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Terceira Parte: Aproximando-se: O Filho

No documento DECEPCIONADO COM DEUS (páginas 62-66)

Capítulo 13 - A Descensão

IMAGINE QUE HOUVESSE UM REI que amasse uma moça humilde", principia uma história de Kierkegaard.

Não havia rei como ele. Todos os estadistas tremiam diante de seu poder. Ninguém ousava pronunciar uma palavra contra ele, pois ele possuía a força para esmagar todos os oponentes. E, ainda assim, esse poderoso rei derreteu-se de amores por uma moça humilde.

Como podia declarar seu amor por ela? Por ironia, sua própria realeza deixava-o de mãos amarradas. Caso trouxesse-a ao palácio e coroasse-lhe a cabeça com jóias e vestisse-lhe o corpo com vestes reais, certamente ela não resistiria — ninguém ousava resistir-lhe. Mas ela o amaria?

É claro que diria que o amava, mas amá-lo-ia de ver- dade? Ou iria viver com ele temerosa, secretamente

se lastimando pela vida que havia deixado para trás? Seria feliz ao seu lado? Como ele poderia saber?

Caso ele fosse na carruagem real até a cabana dela na floresta, com uma escolta armada balançando imponentes estandartes, isso também a atordoaria. Ele não desejava uma súdita servil. Desejava uma amante, uma igual. Desejava que ela esquecesse que ele era rei e ela uma moça humilde e que deixasse que o amor partilhado vencesse o abismo existente entre eles.

"Pois é somente no amor que o desigual pode ser feito igual", concluiu Kierkegaard. O rei, convencido de que não poderia fazer a moça melhorar sua condição social sem reprimir sua liberdade, decidiu rebaixar-se. Vestiu-se de pedinte e aproximou-se da cabana incógnito, com uma capa surrada, frouxa, esvoaçando ao seu redor. Não era um mero disfarce, mas uma nova identidade que assumiu. Renunciou ao trono para ganhar a mão dela.

O que Kierkegaard expressou em forma de parábola, o apóstolo Paulo expressou nestas palavras acerca de Jesus, o Cristo:

Cristo Jesus,... subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;

antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens;

e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.

Em seu trato com seres humanos, Deus havia freqüentemente se humilhado. Leio o Antigo Testamento como um único e longo registro de suas "condescendências" ("descer, rebaixar-se, para estar com"). Deus condescendeu para falar de diversas formas a Abraão e a Moisés e à nação de Israel e aos profetas. Mas nenhuma condescendência pôde se igualar ao que veio em seguida, depois dos quatrocentos anos de silêncio. Deus, tal como o rei na parábola de Kierkegaard, assumiu uma nova forma: tornou-se um homem. Foi a descensão mais chocante que se pode imaginar.

Não Temais

Ouvimos as palavras a cada época de Natal em representações nas igrejas, quando crianças vestem roupões de banho e encenam a história do nascimento de Jesus. "Não temais!" balbucia o anjo de seis anos de idade, com sua roupa de lençóis se arrastando pelo chão, as asas de gaze e arame batendo levemente devido ao tremor do corpo. Ele olha de soslaio para o texto escondido nas dobras da manga. "Não temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria." Já apareceu a Za- carias (seu irmão mais velho, com uma barba de algodão presa ao queixo) e a Maria (uma loirinha sardenta). Ele usou a mesma saudação para os dois: "Não temas!..."

Essas foram também as primeiras palavras de Deus a Abraão, e a Hagar, e a Isaque. "Não temas!" disse o anjo ao saudar Gideão e o profeta Daniel. Para seres sobrenaturais, essa expressão serve quase como um equivalente para "Oi! como vai?" Não é de surpreender. Quando o ser sobrenatural falava, o ser humano geralmente estava com o rosto em terra num estado cataléptico. Quando Deus fazia contato com o planeta Terra, algumas vezes o encontro sobrenatural soava como um trovão, algumas vezes agitava o ar como um redemoinho, e algumas vezes iluminava o cenário como um clarão de fósforo. Quase sempre causava temor.

Contudo, os anúncios do anjo a Zacarias e Maria e José prometeram algo novo. Deus estava prestes a fazer uma aparição numa forma que não assustaria. Em Jesus, nascido num curral ou caverna e colocado num cocho, Deus por fim encontrou uma maneira de se aproximar, a qual a humanidade não necessitava temer. O que podia ser menos assustador do que um nenê recém-nascido, com os bracinhos se movendo espasmodicamente e olhos que ainda não fixam bem o olhar? O rei havia-se desfeito de seus mantos reais.

Pense na condescendência: a Encarnação, que fatiou a história em duas partes (um fato que, mesmo com má vontade, nossos calendários admitem), teve mais testemunhas animais do que humanas. Pense também no risco. Na Encarnação, Deus transpôs o enorme precipício de temor que o havia distanciado de sua criação humana. Mas remover aquela barreira tornou Jesus vulnerável, terrivelmente vulnerável.

A criança nascida durante a noite em meio a animais. O doce respirar e o estrume fumegante do gado. E nunca mais as coisas voltarão a ser as mesmas.

Aqueles que crêem em Deus de uma certa forma ja- mais conseguem estar de novo seguros a seu

respeito. Uma vez que o viram num estábulo, jamais conseguem ter certeza sobre onde aparecerá ou o que fará a qualquer custo ou a que nível absurdo de auto- humilhação se rebaixará em sua incansável busca pelo homem....

Para aqueles que crêem em Deus, significa esse nas- cimento que o próprio Deus nunca está a salvo de nós; talvez esse seja o lado sombrio do Natal, o terror do silêncio. Ele chega de uma tal maneira que sempre podemos rejeitá-lo, seja quebrando o crânio do nenê tal como o fazemos com uma casca de ovo, seja pendurando-o com pregos quando ficasse grande demais para esmigalharmos sua cabeça.

Como Deus sentiu o dia de Natal? Imagine por um instante você voltar a ser nenê: deixar de lado a linguagem e coordenação motora, e a habilidade de ingerir alimento sólido e de controlar sua bexiga. Deus como um feto! Ou, no dizer de C. S. Lewis, imagine você se tornando uma lesma — aquela analogia provavelmente é melhor. Naquele dia em Belém, o criador de tudo que existe assumiu a forma de um recém-nascido frágil, dependente.

"Kenosis" é a palavra técnica que teólogos utilizam para descrever Cristo "se esvaziando" das vantagens de ser Deus. Ironicamente, embora o esvaziamento envolvesse muita humilhação, também envolveu uma espécie de liberdade. Tenho falado das "desvantagens" da infinitude. Um corpo físico deixou Cristo livre para agir numa escala humana, sem aquelas "desvantagens". Pôde dizer o que queria sem golpear as árvores com sua voz. Pôde expressar ira chamando o rei Herodes de raposa ou armando-se com um chicote no templo, ao invés de balançar a Terra com sua tempestuosa presença. E pôde falar a toda e qualquer pessoa — uma prostituta, um cego, uma viúva, um leproso — sem ter de primeiramente anunciar "Não temais!"

Já era muito que, como Deus, o homem fosse feito outrora, Muito mais, porém, que, como o homem Deus se fizesse agora.

— John Donne, "HolySonnet 15" ("Soneto Sagrado nº 15")

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No documento DECEPCIONADO COM DEUS (páginas 62-66)