As Teorias da Identidade Social (TIS) da Auto-Categorização (TAC) desenvolvidas principalmente por Henry Tajfel e John Turner, respectivamente, no fim dos anos 70 e primeira metade dos anos 80, propõem que as pessoas categorizam a si mesmas e aos demais e desenvolvem identificações com base nestas categorizações. Tais categorias são definidas com base em características comuns e prototípicas abstraídas com base na observação direta ou não de seus representantes (ASHFORT e MAEL, 1989).
Este sistema de categorização e classificação, segundo Ashfort e Mael (1989) proporciona às pessoas uma ordenação do ambiente e permite ao indivíduo se localizar e definir em relação a este ambiente.
IDENTIDADE SOCIAL AUTOCATEGORIZAÇÃO Proporciona a autodefinição que deriva
do reconhecimento de ser parte de um ou vários grupos sociais, juntamente com o significado emocional e de valor atribuído a esta filiação.
As representações cognitivas das identidades tomam a forma de categorias sociais, e servem de referências para a definição cognitiva do “eu”, pelo reconhecimento de detenção ou não destas características.
Conduz ao favorecimento dos membros
do endogrupo sobre os do exogrupo. Acentua as diferenças entre o endogupo e os exogrupos relevantes. Grupos sociais são caracterizados pela
independência entre os membros. A identidade social deriva do reconhecimento de pertencimento a determinados grupos.
Categoria social refere-se ao coletivo de indivíduos, que compartilham ao menos uma característica. Proporciona condições para a comparação entre grupos e decorrente reconhecimento de pertencimento
Descreve e prescreve formas de pensar e agir em decorrência do pertencimento a determinado grupo social.
Grupos sociais são definidos com base em agrupamentos de pessoas similares e estabelecem as fronteiras com os dissimilares.
A identificação do indivíduo como um membro de um grupo e como indivíduo são ambas as partes de seu autoconceito.
Distingue a identidade pessoal da identidade social e propõe que a extensão em que o indivíduo se define no nível pessoal ou social é ajustável, em função do contexto.
Quadro 1: Contribuições conceituais das teorias da Identidade Social e Auto-Categorização. Fonte: Autoria própria.
Ambas as teorias trouxeram contribuições distintas à abordagem da identidade social, com base na sumarização de Hogg (2001) sobre as teorias, buscou-se reunir no quadro 1 algumas destas contribuições, enfatizando as distinções e inter-relacionamentos.
As identidades classificadas como pessoal ou social são as mais comumente encontradas nos estudos sobre o fenômeno, porém no contexto organizacional podemos ainda relacionar a identidade no trabalho e identidade organizacional (MACHADO, 2003).
Ferdman (1995) apesar disso argumenta que qualquer nível de identidade é uma construção social, porque seu desenvolvimento se processa a partir de referências das experiências de socialização. Por estas referências estabelecemos as expectativas de nossa
vida, determinamos nossos limites de atuação e escolhemos nossos comportamentos (TAJFEL, 1972 apud HOGG, 2001). Daí que o conceito identidade social encerra em sua concepção tanto o nível individual quanto o grupal. O indivíduo é visto como tendo um repertório de identidades sociais e pessoal. O maior ou menor destaque de uma determinada identidade para o indivíduo variará em função da sua relevância para o contexto (HOGG, 2001).
Para Machado, é por meio da distinção entre o individual e social que se processa a definição do indivíduo na formação das identidades sociais. A identidade social concerne à noção de “nós” que se distingue da identidade pessoal pela qual o indivíduo se define em termos de “eu”. Ao categorizar-se como pertencente a determinado grupo, o indivíduo deixa de perceber-se como diferente para perceber-se como igual e, desta forma, “abre mão” de sua unicidade. Suas características como membro de um grupo sobrepõe-se às que o distingue como indivíduo, único e dessemelhante (MACHADO, 2003).
Ferdman (1995), em contraposição, defende que parte de quem somos é composta por nossas afiliações grupais, nossas identidades sociais, e parte em função dos traços que nos distinguem como únicos, nossa identidade pessoal. Por isso ser membro de um grupo e ser um indivíduo único são ambas partes do autoconceito, não se excluem e sim se incluem. Em sua interpretação da teoria da identidade social a sociedade ou grupo não é algo estranho e externo, imposto à pessoa, ela é uma parte real, verdadeira e vital da pessoa (FERDMAN, 1995).
Desta forma percebemos-nos como sendo mais ou menos afiliados a um grupo dependendo das circunstâncias. Somos confrontados todo o tempo com situações sociais que nos proporcionam a definição de quem somos, por meio de um processo de figura e fundo onde uma das identidades sempre parecem "saltar", se salientar em relação às outras, de
acordo com a importância relativa desta identidade em relação a outras no contexto específico. Sob determinadas circunstâncias uma identidade social que é mais saliente no autoconceito eliciará um comportamento diferente que outra identidade produziria (ASHFORTH e JOHNSON, 2001).
Três condições são necessárias para que uma identidade social se estabeleça: (HOGG, 2001, passin).
Primeiro a categorização ou rotulação das pessoas em diferentes categorias com base em características. Nós categorizamos os objetos a fim de compreendê-los e saber como lidar com eles, por exemplo: quente, molhado, grande, longe. De uma maneira muito similar nós também categorizamos as pessoas, inclusive nós mesmos, para também compreender a realidade social e saber como lidar com ela, reduzindo o nível de incerteza (HOGG, 2001). Usamos categorias tais como homem, branco, mulher negra, cristão católico ou muçulmano africano, estudante ou professor, dono da loja de ferragens da esquina, etc. Fazemos isso porque precisamos atribuir às pessoas uma categoria que nos diga algo sobre elas, e sem a qual não conseguiríamos entender o ambiente apropriadamente e como nos comportarmos em relação a elas (TRIANDIS, 2003).
A partir das categorias que estabelecemos é também possível identificar coisas a nosso próprio respeito ou escolher o comportamento apropriado para cada situação em função das normas dos grupos a quais pertencemos (ASHFORTH e JOHNSON, 2001).
A segunda condição presente para a definição de uma identidade social é a identificação, ou o reconhecimento de pertencimento a um grupo. A identificação se processa por meio da percepção de semelhanças e diferenças em traços e características (visíveis ou não) e da identificação do indivíduo com tais traços comuns aos demais indivíduos componentes deste grupo. Não há identidade sem identificação (MACHADO, 2003).
Está implícita no conceito de identificação a idéia que somos, de alguma forma, iguais a algumas pessoas e diferentes de outras. Por iguais se entenda que para finalidades particulares percebemos similaridades ou dissimilaridades.
Dito de outro modo, a identidade estabelece-se pela imagem e significação que o indivíduo faz de si mesmo no contexto específico, relativa aos grupos a que pertence, mas também aos que não pertence (MACHADO, 2003).
Terceiro, além de comparar similaridades e dissimilaridades, avaliamos o quão positiva resulta a comparação. Demonstramos uma tendência para avaliar favoravelmente o grupo com qual nos identificamos e o significado emocional que ele representa. Esta avaliação favorável dos grupos a que pertencemos é base para o desenvolvimento de um autoconceito positivo. Há evidências que para um melhor ajustamento social necessitamos sentir-nos bem sobre nós mesmos (HOGG e TERRY, 2000).
Por um lado temos a identificação positiva projetada no grupo de pertencimento, e de outro a identificação negativa projetada no outro (MACHADO, 2003). Em outras palavras a identificação reforça a percepção de fronteiras de grupo propiciando um sentimento de “nós” contra “eles” ou “eu” contra “ele” ou “ela” (HOGG E TERRY, 2000).
Buscamos melhorar a auto-estima ao identificar-nos com outros em nosso grupo, e ver-nos como membros de um grupo de prestígio, mas também pela comparação com outros grupos avaliados menos positivamente. Por isso as pessoas escolhem comparar seus grupos com outros grupos que reflitam esta identificação positiva (HOGG E TERRY, 2000).
A comparação entre grupos se dá por dois movimentos. Primeiro as pessoas são motivadas a verem seu próprio grupo como relativamente homogêneo na dimensão mais valorizada, de modo que o próprio grupo seja visto favoravelmente. Depois tendem a
minimizar a percepção das diferenças entre os grupos nas dimensões menos valorizadas (HASLAM E PLATOW, 2001).
Dito de outra forma, o processo de categorização promove maior relevância às similaridades dentro das categorias e às diferenças dentre as categorias. A percepção das diferenças entre os membros de uma mesma categoria é minimizada, desta forma os membros desta categoria parecem-se mais similares entre si, e as diferenças com membros de categorias diferentes são maximizadas, aumentando a percepção de dissimilaridade.
Grupos também tendem a perceber os membros de outros grupos como mais homogêneos entre si (HOGG E TERRY, 2000) do que os membros de seus próprios grupos, que são percebidos como mais variados. Este fenômeno tem claras implicações para o desenvolvimento de estereótipos (TRIANDIS, 1995).
Os indivíduos e grupos escolhem as dimensões de comparação de forma a maximizar a positividade de seu próprio grupo. Por exemplo, os grupos que se percebem tendo elevado status em uma dimensão particular escolherão esta dimensão como a base da comparação, enquanto que grupos que percebem negativamente uma dimensão escolherão dimensões novas para comparação, retro alimentando as informações disponíveis para novas categorizações (ASHFORTH e JOHNSON, 2001).
Em resumo, o processo de identificação social implica em três condições a categorização dos indivíduos, inclusive a si próprio, a identificação com determinados grupos, por conta da percepção de similaridades com os demais indivíduos deste grupo e a avaliação comparativa entre os grupos de pertencimento e não pertencimento, conforme Figura 3 ilustrativa abaixo.
CATEGORIZAÇÃO •Experiências prévias •Crenças •Associações IDENTIFICAÇÃO •Semelhanças “nós” •Diferenças “eles” AVALIAÇÃO •Identificação positiva - Melhor • Identificação negativa - Pior CATEGORIZAÇÃO •Experiências prévias •Crenças •Associações IDENTIFICAÇÃO •Semelhanças “nós” •Diferenças “eles” AVALIAÇÃO •Identificação positiva - Melhor • Identificação negativa - Pior Figura 3: Processo de Identificação Social.
Fonte: Autoria própria.
As organizações, dada suas características de estruturação por processos, atividades, produtos, regiões geográficas, etc. são contextos perfeitos para o desenvolvimento de grupos sociais e, por decorrência, das identidades sociais (HOGG, 2001). Por outro lado, Jost e Elsbach (2001) apontam para o fato de que, não raramente, os conflitos grupais não gerenciados podem ser fontes de conseqüências negativas para a maioria das organizações.