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2.2 GESTÃO DO RISCO NO RELACIONAMENTO ENTRE

2.2.1 Teorias do risco

Steele (2004, p.4) menciona que, na teoria legal, falar de risco é travar um debate em torno das palavras ação e decisão. Para a autora o risco habilita o ator à tomada de decisões e ajuda a explicar a possibilidade de ação responsiva. Nesse sentido, adotar uma perspectiva baseada no risco comumente implica centrar o debate em torno de implicações prováveis, aferição de possibilidades (STEELE, 2004). Mas risco também pode estar associado a um estado de coisas, a circunstâncias (2004, p.6). Noutra perspectiva risco pode ser associado a incerteza e mitigá-lo pode implicar em calcular probabilidades, frequências e medidas afins (STEELE, 2004) Risco também pode ser compreendido como sinônimo de perigo (BECK, [1986], 2013) e, nesta abordagem, evitá-lo pode conduzir a implicações não somente causais e materiais, mas à consagração de valores, crenças e instituições.

Numa perspectiva mais objetivista, ao se considerar que o risco habilita o autor à tomada de decisões, volta-se ao estudo do risco focando-se em atitudes possíveis a esse ator (STEELE, 2004). O agente deve desenvolver técnicas que o habilitem à tomada de decisão considerando-se as atitudes possíveis no presente e levando-se em conta que o futuro é incerto (STEELE, 2004). O risco nessa perspectiva é contrastado com incerteza, com ameaça e constitui, em verdade, um método para a ação, estando associado à calculabilidade (STEELE, 2004). E, em assim sendo, ele não é um problema a ser resolvido, mas sim um meio de se considerar problemas, falta de informações, e um passo no caminho para resolvê-los (STEELE, 2004). Essa abordagem é processualística e considera a estrutura que se cria na tomada de decisão. A ideia de tempo presente e de responsabilidade futura também é bastante forte aqui (STEELE, 2004).

Noutra abordagem também objetivista, mas um tanto mais estatística, consideram-se aspectos probabilísticos, nos quais informações de frequência sobre eventos são relevantes. Na teoria legal essa abordagem é muito utilizada por quem lida com seguros considerando-se, por exemplo, ocorrências em torno de gênero, idade, experiência, tipo de carro, além de outros. Avaliação de perdas possíveis e valoração de tais perdas também são meios de abordar os riscos nesta perspectiva (STEELE, 2004). Considera-se o risco como uma possibilidade de acontecimento;

sendo assim, se classificam os graus e as categorias de risco, considerando-o coletivamente, isto é, factível para com qualquer pessoa, razão por que impele a raciocínios de solidariedade (STEELE, 2004). Tal concepção permite a tecnologia do seguro (STEELE, 2004).

As duas primeiras abordagens, segundo Steele (2004), apesar de seu forte traço objetivista não deixam de possuir caracteres subjetivistas, na medida que, a tomada de decisão envolve a prática de escolhas, o que também é feito considerando-se juízos de adequação, ação pautada por princípios, decisão orientada por valores (STEELE, 2004). Ademais, não se pode deixar de levar em conta que fazer uma opção é algo que necessita de informação estruturada, o que nem sempre é possível. Por isso Steele (2004) afirma que sob este enfoque o risco habilita à escolha, removendo a indecisão. O risco orienta a ação, portanto, numa espécie de racionalidade que conduz à tomada de decisão.

Beck (2013, p. 39) acrescenta que efeitos e danos já ocorridos não são tudo o que se pode considerar ao se tratar de riscos, pois é também pertinente abordar a ideia de futuro, de iminência, de potencial. Quer dizer, o risco não é considerado apenas quando já ocorreu, mas ele também é levado em conta pela possibilidade de ocorrer. Nesse sentido Beck (2013, p. 40) afirma que a sua força social reside na ideia de ameaça projetada para o futuro. Isso gera uma atuação ativa no presente, com vistas a evitar o risco e seus danos no futuro (BECK, 2013, p.40).

Renn (1992) coloca as seguintes questões para introduzir o assunto:

Quais os critérios apropriados para se lidar com os riscos? Quão seguro é suficientemente seguro? A sociedade pode adotar um grupo de critérios suficientemente seguros para todos os tipos de riscos independentemente do contexto? Quem pode estar envolvido no desenho desses critérios? Quem deve ser responsabilizado se o critério se mostrar inadequado? (RENN, 1992:54)

Em sua resposta, Renn (1992) esclarece que pode haver variação. Se o risco é visto como uma propriedade objetiva de um evento ou atividade e medido como a probabilidade de efeitos adversos bem definidos, as implicações políticas são óbvias.

Neste caso, as ações provavelmente serão de ordenar o risco de acordo com medidas objetivas de probabilidade e magnitude de dano e alocar recursos para reduzir os riscos maiores (RENN, 1992). Se, por outro lado, o risco é visto como uma construção cultural ou social, as atividades de gestão do risco podem ser definidas de acordo com critérios diferentes e as prioridades poderão refletir valores sociais e preferências de estilo de vida (RENN, 1992).

Lupton (2005) afirma que na identificação de riscos específicos contextos socioculturais e históricos em que estamos inseridos ganham lugar. Assim, em certo tempo, em certos locais, em certas sociedades, um dado fenômeno pode ser considerado simples ansiedade. Noutros locais, eras e grupos sociais, podem ser considerados riscos (LUPTON, 2005).

Zinn (2008) analisa as estratégias racional e não-racional para lidar com risco e incerteza e afirma que as decisões não são tão dicotômicas quanto se pensa, afirmando a existência de estratégias intermediárias para se lidar com os riscos.

Assim, afirma que mesmo diante de decisões mais utilitaristas, focadas em dados, há

um componente de crença, e que, por sua vez, ao se decidir utilizando-se de crenças não se prescinde, muitas vezes, de dados históricos, isto é, de fatos reais, concretos e passados, que influenciam a decisão.

Kunreuther e Slovic (1996) chamam a atenção para a interferência de aspectos institucionais, procedimentais e societais na gestão do risco, e afirmam que mesmo na concepção de risco como um jogo, considerar aspectos estritamente técnicos não é atitude adequada, por negligenciar em aspectos valorativos importantes. Oomsels et al (2016) afirmam que os pesquisadores de Administração Pública investigam uma variedade de temas para entender e melhorar a gestão e políticas de funcionamento do governo. Eles afirmam que a (des)confiança interorganizacional e relacionamentos cooperativos são temas que têm recebido pouca atenção dos pesquisadores de Administração Pública. Ambas seriam, em seu entendimento, partes de um continuum, capazes de produzir tanto funcionalidades quanto desfuncionalidades. Estas ideias estão sintetizadas no quadro adiante:

Quadro 3 Framework conceitual dos papéis funcional e disfuncional de confiança e desconfiança

Confiança Desconfiança

Funcionalidades A suspensão do risco lida com incremento de cooperação, flexibilidade, inovação, aprendizagem, desempenho, comportamento pro-social que é relacionado a ganhos potenciais, mas imprevisíveis e cooperação eficiente em termos de custos e bem-estar sócio emocional que amplia fronteiras.

Evitar riscos lida com atomização, regulação, e controle comportamental para proteger contra possíveis abusos de vulnerabilidade, que se espera que resulte em custos de transação previsíveis (mas altos) e ganhos previsíveis (mas baixos).

Desfuncionalidades A suspensão do risco lida com

possível abuso de

vulnerabilidade no caso de oportunismo e de não se visualizar o fracasso, podendo resultar em custos potenciais não previsíveis. recebe tratamento tanto objetivista quanto de base mais subjetivista, consistindo-se

num valor. Da leitura do quadro se pode verificar a necessidade de se assumir uma postura de equilíbrio, na qual nem se pode prescindir, tampouco supervalorizar a crença ou a descrença.

Ainda no trabalho em comento, através de pesquisa empírica, Oomsels et al (2016) desenvolveram um framework conceitual e estudaram as consequências negativas e positivas da (des)confiança interorganizacional em esferas de relacionamento do Executivo e do Judiciário na Holanda. Por meio de entrevistas semiestruturadas feitas em ambos os setores identificaram funcionalidades e desfuncionalidades tanto na desconfiança, quanto na confiança e concluíram que (1) as interações entre organizações são funcionais se houver a combinação da confiança como uma regra e da desconfiança como uma exceção razoável, como também que (2) resultados disfuncionais são obtidos ao se tratar a confiança como um dogma e a desconfiança como regra.

Observa-se nas abordagens de Oomsels et al (2016) e também na de Zinn (2008), entre outros, a presença de elementos culturais, na medida que valores orientam a definição de riscos e mesmo a identificação de categorias a eles ligadas.

No entanto em ambos os trabalhos se percebe a consideração de elementos objetivos, concretos, com perspectiva racional, que evidenciam que um tratamento puramente dicotômico dos riscos – que considere apena aspectos realistas dos riscos ou que considere apenas aspectos subjetivistas destes – não é completo.

Assim, ainda que elementos valorativos estejam presentes no tratamento dos riscos, algum nível de calculabilidade, atuarialidade, historicidade far-se-á também presente na lida com o tema. Esta percepção, segundo se pensa, permite a “conversa”

entre as abordagens teóricas escolhidas para esta pesquisa. É que a metodologia considera aspectos mais qualitativos, sem prescindir de dados reais e concretos, contextuais e mesmo quantitativos.

As teorias acerca dos riscos, como se vê, podem assumir traços mais objetivistas ou mais subjetivistas. Em que pese a dicotomia, análises integrativas têm sido propostas. E assim o é porque há autores que afirmam que, sozinhas, as teorias objetivistas, em verdade, geram incerteza; que nem todos os riscos podem ser quantificados e nem medidos da mesma forma e ainda que julgamentos de valores

são inerentes aos riscos (compilação de MAGUIRE; HARDY, 2013). As abordagens integrativas que serviram de lente para esta pesquisa são construcionistas, partem do pressuposto de que o fenômeno social é ambíguo (MAGUIRE; HARDY, 2013) e admitem que, riscos, para serem mais amplamente identificáveis, não devem prescindir de condições morais (GEPHART, et al, 2015).

Lupton (1999) afirma que aquilo que é identificado como risco possui um status ontológico importante para as compreensões acerca de nós mesmos e dos mundos material e social. Ela afirma que esse processo de seleção faz parte das instituições sociais, dos grupos e dos indivíduos. A autora afirma ainda que a seleção do risco e que as atividades de gestão a ele associadas são centrais no ordenamento, no funcionamento de nossa identidade cultural e individual (LUPTON, 2005).

Parece, pois, ser necessária a análise sob a ótica integradora na medida que, se por um lado a admissão de um risco como relevante possui base cultural, por outro quantificá-lo e a ele reagir são medidas esperadas, pois o que se quer é extirpá-lo, reduzi-lo ou minimizar seus efeitos. Nesse sentido, Maguire e Hardy (2013) afirmam que os processos pelos quais produtos e tecnologias acessados para lidar com os riscos são de considerável significância aos estudiosos organizacionais, aos que lidam com organizações na prática e ao público afim. Ao tratar dos riscos, portanto, as organizações acabam por mesclar valores e crenças acerca da instituição risco com dados e fatos históricos, e ainda com ações a eles reativas.

Por fim, considerando o interesse pela definição de riscos no tema que se pretende analisar, acredita-se ser necessária ainda a análise acerca da sua legitimação. Esta análise foi feita através da construção discursiva em torno dos riscos. Nesse sentido, Lupton (2005) afirma que

[...]um discurso pode ser compreendido como um corpo limitado de conhecimento e de práticas associadas, um modo particular de dar sentido à realidade pelas palavras e imagens (LUPTON, 1999, p. 15).

A seguir são abordadas as construções teóricas acerca da legitimação de riscos com as quais a pesquisa se alinhou.