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Teoria da Gestão da Ansiedade e da Incerteza

1. Comunicação Intercultural

1.1. Teorias da Comunicação Intercultural Interpessoal

1.1.1 Teoria da Gestão da Ansiedade e da Incerteza

William B. Gudykunst foi professor de comunicação na Universidade de Fullerton do Estado da Califórnia e desenvolveu o seu interesse em comunicação intercultural quando esteve ao serviço da marinha dos EUA no Japão. O seu trabalho era ajudar o pessoal da marinha e as suas famílias a viver numa cultura estrangeira. William Gudykunst levou mais de dez anos a desenvolver a teoria da gestão da ansiedade e da incerteza.

O autor refere que os estrangeiros nos contactos interculturais experimentam crises iniciais de incerteza e ansiedade (Griffin,1994:403:404). Não têm a certeza de como se comportarem e não se sentem seguros. A comunicação entre os estrangeiros e os membros do grupo é afectada por factores interpessoais e interculturais.

À semelhança do que acontece nas teorias da comunicação intercultural interpessoal, Gudykunst, identifica três níveis no processo comunicativo: o emotivo –

motivação, o cognitivo – conhecimento – e o comportamental – destreza (Alsina, 1999:13).

Para Gudykunst “a nossa comunicação é influenciada pela nossa cultura e pelos grupos a que pertencemos, assim como factores estruturais, situacionais e ambientais” (1999:169). As dificuldades de comunicação são mais frequentes quando os interlocutores não partilham a mesma cultura. Nos contactos interculturais, a comunicação pode produzir um grau de ansiedade e de incerteza maior do que na comunicação interpessoal com pessoas da mesma cultura (Alsina, 1999:167).

Segundo Gudykunst “o processo básico da comunicação é o mesmo em todas as culturas, mas cada cultura estabelece as regras de como há que interpretar o conteúdo da comunicação” (cit. in Alsina, 1999:169). Para construir a sua teoria aplicável à interculturalidade, Gudykunst explicita um conjunto de conceitos que considera fundamentais que são os de forasteiro, incerteza, ansiedade, comunicação efectiva e consciência (Alsina, 1999). O autor dá a designação de forasteiros às pessoas a quem se atribui a pertença a um grupo diferente do grupo de referência. O forasteiro é o estranho, o alheio com quem a interacção se caracteriza por uma certa incerteza e ansiedade (cit. in Alsina, 1999:170). Numa escola, ou em qualquer outro contexto, a comunicação com quem chega de outra cultura torna-se sempre mais difícil. No processo comunicacional o grau de incerteza e ansiedade aumentam na mesma proporção do desconhecimento que os interlocutores têm da sua própria cultura e da cultura da pessoa com quem têm que interagir. Para Gudykunst, a incerteza é um fenómeno cognitivo que condiciona o pensamento durante a comunicação. O autor reconhece dois tipos de incerteza:

a) A incerteza preditiva relacionada com a predição das atitudes, sentimentos, crenças, valores e condutas dos forasteiros, isto é, no momento que se tem que estabelecer uma interacção com alguém que nos é estranho existe sempre uma certa insegurança.

b) A incerteza explicativa, está relacionada com a incerteza em relação às explicações das atitudes, sentimentos e pensamentos dos forasteiros. Às vezes é difícil encontrar explicação para certas reacções de um estranho de acordo com nossos próprios critérios culturais (cit. in Alsina, 1999:170-171).

Para Gudykunst, todos somos forasteiros em potência e em toda a relação existe um grau de incerteza. Essa incerteza aumenta quando interagimos com pessoas que não pertencem ao nosso grupo cultural (cit. in Alsina, 1999:170-171).

A ansiedade é uma emoção de toda a interacção (Gudykunst, 1999:171) de carácter essencialmente adaptativo. Para Gudykunst, as situações onde se desencadeiam a reacção de ansiedade têm em comum, em geral, a previsão subjectiva de possíveis consequências negativas para o indivíduo (Alsina, 1999:171).

Um elevado grau de ansiedade leva à utilização do estereótipo23 para explicar até o incompreensível na conduta dos outros. Este tipo de atitude torna a comunicação ineficaz. Mas o que é uma comunicação eficaz?

Para Gudykunst, uma comunicação é eficaz quando se atinge um grau de compreensão aceitável entre os interlocutores. Não é uma comunicação perfeita, mas uma comunicação que possibilite entendimento (Alsina, 1999:168).

A comunicação não implica unicamente intercâmbio de mensagens, ela é, também, um processo de interpretação e construção de sentido (Gudykunnst, (1995), cit. in Alsina, 1999:172).

Processo de comunica

Processo de comunicaççãoão

Canal

Cultura

Cultura

Receptor Emissor Receptor Emissor Constru

Construçção de sentidoão de sentido

Na comunicação intercultural, as pressuposições ou os subentendidos devem ser explicados. Não podemos partir do pressuposto que as pessoas interpretam as mensagens com o mesmo sentido que lhe damos. Temos que ter consciência que “não há duas pessoas que interpretem as mensagens da mesma maneira” (Alsina, 1999:172).

23 Para ressaltar a grande força dos estereótipos Alsina refere que na nossa vida diária quando nos

encontramos com alguém que não se ajusta ao estereótipo que temos dum membro dessa cultura, por exemplo com um membro de etnia cigana, temos por hábito pensar “não parece cigano”. “Com este pensamento a realidade empírica é submetida ao estereótipo” (Alsina, 1999:172).

Entendemos as pessoas que nos rodeiam e que partilham os nossos referentes culturais com as categorias sociais que adquirimos com a nossa cultura. Se vivêssemos numa sociedade monocultural, essas categorias seriam suficientes, mas como actualmente não existem sociedades monoculturais temos que criar novas categorias e subcategorias para dotar de sentido todas as situações que fujam à nossa compreensão para desta forma deixarem de constituir um problema (Alsina, 1999:172:173).

Assim, temos que ter consciência de que na comunicação intercultural não podemos actuar de “piloto automático”, temos que ter consciência do “processo comunicativo e dos significados e valores implícitos que utilizamos.” (Alsina, 1999:174). Ser consciente significa reconhecer que existem formas diferentes de interpretação das mensagens que se produzem na interacção comunicativa; significa contrariar o pensamento de que os nossos interlocutores interpretam os nossos discursos tal como os produzimos.

Gudykunst reconhece que a motivação, o conhecimento e a destreza são componentes que influenciam a competência comunicativa (Alsina, 1999:174). Para comunicarmos é preciso estarmos motivados. Gudykunst enfatiza a necessidade de comunicação com o outro diferente como forma de adquirir segurança e ultrapassar os problemas de incompreensão. O melhor conhecimento do outro facilita a predição dos seus comportamentos. Para o autor considerar o “outro”, como próximo, facilita o processo de comunicação (Alsina, 1999:176).

Criar vínculos sociais com os outros é um factor motivacional que influencia positivamente a conduta do interlocutor durante o processo de comunicação. O orgulho e a vergonha são emoções sociais que aumentam a incerteza e a ansiedade constituindo- se num importante entrave à comunicação efectiva (Alsina, 1999).

Por último, parece-nos pertinente ressaltar a perspectiva de Gudykunst em relação às expectativas em relação ao outro e à sua importância no momento das interacções. Para Gudykunst, é a nossa cultura que estabelece as expectativas em relação aos outros. As nossas expectativas podem condicionar positiva ou negativamente a interacção com os outros. A ausência de conhecimento da outra cultura assim como expectativas negativas – preconceitos, etnocentrismo, estereótipos negativos aumentará a incerteza e a ansiedade na nossa relação com o outro (idem).

Um maior conhecimento das outras culturas ajudará a uma comunicação mais efectiva. Daí a importância do “conhecimento das semelhanças (pode originar uma maior cumplicidade entre as culturas) e das diferenças com as outras culturas” (Gudykunst, cit. in Alsina, 1999:179).

Relativamente ao comportamento, última componente necessária para se conseguir uma comunicação efectiva, Gudykunst faz referência, como já foi referido anteriormente, à habilidade para criar novas categorias para compreender as actuações dos outros nas relações que estabelecemos com eles. Para nos relacionarmos e nos compreendermos no nosso ambiente cultural bastam-nos as categorias que nos proporciona a nossa própria cultura. Ser tolerante com a ambiguidade é uma capacidade que nos permite gerir a ansiedade e ultrapassar situações na ausência da informação que necessitamos para interagir com o outro durante o processo de comunicação. A capacidade de criar empatia e de participar emotivamente numa realidade que lhe é desconhecida permite a uma pessoa sentir o que sentiria caso estivesse na situação e circunstância experimentada por outra pessoa (Alsina, 1999:180). Trata-se de ver o mundo com os olhos do nosso interlocutor. Metaforicamente consistiria em colocar os óculos de outra pessoa, e passar a ver o mundo do modo que essa pessoa vê.