No Brasil, mais do que uma referência a determinada idade cronológica, o termo ‘Terceira idade’ tem sido adotado como uma forma de tratamento das pessoas idosas que ainda não adquiriu uma conotação depreciativa (DEBERT, 2007; 1999). A ideia de terceira idade é caracterizada por idosos considerados ativos, saudáveis e capazes, que redefinem sua experiência de forma a se contrapor aos estereótipos ligados à velhice (DEBERT, 2010; 2007; 1999; LOPES, 2007).
O que difere a concepção da terceira idade da visão negativa de velhice é a caracterização de uma fase privilegiada de vida em que as pessoas aproveitariam seu tempo intensamente, em busca de realizações pessoais (GROISMAN, 1999; ROSA, BARROSO e LOUVISON, 2013; SARGENT et al., 2013). Uma etapa voltada para a reflexão ou ainda a idade do lazer, partindo da imagem de que a vida começa aos 60 anos (BATH, 2013; NOVAES, 1997; STUCCHI, 1998). Neste enfoque, o idoso tem perspectivas de futuro, alimentando novas oportunidades à medida que conquista o direito de construir novos projetos (LOPES, 2007). Novas formas de sociabilidade e lazer marcam essa fase da vida, onde identidades anteriores são recicladas e relações familiares e parentais redefinidas (DEBERT, 2007).
Os idosos se apresentam como importantes agentes de mudança social (CAMARANO, 2004) e estão presentes os cuidados com o corpo e a saúde, o exercício da sexualidade, a ampliação do círculo social, a participação na vida pública como ator político, a conquista por atenção da mídia e da indústria de consumo, do lazer e do turismo, entre outros (ALCÂNTARA, 2004; CAMARANO, 2004; GROISMAN, 1999; UNFPA, 2012). As experiências vividas e os saberes acumulados são ganhos que oportunizam a realização de planos abandonados em outras etapas e o estabelecimento de relações mais proveitosas com os mais jovens e os mais velhos (DEBERT, 1999; TORELLY, 2010).
Este conceito de terceira idade traz consigo a imagem do idoso bem- sucedido – comumente representada por indivíduos dinâmicos com tempo e recursos para realizar novos projetos e usufruir de diversão e liberdade e que
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mantêm sua funcionalidade, flexibilidade e adaptabilidade frente aos desafios advindos do envelhecimento (ALCÂNTARA, 2004; DEBERT, 1999; FERREIRA, CUNHA e MENUT, 2008; PEIXOTO, 1998; SARGENT et al., 2013). Possibilita ainda a abertura de espaços onde é possível vivenciar coletivamente novas experiências, formas de sociabilidade e lazer, além de buscar a auto expressão e explorar identidades de uma forma antes exclusiva à juventude (DEBERT, 2010; 1999).
Esse movimento de redefinição dos conceitos e concepções sobre o envelhecimento veio acompanhado pelo surgimento de um novo mercado de consumo direcionado para pessoas idosas detentoras de certa posição social e que adquirem produtos e serviços especialmente destinados a elas como turismo, produtos de beleza e alimentares, bem como novas especialidades profissionais (GROISMAN, 2014; PEIXOTO, 1998; STUCCHI, 1998). Os idosos passam a ser vistos como consumidores em potencial (GROISMAN, 1999). Todavia, Alcântara (2004) alerta para o fato de que pensar os idosos nos termos propostos pela sociedade de consumo é desviar-se do debate sobre o papel exercido por eles em uma sociedade produtiva, na qual estar e sentir-se inserido significa estar produzindo.
Cabe ressaltar que o termo ‘envelhecimento bem sucedido’ data de 1961, quando Robert Havighurst publicou seu artigo seminal “Successful Aging”, no periódico americano The Gerontologist. Neste artigo, Havighurst (1961) apresentou duas teorias do envelhecimento bem sucedido – a Teoria da Atividade e a Teoria do Desengajamento14.
Resumidamente, na ‘Teoria da Atividade’, envelhecimento bem sucedido significaria a manutenção, na medida e no maior tempo possível, das atividades e atitudes da meia idade. Já na Teoria do Desengajamento, envelhecimento bem- sucedido significaria a aceitação e o desejo para o processo de retirada da vida ativa. Após a apresentação de uma série de definições e métricas de envelhecimento bem sucedido, Havighurst (1961) concluiu ser improvável uma teoria dar conta de todas as pessoas felizes e satisfeitas em seus últimos anos.
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Mais informações sobre as Teorias da Atividade e do Desengajamento podem ser encontradas em Fontoura, Doll e Oliveira (2015) e Doll et al. (2007).
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Baltes e Baltes (1990) corroboraram essa ideia ao afirmar ser provável que nenhum conjunto de condições e nenhuma trajetória única do envelhecimento se qualificaria como a forma de envelhecimento ideal ou bem-sucedido. Para os autores, tanto o desenvolvimento quanto o envelhecimento bem-sucedido baseiam- se em seleção de metas, otimização dos meios para atingi-las e busca de compensações quando os meios disponíveis estiverem ausentes.
De acordo com esta visão, um ‘bom envelhecimento’, ou seja, o envelhecer com qualidade de vida e bem-estar, ocorre quando as pessoas se reorganizam, mantendo a independência e um envolvimento ativo com a vida pessoal e a vida social, desenvolvendo novos projetos e relacionamentos como forma de compensar o que foi perdido em função da idade (FRAQUELLI, 2010; TORELLY, 2010; NOVAES, 1997). A velhice bem-sucedida não nega as perdas, mas enfoca a capacidade de adaptação dos indivíduos tanto nos aspectos biológicos quanto nos psicológicos e sociais (FERREIRA e GOULART, 2010; NERI e CACHIONI, 1999; NUNES, 2010; SOUZA, MATIAS e BRETAS, 2010; VARGAS e TACQUES, 2010).
Neri e Cachioni (1999) contextualizam a velhice bem-sucedida não como a preservação de níveis de desempenho condizentes com indivíduos mais jovens, mas com a ideia de que o requisito principal para uma ‘boa velhice’ é a preservação do potencial para o desenvolvimento individual. Considerando que na velhice o potencial de desenvolvimento fica resguardado dentro dos limites de plasticidade do indivíduo, definida pela idade, pelas condições de saúde, pelo estilo de vida e pela educação, os prejuízos advindos do envelhecimento podem ser minimizados por meio da ativação das capacidades de reserva para o desenvolvimento (BALTES e BALTES, 1990; NERI e CACHIONI, 1999; VARGAS e TACQUES, 2010).
Para Rowe e Kahn (1998), o envelhecimento bem sucedido contempla a combinação de três elementos principais. São eles: a) baixa probabilidade de doenças incapacitantes; b) elevada capacidade funcional cognitiva e física; e c) engajamento ativo com a vida.
Sabidamente, não existe um jeito certo de viver a velhice, pois as pessoas envelhecem de maneiras distintas. Como afirmou Havighurst (1961), se satisfação com a vida ou a felicidade é tomada como um sinal e como o produto do envelhecimento bem sucedido, o envelhecimento bem sucedido não pode ser associado a apenas um estilo de vida particular (HAVIGHURST, 1961). Porém, nas
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posições apresentadas por diversos autores, existem certos elementos em comum, como a saúde, os contatos sociais e o atendimento das necessidades dos idosos. Rowe e Kahn (1998), quando tratam sobre engajamento ativo com a vida como um dos principais elementos para o envelhecimento bem sucedido, destacam os relacionamentos interpessoais e a realização de atividades produtivas como de suma importância.
O envelhecimento bem-sucedido é acompanhado de bem-estar e qualidade de vida e deve ser fomentado ao longo dos estados anteriores de desenvolvimento (VARGAS e TACQUES, 2010). A manutenção de um autoconceito positivo vem da substituição dos papéis sociais perdidos com o processo de envelhecimento por novos. Desta forma, “o bem-estar na velhice seria o resultado do incremento de atividades relacionadas a esses novos papéis” (TORELLY, 2010, p. 80).
Em complemento, a abordagem do envelhecimento ativo, reconhece, como um de seus pressupostos implícitos, que os idosos constituem um grupo heterogêneo. Diversidade que tende a aumentar com o avanço da idade (ROSA, BARROSO e LOUVISON, 2013; WHO, 2015; 2005). Trata-se da manutenção do equilíbrio entre as limitações e as potencialidades individuais. Perspectiva a seguir apresentada.