4 FORMAÇÃO DE PROFESSORES E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE DOCENTE
7.2 OS ENCONTROS FORMATIVOS
7.2.3 Terceiro Encontro Formativo
O terceiro encontro formativo ocorreu uma semana após o segundo, em 29 de agosto de 2017 sendo também realizado na biblioteca da escola lócus da pesquisa. O encontro teve como participantes os professores Lucas, Alice, Sofia e Elisa, sendo as duas últimas recrutadas após a saída do professor Caio. Dessa forma, tivemos que abordar novamente a Lesson Study de maneira introdutória.
A reunião foi a mais longa dos encontros formativos tendo a duração de duas horas e quarenta e cinco minutos, servindo assim tanto para a apresentação da metodologia para as duas novas integrantes da equipe quanto para o inicio do planejamento da primeira research lesson do ciclo.
Para ajudar na compreensão da prática das etapas de aplicação da aula de pesquisa, observação e análise pós-aula, o pesquisador elaborou uma aula de pesquisa a ser aplicada em uma das turmas da professora Alice para que os professores da equipe pudessem ter um contato prático com essas etapas, uma vez que no encontro anterior não houve a oportunidade de aprofundamento nessas etapas. Ainda, essa aula de pesquisa de demonstração serviria para a coleta das dificuldades dos alunos que contribuiriam para a definição dos objetivos da aula de pesquisa real. No entanto, infelizmente fomos surpreendidos com uma programação de última hora na escola que fez com que não houvesse aula normal, por razão de que os alunos foram dispensados para uma mostra da disciplina de história.
Vale ressaltar que, nesse encontro, foi providenciado um substituto para que a professora Alice pudesse participar livremente do encontro já que este ocorreu pela tarde dentro de seu horário de aula. Os outros professores estavam em seus dias de folga.
Durante a apresentação da Lesson Study, a professora Sofia se mostrou muito interessada em participar da pesquisa, justificando que seu ingresso no projeto é uma tentativa que ela faz para não se desestimular por causa das dificuldades encontradas no cotidiano do trabalho, conforme podemos notar no trecho abaixo:
Professora Sofia: [...] acho muito bacana isso... e... e assim eu (falando) por mim...
eh... como profissional da área... eu acho interessante né... assim dentro da minha possibilidade eu poder tá contribuindo... porque é uma forma da gente fazer alguma coisa pra gente não ficar tão... assim... desestimulado né... frustrado então... pelo menos não eu tô tentando fazer alguma coisa pra melhorar isso... porque muitos de nós cai assim na rea/ naquela realidade trabalhar por trabalhar... só pra receber meu salário no fim do mês.
Em relação a essa realidade de “trabalhar por trabalhar”, a professora Elisa parece sugerir a possibilidade de tal conformismo se mantém devido ao fato de que o professor ao ser efetivado tem o seu emprego garantido.
Esse desestímulo e frustação segundo Sofia é resultado da influência que o sistema exerce sobre as possibilidades de se fazer o agir docente. O trecho abaixo ilustra sua compreensão a esse respeito:
Professora Sofia: é porque o sistema é assim eu não tenho como mudar... eu não tenho criatividade pra trabalhar... não tenho ( )... eh... aluno desinteressado... eh... um monte de/ de fatores que né... e aí a gente acaba indo pelo meio do caminho mesmo desestimulando né... e... mais isso não é culpa nossa totalmente né... então o que o sistema costuma jogar isso é muito pro professor... quantas vezes eu já não ouvi as pessoas falando assim... eh... “poxa... eu estudei inglês tantos anos na escola... eu não sei pra quê que a gente estuda inglês... porque eu não sei nada”... a (pessoa) diz isso...
“eu não sei”... eu fico muito triste com isso... porque o quê que a gente tá fazendo no nosso trabalho né... porque (tem uma hora) que é legal tu receber o teu salário no final do mês... tu gasta tu usa tu faz... mas chega uma hora que tu vai refletir né... “poxa... e o meu trabalho né... e... o ponto principal disso” né... como é que tá... então... é...
então a gente as vezes quando pega um trabalho a gente pensa muito na parte de salário né... a gente se forma quer trabalhar e passar no concurso... a ( ) trabalhar daquele salário... mas aí essa questão aí do ensino... eu acho que assim... é uma/ uma/
uma coisa que... assim... todos nós que trabalhamos com língua estrangeira
deveríamos né... dar atenção pra isso assim... até (a gente) passar... não ser uma ( ) em branco pra gente né
Em seu artigo intitulado Formação de professores de inglês pré-serviço: uma reflexão sobre identidades, Stella e Cruz (2014) afirmam que a identidade do professor de inglês é diretamente afetada pelo contexto que causa interferência direta na sua prática em sala de aula. Como exemplo, os autores ilustram esse argumento a partir da voz de uma dos sujeitos entrevistados em sua pesquisa, onde este afirma que não adianta tentar fazer algo diferente em sua prática docente quando uma vez que a escola não oferece as condições para tal, como a ausência de equipamentos para aulas diversificadas.
Nesse mesmo sentido, Cardoso e Moreira (2015) classificam a falta de estrutura escolar como uma das grandes fendas da educação, apontando que na maioria das vezes os professores trabalham apenas com os que lhes é disponibilizado, mesmo que seja o giz. As autoras apontam ainda que os recursos tecnológicos ou não inexistem ou são precários.
A professora Sofia revela ainda uma inquietação quanto ao resultado do seu trabalho, ou seja, o fato de que os alunos realmente aprendam a língua inglesa. No entanto, ela percebe um contexto que parece ser difícil de realizar o ensino. A professora Alice por sua vez, nessa discussão, afirmou não se sentir culpada fazendo referências às dificuldades de aprendizagem nas outras disciplinas, argumentando que não é exclusividade apenas do inglês, que os alunos saiam da escola sem ter aprendido muita coisa. O trecho abaixo apresenta o pensamento da professora Alice em relação à aprendizagem ocorrida na escola:
Professora Alice: [...] eu não me culpo tipo quando... eu/ eu... claro eu sempre faço todos os anos aquele (autoanálise) todos os anos... mas quando eu penso que o aluno passa se/ sete anos estudando matemática e não sabe fazer conta... quando ele termina o ensino médio não sabe multiplicar não conhece a casa do oito nem do sete... [...]
quando eu penso que ele estudou biologia desde/ ciências desde da... quarta série e ele não sabe o que é célula [...]
Esse excerto da fala da professora Alice nos remete a uma argumentação contida em Menezes (2015). Em seu artigo, que visa refletir sobre o ensino de inglês e a formação de professores no contexto brasileiro, a autora elenca uma série de fatores que ela aponta como dificuldades compartilhadas por todos os componentes curriculares como a centralidade na figura do professor, procedimentos metodológicos pouco diversificados, entre outros. Para a autora, esses fatores contribuem para os baixos resultados apresentados pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB.
Para a professora Alice, o aluno só irá aprender se estiver motivado, conforme ilustra a baixo.
Professora Alice: [...] não sabe nada eu fico “ele só vai aprender inglês se ele quiser”...
No entanto ela ainda argumenta, conforme apresentado abaixo, que é preciso observar os objetivos do ensino de Língua Estrangeira contidos no PCN.
Professora Alice: [...] que eles são os nossos nortes... ele é o nosso norte... os dcn e pcn’s é norte... não (esse aqui)... o quê que/ o quê que/ o quê que ele quer? ele quer/ o quê que ele prega os pcn’s? pra (habilidade) oral... pro falar... ele prega isso? o aluno vai “ao final do curso do ensino médio o aluno será capaz de produzir diálogo em inglês” ele fala isso em algum momento? ele não fala isso... ele diz que o aluno deve se ( ) a compreender né... a compreender.
Nesse sentido, Stella e Cruz (2014) apresentam a visão do fracasso do ensino de línguas na perspectiva das Orientações Curriculares do Ensino Médio – OCEM-LE (2006), que apontam o seu insucesso a partir da tentativa de reproduzir o modelo dos cursos livre no espaço da sala de aula, no que se refere às condições estruturais. Segundo esses autores, na visão do documento, isso acaba gerando um sentimento de incompletude e inferiorização, resultando no desestimulo e fraco fazendo com que aqueles interessados em aprender inglês, busquem alternativas fora da escola.
Em meio a toda essa discussão sobre essas dificuldades do ensino e aprendizagem, a Lesson Study é novamente apontada pela professora Alice como uma prática que poderia ser aproveitada pela secretaria de educação do estado, incluída na hora atividade docente.
A professora Sofia, por sua vez, destaca a aproximação dos professores durante as atividades de Lesson Study. No trecho abaixo, a professora explicita sua compreensão inicial da natureza da metodologia.
Professora Sofia: o que eu tô achando bacana nesse/ nesse método... eu vou chamar de método... é que tem essa/ essa noção de/ de unidade né... eu acho isso bacana (que) exatamente nesse ponto aí que outras áreas as/ os profissionais eles sentam e discutem e chegam a um consenso né... então isso é necessário a gente fazer também... a gente que é professor... e aí esse método aí eu acho bacana pra gente começar a articular isso aí né... porque eh... pra acontecer um trabalho desse... a gente tem que mudar bastante a maneira de pensar né... não dá pra trabalhar isolado né... porque como é o grupo e a gente vai trocar ideia então não dá pra trabalhar isolado
É importante notar ainda que Sofia chama atenção para o isolamento do professor no seu fazer docente. Dudley (2011) argumenta que, enquanto o conhecimento prático de cirurgiões, por exemplo, é gravado em detalhes, replicável e disponibilizado para outros colegas, o conhecimento prático dos professores tem a tendência de permanecer restrito ao professor que o descobriu, especialmente pelo fato do isolamento em que os professores costumam trabalhar. Em poucas ocasiões, continua o autor, os professores tem a oportunidade de observar o conhecimento tácito de outros colegas em ação, uma vez que quando ocorre alguma observação da prática de algum professor é quase sempre no contexto de avaliação do professor ou de seu desempenho.
8 A APLICAÇÃO DE UM CICLO DA LESSON STUDY
Nessa seção, iremos apresentar e discutir a respeito da aplicação de um ciclo da Lesson Study. A aula de pesquisa do ciclo aplicado foi melhorada duas vezes e, portanto, as atividades ocorreram sob a seguinte rotina conforme ilustra a Figura 4.
Figura 4 – Rotina de aplicação do Ciclo da Lesson Study.
Fonte: o Autor.
Dessa forma esta seção se organiza da seguinte: (i) reuniões de planejamento da primeira aula de pesquisa; (ii) aplicação da aula de pesquisa e análise pós-aula; (iii) primeiro melhoramento da aula de pesquisa; (iv) primeira reaplicação da aula de pesquisa e análise-pós-aula; (v) segundo melhoramento da aula de pesquisa; (vi) segunda reaplicação da aula de pesquisa e análise pós-aula; e; (vi) reunião de reflexão final do ciclo.