Capítulo 2 – Disputa por recursos e falência do Estado em Serra Leoa
2.4 Conflito armado e variações na balança de poder interna
2.4.3 Terceira fase: O jugo do terror (1997-1999)
A terceira fase do conflito armado em Serra Leoa identifica-se pela intensificação dos combates, com a vitimização de grande parte da população civil. O intenso emprego da violência chamou a atenção internacional – da imprensa ocidental, de organizações internacionais de escopo internacional em defesa dos direitos humanos e também das Nações Unidas. Essa fase decorre desde o golpe do Armed Forces Revolutionary Council (AFRC) até a assinatura do acordo de Lomé e a conseqüente criação da UNAMSIL, em 1999. É um período de afirmação do poder da RUF, a despeito de sua expulsão de Freetown em 1998. De um lado, a RUF alia-se à junta do AFRC, liderada por Jonny Koroma; de outro, o governo usa o fundamental apoio das forças nigerianas da ECOMOG e das CDFs, especialmente os Kamajores.
Após que os mercenários partiram, em fevereiro de 1997, a situação da segurança no país imediatamente se degradou, encadeando um violento golpe de Estado liderado por Jonny Paul Koroma, um oficial militar de baixa patente, que combinou forças tanto do exército como de rebeldes, a instaurar o governo de uma junta de soldados e rebeldes em 25 de março de 1997. O AFRC criticava o fracasso do governo eleito em implementar o acordo de paz com a RUF163 e a
prática de favoritismo étnico por parte do SLPP. A RUF foi convidada a participar do governo e
162 LYONS, Terrence. “Liberia’s Path from Anarchy to Elections”. Current History. Vol. 97, n. 619. Maio 1998. p. 229-233; HUMAN RIGHTS WATCH. “Liberia: Emerging from Destruction”. Report. October 1, 1997. 163 Aproximadamente três mil ex-combatentes desmobilizados pela ECOMOG, conforme o acordo de
a junta pediu a libertação de Sankoh, que estava detido na Nigéria desde 2 de março, pelo delito de porte ilícito de armas e munição.
A Nigéria enviou 900 soldados, para Serra Leoa, de acordo com um pacto de defesa assinado entre os dois governos, em março. Em nome de uma tentativa de restauração da ordem da CEDEAO, as forças nigerianas, adicionadas de mais 700 soldados que chegaram em maio, mantiveram o controle do aeroporto de Lungi, do outro lado da baía de Freetown.164 De fato, a
Nigéria agiu unilateralmente, pois sua iniciativa só recebeu o aval oficial de suas contrapartes da CEDEAO na Cúpula de Abuja, em 29 de agosto de 1997. Antes disso, o Conselho de Segurança das Nações Unidas havia cumprimentado as ações da ECOMOG, nas resoluções 1162 e 1181, adotadas em abril e julho.165
O regime do AFRC suspendeu a constituição, baniu os partidos políticos, as reuniões públicas e manifestações, anunciando governo por decretos militares. O sistema judiciário, em colapso, foi substituído por Tribunais Populares Revolucionários, que não eram compostos por juristas. Assim, o regime postou-se com imagem débil perante a comunidade internacional, tornando-se alvo de sanções visando à reinstalação de Kabbah – que fugira para o exílio em Conakry – na presidência. Empresas como a DiamondWorks e a Rex-Diamond Mining Corporation suspenderam suas atividades e evacuaram seus funcionários, assim como as representações diplomáticas. As Nações Unidas impuseram um embargo comercial contra a importações de armas.166 “Security, safety, and stability declined in the countryside as both the RSLMF and RUF continued to forage, pillage and kill”.167 Os Kamajores, por sua vez,
executavam ataques a ambos os grupos. Ainda que a autoridade política fosse contestada e a própria capital tenha sido ocupada por pequenos grupos armados, “the most stability in Sierra
Leone is found within the archipelago of mineral resources scattered across the country. Firms such as ArmSec Internationals and Lifeguard continue to guard mine sites at which some Kabbah government officials seek protection.”168.
164 A atuação desse grupo, no bombardeio de quartéis-generais da junta do AFRC, causou numerosas fatalidades entre a população civil. Cf.: DOUGLAS, Ian. “Fighting for Diamonds – Private Military Companies in Sierra Leone”. In: CILLIERS, Jakkie & MASON, Peggy (Eds.). Peace, Profit or Plunder?: The Privatization of Security in War-Torn African Societies. Pretória: Institute for Security Studies, 1999. p. 187-188.
165 Resoluções do Conselho de Segurança 1162, de 17 de abril de 1998; e 1181, de 13 de julho de 1998. 166 Resolução do Conselho de Segurança 1132, de 8 de outubro de 1997.
167 DOUGLAS, op. cit., p. 187.
Sob pressões das potências ocidentais, de países vizinhos, membros da CEDEAO, e das Nações Unidas, a RUF e o AFRC assinaram o acordo de Conakry, concluído em 23 de outubro de 1997. Esse acordo previa um plano de paz, que incluiria a restauração do governo eleito de Kabbah dentro de seis meses e um cessar-fogo a ser monitorado pela ECOMOG e, uma vez determinado pelo Conselho de Segurança, por observadores militares das Nações Unidas. Em 5 de novembro, o presidente Kabbah declarou sua aceitação do acordo e afirmou a disposição de seu governo cooperar com a ECOMOG/CEDEAO, as Nações Unidas e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no desempenhar de suas respectivas funções. O AFRC, porém, não se dispôs a cumprir os compromissos assumidos. A ECOMOG e os Kamajores lançaram ofensivas aéreas e terrestres ao longo da fronteira com a Libéria e, em janeiro de 1998, os Kamajores começaram a recuperar certos locais de atividades diamantíferas, para negar esses recursos à junta e à RUF.169
Em fevereiro de 1998, em um momento em que já estavam claras as intenções das duas partes beligerantes em voltar a lutar, a ECOMOG, em resposta a uma ofensiva de rebeldes aliados às forças da junta de governo, encerrou um ataque militar que levou ao colapso da junta e à sua expulsão de Freetown.170 O Kamajores também atacaram, nas cidades principais de Bo e
Kenema. Os combatentes da junta e da RUF partiram em retirada para suas posições no nordeste do país. À medida que recuavam, empregavam violência contra a população civil. Kailahun e Kono permaneciam sob o controle dos rebeldes.
Quando se restabeleceu, Kabbah, ao voltar ao palácio presidencial, State Mansion, em 10 de março de 1998, declarou estado de emergência ao derrogar direitos e liberdades individuais em nome da proteção contra alegada ameaça à vida da nação e à sua existência. Koroma, o líder da junta, foi preso em Freetown sob acusação de envolvimento em tentativa de golpe em setembro de 1996. Esse evento não marcou o começo de uma reviravolta no conflito armado de Serra Leoa. A relativa estabilidade no centro do Estado serra-leonês coexistia com uma profunda instabilidade provocada pela insegurança disseminada em todo o território do país. De fato, a retomada de Freetown pela ECOMOG, não significou tanto prejuízo para os rebeldes, que não sofreram muitas perdas em batalha e mantiveram a presença das áreas diamantíferas.
169 HUTCHFUL, Eboe. “The ECOMOG Experience with Peacekeeping in West Africa”. Monograph No
36: Whither Peacekeeping in Africa?. Institute for Security Studies, April 1999.
170 KHOBE, Mitikishe Maxwell. “The Evolution and Conduct of ECOMOG Operations in West Africa”.
Entre 1998 e 1999, as exportações oficiais de diamantes caíram pela metade, chegando a US$ 30 milhões por ano, enquanto as exportações de diamantes efetuadas pela Libéria – de onde as pedras serra-leonesas contrabandeadas eram reexportadas – aumentaram acentuadamente, atingindo US$ 300 milhões anuais.171 As reservas minerais foram reclamadas pelo governo
restaurado – em nome das empresas concessionárias estrangeiras –, por meio da ação de mercenários da Sandline International, uma empresa privada britânica que proveu a Kabbah serviços de inteligência, logística e transportes aéreos, bem como 35 toneladas em equipamentos militares da Bulgária para as forças nigerianas da ECOMOG.172 Em julho de 1998, mais quatro
mil soldados nigerianos chegaram para compor a ECOMOG em Serra Leoa, transferidos da Libéria. As forças oeste-africanas atingiram um contingente de cerca de quinze mil soldados.173
A intensa violência perpetrada contra civis desarmados no distrito de Kono, onde estão localizadas as principais reservas diamantíferas do país, a partir de fevereiro de 1998, não foi impedida de continuar por pelo menos cinco meses. A TeleServices passou a apoiar a LifeGuard na segurança das propriedades da Branch Energy em Koindu.174 Ataques contra civis ocorreram
em quase todas as regiões do país, mas com uma concentração particularmente alta em Koidu, área de garimpo de diamantes no leste do país, onde a RUF/AFRC mantinha a forte presença.175
O domínio dos rebeldes sobre a área refletia a influência de Charles Taylor, nos países da região da bacia do rio Mano, reforçada em Serra Leoa pelos laços de amizade entre Sankoh e Taylor, bem como fazia transbordar a violência praticada pelos grupos armados para a Guiné.176
O mercado da Libéria era o principal ponto de trânsito dos diamantes serra-leoneses contrabandeados nas minas dominadas pela RUF, e Taylor supria as armas e as drogas empregadas na guerra de Serra Leoa. Em troca, a renda gerada a partir da exploração dos diamantes ajudava a financiar o regime em Monrovia e a enriquecer seus incumbentes.177 Fora da
171 “Diamonds: A rebel's best friend”. BBC News. 15/05/2000.
172 PEREZ, Andrés. “Guerre et diamants en Sierra Leone”. Le Monde Diplomatique. Juin, 2000.; “Militias and Market Forces”. Africa Confidential. Vol. 39, n. 21. 23 October 1998. p. 1-2.
173 DOUGLAS, Ian. “Fighting for Diamonds – Private Military Companies in Sierra Leone”. In: CILLIERS, Jakkie & MASON, Peggy (Eds.). Peace, Profit or Plunder?: The Privatization of Security in War- Torn African Societies. Pretória: Institute for Security Studies, 1999. p. 194-195.
174 Ibid., p. 194.
175 DOYLE, Mark. “Sierra Leone road trip: Yengema to Koindu”. BBC News. 10/08/2001.
176 O companheirismo entre os dois líderes rebeldes remontava à época em que receberam treinamento militar em Benghazi, na Líbia, além de que Sankoh participou do estágio inicial da insurreição que levaria Taylor ao poder na Libéria. Cf.: “Liberia: Youths begin hunger strike to draw attention to border crisis”. AFP. Paris: 23/05/2001; “Liberia: Taylor, UN envoy discuss regional tension, troop withdrawal”. AFP. Paris: 29/05/2001.
177 A capacidade de produção das minas de diamantes da Libéria é de cem mil a 150 mil quilates anuais, mas as exportações de diamantes da Libéria para a Bélgica, onde metade das pedras brutas do mundo é
África, a economia de guerra dos insurgentes da África Ocidental envolvia, também, atores- chave, como a Bélgica e a Bulgária. Os diamantes extraídos em Serra Leoa eram reunidos em Makeni, Tongo, Kono ou Daru, e exportados ilicitamente para a Libéria, de onde eram reexportados para a Antuérpia. Assim, gerava-se o financiamento para os armamentos empregados pelas organizações rebeldes que, por sua vez, eram importados da Bulgária pela Libéria, para serem contrabandeados para a RUF.178 Mas a RUF não dependia de apenas uma
rota de suprimentos, pois também comprava armas da Ucrânia por meio de Burkina Faso179 e
introduzia diamantes extraídos ilegalmente nas áreas sob seu controle no mercado formal serra- leonês.180
Nessa guerra pelo controle das minas de diamantes, lutada por meio de ataques à população civil, uma das regiões mais focadas pelas partes em conflito não poderia deixar de receber atenção peculiar. Os ataques em vilas ou a civis escondendo-se na floresta não levavam em conta afiliação étnica ou religiosa, mas homens jovens, em idade de votar ou de lutar eram particularmente visados, bem como havia violência com base em gênero. Ao menos duas campanhas organizadas de terror, a “Operação Nada Vive” e a “Operação Pague por Você”,181
emergiram em Koidu e se espalharam pelo país, com o objetivo de saquear, destruir ou matar qualquer coisa no caminho dos combatentes. A “Operação Pague por Você” incluía barreiras nas estradas, nas quais as pessoas eram obrigadas a entregar seus pertences como pedágios para seguirem íntegras. Uma minoria das vítimas era, de fato, de pessoas que apoiavam o governo; a maioria era de pequenos agricultores, garimpeiros ou pequenos comerciantes que não eram ativistas políticos. Segundo uma testemunha, os rebeldes apenas matavam, ao léu.182 Não lhes
perguntavam identidade nem filiação política.
Milhares de pessoas sofreram atrocidades como mutilação física, tortura e assassinato indiscriminado, incluindo amputações com facões de uma ou das duas mãos, braços, pés, pernas, comercializada, aumentaram para seis milhões de quilates no final dos anos 1990. Cf.: ASSER, Martin. “Liberia fishes in Troubled Waters”. BBC News. 16/05/2000.
178 “Diamonds: A rebel’s best friend”. BBC News. 15/05/2000; “Holbrooke Claims Bulgaria, Ukraine Selling Arms to Sierra Leone Rebels”. Trud. Sofia: 03/08/2000.
179 BERMAN, Eric G. “Re-Armament in Sierra Leone: One Year After the Lomé Peace Agreement”.
Occasional Paper n. 1. Genebra: Small Arms Survey, Dezembro 2000.
180 “Sierra Leone: NGO says most diamonds traded in southeastern region tainted”. Agence France Presse. Paris: 09/04/2001.
181 “Operation No Living Thing” e “Operation Pay Yourself”, cf.: HUMAN RIGHTS WATCH. “Sowing Terror – Atrocities against civilians in Sierra Leone”. Vol. 10, n. 3 (A). July 1998. p. 6.
182 Uma testemunha da violência nos arredores de Koidu disse à Human Rights Watch: “They don't ask you
if you're Kabbah supporter; they just kill randomly...”. Cf.: HUMAN RIGHTS WATCH. “Sowing Terror –
orelhas e nádegas, ou de um ou mais dedos; mutilações de órgãos sexuais; lacerações na cabeça, no pescoço, nos braços, nas pernas, nos pés e no tronco; a arrancada de um ou dois olhos; estupros; ferimentos a tiros; queimaduras por explosivos ou outros instrumentos; injeções com ácido; e espancamentos. Ademais, testemunharam-se execuções a tiros, recrutamento forçado, escravidão sexual e trabalhos forçados. A execução sumária visava sobretudo alvos que fossem pessoas acusadas de serem partidários de Kabbah ou dos Kamajores, ou parentes de combatentes do grupo dos Kamajores. A violação sexual infligia humilhação, terror e dor não somente à vítima, mas também à comunidade de que ela fazia parte. Os trabalhos forçados para mulheres e meninas implicavam servidão sexual, bem como a execução de uma variedade de tarefas femininas, como preparar os alimentos e tomar conta dos meninos capturados para tornarem-se combatentes. Ao vitimar a mulher, os rebeldes alcançavam um fim prático, pois isso respondia às suas necessidades diárias pessoais, e também um fim estratégico, uma vez que estavam cooptando a força de trabalho feminina, destruindo as estruturas familiar e econômica locais. O recrutamento forçado de meninos e de jovens era um método justificado porque os rebeldes os consideravam mais corajosos para lutar, não tinham filhos ou esposas a considerar ao arriscar suas vidas; eram mais facilmente manipulados, ao se verem vulneráveis e sem proteção. Os jovens combatentes são obrigados a atacar as próprias comunidades de origem, o que tornava menos provável que fossem aceitos de volta, devido à culpa e ao trauma. Além das várias formas de abuso físico, a violência resultou em trauma psicológico a indivíduos e comunidades que sofreram esses métodos intencionalmente cruéis de infligir danos para criar terror. O medo da população tornou-se uma importante forma de a liga RUF/AFRC manter a supremacia na área. As operações de terror dos rebeldes foram consideradas uma rodada de violência singular em escala e na natureza grotesca dos ataques aos civis.183
A maior parte das barbaridades foi cometida por membros da RUF/AFRC, mas os Kamajores e outras milícias que apoiavam o governo de Kabbah também cometeram numerosos abusos, incluindo assassinatos indiscriminados e tortura, ainda que em menor escala e de uma natureza diferente, pois geralmente visavam somente os combatentes da RUF/AFRC e seus partidários. Além disso, os Kamajores adicionavam a prática da obstrução de assistência humanitária, cobrando pedágios nas estradas, bem como a dilaceração dos corpos de vítimas, às vezes, seguida do consumo de órgãos vitais, tais como o coração. Os Kamajores eram liderados pelo capitão Samuel Hing Norman, representante do Ministério da Defesa, que defendia a 183 HUMAN RIGHTS WATCH, 1998, op. cit.
política de não ter de tomar prisioneiros, por meio do aniquilamento completo dos inimigos. Haveria ao menos 3 mil crianças-soldado lutando nas CDF só no distrito de Kailahun, no leste do país.
A maior parte das áreas rurais de Serra Leoa era mantida inacessível à ajuda humanitária e informações eram disponibilizadas apenas pelos sobreviventes nos hospitais ou nos centros de saúde no país ou no refúgio na Guiné ou na Libéria. Os cerca de 250 mil refugiados nesses países tampouco usufruíam segurança, pois as autoridades guineenses extorquiam dinheiro deles e os acampamentos na Libéria, como o de Vahun, eram muito próximos da fronteira com Serra Leoa, à mercê de ataques. Em junho de 1998, o acampamento de Guéckedou, a apenas três quilômetros do território de Serra Leoa, foi ameaçado pelos combates que se intensificavam no lado serra- leonês da fronteira, que é marcada apenas por um rio. A circulação de rebeldes através da fronteira não era controlada.
Após a captura do distrito de Kono e subseqüentemente de Makeni, em dezembro de 1998, milhares de combatentes da RUF começaram a se deslocar para a capital. A insegurança era generalizada, ao passo que agências de ajuda humanitária das Nações Unidas precisavam contar com a proteção da LifeGuard.184 No início de janeiro de 1999, eles alcançaram a península
em que Freetown está localizada, a menos de 30 quilômetros a leste da capital. No dia 6, os rebeldes romperam as defesas avançadas mantidas pela ECOMOG e procederam a marcha para o oeste de conquista dos subúrbios, em direção ao centro da cidade. Os rebeldes o fizeram infligindo terror à população. Civis desarmados foram alvo de numerosos atos de violência de natureza notavelmente cruel, sendo que as vítimas eram escolhidas aparentemente de forma randômica, o que provocou uma fuga em massa de pessoas encurraladas pelo avanço rebelde para a área oeste da península.185 Quando a ECOMOG revidou o ataque, a massa de pessoas viu-
se sob fogo cruzado e serviu como uma espécie de escudo humano para os rebeldes. Os bombardeiros aéreos da ECOMOG contra os rebeldes, que muitas vezes se encontravam entre os civis, provocaram muitas mortes de civis desarmados.186 A batalha em área urbana de mais de
um milhão de habitantes tornou mais agudo o fato de que graves e generalizadas violações de direitos humanos caracterizaram o conflito armado em Serra Leoa. A ofensiva contra Freetown 184 “Militias and market forces”. Africa Confidential. Vol. 39, n. 21. 23 October 1998.
185 ONISHI, Norimitsu. “Brutal War's Machetes Maim Sierra Leone”. The New York Times. 26/01/1999; ONISHI, Norimitsu. “Sierra Leone measures terror in severed limbs”. The New York Times. 22/08/1999.
186 “Armed Rebles Rampage in Sierra Leone's Capital”. The Associated Press. 07/01/1999; HUMAN RIGHTS WATCH. “Getting Away with Murder, Mutilation and Rape – New Testimony from Sierra Leone”. Vol. 11, n. 3 (A). July 1999.
em janeiro de 1999 foi o ápice do intenso emprego da violência como forma de construir uma atmosfera de terror no ambiente em disputa, a fim de conferir vantagem aos rebeldes no impedimento do apoio às forças que lhes faziam oposição. As intenções da RUF em relação à prática da violência evidenciaram-se, também, na especialização de certos grupamentos de rebeldes na perpetração de certos tipos de atrocidades.187
Como resultado, a RUF não conseguiu estabelecer-se na capital, mas os sobreviventes perderam amigos e parentes e ficaram com sérios danos físicos ou psíquicos, além da degradação material resultante da destruição de moradias e dos saques sistemáticos. O número de mortos no curto período é estimado em milhares, porém, indeterminado, sendo que muitas vítimas foram enterradas em valas comuns e milhares de civis, principalmente rapazes e moças, foram forçados pelos rebeldes a acompanhá-los rumo a seus redutos.
A presença da ECOMOG em Freetown era fraca na península, pois seu efetivo limitado não permitia intensa defesa das periferias, mas apenas uma concentração de atenção a pontos- chave. Além disso, as tropas não estavam bem-preparadas para uma ofensiva rebelde. A superioridade dos armamentos, porém, com artilharia aérea, bem como a presença maior, dos batalhões em Wilberforce Military Barracks, permitiu à ECOMOG frustrar os esforços dos rebeldes para atingir a região oeste da cidade e capturar os bairros residenciais correspondentes à elite econômica do país. A ECOMOG lançou uma contra-ofensiva, a forçar os rebeldes de volta