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MATERIAIS E/OU DOCUMENTOS

5.3 Terceira fase

5.3.1 Caracterização das fichas e modo de condução da entrevista associativa

Como já sinalizamos no Capítulo 3, as fichas utilizadas na entrevista foram construídas a partir dos trabalhos levantados no estado do conhecimento, dos sites e blogs das escolas, de declarações de pais e professores garimpadas com o levantamento realizado21 durante a primeira fase.

Com a entrevista associativa (utilizando as fichas) buscamos acessar a relação entre as representações sociais e as práticas de educação para o consumo no cotidiano escolar que nem sempre estão documentadas, institucionalizadas, mas que seriam tão formativas quanto às indicadas pelo currículo prescrito. Contudo, não desejávamos interrogar diretamente as professoras sobre o assunto, mas direcionar o mínimo possível esse diálogo, deixando as participantes bem a vontade.

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Localizamos uma foto postada, por uma professora, na rede social Facebook, do Ronald McDonald, da Rede de lanchonetes McDonalds, realizando um show para promoção e hábitos saudáveis dentro de uma escola pública do Rio de Janeiro.

Desta forma, embora interessados nas práticas de incentivo ao consumo inicialmente, apresentamos na ficha intitulada “alimentação” situações corriqueiras para que as docentes fossem se sentindo mais seguras, livres para tratar o assunto. Logo em seguida apresentávamos outra ficha relacionada à alimentação mostrando shows de mascotes de empresas alimentícias do ramo de fast food. Esse título foi escolhido com o intuito de induzir o mínimo possível as docentes a se colocarem contra ou a favor dessa prática. A mesma lógica foi seguida nas demais fichas.

Prosseguimos com a ficha intitulada “educação financeira” que continha atividades como a ida a um mercado, montagem de um mercado fictício, montagem de loja de doces, ida à RiHappy. Essas imagens resultaram de atividades sinalizadas pelas próprias escolas que as divulgaram como educação financeira, além de outras imagens que, embora não tenham sido identificadas como educação financeira, veiculavam o consumo como pratica na escola. Depois a ficha “brinquedos” (que continha crianças brincando a sós e acompanhadas, brinquedos de sucata, de personagens midiáticos e tecnológicos) e a ficha “formas de

comemorar aniversários nas escolas” mostrava diferentes modos de festejar os aniversários

no espaço das instituições.

Após a apresentação das quatro fichas introduzimos as fichas que consideramos de potencial mais ameaçador, pois envolviam situações mais embaraçosas como comunicados, convites e cobrança de taxas. Trata-se das fichas: “formas de comemoração dia dos pais /

dia das mães”, “festa junina”; “eventos”. Por fim, era apresentada a ficha “uniformes”,

que continha além de trechos das respostas do questionário, imagens de um desfile para o lançamento dos novos modelos de uniformes. Deixamos para apresentar esta ficha no final da entrevista porque foi durante o teste do instrumento a que causou maior estranhamento entre professoras.

A maioria das professoras entrevistadas disse já ter conhecimento e/ou vivenciado situações semelhantes às exibidas nas fichas, havendo um estranhamento maior apenas em relação ao desfile de uniformes.

Durante esta fase da pesquisa, todas as participantes da rede pública fizeram comparações entre as práticas de educação para o consumo nas escolas das duas redes, porém poucas professoras da rede privada fizeram essa comparação. As docentes de ambas as redes consideraram que as escolas da rede particular estimulam mais o consumo que as da rede pública.

Como já afirmamos, na 2ª fase da pesquisa identificamos que a educação para o consumo estava objetivada no consumo consciente e ancorada nas praticas que orientam para

o não desperdício e o consumo do necessário. Nas falas decorrentes das entrevistas, são destacadas as práticas de educação ambiental, midiática, financeira e alimentar. Essa representação ressurge, pois as falas das docentes estão carregadas de tentativas de educar para a aquisição do necessário e do não desperdício, ou seja, para o consumo consciente. Eis alguns depoimentos:

Eles traziam verdadeiras casas de festa aqui pra dentro e aí a gente foi tirando isso. Hoje eles ainda podem trazer sacolinha, podem trazer bolo. Eu é que, geralmente, digo que não tragam todas as comidas, porque eles não comem, então vai ser desperdício [...] (P-70-PRI).

Aí veja o que é isso, nova farda por quê? A antiga ficou velha? Deixou de ser camisa? Deixou de ser vestido? Deixou de ser casaco? Deixou de ser calça, short? É estimulo. Às vezes a mãe nem pode comprar, mas a filha quer, porque a farda é nova e não quer mais vir com a velha e tem escola que proíbe, viu? Até tal dia é com a farda velha. O que é isso? Comércio para vender, porque quando ela tá ali vendendo ela tá lucrando (P-85-PU).

Essa horta aqui a gente tentou fazer uma vez, eu acho um projeto muito legal, mas aí também a gente não teve muito o apoio da gestão, da coordenação. Eu acho que isso aqui vale muito a pena porque as crianças adquirem um conhecimento muito grande de como poder produzir, do tempo que se leva e eles consomem o alimento depois de uma forma mais consciente porque eles viram que deu trabalho de plantar, trabalho de regar, de tá olhando (P-86-PU).

Uma mãe disse que tava escovando os dentes com a torneira aberta o menino disse “Mainha! Feche a torneira que a água do planeta vai se acabar e a senhora tá estragando. Não pode. Tem que economizar.” [...] Porque quando a gente conversa as vezes uma leitura de jornal favorece, as vezes uma historinha mesmo, algo favorece e a história saí naturalmente, na hora de conversa e a gente reflete... (P-109-PU).

Seguindo as orientações de Bardin (2011) organizamos o material recolhido com a entrevista associativa em cinco categorias (Quadro 3). Elas sumarizam as relações entre representações sociais e práticas de educação para o consumo na escola. No referido quadro indicamos a categoria e as principais práticas de incentivo ou questionamento presentes nos depoimentos das professoras.

Lembramos que, devido ao caráter interdisciplinar do tema consumo, mesmo organizadas em separado, as categorias guardam estreita relação entre si, ou seja, uma não consegue excluir totalmente a outra. Estão em interdependência.

Quadro 3 - Principais práticas e questionamentos detectados na entrevista associativa

Categoria Principais práticas e questionamentos detectados

Educação Financeira

- Questionamentos sobre: o consumo valor de alimentos com temas de personagens; informações contidas nas embalagens dos produtos: prazo de validade de produtos industrializados, aparência dos produtos, informações nutricionais, etc.

- Estratégias de arrumação dos produtos em supermercados; - Ideia de valor e similaridade entre produtos;

- Questionamentos sobre: as crianças estarem na seção de biscoitos e salgadinhos do mercado e presença de embalagens de refrigerantes e outros alimentos considerados não saudáveis;

- Discordância da ida à RiHappy para investir o dinheiro economizado; - Unanimidade em relação a importância em poupar dinheiro.

Educação Alimentar

- Nos CEMEIs22 a alimentação oferecida às crianças é considerada saudável, nutritiva, natural e saborosa;

- Nas escolas municipais o acesso à alimentação saudável tem sido dificultado pelo fato dos alimentos serem industrializados, de sabor artificial e péssima aparência. O que leva as professoras a precisarem combater o consumo de alimentos pouco saudáveis como salgadinhos e refrigerantes diariamente.

- Nas escolas privadas a preocupação com a qualidade e o tipo de lanche que as crianças consomem vindos de casa e das cantinas escolares é constante nas escolas que não oferecem lanches coletivos;

- Nas escolas privadas as atividades de culinária em geral são custeadas pelas famílias das crianças e nas escolas públicas pelas professoras; - As professoras elogiam as crianças que levam lanches saudáveis como frutas, suco natural, biscoito sem recheio ou integral.

Brinquedos

- Para algumas professoras, levar o brinquedo favorece a trabalhar: limites; socialização; o compartilhar; o cuidado e o cultivo de sentimentos como: carinho, respeito e amizade, além do conceito de tempo. O brinquedo trazido de casa representa o vinculo da criança, no entanto, ele não é para ser exibido e/ou ostentado, mas dividido partilhado com os colegas.

- As professoras fazem apologia aos brinquedos populares, de baixo custo, principalmente, os confeccionados pelas crianças;

- As professoras demonstram preferir trabalhar com os brinquedos que a instituição disponibiliza.

- As famílias estimulam as crianças a levarem para a escola brinquedos em excesso, caros e a não emprestá-los;

- Parte das professoras não questionam a permissão da escola para a criança levar o brinquedo, pois geram conflitos além de desperta nas crianças o desejo de ter o que o outro tem.

Comemorações/

eventos e taxas Uniformes

- Reconhecimento do uniforme como capaz de conferir vínculo da criança à instituição.

- Defesa de um modelo confortável e de boa qualidade.

- Repúdio e indignação para com o desfile de uniformes - considerado um espetáculo desnecessário que incentiva o modismo, consumismo, cultura da beleza e competição entre as crianças.

- As escolas buscam se promover através do desfile

- A não obrigatoriedade do uso do uniforme incentiva o consumo

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Aniversários no espaço

escolar

- Estimulam o consumo e a competição entre crianças e famílias. - O envio do convite atua como intimação para o envio do presente. - Famílias são responsáveis pelos excessos das comemorações de aniversários nas escolas e incentivo a competitividade

- Não há um questionamento das escolas permitirem a realização dos aniversários nem a entrada de alimentos não saudáveis;

- Autorização das escolas para que as famílias levem o que desejarem para as comemorações, assim como o não respeito as regras da escola gera excesso e constrangimento;

Eventos e comemorações

- Palhaços e outros personagens fazem shows no espaço escolar

- Propagandas de produtos e personagens são distribuídas em escolas e enviadas às famílias

- taxas são cobradas para realização de eventos na própria escola, em hotéis, parques, cinemas e outros

- As escolas públicas buscam parcerias para realizar eventos e comemorações

- As docentes investem seus próprios recursos na realização dos eventos e comemorações

- Venda de livros e outros produtos na escola - As famílias valorizam grandes eventos

- Nas escolas privadas os eventos custam caro, estimulam o consumo do supérfluo e escola acaba lucrando.

- Os eventos acabam por não propiciar interação além se provocar constrangimento nos grupos

5.3.2 Educação financeira

Na categoria referente à educação financeira, tanto as professoras da rede pública quanto as da rede privada elogiaram a montagem do mercado simulado com embalagens vazias e a ida ao mercado. Essas atividades foram vistas como lúdicas e adequadas à realidade. Muitas disseram realizar atividades semelhantes, mencionaram conteúdos diversos que já trabalham e que podem ser explorados nessas atividades como: a ideia de valor; similaridade entre produtos; consumo de alimentos com temas de personagens; conteúdos matemáticos (operações, numeral, quantidade, sistema monetário, classificação, agrupamento); informações nas embalagens dos produtos; prazo de validade de produtos industrializados; aparência dos produtos como frutas e verduras (verde, maduro); informações nutricionais; estratégias de arrumação dos produtos utilizadas pelos mercados para aumentar as vendas.

Figura 82 – Ficha: Educação Financeira23