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3   A NATUREZA JURÍDICA DA IMAGEM, DO DIREITO DE ARENA E DA

3.1   A imagem 46

3.1.2   As teorias afirmativas 47

3.1.2.4   Teoria do direito à honra 56

Para a teoria do direito à honra, o direito à imagem seria um direito menor, que se encontraria abrangido pela honra. A honra pode ser vista sob dois prismas: o subjetivo, como o indivíduo considera a si mesmo, isto é, sua autoestima e a consciência que tem da própria dignidade; e o objetivo, como socialmente ele é visto, sua reputação, sua fama, como é estimado pelos que o rodeiam.

Para os seguidores dessa corrente não existiria para a pessoa uma proteção à imagem, mas apenas o direito de se proibir a exposição da imagem de modo a prejudicar a boa fama e os atributos da pessoa. A imagem é vista como uma faceta da honra, um meio para se alcançar a violação desse direito.

Bem ilustra essa situação episódio vivido por Michelangelo di

Lodovico Buonarroti Simoni (Michelangelo),poeta e arquiteto italiano, que mais

se notabilizou como escultor por obras como Baco, David e a Pietà, e como pintor, pelo trabalho realizado na Capela Sistina, situada no Vaticano.

Michelangelo sempre focou suas obras na figura humana,

detalhando com rara perfeição sua anatomia, mas nem sempre sua arte foi tão bem compreendida. David Spence62 relata episódio no qual, durante a execução da pintura na Capela Sistina, o artista recebeu a visita do então Papa, Paulo III, na ocasião acompanhado por seu mestre de cerimônias, Biagio

de Cesena. Ao ser questionado pelo Papa o que achava do trabalho realizado

por Michelangelo, Biagio de Cesena desaprovou-o, por considerar que não seria adequado que os anjos e santos fossem mostrados sem nenhum recato ou traço de beleza celestial, especialmente em um local de resguardo do Papa

Para o mestre de cerimônias a nudez era vista como algo vulgar e não deveria figurar em lugar tão honroso quanto a Capela do Papa. Na sua opinião, conforme os relatos de David Spence, tamanho destaque aos órgãos

62 Grandes artistas: Michelangelo. Tradução de Luiz Antonio Aguiar. São Paulo:

genitais das figuras se mostrava inadequado, até mesmo para um prostíbulo. Extremamente ofendido com as palavras de Biagio de Cesena, Michelangelo teria decidido retratar o seu semblante no afresco do Juízo Final, no papel de

Minos, que se encontrava nu, no inferno, envolto por uma serpente e rodeado

por demônios.

Ao tomar conhecimento do ocorrido, Biagio Cesena solicitou junto ao Papa Paulo III que sua imagem fosse retirada da Capela Sistina, visto que sua honra havia sido profundamente ofendida. O Papa, todavia, se limitou a dizer que, se Michelangelo o tivesse retratado no purgatório, ele ainda teria meios de ajudá-lo, entretanto, como sua imagem foi reproduzida no inferno, encontrava- se fora da sua jurisdição e, assim, não havia nada que pudesse ser feito para mudar a situação, de modo que a pintura permaneceu da forma original.

No episódio narrado, a imagem foi tomada como instrumento para atingir a honra do indivíduo, verificando-se, assim, lesão tanto à imagem de

Biagio Cesena, pois reproduzida sem a sua autorização, quanto à sua honra,

visto que ele, um homem ligado a Deus, foi retratado no inferno, em meio a serpentes e demônios.

Outra situação em que a imagem serviu de meio para atingir a honra de uma pessoa foi no seguinte caso. Em janeiro de 1996, a revista Marie

Claire, da Editora Globo S.A., publicou reportagem intitulada “Paraíso Tropical”,

cujo subtítulo era “Pacote Inclui Garota”. A matéria que tratava da prostituição no Nordeste do Brasil era ilustrada por foto de Maria Irismar Rodrigues de Sousa, então vereadora do Município de Poço Branco, no Ceará, casada, à época, com o prefeito desse mesmo município, não tendo ligação com o turismo sexual ou qualquer forma de prostituição.

A imagem divulgada na revista Marie Claire, na qual a vereadora aparecia somente de biquíni, havia sido anteriormente publicada com a sua anuência, em cartaz veiculado na Alemanha para outros fins.

Ao examinar o caso em 24.08.2006, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte até considerou a hipótese de a então vereadora ter

efetivamente autorizado a veiculação da sua foto em cartaz, mas entendeu que ela não consentiu “com o uso pejorativo com que foi emprestada à sua imagem na matéria jornalística”.

Por conseguinte, a revista foi condenada a indenizá-la, pois, ao se utilizar de imagem incluída em cartaz no qual a então vereadora “posava em trajes de banho, sem autorização, permitiu aos leitores que associassem a sua imagem com a prostituição, causando-lhe nítido dano”.63 Ou seja, a divulgação não consentida da imagem da ex-vereadora, o que por si só já representaria uma afronta à sua imagem, em decorrência do modo como foi feita, também resultou em lesão à sua honra.

O que se observa das situações descritas é que, em muitas vezes, a lesão à imagem e à honra caminham juntas. Em que pese a relação de proximidade existente entre as duas figuras, é fato que a imagem pode ser violentada, restando incólume a honra do indivíduo.

Um bom exemplo dessa situação é o caso em que foi publicada foto de Juliana Zotto grávida, em vitrine da loja Via Brasil Calçados – ME, para ilustrar campanha publicitária para o Dia das Mães.

A foto divulgada na vitrine da loja foi tirada por estúdio fotográfico e contava com o consentimento da gestante para publicá-la única e exclusivamente na vitrine do referido estúdio. Ao examinar o caso, o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina decidiu que o fato de a gestante ter autorizado a reprodução da sua imagem pelo estúdio fotográfico não permitia a presunção de que a fotografia também pudesse ser utilizada em meio a campanha publicitária promovida pela loja de sapatos.

Assim, concluiu-se que havia o dever por parte da loja de sapatos de indenizar a gestante, ainda que a veiculação da sua imagem não tivesse “intuito vexatório”, mas, pelo contrário, tinha realizado “proverbial homenagem

à data comemorativa do Dia das Mães”, pois a foto de Juliana Zotto “simbolizava-a à perfeição”.

Para o Tribunal, nesse caso, a obrigação de reparar decorreu diretamente do abuso do direito personalíssimo alheio, “pois o dano é a própria utilização indevida da imagem, não sendo necessária a demonstração do prejuízo material ou moral, bastando que a vítima comprove, tão somente, o fato gerador da violação ao seu direito”.64

Um segundo caso em que fica claro que o uso indevido da imagem pode não gerar qualquer lesão à honra cuida-se da edição do álbum de figurinhas denominada “Heróis do Tri”, no qual foi explorada, sem a devida autorização, a imagem, para fins comerciais, do jogador de futebol Waldemar Rodrigues Martins, conhecido nos meios esportivos como “Oreco”, e que participou da primeira copa do mundo em que o Brasil sagrou-se campeão mundial, em 1958, na Suécia.

O álbum de figurinhas em nada depreciava a honra do jogador, entretanto não contava com a sua anuência ou a de seus herdeiros. Diante disso, o Superior Tribunal de Justiça considerou ser devida “indenização, ainda que elogiosa a publicação”.65

Nas situações descritas, resta clara a possibilidade de haver o uso indevido da imagem da pessoa, sem que lhe ocorra um dano à honra, que, nesses casos, inclusive restaram enaltecidas, na medida em que foi valorizada a estima da gestante sendo-lhe atribuída a imagem de mãe exemplar, e a do jogador de futebol, elevado à condição de herói nacional.

Todavia, deve-se ressaltar que o atual Código Civil, em seu artigo 20, ao tratar do assunto, condicionou indevidamente a indenização pela violação da imagem à ocorrência de dano à honra, à boa fama ou à respeitabilidade do indivíduo. Confira-se:

64 Apelação Cível 010.059111-7, 4.ª Câmara de Direito Civil, Rel. Des. Eládio Torret Rocha,

Acórdão proferido em 24.03.2011.

Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.

A equivocada vinculação feita da imagem à honra dos indivíduos se deve, muito provavelmente, ao fato de o Código Civil vigente estar fundamentado no anteprojeto de Orlando Gomes, no qual o jurista manifestava seu entendimento de que só haveria de ser paga indenização pela utilização indevida da imagem, se houvesse dano à honra da pessoa.66

A despeito da equivocada posição manifestada pelo Código Civil, ao analisar o direito à imagem, não podemos deixar de nos ater aos desígnios constitucionais, que elevaram essa figura à condição de total autonomia em relação aos demais direitos da personalidade.67 Assim, ainda que inexista dano à honra, se a imagem do indivíduo for utilizada em desacordo com a sua autorização, caberá indenização.