CAPÍTULO 3. ESCOLA SUECA
3.3. ESCOLA DE ESTOCOLMO (1927-1937)
3.3.7. Escola de Estocolmo e Antecipação a Keynes
De acordo com Hicks, é possível falar de duas diferentes revoluções nos anos 1930's. "Passar de um puro método a outro [flex-price para fix-price] é quase uma revolução. (...) entre seus dois trabalhos [Treatise on Money e General Theory], Keynes moveu-se na direção do novo método. (...) uma correspondente mudança ocorreu na Suécia. A forma original (1929-30) da teoria de Lindahl (...) era puro equilíbrio temporário. Mas no Monetary Equilibrium (1933), como indica o título, a mudança é iniciada. Na Economic Expansion (1937) está justamente completa. No último trabalho de Lindahl (...) ele também moveu-se na mesma direção" . 151
Uma revolução referiu-se aos métodos dinâmicos, e neste campo a Escola de Estocolmo teve o maior papel, enquanto a outra foi a revolução keynesiana, em sentido estrito, isto é, o Princípio da Demanda Efetiva. Nesta perspectiva, segundo Hansson, a contribuição de Keynes na General Theory e a contribuição da Escola de Estocolmo são mais complementares em vez de antagônicas.
HICKS (1965) apud HANSSON; op. cit.; p. 211.
151
Por isso, não haveria razão de se dizer a Escola de Estocolmo ter sido extinta pela “revolução keynesiana”. Mesmo porque alguns dos métodos dinâmicos desenvolvidos pelos suecos tornaram-se parte da apresentação da mensagem keynesiana pelos autores pós-keynesianos. Por exemplo, o modelo gasto-renda analisa as decisões de gastos e as acomodações em estoques (e quantidades) via as noções de ex ante e ex post.
Interessante também é a posição de Hicks 152 a respeito da reinterpretação da doutrina de Wicksell, por seus sucessores, seja da Escola de Estocolmo, seja keynesianos. Hicks coloca a questão: como a taxa natural pode ser uma taxa real, expressa em algum conjunto de bens, e ser comparada a uma taxa de juros de mercado, expressa em termos de moeda?
Para essa questão, há várias saídas. Há a saída de Keynes, pela qual tem de ser comparado a taxa de juros de mercado não com a taxa real de Wicksell, mas sim coma a eficiência marginal do capital. Esta seria uma taxa monetária, influenciada não só pelos fatores reais de Wicksell, mas também por expectativas sobre os preços, e até, de um modo mais geral, pelo estado de espírito dos empresários.
Outra saída seria, à maneira dos sucessores de Wicksell – Hicks cita Lindahl, Myrdal e parte de sua própria obra Value and Capital de 1939 e Capital and Growth de 1965 –, a conversão do modelo de Wicksell em um modelo sofisticado de equilíbrio temporal. Torna o investimento corrente dependente de expectativas e o equilíbrio uma condição quando as expectativas não são desapontadas.
Em uma fase de autocríticas, Hicks achava essas interpretações extrapolarem o modelo de Wicksell. Quando se olha Wicksell à luz de seu problema e de sua própria experiência, seguramente deveria ser interpretado de forma mais simples, e não de um modo demasiadamente "expectacional".
HICKS, John. Perspectivas Econômicas: Ensaios sobre Moeda e Crescimento. RJ, Zahar, 1978
152
(original de 1977). pp. 82-84.
Uma geração posterior de economistas acha fácil tal interpretação. Mas atribuí-la a Wicksell, em sua época, é provavelmente um anacronismo. Portanto, quando se coloca Wicksell em seu contexto histórico, isso não estaria muito certo.
Shackle possui outra interpretação. A Keynes teria parecido necessário usar uma construção de equilíbrio para discutir as consequências da ignorância e da incompatibilidade mútua das expectativas sustentadas por um e por outro grupo de agentes econômicos.
No entanto, "já existia, quando Keynes estava escrevendo a sua Teoria Geral, uma construção, assim o cremos, capaz de melhor atender ao seu propósito. Os discípulos de Knut Wicksell, principalmente Erik Lindahl e Gunnar Myrdal, propuseram-se, no fim da década de 1920, examinar, de um ponto de vista totalmente simpático e dir-se-ia mesmo de fidelidade filial, o famoso Processo Cumulativo do seu mestre Wicksell no qual as expectativas dos homens de negócios os levam a ações, no conjunto dos seus resultados, falsificadores daquelas expectativas em uma dada direção e assim induzirem novas expectativas as quais sofrem, novamente, um processo de auto falsificação na mesma direção e assim por diante. O processo de Wicksell referia-se ao nível geral dos preços e não ao vulto do produto geral ou ao nível de emprego, mas sua idéia essencial, tornada explícita por Myrdal e Lindahl, era aplicável a qualquer espécie de ação e de resultado" . 153
Essa idéia consiste, simplesmente, em distinguir os acontecimentos e as situações às quais se esperavam, em um intervalo ainda futuro, e os acontecimentos e as situações aos quais de fato surgiram, no registro desse intervalo, depois de ele ter sido incorporado pela história. Myrdal denominou essa concepção dos conteúdos de um segmento de tempo, quando uma pessoa pode conceber quando no limiar desse segmento, uma apreciação ex ante, enquanto o registrado depois de passado o intervalo é chamado de apreciação ex post.
SHACKLE, G. L. S.. Um Esquema de Teoria Econômica. RJ, Zahar, 1969 (original de 1965). p.
153
61.
O tema da General Theory requer, para Shackle, a linguagem de ex ante e ex post, pois se trata de uma teoria da decisão, e a decisão é ex ante. Faz referência a um intervalo de tempo do futuro, no concernente ao qual, no presente, só podem haver intenções, planos ou decisões.
Dependerão, para sua realização, da compatibilidade de uns com outros, e com o curso da natureza não-humana, assim como com a conduta humana não deliberada de cada momento. Para esse autor, não existe "nenhum nexo" entre essas ficções, às quais chamamos de expectativas, inventadas por uma pessoa ou um grupo de pessoas, e as inventadas por outra ou outro.
A taxa natural é, segundo Shackle, "um composto de expectativas, de pensamentos originais, sugeridos meramente por correntes de impressões, diversamente recebidas por diferentes indivíduos. Esta natureza das expectativas, evasiva e por demais sutil, obrigou ao teórico da Economia, em sua tarefa de simplicação mediante abstração, a excluí-las totalmente ou a escondê-las em uma 'caixa-preta', como é a taxa de juros natural ou a eficiência marginal do capital. O tratamento recebido é arbitrário. Não pode descansar na lógica mediante a qual se determina rigidamente o equilíbrio geral, essa imagem de racionalidade" . 154
A expressão taxa natural sugere uma produtividade determinada tecnologicamente. Myrdal descartou esta noção em favor de uma comparação dos lucros líquidos esperados, descontados dos totais dos bens de capital, em todos seus anos de uso esperados.
Incluiu entre os fatores determinantes a incerteza inseparável da expectativa.
Myrdal não se referiu explicitamente à mutabilidade, também inerente à qualquer variável ou programa dependente da expectativa. Para Wicksell, entretanto, foi a taxa monetária a mais propensa a variar, posto se ver afetada pelas circunstâncias e
SHACKLE, G. L. S.. Epistemica y Economia Critica de las Doctrinas Economicas. Mexico, Fondo
154
de Cultura Economica, 1976 (original de 1972). p. 356.
respostas variadas do sistema bancário 155. Mas Wicksell advertiu a taxa de juros natural estar também sujeita a mudanças, às vezes muito intensas . 156
Shackle era um entusiasta da "novidade radical do empreendimento de Myrdal", ao ter originado os conceitos ex ante e ex post. "Pela primeira vez, uma teoria econômica se baseava na construção imaginativa dos homens de um futuro desconhecido. O próprio Myrdal não o expressa assim, contentando-se em referir a antecipações e a suas incertezas.
Porém, a mudança dramática e inflexível de fundamento teria de ser vista no seu significado pleno. A visão da economia como uma contrapartida da mecânica celestial estava sendo abandonada.
A diferença, em natureza e essência, entre o passado de qualquer momento e o futuro daquele momento, a não determinação do último pelo primeiro, exceto, no máximo, através dos pensamentos dos homens mal fundamentados em um conhecimento apenas parcialmente relevante e bastante insuficiente, contrastava completamente com um modelo de ações individuais pré-reconciliadas, com um modelo de equilíbrio geral onde o mercado leva as ações dos homens a uma coerência racional, assim como o mar traz os navios ao mesmo nível" . 157
Myrdal, segundo Shackle, libertou a teoria econômica da premissa tácita e limitadora de a economia se mover como os planetas, em caminhos conhecidos cada qual na sua totalidade, independemente do ponto no qual um dado planeta se encontra no momento quando estamos calculando sua órbita. O futuro não é conhecido para aqueles cujas decisões, no seu efeito conjunto e na sua interação, o determinam.
SHACKLE; op. cit. (1972); p. 357.
155
WICKSELL; op. cit. (1911); p. 283.
156
SHACKLE, G. L. S.. Origens da Economia Contemporânea: Invenção e Tradição no Pensamento
157
Econômico (1926-1939). SP, Hucitec, 1991 (original The Years of the High Theory de 1967). p.
96.
O imaginado, para um período por vir, em última instância, como elo em uma corrente de impulsos, tem de ajudar a configurar aquilo, ex post, surgido como os fatos desse período. A concepção, em seu conjunto, foi capaz de afastar uma massa de confusões provinda do tratamento dos assuntos econômicos como se fossem algo mecânico ou hidráulico, em vez de ser subjetivo e psíquico.
A Teoria Quantitativa da Moeda é hidráulica. Para deixar uma impressão (marca) no preço, segundo esta teoria, o dinheiro (liquidez) tem de chegar ao lugar (nível) no qual se troca efetivamente por bens. Se estiver em um patamar inferior, o nível geral dos preços abaixa até encontrá-lo. Se superior, sobe.
A distinção feita por Myrdal entre a visão ex ante e a visão ex post, na opinião de Shackle, foi um dos discernimentos mais transformadores já ocorridos na economia teórica. Acha esta noção ter sido um traço de gênio . 158
Para ele, o livro de Myrdal estabelece um avanço teórico tão grande quanto o do próprio Wicksell e fornece uma inovação ainda maior. "Não existe nisto nenhum paradoxo. Todo escritor precisa começar com um aparelhamento ou mesmo um esquema de idéias pré-concebidas. De fato, é óbvio: escrever in vacuo, começar inventando idéias não devidas nada a ninguém do passado é inconcebível ou poderia ser somente um trabalho de um louco. Se ele o realizasse, não comunicaria nada ao mundo exterior. Uma idéia pode apresentar um elemento de novidade poderosa, mas precisa também apresentar aspectos familiares, caso contrário ela não significaria nada para nós, ela poderia encontrar lugar no nosso pensamento, ela não poderia se ligar a nenhuma estrutura conceitual nossa ou mesmo pertencer à própria linguagem" . 159
No entanto, para a maioria dos homens, o apego a uma idéia, uma vez entendida e familiarizada, é demasiadamente forte. A invenção de uma nova teoria (como uma Teoria Alternativa da Moeda) requer, antes de mais nada, um questionamento e uma
SHACKLE; op. cit. (1972); p. 455.
158
SHACKLE; op. cit. (1967); p. 120.
159
libertação da velha teoria (a Teoria Quantitativa da Moeda), e todos os hábitos, instintos e indolências lutam contra tal libertação.
Na opinião de Shackle, exceto pelas colocações de ênfases, o Monetary Equilibrium de Myrdal antecipou em tudo a General Theory de Keynes. "Foi sua paixão por idéias exatamente formuladas, claras, quantificáveis e bem identificadas aquilo capaz de permitir Myrdal, ao aplicá-la às sugestões poderosas de Wicksell, dizer, em 1931, em sueco, muito das coisas ditas por Keynes em 1936, em inglês. (...) se a General Theory nunca tivesse sido escrita, o trabalho de Myrdal teria fornecido eventualmente quase a mesma teoria" . 160
Sugere, então, uma linha contínua de pensamento formulador de postulados para uma Teoria Alternativa da Moeda. Parte de Wicksell, passa por Myrdal, chega até Keynes.
No entanto, na teoria de Wicksell-Myrdal, a resposta principal ao fortalecimento geral da demanda é um aumento nos preços. Na concepção de Keynes, a resposta é um aumento do emprego e das produções físicas.
A prática de Keynes foi um método não-diacrônico, onde negava a estabelecer explicitamente qualquer marco formal de idéias acerca do tempo. Evidentemente, contrastava com o recurso da Escola de Estocolmo de analisar sequências de períodos.
Sua aparente ortodoxia metodológica, em seu tratamento ou menosprezo do tempo, proporcionou um meio a seus exegetas para desviar também seu significado até algo muito semelhante à economia convencional . 161
A ênfase dada à argumentação de Shackle é porque ela articula a Escola de Estocolmo e a Escola Pós-keynesiana. Propõe, para esta, uma releitura de Keynes, segundo o método dinâmico dos pós-wicksellianos, como será visto, no próximo capítulo.
SHACKLE; op. cit.; p. 121/3.
160
SHACKLE; op. cit. (1972); p. 457.
161
CAPÍTULO 4.
ESCOLA PÓS KEYNESIANA
"(Meu próprio preconceito contra a Teoria Quantitativa da Moeda data de agosto de 1923, quando tinha 18 anos. Minha família estava em uma estação de veraneio no mar Báltico. Ao final do mês, as impressoras de notas alemãs entraram em colapso. Os bancos racionaram-nas severamente para seus clientes. A pedido de meu pai, eu passava três horas toda manhã em uma fila fora de um banco, somente para retirar uma soma em notas inteiramente inadequada para as necessidades familiares. Mas o colapso não colocou nenhuma curva sobre a regular duplicação dos preços a cada 24 horas.) Eu admito predispor contra a Teoria Quantitativa da Moeda, mas ela parece-me ter seriamente impedido o desenvolvimento do pensamento monetário – com extremamente sérias consequências no caso de Keynes" . 162
4.1. INTRODUÇÃO
Esta introdução dividi-se em dois subtópicos, um sobre o emprego da Teoria Quantitativa da Moeda na obra de Keynes, outro sobre a releitura desta obra através do método ex-ante e ex-post da Escola Sueca. Justifica-se a razão da escolha dessa releitura realizada pela Escola Pós Keynesiana – e não de uma leitura exegética da obra original keynesiana – como uma das fontes para elaboração de postulados de uma Teoria Alternativa da Moeda.
4.1.1. Keynes e a Teoria Quantitativa da Moeda
É incomum encontrar, na pretensa imparcialidade da literatura científica, um depoimento pessoal como este citado na epígrafe.
Tornou-se uma referência. Com a autoridade de ser, como
KAHN, Richard. The Making of Keynes' General Theory. Cambridge, Press Syndicate of the
162
University of Cambridge, 1984. p. 52.
reconheceu Keynes, quase um coautor da Teoria Geral, Richard Kahn , em seu The Making of Keynes' General Theory, revela o emprego
163
da Teoria Quantitativa da Moeda na obra de Keynes . 164
"Keynes tinha 40 anos de idade, quando publicou seu Tratado sobre a Reforma Monetária [Tract], em 1923. Ele gastou uma considerável parte dos doze anos seguintes de sua vida numa luta para escapar da influência da Teoria Quantitativa da Moeda - sucesso alcançado pela publicação, no início de 1936, de sua Teoria Geral, com o Tratado da Moeda [Treatise] representando uma fase intermediária" . 165
O Tratado sobre a Reforma Monetária foi inspirado pela importância de assegurar estabilidade ao nível geral dos preços, como um resultado de dar mais atenção à lição indicada pela Teoria Quantitativa da Moeda. Keynes - até recentemente um funcionário do Tesouro - escreveu-o sob o impacto das hiperinflações do pós-guerra.
Enxergava a excessiva emissão de notas na Alemanha (e outros países) principalmente como uma forma de taxação, a la "imposto inflacionário".
Entretanto, era possível uma interpretação não quantitativista daquela conjuntura, na Alemanha de 1923. Havia, no contexto da hiperinflação, um grande volume de ativos possível de ser gasto no mercado.
Na biografia de John Maynard Keynes, Harrod conta que, durante o tempo em que Keynes
163
estava escrevendo seu Tratado da Moeda, entrou em cena seu discípulo mais distinto do período entre as duas guerras: Richard Kahn. Keynes se deu conta imediatamente de sua qualidade, e não tardou em empregá-lo para que o aconselhasse e o ajudasse em seus trabalhos principais.
Kahn, o elaborador do "multiplicador", passava a Keynes os resultados das discussões semanais do Tratado da Moeda pelo "círculo de Cambridge", a notável geração jovem em Cambridge, nos anos 30's: entre outros, P. Sraffa, R. F. Harrod, J. E. Meade, J. Robinson. HARROD, R. F.. La Vida de John Maynard Keynes. México, Fondo de Cultura Económica, 1958. pp. 496/7.
Segundo Kahn, Keynes não teve educação sistemática em Economia. Sua graduação foi em
164
Matemática, escreveu sua tese sobre Probabilidade e era firmemente associado com os filósofos de Cambridge: B. Russel, G. E. Moore, L. Wittgenstein, etc.. Mas Keynes absorveu Economia
"por todos os poros" enquanto vivia com seus pais em Cambridge. Marshall era um amigo da família e foi quem convenceu Keynes a estudar Economia. Com sua experiência de funcionário especialista em finanças e moeda, em 1909, Keynes começou fazer conferências em Cambridge sobre Moeda, Crédito e Preços. Era não só um teórico, mas também um realista pragmático.
KAHN; op. cit.; p. 51.
165
Não só o dinheiro, mas vários títulos financeiros podiam ser convertidos na medida das necessidades e gastos se houvesse o impulso de fazê-lo. A experiência alemã do início da década dos 20's mostrou a possibilidade de os ativos líquidos serem lançados no mercado, destruindo os melhores cálculos macroeconômicos.
Ao contrário do dito pela Teoria Quantitativa da Moeda, isto era induzido pela própria inflação. Os ativos líquidos eram trocados por bens ou ativos físicos, antes de os preços subirem mais.
No entanto, "Keynes apresentou-se em seu Tratado sobre Reforma Monetária como um fanático crente da Teoria Quantitativa da Moeda, acreditando plenamente no sentido causal de determinação do nível geral dos preços pela quantidade de moeda.
No Tract, Keynes era ortodoxo quanto à Teoria Quantitativa da Moeda como qualquer antigo economista, e mais ortodoxo que vários. Ele era muito mais estritamente monetarista se comparado a Marshall ou Pigou" . 166
O próprio Marshall, mestre de Keynes, refere-se criticamente à Teoria Quantitativa da Moeda, no Money, Credit and Commerce, publicado no mesmo ano de 1923. Argumenta esta teoria ser de inspiração tautológica, e julga quase não-factíveis as condições necessárias para sua validação.
Considerando a necessidade de uma função de demanda por moeda estável, as seguintes variáveis deveriam permanecer constantes ou estáveis: a população, o volume de negócios per capita transacionados pela população, o percentual desses negócios que é diretamente afetado pela moeda, e a eficiência (ou rapidez de circulação média) da moeda.
Mesmo se estas condições fossem alcançadas, a Teoria Quantitativa da Moeda, para Marshall, tornar-se-ia "quase um truísmo". Segundo Lopes e Andrade, "esta posição é muito
KAHN; op. cit.; p. 53.
166
semelhante à de Keynes do Treatise on Money (1930), mas, ao mesmo tempo, ele se alinha com Thornton (1802)" . 167
A Teoria Quantitativa da Moeda clássica é aceita por Marshall apenas no longo prazo. Curiosamente, Keynes afirma, também em 1923, sobre a Teoria Quantitativa da Moeda: "Esta teoria é fundamental. Sua correspondência com os fatos é inquestionável" . 168 Mas, quatro páginas após, nega sua validade, na forma normalmente apresentada, exceto no longo prazo. "Mas este longo prazo é um guia confuso para a conjuntura. No longo prazo estaremos todos mortos" . 169
Uma variação na quantidade de moeda, em um período mais curto se comparado a esse longo prazo, poderia ser a própria causa de uma variação no k, na fórmula representativa da Teoria Quantitativa da Moeda, segundo a Equação de Cambridge: M = kPY.
Ke y n e s q u e s t i o n a v a , p o r t a n t o , o s p o s t u l a d o s d a proporcionalidade e da velocidade de circulação da moeda estável da Teoria Quantitativa da Moeda.
Nos rascunhos anteriores ao Treatise on Money, a Teoria Quantitativa da Moeda continuou por um tempo a dominar o pensamento de Keynes. Kahn demonstra, através de várias passagens desse livro de 1930, como Keynes continou fascinado por essa Teoria.
Porém, esta foi a primeira ocasião no qual Keynes admitiu a Teoria Quantitativa da Moeda ser um truismo. Estava nele também a semente do florescido, na Teoria Geral, sob o nome de Teoria da Preferência pela Liquidez.
LOPES, C. M. & ANDRADE, J. P.. Moeda, crédito e ciclos em Marshall. in SILVA, M. L. F. (org.).
167
Moeda e Produção: Teorias Comparadas. DF, Ed. UnB, 1992. p. 87.
KEYNES, J. M.. Breve Tratado sobre la Reforma Monetaria. México, Fondo de Cultura
168
Económica, 1992. (original de 1923). p. 91.
KEYNES; op. cit.; p. 95.
169
Harrod é um entusiasta do Treatise on Money, publicado em dois volumes em dezembro de 1930. Para ele, "esta grande obra encerra a sabedoria acumulada por Keynes sobre a moeda.
Constituía, de um modo preeminente, o campo de sua especialidade.
(...) É sua obra mais madura. Não cabe dúvida, quando a escreveu, esperava durante muito tempo ser o texto mais autorizado sobre o tema. (...) O Tratado sobre a Moeda teve má sorte. Desde quando foi publicado foi menos lido em relação ao esperado pelo autor quando escreveu. (...) Não obstante, tem certa validez a afirmação de o estudante do futuro, se tem de escolher entre os trabalhos de Keynes, obterá do Tratado a melhor perspectiva de sua contribuição à Economia. (...) A aparição da Teoria Geral contribuiu muito para se
(...) É sua obra mais madura. Não cabe dúvida, quando a escreveu, esperava durante muito tempo ser o texto mais autorizado sobre o tema. (...) O Tratado sobre a Moeda teve má sorte. Desde quando foi publicado foi menos lido em relação ao esperado pelo autor quando escreveu. (...) Não obstante, tem certa validez a afirmação de o estudante do futuro, se tem de escolher entre os trabalhos de Keynes, obterá do Tratado a melhor perspectiva de sua contribuição à Economia. (...) A aparição da Teoria Geral contribuiu muito para se