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PARTE I Enquadramento teórico sobre motivação no trabalho

2. Teorias da Motivação no Trabalho

2.1 Teorias de Conteúdo Gerais

2.1.1 Teoria da Hierarquia das Necessidades de Maslow

No ano 1943, Abraham Maslow, psicólogo norte-americano, elaborou um modelo teórico que tinha como objetivo explicar os motivos de natureza psicológica no comportamento humano, designado como a Hierarquia das Necessidades (Maslow, 1943).

Maslow (1943) considera “necessidade” a manifestação natural de sensibilidade interna, que leva a que o individuo “se mova” para realizar determinada ação, ou seja, o comportamento das pessoas é motivado pelo desejo de satisfazer determinado tipo de necessidades. As ditas

Teoria da Hierarquia das Necessidades de Maslow

Teoria das Necessidades Adquiridas de McClelland

Teoria ERG de Alderfer

1943 1961 1972

Fonte: Realização própria. Figura 3. Cronologia das Teorias de Conteúdo Gerais

1940 1950 1960 1970 1980

15 Necessidades de Autorrealização (desenvolvimento e realização pessoal) Necessidades de Estima (autoestima, reconhecimento, estatuto) Necessidades Sociais

(sentido de pertença, amor)

Necessidades de Segurança

(segurança, proteção)

Necessidades Fisiológicas

(alimentação, água, abrigo)

necessidades são universais e estão organizadas numa pirâmide, tendo em conta o seu grau de importância.

Assim, Maslow (1954) dividiu as necessidades humanas em cinco categorias: necessidades básicas ou fisiológicas, de segurança, sociais, estima e autorrealização, que por sua vez, podem ser ainda divididas em duas classes: necessidades primárias ou de ordem inferior (fisiológicas e de segurança) e necessidades secundárias ou de ordem superior (sociais, estima e autorrealização), como se pode observar na Figura 4:

Nesta pirâmide só é possível subir para um nível superior quando as necessidades do nível inferior estiverem satisfeitas. Para motivar um individuo era necessário saber em que nível da hierarquia se encontrava para focar a satisfação num nível superior. Contudo, para avançar de nível as necessidades do nível em questão tinham de estar satisfeitas, deixando de serem motivadoras (Kotler & Keller, 2000).

De acordo com a sua importância e influência no comportamento humano, da base para o topo, existem:

Necessidades Fisiológicas: correspondem às necessidades biológicas, de sobrevivência,

que exigem a satisfação permanente, como por exemplo, a fome, a sede, o cansaço, abrigo, repouso, sexo, oxigénio; referem-se ao nível mais elementar da existência humana (Cunha et al., 2014), caso não sejam satisfeitas podem determinar o comportamento do indivíduo.

Após serem satisfeitas, dão lugar à motivação de alcançar outras necessidades que se encontram ainda por satisfazer. Este ciclo repete-se constantemente ao longo dos vários níveis da pirâmide (Maslow, 1954).

Fonte: Kotler & Keller (2000:161). Figura 4. Hierarquia das Necessidades de Maslow

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Necessidades de Segurança: estão relacionadas com a procura da proteção contra o

perigo ou privação, procura de estabilidade e ambientes previsíveis, nomeadamente a violência, doença, pobreza, guerra, roubo e desemprego. Atualmente, este tipo de necessidade pode refletir-se no derefletir-sejo de ter uma poupança bancária ou de ter um emprego estável (Cunha et al., 2014). Caso o individuo sinta que está em perigo, o seu comportamento pode ser dominado por este sentimento.

Necessidades Sociais: referem-se à procura de relações interpessoais e sentimentos

recíprocos (Cunha et al., 2014), desejo de associação, participação, aceitação, troca de amizade, afeto e amor. Esta necessidade envolve reciprocidade, partilha de afetos, dar e receber (Maslow, 1954). Se o individuo não satisfizer estas necessidades, pode sentir-se frustrado e com dificuldade em se adaptar ao meio envolvente, levando ao isolamento.

Necessidades de Estima: podem ser observadas de duas formas: em primeiro lugar o

desejo de força, realização, adaptação, competência, confiança e independência; em segundo lugar o desejo de reputação ou prestígio, estatuto, domínio, reconhecimento, atenção, importância, dignidade e admiração dos outros relativamente à forma como o trabalho é desempenhado (Maslow, 1954).

Estas necessidades referem-se à forma como o individuo se vê e se autoavalia, isto é, necessidades cuja satisfação contribua para a sua própria apreciação positiva e para o reforço da sua confiança. “Pessoas com um emprego estável, razoavelmente remuneradas e com um relacionamento social satisfatório podem mesmo assim sentir-se frustradas” (Cunha et al., 2014:120).

Caso estas necessidades não sejam satisfeitas resultam em sentimentos de inferioridade, dependência, desamparo, entre outros. (Cunha et al., 2014).

Necessidades de Autorrealização: correspondem às necessidades de nível mais elevado,

encontrando-se assim no topo da hierarquia de Maslow. Para Maslow (1954:46) “o que os humanos podem ser, devem de o ser”, isto é, alcançando a realização do potencial máximo de cada individuo, bem como o desenvolvimento das capacidades e competências individuais. Enquanto os níveis anteriores podem ser satisfeitos através de recompensas extrínsecas, as necessidades de autorrealização só podem ser satisfeitas por recompensas intrínsecas, ou seja, sentimentos de realização que a própria pessoa sinta.

Ao contrário das anteriores esta necessidade não é visível, podendo ser camuflada pelo indivíduo (Maslow, 1954). As necessidades de autorrealização em particular, dificilmente estão satisfeitas, visto que por mais que o individuo se sinta satisfeito, com o surgimento de novos desafios, o seu desejo de melhoria individual e de contínua exploração irá aumentar (Maslow, 1954).

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Se estas necessidades não sejam satisfeitas podem resultar em desordens psicológicas e emoções negativas, uma vez que cada pessoa satisfaz estas necessidades de forma diferente (Cunha et al., 2014).

De certo modo, existem argumentos que justificam a teoria de Maslow, ou seja, de acordo com Chiavenato (2010) são:

- As necessidades que não são satisfeitas influenciam o comportamento do individuo, orientando-o para metas ou objetivos individuais, dado que uma necessidade satisfeita não é motivadora de comportamento;

- As necessidades fisiológicas já nascem com o próprio individuo, podendo ser inatas ou hereditárias, como o sono, a fome, a sede, sexo, entre outras. O comportamento inicial do individuo está voltado para satisfazer estas necessidades de forma cíclica;

- A partir de uma determinada idade, o individuo necessita de aprender a satisfazer novas necessidades como as de segurança (proteção contra o perigo e contra as ameaças e a privação), constituindo deste modo necessidades primárias (fisiológicas e de segurança) que estão relacionadas com a própria conservação e sobrevivência do individuo;

- Conforme a pessoa vai aprendendo a controlar as necessidades primárias, vão surgindo de forma gradual e lentamente as necessidades secundárias de aprendizagem. Assim, as necessidades secundárias apenas surgem à medida que as primárias são satisfeitas e vão ficando dominadas;

- O comportamento do individuo torna-se mais complexo, passando a ser influenciado por um grande número de necessidades que se articulam na hierarquia;

- As pessoas procuram satisfazer primeiro as necessidades primárias antes de focalizarem o seu comportamento nas necessidades mais elevadas;

- As necessidades mais baixas necessitam de um processo motivacional mais rápido (comer, dormir, entre outros), enquanto as mais elevadas requerem um ciclo bastante mais longo.

Resumindo, segundo Chiavenato (2010), a Teoria da Hierarquia das Necessidades de Maslow está dividida em duas classes: necessidades primárias ou de nível inferior (fisiológicas e de segurança) e necessidades secundárias ou de nível superior (sociais, de estima e de autorrealização).

No que concerne às primeiras necessidades, estas podem ser satisfeitas externamente, isto é, por meio de remuneração, permanência no trabalho, bem como as próprias condições; em relação às segundas, estas são satisfeitas internamente, ou seja, dentro do individuo, como se pode verificar na Figura 5 (Chiavenato, 2010):

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A teoria de Maslow está construída sobre o princípio de que as pessoas têm necessidade de crescer e desenvolver, suposição válida para algumas pessoas, mas não para todas (Chiavenato, 2010).

No entanto, o modelo teórico desenvolvido por Maslow foi alvo de críticas devido à falta de confirmação empírica (Cunha et al., 2014), uma vez que muitos autores duvidaram da universalidade da pirâmide, dado que nem todos os indivíduos hierarquizavam da mesma forma as suas necessidades (Santos, 2008). A maioria das pessoas não consegue alcançar o topo da pirâmide, sendo que os diferentes rumos de vida levam a que as pessoas se preocupem com diferentes necessidades. Umas dão maior importância às necessidades de autorrealização e outras não passam das necessidades de segurança e fisiológicas (Santos, 2008).

Segundo Cunha et al. (2014), algumas críticas que podem ser feitas à teoria de Maslow são: a teoria coloca as necessidades de autorrealização no topo da hierarquia, no entanto esta lógica representa mais as culturas individualistas, nas quais estas necessidades assumem um papel fundamental, do que as culturas coletivistas e nas quais a harmonia interpessoal ocupa um lugar

Fonte: Chiavenato (2010:249). Necessidades de Estima Necessidades Sociais Necessidades de Segurança Necessidades Fisiológicas - Comida - Água - Sexo - Sono e repouso - Educação - Crescimento pessoal - Passatempos - Religião - Aprovação da família - Aprovação dos amigos -Reconhecimento da comunidade - Família - Amigos - Grupos sociais - Comunidade - Autonomia - Liberdade - Proteção contra violência e abrigo -Trabalho desafiante - Diversidade - Autonomia - Crescimento pessoal -Participação nas decisões -Remuneração, benefícios, horário de trabalho e intervalos de descanso - Conforto físico - Reconhecimento - Responsabilidade - Orgulho - Promoções - Amizade dos colegas - Integração com clientes - Chefia amigável - Camaradagem -Trabalho seguro - Permanência no emprego - Proteção Necessidades de Autorrealização Satisfação fora do trabalho Satisfação no trabalho

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importante. Para estes autores, as pessoas divergem na hierarquia de prioridades que atribuem à satisfação das diversas necessidades, como por exemplo, algumas pessoas podem colocar no topo dos seus desejos a satisfação das necessidades sociais e não as de autorrealização.

“A satisfação de algumas necessidades poderá ser instrumental para a satisfação de outras. Daí decorre que, por exemplo, em determinadas sociedades ou meios sociais, as pessoas poderão colocar as necessidades sociais numa posição mais ‘básica’” (Cunha et al., 2014:121), ou seja as pessoas acreditam que se tiverem boas relações sociais e de interajuda podem satisfazer algumas necessidades fisiológicas e de segurança. Algumas pessoas transpõem o nível das necessidades de autorrealização, procurando superar os seus autointeresses em prol dos interesses do grupo.

Em suma, de acordo com Cunha et al. (2014), o modelo de Maslow ajuda a compreender que pode existir um grande equívoco nesta matéria, isto é, o que motiva o comportamento das pessoas é a satisfação das necessidades e não a satisfação das necessidades de nível superior; a satisfação das necessidades primárias não ocorre com a realização de tarefas desafiantes e ricas, mas sim, com maior salário e condições de trabalho e por último, as pessoas com níveis salariais baixos não têm as necessidades de nível inferior satisfeitas.

Embora a teoria seja genérica e padronizada, representa um importante modelo de compreensão do comportamento individual do comportamento organizacional devido à sua simplicidade e facilidade de compreensão, e à sua natureza intuitiva (Chiavenato, 2010).