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3. A DINÂMICA E OS PROCESSOS ESPACIAIS

3.1 Teoria dos circuitos do capital de Harvey

Para introduzir a teoria de Harvey sobre a dinâmica imobiliária do capital, faz-se necessário, em primeiro lugar, analisar o que ele denominava de “destruição criativa8” inscrita na paisagem da geografia histórica da acumulação do capital. Harvey (2004) explica objetivamente que

8 Termo marxista, introduzido na economia por Shumpeter. Apontamentos sobre a teoria do autor: SHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo edemocracia. Rio de Janeiro, 1984. Zahar Editores. Para complemento do entendimento acerca da destruição criativa, cf. SCHUMPETER, Joseph A. Os economistas. A teoria do desenvolvimento econômico.. São Paulo, 1982 Abril Cultural.. Com o tema: O fenômeno fundamental do desenvolvimento econômico.

“O desenvolvimento, no sentido que lhe damos, é definido então pela realização de novas combinações. Esse conceito engloba os cinco casos seguintes: 1 Introdução de um novo bem ou de uma nova qualidade de um bem; 2 Introdução de um novo método de produção [...] pode consistir também em nova maneira de manejar comercialmente uma mercadoria; 3 Abertura de um novo mercado [...] quer esse mercado tenha existido antes ou não; 4 Conquista de uma nova fonte de oferta de matérias-primas ou de bens semi-manufaturados; 5 Estabelecimento de uma nova organização de qualquer indústria, como criação de uma posição de monopólio ou a fragmentação de uma posição de monopólio”. (p. 48-49)

52 [...] o capital busca perpetuamente criar uma paisagem geográfica para facilitar suas atividades num dado ponto do tempo simplesmente para ter de destruí-la e construir uma paisagem totalmente diferente num ponto ulterior do tempo a fim de adaptar sua sede perpétua de acumulação interminável do capital. (HARVEY, 2004, p.88 )

Harvey serviu-se do termo “destruição criativa” reelaborado por Schumpeter (1984), para quem o capitalismo é um processo evolutivo. Assim este autor explica sua teoria:

[...] O Capitalismo, então, é, pela própria natureza, uma forma ou método de mudança econômica, e não apenas nunca está, mas nunca pode estar estacionário [...] O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria [...] que incessantemente revoluciona a estrutura econômica [...] incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial acerca do Capitalismo”. (SCHUMPETER, 1984, p.112).

A partir desse entendimento, passamos para a teoria, propriamente dita, de Harvey e, logo ao final do capítulo, à explicação da importância da destruição criativa no imobiliário. Harvey (1989), em seu livro The urban experience, expõe, de forma clara, que o objetivo da análise da dinâmica do capital é compreender o processo urbano sob o capitalismo, abordando dois temas gêmeos imbricados e intrinsecamente relacionados (acumulação e luta de classes). O autor coloca a classe capitalista no comando

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do processo de dominação sobre o trabalho, no qual o excesso laboral gera o lucro, afirmando que a acumulação não pode, consequentemente, ser isolada da luta de classes.

Harvey (1989) considera a forma capitalista promotora de superávit/acumulação e exploração do trabalho para a obtenção do lucro, como uma violência infligida à classe trabalhadora, processo em que o trabalhador não tem forças para lutar de forma individual e encontra como caminho a luta de classes. Em função da importância do entendimento das leis de acumulação, Harvey (1989), baseado no livro O capital, de Marx, aborda o tema, fazendo uma incursão breve no pensamento marxista. Para explicar a lógica do processo de acumulação, são considerados três circuitos do capital: o primário, o secundário e o terciário.

Harvey (1989) escreve sobre a urbanização do capital, a qual se relaciona com a mobilização, a produção, a apropriação e a absorção de excedentes econômicos. Parte da idéia de que a cidade é produzida como mercadoria: “[…] a urbanização promove a circulação do capital através do uso do espaço construído, favorecendo a produção, o consumo e a reprodução da força de trabalho ─ o comando do capital sobre o espaço” (HARVEY, 1980, p. ). Trata-se da urbanização do capital. Para solidificar esse conceito de produção da cidade como motriz do modus operandi capitalista de expansão,

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esse autor cria o termo spatial fix, traduzido por Valença (2008) como “resolução espacial”. Valença explica que a resolução espacial de Harvey

[...] é um atributo de todas as atividades humanas. Estas têm de estar em algum lugar, o que requer investimentos em capital fixo no espaço construído (geralmente, edificações, equipamentos e infra-estruturas) que não podem ser transferidos sem que sejam destruídos total ou parcialmente. (VALENÇA, 2008, p. 244).

De acordo com Harvey (apud Valença, 2008), essa maneira ou qualidade expansionista do espaço não se dá, sobremaneira, de forma consensual, em que imperativamente ocorrem perdas com investimentos do passado em detrimento dos novos investimentos do presente. Complementando esse entendimento:

[...] sob o capitalismo, as crises deixam de ser produtos de circunstâncias externas, como desastres naturais e guerras, e passam a ser produto das manifestações das contradições internas do próprio sistema. Trata-se da tensão entre produzir e absorver excedentes de capital e trabalho. Essa tensão está na raiz da dinâmica capitalista e é associada à história da urbanização do capital. (HARVEY apud VALENÇA, 2008, p.246).

Feita a exposição de parte da teoria de Marx, continuamos a pesquisa com a visão de Harvey sob jugo daquela teoria. Por entender que a noção fundamental das crises do capital explica a recorrente “destruição criativa” do espaço urbano.Para elucidar de forma clara o referido tema, procuramos seguir a sequência estipulada por Harvey.

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• Circuito primário do capital (produção de mercadorias em geral)

O autor sustenta a tese de que o sistema de acumulação capitalista, em reprodução ampliada, é o causador dos problemas de realização que causam a desproporcionalidade entre os meios de produção e os meios de consumo. Amparado por Marx, Harvey escolhe o volume três de O capital para fazer uma síntese das contradições internas do capitalismo, discorrendo sobre o tema da sobreacumulação. Afirmando que a tendência da sobreacumulação se manifesta nas taxas de queda de lucros, no capital excedente e no excedente de trabalho (desemprego em elevação) e/ou na taxa de exploração da força de trabalho.

Harvey (1989) defende como “solução” dos problemas de excedentes, a absorção parcial pelos seguintes fatores: o deslocamento temporal mediante investimentos em projetos de capital de longo prazo ou gastos sociais (como a educação e a pesquisa) onde uma combinação dessas manifestações pode ocorrer simultaneamente. É o que se denomina de spatial fix:, como podemos observar no fragmento que segue:

Nós temos visto como as contradições internas da classe capitalista geram uma tendência para a acumulação excedente dentro do circuito preliminar do capital. [...] esta tendência pode ser superada, temporariamente pelo menos, transferindo o capital para o circuito secundário e para o circuito terciário. (HARVEY, 1989, p. 66-68)

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• Circuito secundário do capital (produção no imobiliário)

Sobre esse aspecto, explicita Harvey (2004, p. 94): “No interior do circuito secundário do capital, os fluxos se dividem em capital fixo para a produção (instalações fabris e equipamentos, capacidade de geração de energia, entroncamentos ferroviários, portos etc.) e a produção de um fundo de consumo (habitação, por exemplo).

Ao abordar o tema do ambiente construído para o consumo, Harvey afirma que

[...] o capital fixo do ambiente construído é imóvel no espaço, no sentido de que o valor incorporado nele, não pode ser movido sem ser destruído. O investimento no ambiente construído envolve conseqüentemente a criação de uma paisagem física inteira para finalidades da produção, da circulação, da troca, e do consumo. (HARVEY, 1989, p. 64).

Por essa razão,

Deve obviamente haver um “excesso” de capital de trabalho com relação às necessidades atuais da produção e do consumo a fim facilitar o movimento de capital na formação de bens em longo prazo, particularmente aqueles que constituem o ambiente construído. (HARVEY, 1989, p. 64).

O problema da sobreacumulação no circuito primário encontra como solução a mudança dos fluxos de capital do circuito primário para os circuitos secundário e terciário. Para Ferreira,

57 Trata-se do fenômeno de transferência de capitais para o setor imobiliário quando há crise de superprodução, o que David Harvey denominou de “transferências entre circuitos do capital”. Quando se inicia uma crise, da qual decorre uma queda nas taxas de lucros, o congelamento dos investimentos e uma sobra de capital ocioso, o setor imobiliário serve como escoadouro para os investimentos. (FERREIRA, 2003) ANAIS

Conforme explica Harvey (1989), uma condição geral para o fluxo de capital no circuito secundário é, conseqüentemente, a existência de um mercado importante funcionando e de um Estado querendo financiar e garantir projetos em longo prazo, em grande escala com respeito à criação do ambiente construído. Essas mudanças dos recursos não podem ser realizadas sem uma fonte de dinheiro e um sistema de crédito que crie capital fictício9 adiantado da produção e do consumo reais. Isso se aplica tanto ao fundo do consumo (daí a importância do crédito de consumidor, abrigando hipotecas, o débito municipal) quanto como faz com o capital fixo. O Estado, portanto, serve de mediador das relações entre o circuito primário e o secundário (HARVEY, 1989).

Assim, a natureza das instituições financeiras, do Estado e das políticas que são adotadas podem jogar papéis importantes para realçar fluxos de capital no circuito secundário do capital ou em determinados aspectos específicos dele (tais como transporte, facilidades públicas, entre outros).

9 Ativos em títulos ou notas promissórias desprovidos de suporte material, mas que podem ser

usados como dinheiro (a categoria “capital fictício” foi desenvolvida por Marx e estudada por Harvey no livro Limits to capital, cap.10)

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• Circuito terciário do capital (produção da educação, cultura, ciência e tecnologia)

De acordo com o autor, o circuito terciário do capital compreende, em primeiro lugar, investimento em ciência e tecnologia (aproveitar a ciência para a produção e para contribuir nos processos que revolucionem as forças produtivas na sociedade); em segundo, investimentos sociais em educação e cultura que se relacionam com os processos da reprodução da força de trabalho; e, em terceiro, investimentos dirigidos para a melhoria qualitativa da força de trabalho do ponto de vista do capital (investimento em instrução e saúde, com o realce na capacidade dos trabalhadores no processo do trabalho).

Harvey (1989, p. 69) atenta para o fato de que “os capitalistas como uma classe têm relações com o Estado, onde investem na produção das circunstâncias que esperam serão favoráveis à acumulação [...] continuando com sua dominação”. Um outro problema é a determinação de preços nos circuitos secundários e terciários. Muitas das mercadorias para o segundo e o terceiro circuitos não podem ser valoradas de forma simples, enquanto ações coletivas pelo Estado não podem ser examinadas por critérios normais de lucratividade.

59 Esse movimento (transferência de capital) pode começar com um filete d´água até tornar-se uma enchente [...] mas a tendência para a sobreacumulação não é eliminada. É transformada em super investimento no segundo e terceiro circuitos. O super investimento está relacionado exclusivamente com as necessidades do capital e não com as reais necessidades das pessoas [...] (HARVEY, 1989, p. 70).

Segundo esse mesmo autor (HARVEY, 1989), há diferentes tipos de crises nessas relações do capital: parciais, de comutação (switching: redireção dos fluxos de capital de um espaço para outro), setoriais, geográficas10 e, por fim, globais.

Resumindo: existe um momento em que o ambiente construído entra em desvalorização do capital, quando esta, não necessariamente, destrói o valor de uso, quando os “recursos físicos” são usados como capital desvalorizado, com função de recuperar as bases para a acumulação. Harvey, amparado em Marx, solidifica a idéia de que essas desvalorizações periódicas do capital fixo suprem as necessidades de formação de um novo capital estimulando a “destruição criativa” do espaço urbano.

Posteriormente, em seu livro O novo imperialismo, Harvey elabora o que seria, para Valença (2008), a tentativa de atualização do conceito de “acumulação primitiva”, pontuando-a como expansões geográficas,

10 “nós notamos que essa forma de crise é particularmente importante em relação aos

investimentos no ambiente construído porque o fim é imóvel no espaço e requer fluxos de capitais inter-regionais ou internacionais para facilitar sua produção”. (p.71);

60 [...] nitidamente associadas à urbanização e às novas formas de regionalização advindas da globalização atual. A expansão do capital em áreas onde o capitalismo ainda não havia se desenvolvido requer não só significantes investimentos em infra-estruturas físicas e sociais de longa duração, como em transportes e comunicações, como também a produção de um espaço reconfigurado para servir à acumulação. (VALENÇA, 2008, p.247).

Harvey comunga com o pensamento de Rosa Luxemburgo ao afirmar que a acumulação do capital apresenta duplo aspecto: como processo econômico puro, relacionado com o mercado de bens e ao lugar onde é produzida a mais valia, e como relações entre o capitalismo e os modos de produção não capitalistas, nas quais predominam a política colonial com um sistema internacional de empréstimos, uma política de esferas de interesse e a guerra. Em outras palavras, há o entendimento corrente entre os estudiosos do capitalismo de que o este necessita, perpetuamente, de soluções externas para suas crises.

Em continuidade ao desenvolvimento de sua teoria, Harvey aborda os processos de acumulação por espoliação como uma das soluções externas à crise. Trata-se de processo efetivo de exclusão social e segregação socioespacial, com a criação de estoques de ativos desvalorizados em um lado do mundo e estoques que podem receber uso lucrativo dos excedentes de capital em outro lugar do mundo. O que Marx chamou de acumulação “primitiva”, Harvey intitula de “acumulação por espoliação” ou “acumulação por

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despossessão”. E essa “solução” para a sobreacumulação revela-se por inúmeros processos, como descritos no fragmento abaixo:

Estão aí a mercadificação e a privatização da terra e a expulsão violenta de populações camponesas; a conversão de várias formas de direitos de propriedade (comum, coletiva, do Estado etc.) em direitos exclusivos de propriedade privada; a supressão dos direitos dos camponeses às terras comuns; [...] processos coloniais, neocoloniais e imperiais de apropriação de ativos (inclusive de recursos naturais); a monetização da troca e a taxação, particularmente de terras [...] (MARX apud HARVEY, 2004, p.121).

Por fim, a “destruição criativa” de Harvey explica, de forma metafórica, como se dá esse processo de “correção do capital” no espaço construído sob o modo de produção capitalista. Finalizamos com algumas conclusões de Valença (2008) acerca do tema:

Há inúmeras implicações da discussão de Harvey sobre os três circuitos, as persistentes crises de sobreacumulação e a idéia de resolução espaciotemporal (“spatio-temporal fix”) para a análise de situações concretas, inclusive em cidades terceiromundistas. Uma delas, por exemplo, é analisar, no contexto contemporâneo da globalização, as conseqüências que deve ter – diante de persistente crise – o deslocamento de capitais excedentes, do circuito primário, em particular para o secundário. Se Harvey aponta, para países em desenvolvimento, que tal deslocamento implica expansão geográfica (de várias ordens) associada ao que denominou de acumulação por espoliação (parte do processo mais geral de desenvolvimento desigual e combinado e, mais especificamente, também do que

denomina novo imperialismo), isso quer dizer que restam cada vez

62 para os demais investimentos em infra-estrutura. Se antes era predominantemente o Estado e agora passa a ser o capital a ter maior peso nos investimentos voltados para o circuito secundário, cada vez mais será restrito o acesso aos novos espaços públicos, já que são maiores as chances de se ter um custo regulado pelo mercado. Exacerba-se, assim, o problema da justiça social na cidade, em particular nos países menos desenvolvidos onde o sistema de welfare é também menos desenvolvido. (VALENÇA, 2008, p. 244).

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