“O VERBO SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS”: A EPIFANIA EM O IDIOTA
1. O Idiota: Romance em quatro partes Primeira Parte
1.3. Terceira Parte
Parte 1 – O príncipe aparenta ser frágil, ingênuo, tolo, um idiota completo. Contudo, por trás dessa aparente fraqueza se revela a virtude da sabedoria de alguém que fala como quem tem autoridade e que penetra a alma e os pensamentos das personagens. Nesta cena, por exemplo, o personagem Ievguiêni Pávlovitch fez uma pergunta mal intencionada a Míchkin, no intuito de fazê-lo de bobo. Sua resposta, porém, surpreende a todos. É possível lembrar-se das cenas em que Jesus é questionado pelos fariseus e saduceus de sua época com perguntas capciosas, no intuito de colocá-lo em contradição:
Com uma honestidade exemplar, [Dostoiévski] afirma que o extremismo moral de seu próprio ideal escatológico, personificado pelo Príncipe, é igualmente incompatível com as exigências normais da vida social de todo dia e constitui o mesmo escândalo desagregador que foi o aparecimento de
Cristo entre os fariseus enfatuadamente respeitáveis. No entanto, seja qual
for a tragédia que ele e aqueles a quem afetou possam sofrer nesse mundo, o príncipe Mychkin traz consigo a iluminação extraterrena de alguém superior que todos sentem e ao qual todos reagem; e era essa reação à „luz que brilha no escuro‟ que para Dostoiévski fornecia o único raio de esperança para o futuro398.
Parte 2 – A indignação de Aglaia com a subserviência de Míchkin e a chegada de Nastácia: O príncipe tem ciência que causa uma impressão de riso, deboche e estranhamento
397
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 357.
398
FRANK, Joseph. Dostoiévski: os anos milagrosos – 1865-1871. São Paulo: Edusp, 2003, p.449. Grifo meu. Respeito à ortografia da edição.
nas pessoas, pelo seu jeito de ser: “Eu não tenho modos convenientes, não tenho senso de medida; eu tenho palavras diferentes e não pensamentos correspondentes. É por isso que eu não tenho o direito...” 399. Diante dessas palavras, Aglaia se enfurece e diz:
─ Por que você está dizendo isto a eles? A eles! A eles! Parecia que ela estava no último grau de indignação: seus olhos soltaram faíscas. O príncipe estava diante dela mudo, sem voz, e de repente empalideceu. ─ Aqui não há uma única pessoa que mereça tais palavras! ─ estourou Aglaia. ─ Todos aqui, todos não valem o seu dedo mínimo, nem a sua inteligência, nem o seu coração! Você é o mais honesto de todos, o mais decente de todos, o melhor de todos, o mais bondoso de todos, o mais inteligente de todos! Aqui há pessoas indignas de abaixar-se e apanhar o
lenço que você agora deixou cair400... Por que se humilha e se coloca
abaixo de todos? Por que se aniquila, por que não existe orgulho em
você?401
Para Aglaia, a dignidade de um homem está em seu orgulho próprio, em sua nobreza. Falta isto a Míchkin, mas é justamente essa ausência que o torna tão único e tão especial, diferente das outras pessoas. Os expectadores dessa cena, dentre eles Kólia e a generala, julgam que Aglaia está apaixonada. Mas essa bela mulher enfurecida dizia não querer se casar com o príncipe.
Míchkin, subitamente, avistou Nastácia. Ele não a via há mais de três meses. Mais uma vez ele se encheu de compaixão por ela, mas ao mesmo tempo percebeu o horror, a loucura e a prisão em que Nastácia se encontrava: “Se, amando uma mulher (...), de repente ele a visse acorrentada, atrás de grades de ferro, recebendo pauladas do chefe da prisão – tal impressão seria um tanto semelhante àquela que agora experimentava o príncipe”402
. Aqui, mais uma vez, há um contraste entre a visão do príncipe e as dos demais personagens em relação à Nastácia: Míchkin sentiu o sofrimento mais terrível ao avistá-la; as demais personagens conseguem ver apenas a aparência dela como alguém bonita, vestida de maneira mais modesta e não tão pomposa como antes. As pessoas veem o óbvio. Míchkin vê além do óbvio. Por ser observada apenas pelo seu estereótipo, Nastácia causa raiva, inveja e ciúmes, principalmente em Aglaia; ao ser observada internamente pelo idiota, o que
399
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 383.
400
Compare com as palavras anunciadas por João Batista em Mc 1.7: “E pregava, dizendo: Após mim vem aque- le que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias”. E também: Mt 3.11; Lc 3.16; Jo. 1.27.
401
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 383. Grifo meu.
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ele sente é compaixão e horror. Esse breve encontro das Iepántchin com Nastácia foi suficiente para gerar um escândalo.
Parte 3 – Aglaia, por bilhete, marca um encontro com o príncipe, no banco verde no parque, às sete horas da manhã do dia seguinte:
Se nesse instante alguém lhe dissesse que ele estava amando, e amando
com um amor apaixonado, ele rejeitaria essa idéia surpreso e talvez até indignado. E se aí acrescentasse que o bilhete de Aglaia era um bilhete de
amor, a marcação de um encontro amoroso, ele morreria de vergonha dessa pessoa (...) Tudo isso era perfeitamente sincero, e ele não duvidou uma
única vez e nem admitiu sequer a mínima idéia “ambígua” sobre a possibilidade do amor daquela moça por ele ou até sobre a possibilidade do seu amor por aquela moça. A possibilidade de amor por ele, “por uma
pessoa como ele”, ele consideraria um caso mostruoso403
.
Já era tarde da noite e o príncipe ainda perambulava no parque próximo da estação. Naquela escuridão, ele distinguiu o rosto pálido de Rogójin e uma sensação angustiante tomou conta dele. Rogójin estava insatisfeito com uma carta que recebeu de Míchkin. Na carta, o príncipe oferecia seu perdão gratuitamente:
[Rogójin] Acredito em cada palavra tua e sei que tu nunca me enganaste e
nem vais me enganar (...); mas mesmo assim não gosto de ti. Tu dizes na
carta que já esqueceste tudo e só te lembras do Rogójin irmão de cruz, e não daquele Rogójin que levantou a faca contra ti. Ora, como é que sabes
dos meus sentimentos? (...) Sim, porque é possivel que desde então eu não tenha me arrependido daquilo uma única vez, mas tu já me mandas o teu perdão fraterno404.
Eis aqui outro exemplo de diálogo interior. Míchkin dialoga com a consciência de Rogójin. Quase à meia noite, o príncipe anuncia que o novo dia que se aproxima é o dia do seu aniversário. Então, ele convida seu amigo de cruz, Rogójin, para comemorar com ele. Ora, o príncipe não se importa com as palavras ofensivas de Rogójin, pois sabe que além do ciúme e da raiva há uma bela amizade a ser cultivada.
Parte 4 – O aniversário de Míchkin: Ao chegar em casa, o príncipe viu que estavam reunidas muitas pessoas no terraço da datcha para comemorar seu aniversário. Hippolit perguntou ao príncipe o que significava “fonte da vida” e a estrela Absinto descritas no livro do Apocalipse 405. O tísico sabia que o bêbado Liébediev era um intérprete daquele livro, por isso afirma em tom de ironia e zombaria: “─ Eu ouvi dizer que Liébediev
403
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 404. Grifo meu.
404
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 407. Grifo meu.
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reconhece que essa „estrela Absinto‟ é uma rede de ferrovias espalhadas pela Europa”406. Agitando os braços e pulando, Liébediev interrompe a fala de Hippolit e tenta deter o riso geral que se iniciara. Essa imagem sarcástica do personagem Liébediev se assemelha a um tipo de personagem bufão que ele desempenha. As palavras dele soam como um anúncio de juízo que se aproxima, pois, além de intérprete do Apocalipse, ele é um crítico da modernidade:
─ As estradas de ferro propriamente ditas não vão turvar as fontes da vida, mas em seu conjunto tudo isso é maldito, tudo isso é o estado de espírito
dos nossos últimos séculos, no seu âmbito geral, científico e prático, tudo
isso pode ser efetivamente maldito407.
Quando Dostoiévski escreveu O Idiota, um dos pontos que a crítica fez foi a falta de realidade existente no personagem Míchkin. Muitos enxergaram no príncipe alguém desprovido de humanidade, muito idealizado, e sua história foi vista quase como uma narrativa fantástica. Entretanto, seu criador respondeu aos críticos da seguinte maneira:
Eu tenho uma visão própria, singular do real (em arte), e o que a maioria considera quase fantástico e excepcional, para mim é às vezes a própria essência do real. A meu ver, a rotina dos fenômenos e a visão estereotipada dos mesmos ainda não são realismo, mas até o oposto408.
Diante da acusação da sua criação ser uma narrativa fantástica, desvinculada da rea- lidade, talvez valha a pena entender um pouco da arte que Dostoiévski defendia. Ao retornar do exílio, ele “começou a trabalhar numa série de Cartas sobre a Arte, cujo tema teria sido, „essencialmente, a importância do Cristianismo na arte‟”409
. A obra não chegou até os leito- res, mas se dissipou em outros textos. A intenção de Dostoiévski com tais escritos era criti- car a estética feuerbachiana de Tchernichévski, escritor do importante livro O que Fazer. Este último, seguindo a crítica da religião alemã, tinha como objetivo depreciar qualquer aspecto sobrenatural. Na contramão da tendência estética de sua época, Dostoiévski afirma:
a arte é para o homem uma necessidade tanto quanto a de comer e de beber. A necessidade de beleza, e as criações que a materializam, são inseparáveis do homem, e sem ela é possível que o homem não tenha
406
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 415.
407
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 416. Grifo meu.
408
Cf. as cartas de 23 de dezembro de 1868 aos críticos N. Strakhov e A.N. Maikov – Nota da Editora , p. 420.
409
Pisma, vol. 1, PP.183-184; 13 de abril de 1856 Apud FRANK, Joseph. “Uma estética da Transcendência”. In: Dostoiévski: os efeitos da libertação (1860-1865). Trad. Geraldo Gerson e Souza. São Paulo: Edusp, 2002. p.125.
vontade de viver. O homem tem sede de [beleza] e é nisso talvez que reside o maior mistério da criação artística (...)410
Começa-se a delimitar, aqui, uma relação intrínseca entre a arte e a religião, de uma beleza que incorpore os ideais eternos. “Pouco depois de deixar o presídio em 1854, Dos- toiévski escrevera que nada no mundo era „mais belo‟ do que a figura de Cristo411
. Para ele, um mundo sem transcendência era um mundo decadente. Realismo e transcendência se en- contraram na obra do escritor russo, trazendo uma contribuição pessoal de seu estilo e do seu modo de enxergar o mundo. As palavras de Liébediev, nessa cena, colaboram e reforçam o ponto de vista de Dostoiévski: “De minha parte, eu observo que quase toda a realidade, embora tenha as suas leis imutáveis, quase sempre é improvável e inverossímil. E inclusive quanto mais real ainda mais inverossímil”412. Dostoiévski e Liébediev desconfiam da realidade e daquilo que seus olhos veem e os seus sentidos percebem. A ortodoxia pode ajudar a entender melhor esse pensamento. Veja o que disse o teólogo Evdokimov:
Para o Ocidente, o mundo é real e Deus é duvidoso, hipotético, aquilo que incita a forjar provas de sua existência. Para o Oriente, é o mundo que é
duvidoso, ilusório, e o único argumento de sua realidade é a existência
autoevidente de Deus. A filosofia da evidência coincide com a filosofia da Revelação413.
Míchkin é, para os críticos, o contrário de um paradigma de realismo, pois ele é quase fantástico e excepcional, mas é justamente estas características que o tornam tão real, tão humano, tão verdadeiro. O amigo de Dostoiévski Máikov disse em carta ao amigo:
(...) mas na ação geral [há] mais possibilidade e verossimilhança do que verdade. (...) Não se consegue parar de ler o livro, e ao mesmo tempo não se acredita nele. (...) Mas que poder! Quantas passagens maravilhosas! Como o Idiota é grande!414
Parte 5 – Hippolit faz uma pergunta a Míchkin e o expõe diante dos convidados:
Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a „beleza‟ salvará o
mundo? Senhores ─ gritou alto para todos ─, o príncipe afirma que a
beleza salvará o mundo! Mas eu afirmo que ele tem essas idéias jocosas porque atualmente está apaixonado. (...) Não core, príncipe, vou sentir
410
FRANK, Joseph. “Uma estética da Transcendência”. In: Dostoiévski: os efeitos da libertação (1860-1865), 2002. p.130.
411
Pisma (Coletânea de cartas), vol. 1, p.142; 20 de fevereiro de 1854.
412
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 420. Grifo meu.
413
EVDOKIMOV, Paul. O silêncio amoroso de Deus. Tradução de Ivo Storniolo. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2007. p. 121. Grifo meu.
414
FRANK, Joseph. Dostoiévski: os anos milagrosos – 1865-1871. Trad. Geraldo Gerson e Souza. São Paulo: Edusp, 2003. p. 399. Grifo do texto.
pena do senhor. Qual é a beleza que vai salvar o mundo? (...) O senhor é
um cristão cioso? Kólia afirma que o senhor mesmo se diz cristão415.
A conhecida frase: “a beleza salvará o mundo” não é simplesmente uma apologia a arte, mas vai além, pois trás uma dimensão de salvação estética. Qual beleza é essa? Haverá alguma relação entre essa beleza e o Cristo e ou cristianismo? Ou entre Míchkin e a beleza? Há complexidade e profundidade na beleza. Aqui, o filósofo russo que Dostoiévski conheceu, Vladimir Soloviov (1863-1900), pode ajudar. A beleza tem relação com a verdade. Cristo é, em pessoa, a verdade e a beleza. Soloviov fala de três aspectos na busca pela verdade: 1) metafísico (verdade – teosofia); 2) ético (bem – teocracia), 3) estético (beleza – teúrgia416):
No processo natural e histórico a realização absoluta da verdade, do bem e
da beleza se deu individualmente na encarnação de Deus em Cristo e se
dará universalmente na encarnação de Deus em toda a criação, i.e., o Reino de Deus, onde o amor será tudo em todos 417.
Nesse processo, ocorre uma aventura teândrica (divino-humana/Deus-Homem) que ocorre no tempo e na história em direção a uma instauração escatológica, para além do tempo e da história, no Reino de Deus. A verdade, o bem e a beleza estavam presentes no Cristo encarnado e compõem vários aspectos do amor. Dessa forma, Deus “realiza o bem através da verdade na beleza”418
. Quando essa realização estiver finalmente completa, o Amor será tudo em todos. Portanto, ainda haverá uma salvação cósmica futura: a encarnação de Deus em toda criação é uma esperança escatológica, como uma arte teúrgica. Será uma recriação da humanidade e do cosmos por mei das energias desencadeadas pelo contato direto com a Beleza em si. Há uma busca pela divinização do mundo. O ser humano tam- bém se torna colaborador ativo da revelação da glória de Deus, como uma expressão de amor ao Amor. Assim, pode-se associar a beleza à salvação do mundo. Simeão, o Novo Teólogo (917-1022) faz uma afirmação concernente à Beleza: “Tocado pelo amor e pelo desejo do Senhor, foi, com esperança, ao encalço da primeira e invisível Beleza”419.
415
DOSTOIÉVSKI, O Idiota, 2002, p. 427. Grifo meu.
416
A palavra Teurgia é grega e provém de theoi, "Deuses", e ergon, "obra", significando não somente "Obra Divina", mas também "Obra de Deus/Deuses". Nesse caso, pode-se referir a uma beleza presente na Criação.
417
Apud CONSENTINO, Marcelo. “A Encarnação Cósmica de Vladimir Soloviev”. In: Cadernos de Pesquisa em Teoria da Religião – Agnes. Grupo de Pesquisa. Religião: Teoria e experiência. Programa de Estudos Pós Graduados em Ciências da Religião, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. PUC-SP. Nº 7 – 2007. p.89.
418
SOLOVIEV, 1971, p.143 Apud CONSENTINO, 2007, p. 113.
419
A Beleza em Dostoiévski é trágica. A pergunta feita por Hippolit à Míchkin é uma questão que verdadeiramente domina o coração humano, pois problematiza o tema da redenção do mal, da salvação, da vitória sobre a morte. Míchkin é como uma voz apocalíp- tica, que canta uma beleza escatológica de um mundo resgatado, mas onde ainda tremula uma lembrança do passado, de uma “primeira” existência pecaminosa, com seu sofrimento e seu mal. Míchkin é o personagem que sofre de uma contínua tensão e desconforto, pois ele, vindo de Deus, tenta suportar até o limite uma existência em um mundo de trevas, de peca- do e endurecimento.
A beleza em Dostoiévski é um conceito filosófico e teológico que merece atenção. A ideia de uma beleza última e salvífica, eterna e absoluta, trás à tona a questão da existência do mal. Ora, daí decorrem duas possibilidades lógicas: 1) Deus existe, apesar da existência do mal que devasta e assola a Terra; 2) Se o mal existe, Deus não pode existir, pois seria incongruente a coexistência de ambos. Assim, parece não haver alternativas, uma possibili- dade, automaticamente, excluiria a outra. Contudo, o personagem Míchkin aparece como uma terceira via. Não haveria outro caminho se não fosse uma radical transformação na i- deia de Deus e de sua beleza: “(...) só se Deus faz seu o sofrimento infinito do mundo abandonado ao mal, só se Ele entra nas trevas mais profundas da miséria humana, o sofrimento é redimido e a morte vencida. Isso, porém, aconteceu na Cruz do Filho”420.
Há uma relação entre beleza, sofrimento e redenção. O sofrimento de Cristo e o so- frimento de Míchkin, associados no romance ao desespero do último dia de um condenado à morte, revelam, ao mesmo tempo, algo tremendo e espantoso. A tragédia da humanidade se estendeu à tragédia da divindade. Assim, para Dostoiévski, no Cristo sofredor, o sofrimento adquire um sentido divino e teogônico:
O niilismo, em suma, só se deixa contestar somente partindo de seu interior, somente das trevas da Sexta-Feira Santa, onde Deus sofre e morre
por amor ao mundo, é possível proclamar a vitória da vida da beleza,
porque aquela morte é a morte da morte (...) não se pode eliminar do conhecimento do belo: não se chega à luz senão através da cruz; não se entra na vida, senão conhecendo a morte. Por isso a fé deve passar pela luta da dúvida, a afirmação pela noite da negação e a verdade abrir caminho no
escândalo e nas trevas mais densas. Assim foi para Deus e assim deverá
ser para o discípulo (...) A beleza que salvará o mundo revela-se e age no
sinal de seu contrário421.
420
FORTE, Bruno. “A Beleza Trágica: Dostoiévski”. In: A porta da beleza: por uma estética teológica. Tradução de Afonso Paschotte. Aparecida-SP: Idéias e Letras, 2006. p.67-68. Grifo meu.
421
Deus suportou pessoalmente o mal, o sofrimento, a morte. Assim, mostrou sua oni- potência por meio de sua impotência, atravessando o louco e tortuoso caminho da cruz. Luigi Pareyson422, em concordância com Berdiaeff, afirma que o romancista russo é um intérprete genial da experiência religiosa. Assim, para Pareyson, o sofrimento da crucifica- ção de Cristo é como o momento ateu da divindade. O Deus cristão não dá resposta ao so- frimento, mas sofre-o. Cristo transforma a dor humana e cósmica em agonia teogônica:
O sentido da inexistência de Deus é a incompreensibilidade do sofrimento. (...) Nem mesmo o redentor a dissipou: ele não veio para explicar a natureza e as razões do sofrimento, mas para fazer algo mais e muito mais decisivo: veio para carregá-lo sobre si e para dele liberar e humanidade423.
Eis aí, mais uma vez, a imagem do Servo Sofredor, do Deus sofrente, de uma teolo- gia da cruz:
O sofrimento do Cristo é um evento tremendo e imane, que consegue explicar a tragédia da humanidade somente enquanto estende a tragédia à divindade. (...) O sofrimento do Cristo conheceu cumes particularmente trágicos e dolorosos e, indubitavelmente, o mais dramático é o momento no qual, sobre a cruz, sentiu-se abandonado por Deus. E se tratou de um abandono real, o que, como observa Kierkegaard, pode suceder não a um homem, mas somente ao Deus-homem424.
É como se no próprio Deus houvesse um ateísmo superior, uma potência de negação:
o dissídio [oposição] existe em Deus, Deus está contra si mesmo e Deus se nega e se renega. (...) Esse ateísmo superior consiste no conceito, não menos profundo que paradoxal, de um momento ateu da divindade. (...). Deus nega Deus, segundo o anônimo dito: „Nemo contra Deus nisi Deus
ipse‟ [„Ninguém contra Deus, a não ser o próprio Deus‟]425.
O Cristo de Dostoiévski também é polifônico e dialético:
Com o Cristo sofrente nasce o conceito de um Deus dialético, que tem em si mesmo a antinomia e a contradição, a oposição e o contraste, o dissídio e o conflito. (...) De um Deus que por amor (para com o homem) é cruel (para consigo até querer sofrer e para com o Filho até abandoná-lo). De um Deus que, por amor, está coenvolto na morte e na autodestruição, segundo a fina e também profunda expressão de Angelo Silesio: „o amor arrasta Deus para a morte‟ (...) Pois é o amor de Deus que inventa o sacrifício do
Cristo”426.
422
PAREYSON, Luigi. Dostoiévski: Filosofia, Romance e Experiência Religiosa. Tradução Maria Helena Nery Garcez, Sylvia Mendes Carneiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2012.
423
PAREYSON, 2012, p. 220. Grifo meu.
424
PAREYSON, 2012, p. 222. Grifo meu.
425
PAREYSON, 2012, p. 223.
426
A última expectativa na longa Sexta-Feira Santa, que metaforicamente representa a história humana, é a da beleza vitoriosa. Até que a Beleza venha, ela é e permanece trágica, atravessada pela ambiguidade. A fé que salva é também a experiência mais alta possível da beleza neste mundo, que vence a dor e a morte.
Hippolit deseja ler um artigo, num estilo confessional, para os convidados, intitulado: “Uma explicação necessária: Après moi le déluge!” (Depois de mim o dilúvio – em francês). Nesse artigo, diz ser simpatizante do niilismo e do materialismo. Porém, nesse trecho é importante ressaltar um detalhe: um estudante chamado Kissloródov foi visitar