Foto 46 Autorretrato do Jorge
4.1.3 Terceiro e quarto encontros
Iniciamos os encontros dedicados às narrativas orais, sempre com um alongamento corporal seguido de relaxamento ao som do CD Relaxando, da médium e escritora espírita Saara Nousiainen. As narrativas orais são o primeiro passo no processo de bigrafização, portanto, procurei, como condutor do CRB, promover um ambiente confortável e de confiança para que os jovens pudessem se sentir totalmente à vontade e seguros para iniciar suas narrativas.
Esclareci que, naquele momento, eles estariam assumindo o papel de narradores, contadores de suas próprias histórias e que teriam como pano de fundo as vivências no CEPD. As perguntas disparadoras para as narrativas orais de si foram: Quais os motivos que te
levaram a ingressar nas atividades educativas do Centro Espírita “O Pobre de Deus”? Qual o
significado desta participação para você ser a pessoa que é hoje? Como as perguntas já tinham sido previamente escolhidas pelo grupo, alguns trouxeram um esquema pronto para não se perder, mas, mesmo assim, a emoção do instante narrativo trazia ainda para o grupo muitas surpresas.
Combinamos em comum acordo que teríamos até trinta minutos para fazer as narrativas e que, caso alguém fizesse em menos tempo, não haveria problema nenhum. É importante, nesse momento da pesquisa, como já foi dito anteriormente, que os narradores estejam seguros e à vontade, pois qualquer tipo de pressão, como o tempo, o medo e a ânsia de responder às perguntas disparadoras, pode comprometer todo o processo narrativo- reflexivo.
Iranir foi a primeira que se predispôs a narrar. Sua timidez dificultou muito o início de sua narrativa, mas, quando se deixou envolver pelas lembranças, sua segurança aumentou, chegando a narrar durante vinte e oito minutos. Muito impressionada, Iranir
comentou “Eita! Eu falei isso tudo? Foi bom relembrar... me fez enxergar coisas que na época não dei muita atenção.”
Ao terminar sua narrativa, solicitei a Iranir que escolhesse o episódio narrado que mais a tocou para que o grupo pudesse representar como uma cena de teatro da qual a narradora, que havia sido a Iranir, tornar-se-ia, por alguns instantes, expectadora de sua própria vida.
Essa dinâmica foi bem interessante pela força que ela tem de causar maiores reflexões quanto ao episódio vivido e a por causar uma revivescência de sentimentos antigos e novos que agora são despertados pela observação atenta do narrador. Tal dinâmica foi feita com todos após as suas narrativas.
Em seguida, Nazinha fez sua narrativa. Conseguiu narrar apenas por oito minutos, e percebi a grande dificuldade que ela tinha para relembrar o passado. Essa dificuldade advinha, pelo que avalio, do fato de ela não querer se lembrar de alguns momentos que para ela foram difíceis. Esse receio dificultou seu envolvimento com os objetivos específicos da pesquisa, mas apontou-lhe uma necessidade de considerar essa dificuldade e de trabalhar para superá-las. Como condutor do CRB, não posso interferir nesses casos, devendo deixar o narrador à vontade para continuar ou não. Infelizmente Nazinha escolheu não continuar no trabalho, por esse motivo e por questões de disponibilidade para os próximos encontros, mas
as suas contribuições até este momento foram consideradas e servem de suporte para o que foi construído posteriormente pelo grupo.
O encontro seguinte foi destinado às narrativas da Valdilene e do Jorge. Valdilene foi a primeira a narrar nesse encontro, com o tempo de oito minutos. Antes de começar a gravação, ela informou que não gostava de falar muito, mas que se esforçaria para produzir sua narrativa. Apesar do pouco tempo narrado, foi muito esclarecedora e rica a sua narrativa. Informei-lhe que poderia, se achasse necessário, acrescentar mais fatos nos passos seguintes do CRB.
Jorge encerrou as narrativas orais apoiando-se em um pequeno projeto que trouxe de casa para não se perder ao narrar. Sua narrativa foi a mais longa com trinta e sete minutos, ultrapassando o tempo sugerido no início. Quanto ao tempo ultrapassado, vale resaltar que a escolha de uma margem de tempo é para que o narrador não se sinta forçado a falar demais. O tempo de narração não é o mais importante, mas sim a implicação ao narrar e as reflexões que podem ser feitas com os fatos relembrados. Jorge se sentiu muito à vontade ao narrar, e isso colaborou para que ele se soltasse mais e tivesse mais tempo narrado.
As narrativas são a busca de fatos biográficos, ou seja, de situações vividas e percebidas atreladas a um espaço-tempo interior. Essas representações mentais apresentam-se como linguagem através da narrativa que viabiliza o olhar inicial para si.
É a narrativa que confere papéis aos personagens de nossas vidas, que define posições e valores entre eles; é a narrativa que constrói, entre as circunstâncias, os acontecimentos, as ações, as relações de causa, de meio, de finalidade; que polariza as linhas de nossos enredos entre um começo e um fim e os leva para sua conclusão; que transforma a relação de sucessão dos acontecimentos em encadeamentos finalizados; que compõe uma totalidade significante, na qual cada evento encontra seu lugar, segundo sua contribuição na realização da história contada. (DELORY-MOMBERGER, 2008, p.37)
As narrativas esclarecem a nossa própria história. Organizam os fatos, apresentam relações e definem valores. Mas essa história não é a vida real, e sim uma linguagem interpretativa de si, feita pelo narrador na trama grupal. Ele se reconhece nela e a toma como a forma mais conveniente de se representar publicamente. Segundo Delory-Momberger (2006,
congruência experimentado entre o eu-próprio e o passado recomposto, a impressão de conveniência que essa história toma para mim no aqui e agora de sua enunciação.”.