5 CONFLITOS ENTRE O NEOPENTECOSTALISMO E AS RELIGIÕES
5.2 Teologia neopentecostal da guerra espiritual
Na história do Brasil, a demonização dos deuses africanos não constitui uma novidade. Uma vez que os cristãos católicos e protestantes que carregam a herança da colonização portuguesa no Brasil e dos projetos evangelizadores da Igreja Católica, há séculos, demonizam os deuses, símbolos e rituais sagrados das religiões afro-brasileiras. Contudo, tal rejeição, fruto de um embate cultural e religioso, modificou-se completamente, com a conversão sincrética dos deuses africanos com os santos católicos, de modo que, apesar de permanecerem muitos estigmas acerca das religiões de matriz africana, estas não vinham sofrendo ataques diretos à sua liberdade de crença até a ascensão das igrejas neopentecostais no país.
Como ensina o sociólogo Ricardo Mariano130, os evangélicos identificam as
entidades da Umbanda, os deuses do Candomblé e os espíritos do Kardecismo como demônios, mas os neopentecostais vão mais além, os colocam como os responsáveis pelos infortúnios e sofrimentos do mundo, justificando, assim, o combate à macumba, aos exus, guias e orixás.
A Igreja Universal do Reino de Deus enfatiza uma rivalidade por meio de uma doutrina de antagonismo hierárquico entre Deus (bem) e o Diabo (mal), propondo, para tanto, um papel ético para a religião - o da guerra contra a representação dos demônios materializada nos deuses adorados pelas religiões afro-brasileiras. Assim, objetivam disseminar os ensinamentos bíblicos sobre as ações maléficas desses “demônios”;
129A Teologia da Prosperidade prega que por meio do correto relacionamento com o Criador, o filho de
Deus pode usufruir todas as suas bênçãos inestimáveis e abundantes: cura emocional e física, prosperidade financeira e realização profissional, harmonia nos relacionamentos familiares, êxito nos relacionamentos amorosos e interpessoais. O cristão está destinado a ser próspero, feliz e saudável na vida terrena. Para tanto, deve frequentar uma igreja evangélica, ser fiel no pagamento dos dízimos e generoso nas ofertas, pois só assim poderá exigir de Deus o cumprimento das suas promessas.
130MARIANO, Ricardo. Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal. São Paulo: Estudos
libertar aqueles fiéis “possuídos” através dos rituais de exorcismo e salvar a alma das pessoas das forças demoníacas da humanidade por meio da evangelização e conversão religiosa.
A IURD prega que a principal missão de sua igreja é a libertação da humanidade dos males dos demônios, pois seriam eles os responsáveis pelo sofrimento humano. Para isso, utiliza-se de práticas mágico-religiosas, propondo-se a solucionar problemas físicos, emocionais, financeiros e espirituais dos fiéis mediante seus serviços religiosos, dentre os quais, destacam-se os rituais de “descarrego” e “libertação” que parecem em muito com as práticas das religiões afro.
Em razão de tais práticas, Ricardo Mariano131 entende que a Universal é uma igreja que “rearticula sincreticamente no seu próprio interior crenças e práticas rituais dos seus adversários”, do mesmo modo que, para Ronaldo de Almeida, a IURD se constitui como uma igreja que se situa “a um meio caminho entre os evangélicos e as
religiões afro-brasileiras”132. Entendimento este que se complementa a lição de Ari
Pedro Oro133, segundo o qual, a Universal “é uma igreja que construiu seu repertório simbólico, suas crenças e ritualísticas incorporando e ressemantizando pedaços de crenças de outras religiões, mesmo de seus adversários”.
Ainda no esteio de Ari Pedro Oro134, compreende-se que a Igreja Universal tem
três características primordiais; a) a religiofagia, ou seja, apropriar-se de elementos simbólicos de outras religiões e os ressignificar consoantes às crenças e valores cristãos; b) a exacerbação, isto é, conferir primordial relevância à guerra espiritual contra os demônios cultuados em outras crenças, em especial nas espíritas e; c) a prática da macumba, valendo-se de rituais e práticas mágicas características das religiões afro- brasileiras.
A Universal sincretiza crenças, ritos e práticas das religiões concorrentes, de modo que do catolicismo incorporou as noções de milagre, inferno, pecado, demônio, e sua forma de atuação episcopal. Entretanto, como se sabe, a IURD é uma igreja na qual
131MARIANO, Ricardo. Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal. São Paulo: Estudos
Avançados, 2004, p. 127.
132ALMEIDA, Ronaldo de. A Igreja Universal e seus demônios: um estudo etnográfico. São Paulo:
Editora Terceiro Nome, 2003, p. 340.
133ORO, Ari Pedro. Intolerância religiosa iurdiana e reações afro no Rio Grande do Sul. In: Intolerância
religiosa. Impactos do neopentecostalismo no campo afro religioso brasileiro. São Paulo: EdUSP, 2007, p. 33.
o exorcismo e a demonização das entidades afro-brasileiras ocupa um lugar central no seu discurso e em sua ritualística cotidiana.
Com ensina Mariano135, a igreja realiza “sessão espiritual de descarrego”,
“fechamento de corpo”, “corrente da mesa branca”, retira “encostos”, desfaz “mau- olhado”, asperge os fiéis com galhos de arruda molhados em bacias com água benta e sal grosso, substitui fitas do Senhor do Bonfim por fitas com dizeres bíblicos, evangeliza em cemitérios durante o Dia de Finados, oferece balas e doces “ungidos” aos adeptos no dia de Cosme e Damião, lembrando as práticas religiosas das religiões afro.
Nas sessões “descarrego” e “libertação”, os ditos demônios são convidados a se manifestarem no corpo dos fiéis possuídos, e como pode ser visto no interior dos templos da IURD e nos canais de televangelização, os crentes em transe normalmente identificam-se como deuses (orixás) ou entidades (especialmente Exus e Pombagiras) cultuados nas religiões afro-brasileiras. Assim, os cultos de libertação são dedicados a combater os demônios que habitam os terreiros dessas religiões, que após confessarem seus pecados são exorcizados e humilhados pelos pastores.
No momento do culto, o pastor convida os fiéis a refletirem sobre seus problemas e a orar fervorosamente, suplicando a expulsão dos demônios que estariam causando tamanho sofrimento. Ronaldo de Almeida descreve que durante as sessões de descarrego:
As entidades, por sua vez, não demoram a responder. Do meio do público, ecoam gritos agudos indicando que alguns foram possuídos. O momento é de profunda tensão, pois, conforme a oração vai se realizando, diversos demônios vão se manifestando em meio àquela multidão. Algumas pessoas chegam a bater os pés no chão – pés que foram “ungidos com óleo” na entrada do templo e devem, segundo as palavras do pastor, naquele instante pisar a cabeça do diabo – e, de forma tensa, repetem várias vezes em voz alta: ‘Sai de mim, demônio!’ (2003, p. 84).
Enquanto o fiel permanece em um estado de semiconsciência, quem conversa com os pastores são espíritos malignos. O bispo interroga o demônio que normalmente se identifica como uma entidade cultuada pelas religiões afro. Ao serem possuídos, os fiéis emitem gritos agudos, giram seus corpos, cruzam os braços em suas costas, giram as mãos e os dedos, e os pastores impõem suas mãos sobre os possessos na tentativa de exorcizá-los e expulsar o mal que aquele demônio está causando na vida do fiel.
135MARIANO, Ricardo. Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal. São Paulo: Estudos
Quando explica como esses “demônios” se apoderam das pessoas, Edir Macedo136 deixa claro que isso ocorre por meio do contato com as religiões afro-
brasileiras - por parte do fiel ou de seus familiares -, ou mediante a realização de um feitiço por um inimigo.
Os demônios que causam o sofrimento são as mesmas entidades que habitam os terreiros de Umbanda e Candomblé, o que reflete, não somente a ‘manifestação’ do diabo, mas, acima de tudo, a associação deste com as divindades que são cultuadas por parcela significativa da população brasileira.137
Na realidade, orixás, caboclos e guias, sejam lá quem forem, tenham lá o nome mais bonito, não são deuses. Os exus, os pretos-velhos, os espíritos de crianças, os caboclos ou os "santos" são espíritos malignos sem corpo, ansiando por achar um meio para se expressarem neste mundo, não podendo fazê-lo antes de possuírem um corpo. Por isso, procuram o corpo humano, dada a perfeição de funcionamento dos seus sentidos. (MACEDO, 1990, p. 14).
É comum que, durante a entrevista com o pastor, as entidades das religiões afro- brasileiras, aqui tratadas como espíritos demoníacos, sejam vítimas de humilhação, escárnio e deboche, com o objetivo de demonstrar que o Deus cultuado pela Igreja Universal é superior às divindades afro-brasileiras, bem como que os pastores, por serem abençoados pelo Espírito Santo, têm o poder de atuar sobre os espíritos malignos que ao serem exorcizados “em nome de Jesus” queimarão no fogo do inferno operando a libertação.
O discurso demonizador é cercado de expressões beligerantes como “guerra”, “poder”, “vitória”, “marchar”, “combate”, “Jesus é nosso general”. Ricardo Mariano138, ao analisar os escritos do bispo Edir Macedo, confere especial relevância aos discursos agressivos dos neopentecostais.
Evidente que a demonização neopentecostal reconhece a existência dos deuses
afro-brasileiros, contudo, submete-os ao maniqueísmo valorativo cristão,
desconsiderando suas nuances e especificidades simbólicas. Ademais, reforça
136MACEDO, Edir. Orixás, Caboclos e Guias: deuses ou demônios?. Rio de Janeiro: Unipro. 1990, p. 14. 137Ibid., 1990, p. 89.
138MARIANO, Ricardo. Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal. São Paulo: Estudos
preconceitos e estereótipos historicamente associados às religiões afro-brasileiras devido à herança satanizadora e persecutória do catolicismo.
A adoção de ritos e práticas fundados na teologia de uma guerra espiritual, constitui estratégia proselitista que tem sido mantida, intensificada e até diversificada em razão de sua eficácia.
A marcha proselitista da IURD, fundada na teologia de existência de uma guerra espiritual, tem objetivos expansionistas e alvos institucionais manifestos, o apoderamento do maior número de fiéis, no Brasil e no exterior; e a imposição de seu poder religioso sobre as demais denominações religiosas concorrentes, mediante a conquista de postos governamentais, legislativos, judiciais, educacionais e midiáticos.139
Apesar do sincretismo das práticas da Universal com outras religiões, notadamente às de matriz-africana, isso não levou a suprimir do proselitismo da IURD a intolerância nem sua notória hostilidade aos cultos afro-brasileiros. Daí uma das principais razões de seu envolvimento em diversos incidentes e conflitos religiosos ao longo dos anos.