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2.1 TEORIA ECONOMICA ORIENTADA AO CONHECIMENTO

2.1.1 Teoria baseada no conhecimento da empresa

Toda a teoria da empresa é uma abstração da empresa de negócios do mundo real que é projetado para abordar um determinado conjunto de suas características e comportamentos (MACHLUP, 1967). As teorias econômicas da empresa dizem respeito principalmente à previsão do comportamento das empresas nos mercados externos. Em particular, a teoria neoclássica da empresa utiliza análise de equilíbrio parcial para prever as decisões de compra da empresa em mercados de entrada e decisões de fornecimento em mercados de saída. A teoria organizacional aborda aspectos da firma ignorados pela economia neoclássica (GRANT, 1996). Descartando a noção de empresa como tomador de decisão singular e reconhecendo a empresa como uma organização complexa que abrange múltiplos indivíduos, a teoria organizacional analisa a estrutura interna da empresa e as relações entre suas unidades constituintes e departamentos.

De acordo com Spender (1996), a pesquisa em conhecimento organizacional pode ser analisada com base em duas linhas distintas. A primeira linha, preconizada por Nonaka e Takeuchi (1995), seguida por Drucker, Quinn e Reich, distingue o conhecimento dos fatores tradicionais de produção, trabalho, terra e capital. Compõem essa linha tanto aqueles que consideram a economia do conhecimento e sua produção, quanto daqueles que consideram a gestão da inovação, o design organizacional e as consequências comportamentais dessa mudança histórica. A segunda linha, com os trabalhos de Samuelson (1955) e Arrow (1962), diferenciam o conhecimento usando a noção de "bem público". Enquanto a terra, o trabalho e o capital são bens privados, o conhecimento é muitas vezes dito ser um "bem público", o que significa que é infinitamente extensível e o seu uso por uma pessoa não priva os demais.

Em termos dos diferentes tipos de conhecimento, Polanyi (1962; 1967) fez a distinção entre o conhecimento explícito e implícito. O conhecimento explícito é como o "conhecimento sobre" em sua abstração, enquanto o conhecimento tácito é associado à experiência. A distinção explícita / tácita de Polanyi foi introduzida em nossa literatura por Nelson e Winter (1982) em sua teoria evolucionária da firma.

Os conhecimentos explícito e tácito também foram centrais à teoria da criação do conhecimento organizacional, de Nonaka e Takeuchi (1995). Assim como Polanyi, para os autores a origem de todo conhecimento é a intuição individual. Sua teoria é precisamente focada na transformação e comunicação do que já é conhecido tacitamente pelos funcionários, isto é, na forma como outros funcionários aprendem o que um indivíduo descobriu, e não na noção de Nelson e Winter de que a própria empresa aprende adquirindo melhores rotinas.

Para Nonaka e Takeuchi (1995), o conhecimento organizacional é o conhecimento compartilhado pelos indivíduos, embora transformado e amplificado. Contudo, em sua teoria da empresa permanecem sem explicação como os indivíduos geram conhecimento tácito, e como os problemas óbvios da firma são resolvidos. A principal diferença entre o tratamento de Nonaka e Takeuchi, e o de Nelson e Winter, reside no último pressupondo que a empresa tem a capacidade de aprender, independentemente dos seus empregados, ou do seu raciocínio consciente.

Na visão da empresa com um corpo de conhecimento, uma vez que a origem de todos os recursos tangíveis está fora da empresa, supõe-se que o conhecimento intangível específico seja a mais provável de resultar na vantagem competitiva (NELSON; WINTER, 1982; GRANT; BADEN-FULLER, 1995, BADEN-FULLER; PITT, 1996). Esse conhecimento permite agregar valor aos fatores de produção de entrada de uma forma única. Assim, é o

conhecimento da empresa e sua capacidade de gerar conhecimento que está no cerne de uma teoria epistemologicamente mais sólida da firma.

Nessa lógica, para que a empresa possa se apropriar dos retornos do conhecimento ela deve colocar em prática arranjos institucionais que inibam a fuga de conhecimento, protegendo assim sua vantagem competitiva. Em síntese, se o objetivo da empresa é criar, explorar e defender suas fontes, e se a estratégia é a manifestação de comportamento de busca de renda, então a estrutura e os sistemas da empresa podem ser vistos como mecanismos de isolamento para a proteção de rendas baseadas no conhecimento (GRANT; SPENDER, 1996). Nisto se configura a visão estratégica da estrutura organizacional, mitigar problemas inerentes aos limites de direitos de propriedade associados ao conhecimento.

Contudo, se o conhecimento é o principal recurso sobre o qual a vantagem competitiva é fundada, então a sua transferibilidade determina o período durante o qual seu possuidor pode obter renda a partir dele. Os mercados "eficientes" são aqueles em que a vantagem competitiva é passageira porque as informações relevantes estão disponíveis para todos (GRANT; SPENDER, 1996).

No sentido de estabeleceralgum processo de delimitação em torno da empresa, outra forma de classificar o conhecimento foi desenvolvida (SPENDER, 1996). Na epistemologia múltipla de conhecimento, os modos implícitos de saber foram separados nos tipos psicológicos individual e social, conforme Quadro 4.

Quadro 4 – Matriz de tipos de conhecimento

Individual Social

Explícito Consciente Objetivado

Implícito Automático Coletivo

Fonte: Spender (1996).

De acordo com Spender (1996), esses conhecimentos representam “tipos ideais” e cada firma real será uma mistura de todos eles. O autor complementa que as empresas utilizam cada vez mais conhecimentos explícitos objetivados, quer se trate de ciência ou de normas e práticas estabelecidas, tornando-se cada vez mais dependentes do conhecimento consciente dos seus empregados e da sua formação científica e técnica. No entanto, também permanecem dependentes das práticas qualificadas dos seus empregados, suas habilidades e intuições. A fraqueza da matriz é que ela nos diz pouco sobre como esses diferentes tipos de conhecimento interagem e, portanto, pouco sobre como a empresa desenvolve um contexto

favorável à interação dos processos de criação e aplicação do conhecimento (SPENDER, 1996).

Na visão baseada em conhecimento, as ideias dos clientes e as ideias daqueles que interagem diretamente com os clientes, tornam-se importantes (VON HIPPEL, 1988). Isto pressupõe que a alta gerência possa fornecer o contexto no qual os funcionários, em todos os níveis, tornem-se agentes independentes, assumindo responsabilidades, experimentando, cometendo erros e aprendendo sobre o processo de transformação total da empresa (SPENDER, 1996).

Nesse sentido, se a produção requer a integração do conhecimento especializado de muitas pessoas, a chave para a eficiência é conseguir uma integração eficaz, minimizando a transferência de conhecimento através da aprendizagem cruzada por membros organizacionais (GRANT, 1996). A seguir são apresentados quatro mecanismos de integração de conhecimentos especializados:

a) regras e diretrizes: as abordagens de coordenação envolvem planos, cronogramas, previsões, regras, políticas, procedimentos e sistemas padronizados de informação e comunicação. As regras podem ser vistas como padrões que regulam as interações entre indivíduos. As diretrizes proporcionam um meio pelo qual o conhecimento tácito se converte em conhecimento explícito, sendo facilmente compreensível.

b) sequenciamento: meio mais simples pelo qual os indivíduos podem integrar seus conhecimentos especializados, ao mesmo tempo em que minimizam a comunicação e a coordenação contínua. Consiste em organizar as atividades de produção em uma sequência padronizada no tempo. As características do produto, suas entradas físicas e sua tecnologia de produção influenciam fortemente o potencial de sequenciamento.

c) rotina: embora as rotinas possam ser sequências simples, sua característica interessante é capacidade de suportar um padrão complexo para que nas relações entre os indivíduos não existam regras, diretrizes ou mesmo comunicação verbal significativa. Há duas dimensões principais para essa complexidade. Em primeiro lugar, as rotinas são capazes de suportar um alto nível de simultaneidade do desempenho individual de suas tarefas específicas. Em segundo lugar, as rotinas podem permitir variadas sequências de ação final.

d) grupo de resolução de problemas e tomada de decisão: embora todos os mecanismos mencionados anteriormente vejam a eficiência da integração, evitando

os custos da comunicação e da aprendizagem, algumas tarefas podem exigir formas de integração mais pessoais e intensivas em comunicação. A eficiência na organização deve estar associada à maximização do uso de regras, rotinas e outros mecanismos de integração.

Saindo do âmbito dos processos, as interações que promovem a troca de conhecimento entre indivíduos podem também dar origem a novos produtos. Sanchez e Mahoney (1996) exploraram as relações entre a estrutura do conhecimento incorporado nos produtos da empresa e a estrutura da empresa à medida que gerencia esse conhecimento e o transforma em produtos. Assim, o conhecimento da empresa é medido como produto e estrutura organizacional. Esse posicionamento se encaixa com a pressuposição da teoria da organização, de que a empresa é uma estrutura administrativa que deve de alguma forma se encaixar com o conhecimento manifestado em seus produtos (GRANT; SPENDER, 1996).

Na perspectiva de sistemas complexos, a adoção de projetos de organização estruturalmente decompostos e, portanto, mais adaptáveis para a criação de produtos é sugerida (SANCHEZ; MAHONEY, 1996). A arquitetura de produtos modular é uma forma especial de design que utiliza interfaces padronizadas entre componentes para criar uma arquitetura flexível (ULRICH; EPPINGER, 1995; SANCHEZ, 2002). Essa arquitetura também permite unir rapidamente os recursos e capacidades de muitas organizações, formando cadeias de recursos de desenvolvimento de produtos que possam responder com flexibilidade, isto é, amplamente, rapidamente e a baixo custo à mudança ambiental.