Ódio do demônio pelos filhos de Deus
120. A i da terra e do mar, porque o demônio desceu a vós com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo (v. 12).
Ai da terra, onde tão inumerá- veis pecados e maldades serão cometidos. Ai do mar, que vendo tais ofensas ao Criador, não lançou suas ondas para afogar os transgressores, vingando as injúrias do seu Criador e Senhor. Ai do mar profundo da endurecida maldade daqueles que seguiram o demônio que desceu até vós para guerrear-vos, com raiva tão inaudita e cruel que não tem semelhante!
Ira de ferocíssimo dragão e mais que leão devorador (lPd 5, 8) que tudo pretende aniquilar, considerando curta toda a duração dos séculos para satisfazer seu ódio. Tanta é a sede e a ânsia de perder os mortais, que não lhe basta o tempo limitado de suas vidas. Sua fúria desejaria, se fosse possível, tempos intermináveis para combater os filhos de Deus. Enfurece-se especialmente contra aquela dilosa mulher que lhe há de esmagar a cabeça
(Gn 3, 15). Por isto diz o Evangelista:
Ódio do demônio por Maria
121.
E o dragão, depois que s viu precipitado na terra, perseguiu i mulher que tinha dado à luz o filh varão (v. 13).Quando a antiga serpente viu infelicíssimo lugar e estado em que cair. abrasou-se mais no furor e inveja, à se melhança de um veneno que atormentava.
Contra a mulher. Mãe do Verb humanado, concebeu tal indignação qu nenhuma língua nem entendimento hu mano pode explicar nem compreender.
Do que sucedeu imediatament após ter sido este dragão precipitado nc infernos com seus exércitos de maldade direi alguma coisa aqui, conforme me possível, de acordo com o que me f( intelectualmente manifestado.
Vingança de Lúcifer
122.
Durante a primeira seman referida pelo Gênesis, na qual Deus cr aria o mundo e suas criaturas, Lúcifer os demônios ocuparam-se em tramar madades contra o Verbo que se havia de humanar e contra a mulher de quem nasceria homem.
No primeiro dia que corresponde ao domingo, foram criados os anjos, sen- do-lhes apresentadas as leis e preceitos que deviam obedecer.
Os maus desobedeceram trans- gredindo os mandatos do Senhor. Por divina disposição de sua providência, su- cederam todas as coisas que acima foram ditas, até o segundo dia pela manhã, cor- respondente à segunda-feira, na qual Lúcifer e seu exército foram precipitados no inferno.
A esta duração de tempo corresponderam aquelas mórulas da cri- ação dos anjos, seus atos, combates, quedas dos maus c glorificação dos bons.
No momento em que Lúcifer e seus sequazes inauguraram o inferno, reuniram-se todos para fazer um conciliábulo que durou até a quinta-feira pela manhã. Neste tempo empregou Lúcifer toda sua diabólica sabedoria e malícia em estudar c decidir com os de- mônios o modo para mais ofender a Deus, em vingança do castigo que lhes havia imposto.
A última conclusão a que che- garam, pelo que sabiam do amor que Ele teria aos homens, foi que a maior vin- gança e ofensa a Deus, seria impedir nas criaturas humanas os efeitos daquele amor. Para tanto, enganariam, persuadiri- am e forçariam quanto possível, os homens a perderem a amizade e graça de Deus, tornando-os ingratos e rebeldes à vontade divina.
Lúcifer vinga-se de Deus, nas criaturas humanas
123. Nisto - dizia Lúcifer - temos que trabalhar, empregando toda nossa força, atenção e ciência. Arrastaremos as criaturas humanas para nosso ditame e vontade, a fim de perdê-las. Perseguiremos esta geração de homens e os privaremos do prêmio que lhes está prometido. Procuremos, com toda nossa vigilância, que não cheguem a ver a face dc Deus, visão a nós, injustamente negada. Hei dc obter contra eles grandes triunfos e tudo destruirei e submeterei à minha vontade. Semearei novas seitas, erros e leis, cm tudo contrárias às do Altíssimo. Suscitarei entre esses homens, profetas e chefes que propaguem as doutrinas (At 20, 30) que eu semear e finalmente, para vingar- me do seu Criador, metê-los-ei comigo neste profundo tormento.
- Afligirei os pobres, oprimirei os aflitos, perseguirci os fatigados, semearei discórdias, causarei guerras, instigarei uns povos contra outros. Formarei soberbos c arrogantes, espalharei a lei do pecado, e quando por ela me hajam obedecido, sepultá-los-ei neste fogo eterno, sendo os lugares de maiores tormentos para aqueles que comigo mais se parecerem. Este será meu reino c a recompensa que darei aos meus servos.
Pretende vencer Cristo c Maria
124. Ao Verbo humanado farei guerra, ainda que seja Deus, pois também será homem de natureza inferior à minha. Elevarei meu trono e dignidade acima da sua, vencê-lo-ei e o derrubarei com meu poder e astúcia.
- A mulher que há de ser sua Mãe, perecerá em minhas mãos. Que representa para meu poder e grandeza uma só mulher? Vós, demônios, que
Primeiro Livro - Capíiulo 10
fostes ofendidos como eu. segui-me nesta vingança, assim como o fizestes na desobediência. Fingi que amais aos homens, para perdê-los; servi-os, para destruí-los e enganá-los. Ajudai-os com o fim de pervertê-los e traze-los a meus infernos. ---
Não há língua humana que pos- sa explicar a malícia e furor deste primeiro conciliábulo, que Lúcifer armou contra o gênero humano que ainda nem sequer existia. Ali se forjaram todos os vícios e pecados do mundo; daí saíram a mentira, as seitas, os erros e toda a iniqüidade originou-se daquele caos e abominável assembléia. Ao seu chefe servem todos quantos praticam a maldade.
Suplica permissão para tentar Cristo e sua Mãe
125. Terminado este conci- liábulo, quis Lúcifer falar com Deus, e por seus altíssimos juízos lho permitiu o Senhor. Isto aconteceu no dia corres- pondente à quinta-feira, no modo como quando Satanás pediu licença para U tar a Jó (Jó 1, 6).
Disse ao Altíssimo: - Senhor, que tua mão foi tão pesada para mi castigando-me com tão grande cruek de, e tudo quanto te aprouve reserva para os homens que pretendes criar; que desejas exaltar e engrandecer tai o Verbo humanado e por Ele beneficia mulher que será sua Mãe, com os dc que lhes preparas; faz justiça, e como i concedeste permissão para perseguir demais homens, deixa-me também ten e fazer guerra a este Cristo, Deus-homi e à
mulher que será sua Mãe. Dá-i licença para nisto empregar todas mini forças.
Outras coisas disse Lúcifer e humilhou para pedir licença, apesar humildade ser tão dura para sua sob ba. Tão grandes lhe eram a ira e âns de conseguir o que desejava, que a e abaixou sua mesma soberba. Uma mah de cedeu a outra, porquanto sabia q sem licença do Senhor Todo- podero nada poderia fazer. Para tentar a Cri nosso Senhor e em particular, à sua ÍV Santíssima, humilhar-se-ia infinitas ve; para conseguir livrar sua cabeça de por Ela esmagada.
Resposta de Deus
126. Respondeu o Senhor: - JN deves, Satanás, solicitar por justiça e permissão e licença, porque o Vei humanado é teu Deus e Senhor Oni| tente e supremo. Ainda que será tamb verdadeiro homem, tu és criatura su<
- Se os demais homens pecar e com isso se sujeitarem à tua vonta o pecado não será possível para n Unigênito humanado. Se escravizares homens à culpa. Cristo há de ser sai
Primeiro Livro - Capítulo 10
e justo, separado dos pecadores (Hb 17, 26) aos quais erguerá redimindo-os.
Quanto à mulher contra quem tanto te enfureces. ainda que há de ser pura criatura e filha de puro homem, já decidi preservá-la do pecado. Será sem- pre toda minha, e por nenhum título ou direito, em tempo algum, permito que tenhas parte nela.
Cristo e Maria não foram isentos da tentação
127. A isto replicou Satanás: -Que muito seja santa essa mulher, se nunca terá adversário que a persiga e incite ao pecado? Isto não é eqüidade, nem reta justiça, nem pode ser conveniente e louvá- vel. Acrescentou Lúcifer outras blasfêmias com arrogante soberba.
O Altíssimo, porém, que tudo dispõe com infinita sabedoria lhe res- pondeu: - Dou-te licença para tentar a Cristo que nisto também será exemplo e mestre para os outros. Dou-te ainda, para perseguires esta mulher, mas não lhe tocarás a vida corporal. Quero que Cristo e sua Mãe não sejam isentos da tentação, mas possam ser provados por ti como os demais.
Alegrou-se o dragão com esta permissão mais do que com a que tinha para perseguir todo o gênero humano. Para executá-la determinou pôr maior cuidado do que em qualquer outra coisa, não se fiando de outro demônio, mas fazendo-o por si mesmo. Por isto diz o Evangelista:
A defesa de Maria
que supunha ser Mãe do Deus humanado. Em seus lugares falarei sobre essas lutas e pelejas . Agora somente declaro que foram superiores ,i qualquer pensamento humano. Admirável foi também o modo de lhes resistir c gloriosamente vencer.
Diz que para a mullwr defender-se do dragão, foram-Hie dadas asas (Ap 12, 14) de uma grande águia a fim de voar para o deserto, ao lugar do seu retiro onde é sustentada por tempo e tempos. Antes dc começar este combate, a Virgem Santíssima foi preparada pelo Senhor com particulares dons e favores, representados nas duas asas: uma foi nova ciência infusa para penetrar grandes mistérios. A outra foi maior c mais profunda humildade, como em seu lugar explicarei . Com estas duas asas levantou vôo para o Senhor, seu lugar, porque somente nele vivia. Voou como águia real, sem jamais retroceder para o inimigo. Foi única neste vôo. Viveu abstraída das coisas terrestres e criadas, só com o Só, o fim último, a Divindade Nesta solidão foi alimentada por tempo e tempos. Alimentada com o
dulcíssimo maná e manjar da graça, das palavras divinas c dos favores do Pode- roso. Por tempo e tempos, porque recebeu este alimento durante toda sua vida e mais copiosamente naquele tem- po, em que teve de sustentar maiores batalhas com Lúcifer, recebendo auxílios mais intensos e apropriados.
Também se entende por tempo c tempos, a eterna felicidade onde foram premiadas e coroadas as suas vitórias.
128. O dragão perseguiu a mu- A perseguição diabólica cessou lher que deu à luz o filho varão. Com a
permissão que recebeu do Senhor, mo- 129. E por metade do tempo veu inaudita guerra e perseguição àquela fora da presença da serpente (Ap 12,
i- n*s 695 i 700; II parte 340 a 371; III pane n"s 451 a 6- II pane n°s 335 a 3.39 e III pane n°s 4448 a 450.
Í28.
Primeiro Livro - Capítulo 10
14). Este meio tempo foram os anos em que a Virgem Santíssima permaneceu isenta da perseguição do dragão. Depois de o ter vencido nas lutas que com ele travou, por divina disposição, permaneceu triunfadora e livre delas. Foi-lhe concedido este privilégio, para gozar da paz e quietude que a vitória sobre o inimigo lhe merecera, como adiante direi . Todavia, enquanto durou a perseguição, diz o Evangelista:
Maria não foi atingida pelo pecado
130. E a serpente lançou de sua boca atrás da mulher, como um rio de água para fazer com que ela fosse arrebatada pela corrente; porém a terra ajudou a mulher e a terra abriu a sua boca e engoliu o rio que o dragão tinha lançado de sua boca (v. 15-16). Contra esta divina Senhora empregou Lúcifer toda sua malícia e força, pois todos quantos foram por ele tentados lhe importavam menos que Maria Santíssima.
Semelhantes à força da corren- teza de um grande e impetuoso rio, assim saíram com a máxima violência, da boca deste dragão, as mentiras, as maldades e as tentações contra a Virgem. A terra, porém, a ajudou, porque a terra do seu corpo e paixões, não foi maldita. Não participou daquela sentença e castigo fulminado por Deus contra nós, em Adão c Eva: que toda terra seria maldita (Gn 3, 17-18)
Produziria espinhos em lugar dc frutos, ficando ferida em a natureza com o fomes peccati que sempre nos provoca e combate. Dela se vale o demônio para a perdição dos homens. Encontra dentro dc nós armas ofensivas contra nós mesmos. Valendo-se de nos- sas inclinações nos arrasta com aparente suavidade, deleite e falsas persuasões, para os objetos sensíveis e terrenos.
Maria, terra bendita
131.
Maria Santíssima, porém, terra santa e bendita do Senhor, sem ser atingida pelo "fomes" nem outro efeito do pecado, não pôde correr perigo por parte da terra. Ao contrário, foi por ela favorecida com inclinações ordena-díssimas e submissas à graça. Assim, a terra abriu a boca e tragou o rio das tentações que o dragão inutilmente lançava, pois não encontrava matéria propícia nem estímulos para o pecado, como acontece nos demais filhos de Adão. Nestes, as terrenas e desordenadas paixões antes ajudam a produzir, do que a sorver este rio, porque nossas paixões e corrompida natureza sempre contradizem a razão e a virtude.Vendo o dragão quão frustra- dos ficaram seus intentos contra aquela misteriosa mulher, continua o texto sa- grado:
Vingança de Lúcifer
132.
E o dragão se indignou contra a mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência que guarda os mandamentos de Deus e retém o testemunho de Jesus Cristo (v. 17). Completamente derrotado pela Rainha da criação, atormentado pela vergonha sua e de todo o inferno, o dragão bateu em retirada, decidido a fazer crua guerra às demais almas da geração e descendência de Maria Santíssima. São os fiéis assina-7 III pane n" 526. X - F o n t e s
Primeiro Livro - Capítulo 10 p e c c a t i . c o n j u n t o d a s m á s i n c l i n a ç õ e s q u e f i c a - r a m n o h o m e m e m c o n s e q ü ê n c i a J o p e c a d o o r i g i n a l I N . d a T . l
lados com o testemunho e Sangue de Cristo no Batismo, observantes dos seus mandamentos.
Quando Lúcifer verificou que nada podia conseguir contra a cabeça da santa Igreja, Cristo Senhor Nosso e contra sua Mãe Santíssima, com maior intensidade voltou toda a sua ira, e seus demônios, contra os membros dessa Igreja-
Com especial indignação com- bate as virgens de Cristo, e trabalha por destruir a virtude da castidade virginal, semente escolhida e herança da castíssima Virgem Mãe do Cordeiro. Para tudo isso diz que:
A vaidade mundana
133. Permaneceu o dragão so- bre a areia do mar (v. 18) que é a inconstante vaidade deste mundo, da qual o dragão se sustenta, comendo-a como feno (Jó 40, 10).
Tudo isto aconteceu no céu, e muitos pontos dos decretos divinos sobre os privilégios preparados para a Mãe do Verbo foram revelados aos an- jos. Quanto a mim, fui pobre para expor o que entendi; porque a abundância de mistérios me tornou ainda mais despro- vida de termos para a sua devida explicação.
Primeiro Livro - Capítulo 1 I