CAPíTULO 2. ESCOLA BANCÁRIA
2.4. FUNDAMENTOS DE UMA TEORIA ALTERNATIVA DA MOEDA
2.4.3. Postulado da Endogeneidade
2.4.3.4. Teoria do Crédito
Ainda hoje, a maioria dos livros-textos sobre "Moeda &
Bancos" começa com a análise de um estado de coisas onde a moeda de curso forçado é o único meio de pagamentos e de empréstimos.
Não se destaca, de início, o vasto sistema de créditos e débitos, de direitos e obrigações, pelo qual a sociedade capitalista contrata seus negócios.
Somente mais adiante se introduz a moeda-bancária ou creditícia. Ela age como substituta da moeda de curso forçado. No entanto, esta não é deixada de ser mostrada com um papel fundamental na imagem teórica da estrutura financeira, mesmo quando na prática pouco fica deste papel fundamental.
Historicamente, este método de construir a análise da moeda, do meio circulante e do sistema bancário é justificável, como mostra Schumpeter . Enquanto a estrutura de crédito foi se desenvolvendo, 80 o arcabouço jurídico era dirigido no sentido de uma perfeita distinção entre a moeda, como o padrão legal de pagamentos, e o instrumento do crédito, o qual compreendia um direito sobre a moeda.
Schumpeter lembra, em sua maioria, os economistas não eram homens de negócios, mas sim juristas. Acha, porém, teria sido mais útil começar com as transações de crédito da realidade, para encarar as finanças capitalistas como um sistema de compensação capaz de cancelar direitos e obrigações e transferir diferenças, de forma os pagamentos "em moeda" só aparecerem residualmente.
Nas palavras de Schumpeter: "prática e analiticamente, uma teoria creditícia da moeda é, possivelmente, preferível a uma teoria monetária do crédito".
SCHUMPETER; op. cit.; pp. 412-418.
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Os principais autores ingleses – de Thornton a Mill –, na primeira metade do século XIX, exploraram a economia creditícia. Ao fazer isto, realizaram descobertas constituintes de suas principais contribuições para a análise monetária.
No entanto, na opinião de Schumpeter, não chegaram a construir uma teoria creditícia sistemática da moeda, acabando por se apegarem à teoria monetária do crédito. Esta, desenvolvendo a teoria da rede de pagamentos através de créditos a partir do caso dos pagamentos em espécie, atribui à moeda de curso forçado uma posição logicamente privilegiada. Distingue-se, portanto, daquela análise onde se coloca a moeda e os depósitos, essencialmente, no mesmo pé de igualdade teórica.
A diferença jurídica entre o poder liberatório do meio circulante oficial e o de outros instrumentos de crédito marcava a mentalidade legal. “É por essa razão a percepção de Thornton do fato de diferentes meios de pagamentos poderem, em um certo nível de abstração, ser tratados como essencialmente semelhantes. Foi uma grande realização analítica, pois o simples profissional, de um modo geral, ficará mais impressionado pelas diferenças técnicas em vez das semelhanças fundamentais” . 81
No entanto, as opiniões opostas sempre encontraram defensores. Alguns escritores – por exemplo, Tooke – negaram veementemente o crédito agir sobre os preços.
Mill (Livro II, cap. 12, 1o. parágrafo) afirmou, pelo contrário, o crédito agir sobre os preços – e não as notas bancárias, os títulos e os cheques. Ele queria dizer o poder aquisitivo de um indivíduo não ser integralmente representado pelo montante de instrumentos de crédito efetivamente utilizados em pagamentos, mas pelo montante total possível de um indivíduo dominar se desejasse, isto é, pelo crédito potencial.
A taxa de empréstimo do mercado monetário era, para Smith, simplesmente a sombra da taxa de lucro sobre o capital real. Isto
SCHUMPETER; op. cit.; p. 414.
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continuou a opinião dominante por todo o século XIX, inclusive foi a opinião de Ricardo, até a contribuição teórica de Wicksell superá-la.
As contribuições de Thornton para o problema da relação entre moeda, preço e taxa de juros real foram amplamente esquecidas.
Thornton apresentou todos os fundamentos de uma completa análise do mercado para fundos emprestáveis. Gira em torno do teorema do equilíbrio fundamental: a de a taxa de empréstimos (juros monetários) tende a ser igual aos lucros marginais esperados dos investimentos.
"O equilíbrio do teorema de Thornton é instável: um incremento nos empréstimos além do montante de equilíbrio, eventualmente, resultará em uma elevação dos preços e, se a taxa de juros continuar a ser mantida em seu nível antigo (o nível responsável por induzir a primeira expansão), empréstimos adicionais continuarão a ser lucrativos ao novo nível de preços. Uma expansão posterior do crédito se seguirá, e assim por diante, sem qualquer limite definível, e teremos o Processo Cumulativo Wickselliano" . 82
O processo inflacionário descrito por Thornton pressupunha uma expansão não compensada de empréstimos. Se o incremento nos empréstimos fosse compensado, por exemplo, pela chamada
"poupança", não daria início àquele processo.
No entanto, ele deixou de estabelecer explicitamente a condição de equilíbrio estável no mercado de fundos emprestáveis.
Em 1898, Wicksell formulou-a, afirmando os empréstimos deverem ser iguais às "poupanças voluntárias" do público.
Entretanto, Thornton compreendeu a não-neutralidade da moeda, em relação à produção, porque dizia os empréstimos bancários se acresciam aos meios de pagamentos e podiam estimular a produção, ao invés de elevar os preços, se incidissem sobre um economia com desemprego. Depois de atingido o pleno emprego, a expansão do crédito podia ainda ter algum efeito sobre a produção,
SCHUMPETER; op. cit.; p. 416.
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embora Thornton demonstrasse que este efeito seria inferior ao efeito inflacionário.
S e a l g u m a s r e n d a s m o n e t á r i a s n ã o s e e l e va s s e m concomitantemente com os preços, seus receptores podiam ser forçados a reduzir suas compras de bens e serviços, isto é, realizar um tipo de "poupança involuntária". Ela podia aumentar o capital real. Assim, na opinião de Schumpeter, Thornton antecipou a doutrina de Wicksell da Poupança Forçada.
"Ricardo fez ouvidos moucos à sugestão de Thornton e ficou a repetir inúmeras vezes (...) o capital 'fictício' não poder estimular a indústria, o capital só poder ser criado pela poupança e não pelas operações bancárias (...). Ricardo foi um prisioneiro de idéias pré-concebidas. Nesse caso, ela alçou as suas cores no mastro de uma rígida teoria quantitativa. A Teoria Quantitativa da Moeda implica em não haver relação entre a quantidade de 'moeda' e a produção. E ele simplesmente não admitiria poder haver uma relação qualquer, no final das contas" . 83
Schumpeter defende a tese da antecipação de Thornton em relação a Wicksell. “Os principais economistas praticamente esqueceram tudo sobre 'a criação de depósitos adicionais' e sobre 'poupanças forçadas', tanto assim a ponto de olharem com desconfiança para a redescoberta dos mesmos feita por Wicksell.
Tomando emprestado uma expressão usada por Lorde Keynes com relação a outro assunto, estas noções, tão obviamente importantes e realistas, viveram, de cerca de 1850 a 1898, uma vida dúbia no submundo econômico – outra lição sobre os caminhos da mente humana!” (grifo meu).