Embora não tenha sido utilizado primeiramente pelo sociólogo canadense Erving Goffman, o termo “frames” obteve popularidade na sua obra, intitulada Frame
Analysis (1974). Nesse estudo, Goffman utiliza o termo frame para definir “esquemas
de interpretação” que possibilitam indivíduos a compreender o significado de eventos e a organizar a experiência servindo como um guia para a ação (ROSA; MENDONÇA, 2011).
O conceito foi e tem sido extensivamente utilizado no campo da Sociologia, em especial nos estudos sobre movimentos sociais. Tal conceito também tem sido explorado em estudos de Antropologia Linguística, Psicologia Cognitiva e Comportamento Econômico, Jornalismo e Comunicação de Massa (CORNELISSEN, 2014). No entanto, nos últimos anos, os estudos baseados na teoria de frames têm se concentrado na área da organização cognitiva individual. Na perspectiva
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cognitiva, frames são entendidos como esquemas de solução de problemas, armazenados na memória dos indivíduos e acessados em ocasiões que exigem postura interpretativa. Partindo desse princípio, o conceito de frames para os propósitos do presente trabalho será o de constructos mentais. Nesse sentido, os
frames são definidos como modelos mentais de comportamento, apropriados para
situações comuns, os quais são adquiridos por meio da socialização e da experiência, e aperfeiçoados a partir da ideia de “o que funcionou antes pode funcionar agora”. Essa noção contribui para a distinção dos frames em relação a outros fatores ideacionais, como valores, normas e identidades. Ainda permite uma análise tanto individual como social dos frames sob perspectiva (JOHNSTON, 2005, p.239).
Uma assunção básica nos estudos sobre frames é a de que sua base epistemológica repousa amplamente sobre a prática da análise de esquemas interpretativos individuais. Nessas análises, a busca pelo esclarecimento de tais esquemas é feita por meio da articulação de um conjunto de conceitos organizados mentalmente, junto às experiências de vida dos indivíduos, no que é esperada a obtenção de indícios suficientes a respeito dos padrões interpretativos dos indivíduos, em um dado contexto (JOHNSTON, 2005).
Considerando as correntes e o histórico da produção das pesquisas sobre frames, é possível apontar três níveis de análise que envolvem o processo de framing. Os níveis micro, médio e macro de análise. No nível micro, a maioria das pesquisas tem sido caracterizada pela busca da iniciação e da ativação de esquemas de conhecimento, os quais deverão servir de guia para as percepções individuais, as inferências e as ações de contexto. O nível médio enfatiza o modo como atores estratégicos, por meio da linguagem e de gestos simbólicos, tentam enquadrar o curso das ações e das identidades sociais com o objetivo de obter seguidores. Por sua vez, o nível macro caracteriza-se por concentrar-se, de forma mais ampla, nos modelos culturais de entendimento, em específico, sobre como os frames, em nível de campo, se tornam institucionalizados, providenciando roteiros e regras abstratas de comportamentos em um conjunto social. Tais níveis de análise constituem verdadeiras correntes de pesquisa, gerando um fluxo contínuo e diversificado de conhecimento acerca do processo de framing (CORNELISSEN, 2014).
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Encontra-se baseado no nível micro de análise o conceito de frame de referência. Esse frame é definido como uma estrutura de conhecimento que dirige e orienta o processamento de informações, e é considerado o mais adequado para os cenários de tomada de decisão e julgamentos sociais, tal como nos contextos organizacionais em processo de hibridização. A microanálise de frames, com o suporte conceitual do
frame de referência, proporciona obter, de forma mais sistemática, os conteúdos
referentes a um dado segmento organizacional, por estabelecer um diálogo intensivo entre conceitos gerais do frame em questão e os materiais textuais nos quais tais conceitos estão embasados. Adicionalmente, observa-se que essa microanálise, costuma lidar bem com um problema fundamental na análise de materiais textuais, que é a fusão dos textos junto aos aspectos culturais, organizacionais ou interacionais, que, em graus variados, acabam por moldar o que é dito (JOHNSTON, 1995).
Alguns estudiosos defendem uma estreita ligação nos estudos sobre framing, com técnicas típicas do método da análise de discurso, com o objetivo de melhor demonstrar as relações entre conceitos, conhecimentos e experiência que constituem os esquemas mentais pelos quais as experiências são interpretadas. Combinando procedimentos oriundos das técnicas da análise do discurso, é possível realizar análises minuciosas sobre a micro-organização cognitiva dos indivíduos, comparando-as aos textos produzidos em nível macrossocial. Segundo Jonnston (2005), ao concentrar-se na microanálise de discurso, em conjunto com a microanálise de frames, a análise cultural de qualquer segmento organizacional torna-se conceitualmente mais específica e sistemática. É precisamente por meio de uma análise intensiva dos discursos que as estruturas mentais dos indivíduos são melhores reconstruídas (JOHNSTON, 2005).
Comparativamente, a definição de análise de discurso proveniente do paradigma pós-estruturalista é caracteristicamente macroscópica e direcionada a captar padrões amplos do que é falado e escrito, focando a pessoa do interlocutor, sua posição social, o período histórico em que vive ou viveu e o porquê de sua fala. Em contraste, a microanálise de discurso consiste em uma abordagem mais intensiva, na qual são selecionados exemplos específicos de textos escritos ou discursos, com a finalidade de explicar por que palavras, sentenças e conceitos são articulados do
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jeito que são. Dessa forma, a realização combinada da microanálise de discurso com a microanálise de frames possibilita que sejam reconstruídos graficamente os
frames representativos dos indivíduos, em grupo ou isolados, proporcionando nesse
sentido um olhar diferenciado para a análise dos fatores ideacionais e suas influências no comportamento humano (JOHNSTON, 2005).
A dinâmica dos processos de hibridização, no que tange à grande possibilidade de as organizações buscarem a prevalência das suas lógicas sobre as outras, tende a estimular a disputa de frames (WOOD JR., 2010). Muito dessas disputas de frames podem ser apreendidas analisando-se o comportamento das organizações ligadas aos movimentos sociais. Tais organizações devotam considerável esforço na construção de versões particulares da realidade, desenvolvendo e expondo visões alternativas, na tentativa de afetar a interpretação de várias audiências, tal como prescrito na programação do frame de referência (BENFORD, 1993).
A respeito da disputa de frames que podem surgir no contexto das organizações de movimentos sociais, Goffman (1986) traça um breve roteiro. Segundo o autor, tais disputas iniciam-se quando, dentro de um considerável período, as partes envolvidas em um determinado objetivo social não manifestam acordo imediato sobre como atingi-lo, tornando impossível juntá-las sob um mesmo frame. Nessas circunstâncias, as partes com interpretações opostas podem começar abertamente uma disputa entre elas, mais específicamente sobre qual deve ser exatamente o objetivo do movimento e como ele deve ser alcançado exatamente. Outra questão crucial que costuma figurar nas disputas atinentes às organização dos movimentos sociais recai sobre qual interpretação dos fatos deve ser a prevalecente. Em síntese, devido às disputas, a realidade compartilhada passa ser a negociada no âmbito de tais organizações (GOFFMAN, 1986).
Benford (1993) também fornece sua versão para a identificação das disputas de
frames, a partir de estudos sobre as organizações dos movimentos sociais.
Primeiro, identificam-se os frames internos em disputa. Segundo o autor, uma disputa intraorganizacional de frames se operacionaliza quando representantes de duas ou mais organizações externam opiniões diferentes sobre questões como: conteúdo da atividade de enquadramento proposto, a maneira pela qual as organizações ou movimentos devem tentar afetar as interpretações de variadas
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audiências e o público para o qual a atividade de enquadramento deve ser dirigida, entre outras. Posteriormente, o contexto da disputa deve ser avaliado com ênfase nas organizações envolvidas, nos grupos representativos de cada organização, nos espaços disputados e nos resultados e implicações que a disputa pode gerar. Dessa forma, espera-se obter uma melhor compreensão acerca da dinâmica de micromobilização e da realidade negociada, como também um melhor entendimento sobre como os processos de gestão são continuados em contextos de disputa. (BENFORD, 1993). Um desdobramento dessa abordagem é a possibilidade de se adotar uma linguagem empiricamente baseada, por meio da qual os pesquisadores podem testar a influência causal dos frames em conflito. Essa abordagem representa um estilo formal da reprodução dos frames e dos seus conteúdos, permitindo compará-los entre diferentes organizações ou mesmo entre diferentes períodos na mesma organização (JOHNSTON, 2005).
Ampliando a discussão sobre as disputas de frames, é possível que, nas organizações híbridas, tais disputas se manifestem no interior de cada dimensão apontada por Battilana (2014) — Relacionamentos Interorganizacionais; Cultura; Design Organizacional; Composição da Força de Trabalho; Atividades Organizacionais —, motivo pelo qual a observação do comportamento organizacional no âmbito de cada dimensão é apontada como uma tarefa de suma importância para o sucesso da iniciativa híbrida. Seu objetivo é aumentar a compreensão sobre como a nova interface emergida da combinação de diferentes lógicas institucionais tem evoluído, pois, assim como nas organizações dos movimentos sociais, a disputa de frames no âmbito das organizações híbridas pode emergir na medida em que questões interpretativas venham a se tornar ubíquas entre as partes que compõem o híbrido organizacional (BENFORD, 1993).
Pache e Santos (2010) apontam que as lógicas institucionais configuram-se entre os componentes mais importantes das subculturas organizacionais e, como visto no tópico sobre cultura organizacional, é no paradigma da diferenciação que tais subculturas são melhor compreendidas. As subculturas apresentam, no seu bojo, diferentes formas de interpretar o contexto organizacional. Suas análises incluem as inúmeras ambiguidades advindas dos diferentes grupos organizaconais, as quais, a
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partir de conflitos e tensões internas, podem gerar resultados incontroláveis (MEYERSON; MARTIN, 1987).
No universo das subculturas, tais conflitos e tensões podem ser entendidos como uma disputa pela prevalência de uma determinada visão de mundo no contexto da organização. Ocorre uma disputa por um esquema interpretativo comum, que pode ser visto ora como uma base de resistência à mudança, ora como tentativa de imposição de uma visão tradicional ou moderna sobre toda a organização (PACHE; SANTOS, 2010).
Visto que os frames podem refletir a forma como essas subculturas ou lógicas institucionais influenciam o dia a dia da organização, a análise de frames pode contribuir para a compreensão das disputas inerentes ao processo de mudança, tendo o texto cultural como representação da cultura dos diferentes grupos organizacionais. Adotando esse modelo para a análise da disputa de frames, ou seja, um modelo baseado na compreensão dos textos produzidos pelos atores organizacionais, é conferida à análise organizacional maior clareza quando o tema em questão são frames, isto é, “esquemas cognitivos que moldam o comportamento humano”. (JOHNSTON, 2005, p.240).
A análise dos frames identificados no HUCAM será baseada nesse framework, que possui um importante caráter instrumentalizante voltado à compreensão dos textos produzidos pelos trabalhadores, a partir da realização de entrevistas, como também para a análise de documentos textuais representativos do processo de hibridização em curso no hospital.
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3 METODOLOGIA
A constante busca em lidar corretamente com a subjetividade do pesquisador justifica o rigor metodológico característico da ciência, embora o distanciamento total do objeto pesquisado configure-se uma questão ainda bastante debatida nos círculos acadêmicos, já que o método também pode aproximar o investigador do objeto estudado. Contudo, ao primar-se pela análise crítica do objeto em estudo e perseguir a consecução de resultados que respondam o problema da pesquisa de forma coerente com o referencial teórico utilizado, delineou-se a abordagem metodológica descrita nos tópicos a seguir.