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Teoria da Complexidade nos estudos organizacionais

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.3 COMPLEXIDADE E LIDERANÇA

2.3.2 Teoria da Complexidade nos estudos organizacionais

A teoria da complexidade tornou-se, nas últimas décadas, uma temática amplamente difundida pelo fato de ser objeto de estudo em uma variedade de áreas da ciência. Essa teoria, oriunda da física e da biologia, tem como base o estudo dos sistemas adaptativos complexos (SACs), que auxiliam no fortalecimento da ciência interdisciplinar, pois focam sua análise nas atividades e eventos e como estes ocorrem nas partículas, nas moléculas, nos genes, nos neurônios, nos seres humanos e nas organizações, de modo a alcançarem a auto-organização em estruturas agregadas emergentes (MAINZER, 1994; MELTZER, 1994; FAVRE et al., 1995).

A teoria da complexidade foi importada pelas ciências sociais e outras ciências, na tentativa de superar as deficiências da lógica de causa e efeito, que já não conseguia explicar os fenômenos sociais e seus desafios (MCKELVEY, 2000; MARION; ULH-BIEN, 2001, 2003).

Nessa linha de pensamento, McKelvey (2001) analisa que a aplicação da teoria da complexidade nas organizações oferece uma oportunidade para considerar várias analogias, baseadas na física e na biologia, e adaptadas às organizações, em função da facilidade de correlação dessas ciências com os estudos e processos organizacionais.

Um exemplo dessa transposição de conceitos, citado por McKelvey (2001), é a modelagem computacional baseada em microestados. A origem do conceito adveio da física, que compreende microestados como sendo as diferentes formas de interação que se dão através da troca de energia entre as moléculas de um sistema. A análise dos microestados denota o entendimento de ações do tipo bottom-up, aquelas que surgem dos agentes que executam a ação, e não de uma hierarquia definida.

Para os pesquisadores que estudam as organizações, microestados são definidos como eventos emergentes que ocorrem nos processos organizacionais, oriundos de agentes criativos que atuam nesses processos (MCKELVEY, 2001).

Os processos organizacionais derivam de vários eventos. Abbott (1990, p. 375) afirma que "toda teoria defende processo como sequências de eventos". Outro autor que trabalha sob este prisma é Mackenzie (1986), que define processo como "uma sequência dependente do tempo, de elementos regidos por uma regra chamada de lei do processo" (p. 45) e composto por cinco elementos (1986, p. 46): entidades envolvidas na realização do processo; elementos utilizados para descrever as etapas de um processo; relações entre cada par desses elementos; links para outros processos; e recursos dos elementos.

O processo "especifica a estrutura dos componentes, as relações entre os componentes e as ligações com outros processos" [...] "um processo está sempre ligado a um outro, e um processo é ativado por um evento" (MACKENZIE, 1986, p. 46). Na opinião do autor, um evento "é um processo que sinaliza ou desencadeia a transição de um processo para outro" (1986, p. 46-47).

A teoria da complexidade mostra que os eventos que geram os processos são emergentes, e a resolução dos problemas e encaminhamentos de melhorias podem ocorrer de forma bottom-up e não necessariamente top-down (MARION; UHL-BIEN, 2003; UHL-BIEN; MARION; MCKELVEY, 2007).

Assim como acontece com os microestados organizacionais, os eventos que compõem um processo também são afetados por eventos adjacentes, agentes externos e fatores ambientais externos à organização. No entanto, esses elementos foram negligenciados pelos autores iniciais

dos estudos organizacionais, pois, por décadas, a visão de organização esteve focada em estrutura e hierarquia (MCKELVEY, 2000, 2001).

A teoria da complexidade, no entanto, propõe que as organizações são sistemas compostos por diversos agentes, que interagem mutuamente e são também liderados por comportamentos emergentes do tipo bottom-up. Nessas condições, é necessário um novo paradigma, diverso do tradicional comando e controle, relacionado com a capacidade de interconectividade, nutrida pelos sistemas comportamentais dinâmicos e pela inovação das organizações (MARION; UHL-BIEN, 2003; UHL- BIEN; MARION; MCKELVEY, 2007; MCKELVEY, 2016).

No que tange ao comportamento dos indivíduos (agentes) dentro das organizações, sob o enfoque da teoria da complexidade, os psicólogos estudaram as diferenças individuais em empresas por décadas, detectando que os indivíduos que participam de uma organização possuem interpretações únicas dos fenômenos ocorridos e atribuições exclusivas de causalidade para eventos que os cercam, gerando comportamentos específicos que afetam as organizações (MCKELVEY, 2001).

O esquema construído por Marion (2006) mostra as diferenças entre o paradigma antigo e o novo comportamento organizacional (quadro 1).

Quadro 1 – O antigo paradigma e a nova perspectiva do comportamento organizacional Corrente dominante: paradigma do comportamento organizacional Teoria da Complexidade: perspectiva do comportamento organizacional 1. Foco

Central Visão top-down, convergente na liderança.

Visão bottom-up,

convergente em dinâmicas interativas.

2. Função da

Organização Organizações capacitam os seres humanos para produzir de forma eficiente os resultados úteis em grande escala.

Organizações capacitam os seres humanos a fim de criarem eficazmente o conhecimento para produzir resultados úteis em grande escala. 3. Requisitos

Estruturais Burocracia ou unidade baseada no compromisso.

Bottom-up, organizações complexas.

Continuação 4. Posição

Causal (a) Linear, teoria do processo. (b) Epistemologia baseada nas variáveis. (c) Visão de mundo temporal.

Não linear, teoria recursiva.

Epistemologia baseada em mecanismos e variáveis. Visão de mundo interativa. 5.

Implicação Causal

(a) Resultados são planejados. (b) Líderes são estimulantes causais.

Resultados são surpresas emergentes.

Liderança é um processo emergente.

6.

Motivação Motivação por estruturas centrais (CEOs, regras burocráticas etc.).

Motivação por dinâmicas interativas.

7. Visão Visão de unidade. Visões heterogêneas e indeterminadas. 8. Definição

de Liderança

Líderes são indivíduos que criam a energia organizacional através do carisma, inteligência, consideração

interpessoal, inspiração etc.

Liderança é energia que emerge através da organização sob

determinadas condições.

Fonte: Marion (2006), traduzido pela autora.

A comparação entre os dois paradigmas mostra a diferença entre a concepção organizacional burocrática e a concepção da teoria da complexidade, vinculada à era do conhecimento, conforme apresentado por Marion (2006) e Uhl-Bien, Marion e McKelvey (2007).