve para o fiel ter uma esperança em uma vida próspera, tendo nessa contribuição a esperança de ser recompensado e receber cem vezes mais o valor.
A Teologia da prosperidade, em nenhum momento, critica a situação socioeconômica do país, nem no Brasil nem nos Estados Unidos, seu país de origem. Voltada pelo bem-estar material das pessoas, relaciona a falta dos bens e a vida pobre das pessoas com a presença do Diabo. Em nenhum momento é dada uma ênfase para resolver os problemas da população em questões políticas. Para Edir Macedo (Veja Online, 2009) o que deve ser passado para os fiéis é que “dinheiro, saúde e felicidade” é o que interessa, pois “são a prova da benção divina”. Quanto a essa postura das igrejas neopentecostais frente à sociedade, Mariano (2005) diz que...
69 embora não conduza à formação de poupança, baseia-se na defesa da prosperidade como algo legítimo e mesmo desejável ao cristão, no estímulo ao consumo e no progresso individual e em acentuado materialismo. Nascida nos EUA, a Teologia da Prosperidade não tece uma única crítica sequer ao capitalismo, nem à injustiça e desigualdade sociais, nem aos desequilíbrios econômicos do mundo globalizado. Mais pré-capitalista impossível. Mas daí concluir que tal teologia, ou os religiosos que a defendem, impulsione e fortaleça efetivamente este sistema econômico, vai uma longa distância. (MARIANO, 2005, p.75)
Através de seus discursos, as religiosidades contemporâneas passam promessas de soluções para os problemas da vida cotidiana, servindo de caminho para que pessoas se reconheçam e sejam reconhecidas dentro do espaço social, adquirindo a posse de bens, e se também reconheçam para Deus, já que a pobreza não faz parte da vida dos escolhidos pelo “Senhor”, como pregado no evangelho das igrejas neopentecostais. Lembrando que selecionamos o estilo neopentecostal de religiosidade não afirmando que todas as religiões agem de tal forma e nem generalizando discursos ou preferência dos fiéis neopentecostais apenas em um lado material, mas sim tentando relacionar as suas posições sociais e desejos de consumo com o que lhe está sendo oferecido. Entidades que valorizam o bem-estar material das pessoas são encontradas em quase todos os lugares, com promessas de aquisição de determinados bens de consumo como forma de sua realização neste mundo e de caminho e garantia de passagem para outra vida. Para Prandi e Pierucci (1996) “a cidade não precisa mais de deus, mas para aqueles que a própria cidade deserda e desampara, deuses de todo tipo e rito podem ser fartamente encontrados” (p. 28).
A teoria da prosperidade (MARIANO 2003) utilizada na doutrina calvinista, como identificada por Weber, não tem muito a ver com a cultura do consumo imposta nas sociedades pós-modernas. A teoria calvinista condena o ócio, a luxúria, a preguiça e a perda de tempo (WEBER, 2004). Hoje o ócio não é mais visto como um pecado, e sim algo tido como uma conquista, um desejo, e que pode ser usado para outros fins. A luxúria deixa de ser um pecado e se torna um fator-chave para a sociedade/cultura do consumo. Hoje não basta consumir determinados produtos, é necessário ver a qualidade, o valor e a marca destes produtos. Assim...
Na ótica weberiana, a acumulação primitiva do capital resultará, entre outros fatores, justamente da ética puritana, que interditava ao fiel qualquer modalidade de consumo supérfluo. No pentecostalismo, o crente na procura a riqueza para comprovar seu estado de graça. (...) Como todos os demais, crentes e incréus, ele quer enriquecer para consumir de suas posses nesse mundo. (MARIANO, 1999, p. 36)
70 Mesmo passando a imagem de uma relação de sucesso profissional e econômicocom o seu título, a teologia da prosperidade está distante da doutrina calvinista, pois vê na prosperidade algo a mais do que um simples emprego, que um consumo supérfluo, ou meta desejada que acaba de ser alcançada. O que vale para o crente é alcançar esse objetivo e relacioná-lo com o atual momento do mundo, da sociedade. Procura uma satisfação pessoal e ao mesmo tempo econômica e social na aquisição de bens. Sua intenção foge do protestantismo ascético, do calvinismo e cai em uma lógica extremamente mundana. Vai para uma forma de religiosidade pós-moderna, de acordo com os padrões culturais da presente época.
Analisando desta forma, não basta comprar apenas um carro, este tem que ser “Zero Quilometro”. Para consumir um produto é necessário identificar o valor pago por este. Podemos concordar com Mezzono (2008) de que a Teologia da Prosperidade foi fundamental para o desenvolvimento das entidades neopentecostais e até hoje as diferencia das outras entidades religiosas. Também podemos dizer que a cultura e a necessidade de consumo impostas nas sociedades contemporâneas beneficiam o crescimento das entidades neopentecostais, pois estas são as que mais valorizam o bem-estar material, algo tido como o fundamental para a maioria dos indivíduos que procuram essas igrejas (cf. SOUSA JR & GUERRA, 2007). Podemos também concordar com Torres (2007) de que...
à teologia da prosperidade resulta numa “teologia prática” que projeta as metas para “este mundo”. A prosperidade material e, por conseguinte, o acesso ao consumo das “maravilhas” do mundo moderno, permitindo um gozo “aqui e agora”, são perseguidos como uma recompensa por aqueles que servem e financiam a obra do “Senhor”. Os fiéis não devem mais aceitar viver como párias virtuosos, completamente excluídos dos prazeres mundanos, nem rejeitar, de forma ressentida, o comportamento das classes dominantes. (TORRES, 2008, p.108)
Para Weber (2004), o protestantismo ascético conseguiu fazer das riquezas ou das acumulações de bens um sinal de bênçãos divinas para que os fiéis se sentissem escolhidos e prontos para entrar na vida eterna após a morte. A posse de bens materiais significava a confirmação daquela passagem para entrar no suposto paraíso. Esse discurso se diferencia da Teologia da Prosperidade imposta no neopentecostalismo, já que a prosperidade é sinal de benção, não está relacionada ao trabalho, mas ligada a uma reivindicação com base numa fidelidade financeira, independente da como se produzir e conseguir as riquezas. O que é passado ao fiel é que ele deve, por ser considerado abençoado por Deus, possuir uma melhor condição de vida. Ou seja, a “pobreza é coisa do Satanás”.
71 Tanto a Teologia da Prosperidade define a pobreza como uma coisa doentia, maligna como também passa para os fiéis que o fracasso econômico, profissional é uma coisa demoníaca, que deve ser exorcizado. É como se dissesse que Deus quer os vencedores e que as pessoas podem chegar a um sucesso - a um ponto acima e, consequentemente, na dinâmica e consumo e de concorrência do mundo, subir mais ainda, não estagnando – como também a um fracasso, ligado a qualquer desvio ou marginalidade. Concordamos com Torres (2007) de que
a chamada “teologia da prosperidade” tem, acima de tudo, o sentido prático de recusar o fracasso – “pare de sofrer!” – como forma de delimitar a identidade social por oposição reativa a um exemplo negativo que, claro, só pode ser a imagem do fracassado, daquele que não pôde fugir das artimanhas dos encostos e de sua ação indiscriminada e constante. (TORRES, 2007, p.113)
A Teologia da prosperidade, com origem nos Estados Unidos, como vimos, chegou ao Brasil no final da década de 70 do século passado, através da fundação da Igreja Universal do Reino de Deus e em consequência do surgimento de outras denominações do campo neopentecostal, como a Igreja Internacional da Graça de Deus (nova e crescente igreja formada por um dos fundadores da Universal), a Sara Nossa Terra, a Presbiteriana Renascer, a Nova Vida e outras mais. Surgem como um fenômeno no universo religioso à medida que crescem rapidamente e pregam um novo tipo de evangelho, mais adequado ao mundo globalizado e pós- moderno, assim como também próprio para uma cultura do consumo em expansão na sociedade.
Mariano (1996) relata esse momento com as palavras do então pastor R. R. Soares da Igreja Internacional:
Ambas adotam várias crenças da TP, dentre elas a que afirma que o "plano de Deus para o homem é fazê-lo feliz, abençoado, saudável e próspero em tudo". Colocados os termos deste modo, não provocam muita controvérsia. Mas a coisa é mais complexa. Os pregadores da TP dizem que só não é próspero financeiramente, saudável e feliz nessa vida quem carece de fé, não cumpre o que diz a Bíblia a respeito das promessas divinas e está envolvido, direta ou indiretamente, com o Diabo. A posse, a aquisição e a exibição de bens, a saúde em boas condições e a vida sem grandes problemas ou aflições são apresentadas como provas da espiritualidade do fiel...As doutrinas da TP também são acusadas de atentar contra a soberania de Deus, dado que seus adeptos são instruídos a estabelecer relações com o Todo-Poderoso em que os verbos como exigir, decretar, determinar, reivindicar frequentemente substituem os verbos pedir, rogar, suplicar. (MARIANO, 1996, p.32)
72 Dentro deste contexto, para que a Teologia da Prosperidade opere no universo religioso, é necessária uma série de requisitos que ultrapassem apenas a fé do membro da igreja, como, por exemplo, a espetacularização dos cultos e programas das igrejas praticantes para que possam passar uma mensagem que convença os seus fiéis. É preciso pastores bem capacitados e que consigam relacionar o evangelho passado com a dinâmica mercadológica e consumista da sociedade contemporânea. É preciso também fazer uma pesquisa de mercado dos fiéis e de onde instalar os seus postos, ou melhor, suas entidades religiosas – precisamente próximas de um grupo distinto de prováveis fiéis-, assim como também sentir a necessidade da demanda, quais os seus interesses, que hoje ultrapassam o lado espiritual.
Dessa forma, vendo o contexto em que está mobilizado o universo religioso e levando em consideração os pressupostos bourdiesianos, podemos concordar com Mariano (1996), observando as estruturas e o lado subjetivo dos discursos e das ações nesse campo, quando ele diz que...
a Teologia da Prosperidade, ao se configurar como um conjunto de crenças altamente mágicas e ao renegar o velho ascetismo protestante, possa estar pondo por terra justamente o elemento de natureza ética do protestantismo capaz de, ao menos potencialmente, promover a realização de sua principal promessa: a tão almejada prosperidade. (MARIANO, 1996, p.44)